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Vigésima Segunda Rodada |
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Rodadas Passadas |
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| Transtorno Obsessivo Compulsivo |
| Por Don Ramon |
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Eu faço, eu fiz, eu preciso fazer. |
| Mar e Companhia |
| Por Eduardo Perrone |
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Perto do mar Cada um vivencia O que ele te sugere E como ele te sacia. Perto do mar Há, ainda, a sede Que não cessa... O olhar sem pressa, A contemplação E a prece. E, até parece Que ele me faz companhia, Quando chega o final do dia E me acompanha No trajeto de casa. O mar comigo casa... O mar comigo mora. O mar ilude as horas. Que conto desde sempre... Perto de mim O mar me diz o que sente, Me conta o que sinto Sempre que minto Poder dele me afastar. Sim... O mar me faz companhia. Leva seus perigos Para perto de minha Alma vadia, Que se mata, se mata, se mata... O mar mata A minha fome, A mesma que todo homem Sabe onde dói E sabe como é... O salgado que escorre pela face, Adocicado pela lembrança Do doce daquela mulher. |
| Paroleiros |
| Por José Ferreira Batista |
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. Parlamentares parlam mentiras... Nosso exemplar de decoro! Alguém faz idéia do que trama essa alcatéia no fundo do calabouço? |
| Estro |
| Por Rosa Cardoso |
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A folha em branco me olha |
Penosa Paixão
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Por Carlos Cruz |
Era uma vez Jorge Ferrão, um indivíduo da espécie dita humana, do tipo tremendamente malvisto por ser afeito àquilo que virou moda execrar à boca grande: macheza. Sim, um espécime macho da espécie que não mais admitia o uso público e notório de tal designativo, relegado às distantes e jecevaladanianas décadas de setenta e oitenta. O mundo, virado do avesso como estava, à vista de tão hedionda aberração, não tardou a virar-lhe a cara, as costas e, por vezes, a lançar torpedos escarratórios ao chão à sua passagem. Não que o mundo dotado fosse de cara, costas e sistema produtor de catarro, já que aqui me refiro a seus ilustres, preeminentes, ínclitos, conspícuos e - por que não dizer? - nobilíssimos habitantes, defensores ferrenhos dos valores basilares da moral, dos bons costumes e, em especial, do que se convencionou chamar de "o politicamente correto" ou "A Nova Ordem". O fato é que Jorge Ferrão, ou apenas Ferrão ou Ferrabrás, como era mais conhecido, era macho até a raiz dos cabelos, macho à moda antiga, como gostava de alardear quando degustava seus pés de galinha regados a cachaça no Bar do Tião, cabeça-de-bode cuja freguesia era composta basicamente pelos integrantes da classe "ralé", também denominados párias, indivíduos considerados "lixo irreciclável" pela classe dominante: a "magna" ou os neoaristocratas. Jorge não estava nem aí nem aqui nem acolá: coçava o saco, visivelmente e despudoradamente, a cada dois minutos. Via uma mulher atraente, mandava logo um "gostosa!". Brigava por qualquer motivo com qualquer um. Ria-se e pilheriava, troçando dos que repreendiam seu comportamento com palavras ou olhares reprovadores. Referia-se a eles como os "BBB" - bando de babacas boçais. Jorge "Ferrabrás" Ferrão era o último dos machões do século XXI. Mas o que poucos sabiam é que Ferrão, lá no fundo, nos recônditos penumbrosos e secretíssimos de sua alma-espírito, escondia algo que poria todo seu auto-cultivado, auto-cultuado e auto-estimado prestígio a perder: apreciava Bossa Nova. É isso aí: Jorge, o Ferrabrás, era fã de Vinícius, Jobim, João Gilberto e Cia. Mandara forrar as paredes de seu quarto com uma grossa camada de cortiça para não correr o risco de ser flagrado por algum vizinho mexeriqueiro enquanto imerso estivesse em seu musical e muito particular êxtase. Jorge era um paradoxo ambulante. Jorge, indubitavelmente, e a despeito das opiniões contrárias, era humano, bastante humano. Certo dia, Jorge caminhava a passos largos com destino ao retromalfalado botequim, quando deparou-se, numa curva da estrada, com aquela que seria a razão de sua perdição: a galinha. Sua visão turvou-se, sua face enrubesceu-se, seu corpo acalorou-se, seu coração palpitou-se: o que fora não mais era, era a mais nova vítima da frechada do Cupido. Lá estava ela, linda, deslumbrante, com seu ar altivo, sua crista carnuda encarnada, suas belas penas negras-brilhantes, seu pequeno bico amarelo. Jorge estava apaixonado. Apressuradamente, tratou de arrebatar e levar para sua casa a nova e penosa dona de seu coração. Deu-lhe o milho mais caro que achou no mercado, a melhor água mineral, trocou os travesseiros de penas por outros, sintéticos. Chamou-a Efigênia – gostava desse nome e, ao que parece, ela também gostou pois cacarejou e olhou para Jorge. Tratou-a como uma deusa, uma rainha, mas não fizeram sexo. Tinha receio de estuporá-la considerando as desiguais dimensões de seus órgãos genitais. Jorge, enfim, era um homem plenamente feliz, feliz e transformado: não mais coçava o saco, não mais cantava as mulheres na rua, não mais freqüentava o Bar do Tião. Vivia para Efigênia, para agradar Efigênia, para amar Efigênia. Entretanto (sempre tem que ter um entretanto, contudo, mas, todavia ou porém), alheia a todos os mimos e agrados do (pensava ele) amado, certo dia anuvioso-chuviscoso, Efigênia bateu asas e voou não se sabe para onde nem por quê. Perplexo, Ferrão a procurou em todos os cômodos, em todos os cantos e recantos internos e externos da casa. Nada de Efigênia. Ela partira, fugira, escafedera-se. “Aquela ingrata. Depois de tudo que fiz por ela, depois de tudo que vivemos juntos...” Ferrabrás pensou em traição, seqüestro, estupro, assassinato, abdução, migração e, por fim, conformou-se com a hipótese do nada simples, nada puro e todo doloroso abandono. Já a refletir viagens de vira-e-revira-mundo e idéias suicidas, eis que ouve um ruflar de asas advindo da janela da sala. Volveu os olhos na direção do ruído e foi tomado novamente pelo êxtase, desta feita, mais intenso: lá estava sua amada, adorada e idolatrada Efigênia, em carne, ossos, bico e penas. Correu a abraça-la, quase esquecendo-se da fragilidade do corpo da galinácea. “Meu amor, você voltou! Onde você estava, por onde andou, digo, voou?” – dava beijos e mais beijos. A galinha retrucou com regulares e breves cacarejares. Jorge não pensou, agiu: trancou todas as janelas e portas, depositou suavemente Efigênia na cama, acendeu o fogão e colocou o caldeirão com água para ferver. Quando a água borbulhou e começou a evaporar, com lágrimas nos olhos, pegou delicadamente Efigênia, olhou fixamente para seus olhos ariscos e disse: “Não quero mais esse negócio de você longe de mim.” Afundou-a no caldeirão e tampou, segurando com toda a força, as lágrimas a gotejar e vaporizar tamborilando sobre a tampa. A agitação no interior da grande panela foi breve. Foi o melhor jantar da vida de Jorge Ferrão, jantar à luz de velas. Doravante, ele e sua amada Efigênia jamais se separariam novamente, estavam juntos, fundidos, seriam um só, eternamente. As opiniões no fórum do Bar |
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Por Barbara Leite |
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Para viver um grande amor é preciso apenas coragem. Oxalá eu a tenha daqui a pouco, quanto terminar essa carta. Sempre fui sua, Zambi! Mas só pude perceber isso quando olhei O Relógio e o tempo passou a ter outro valor, diferente do que eu conhecia. O tempo era particularmente nosso. Tão nosso que nos casamos naquele domingo chuvoso de janeiro tendo como testemunha a incompreensão alheia. Um casamento simples em que vesti azul representando o céu que você me proporcionava. Você estava lindo em branco do seu orixá! Só nossos sorrisos decoravam a sala aconchegante. Estava plena! Não me importava seu passado com tantas outras e nem o negativismo de todos ao redor. Eles não devem entender nada de paixão. Você podia ter me esperado! Mas quis partir no frio de julho, enquanto eu só chegaria na esperança da primavera. A ausência do encontro dos nossos olhares cúmplices nunca foi impedimento pro nosso amor. Hoje quero lhe falar das pequenas coisas que me faltam, justificando essa angústia preste a acabar. Não me cabem mais apenas as canções e sonetos! Faltam-me as pequenas coisas de nossa intimidade. Eu ainda não sei preparar o uísque da forma que lhe agrada, nunca me fiz bela pra você. Não compartilhamos momentos numa tarde em Itapoã, porque se o tivéssemos feito eu teria lhe dito: - Cante "Fazer amor em Itapoã", é muito mais você! Cantaríamos e teríamos um riso bobo em nossas faces denunciando nossas intenções naquele momento. Não fui elogiada por seus tantos amigos, ao preparar minhas poucas especialidades culinárias nos encontros que você tanto gostava de fazer. Somos! Mas não fomos tantas coisas... Zambi, são muitas as ausências que me afligem... Não quero mais esse negócio de você longe de mim e por isso escolhi uma forma doce para morrer. Acomodei em vasos uma quantidade farta de lírios da noite. Foi esse o bálsamo que escolhi para impregnar a sala em que daqui a pouco serei encontrada com essa carta aninhada em meu colo. Calculei o tempo que gastaria escrevendo estas linhas, para coincidir exatamente com o ápice do perfume das flores. Eu acabaria com a poesia se não pensasse nos detalhes! Até pra morte há de se ter poesia! Tentei ser enterrada perto de você no São João Batista...Mas a burocracia estava tirando o humor e serenidade que gostaria de ter nos meus últimos momentos em vida. Decidi ser cremada. (A quem encontrar esta carta: o telefone do crematório está logo abaixo. Está tudo pago e com a orientação de ter minhas cinzas espalhadas pelos céus do Rio de Janeiro. Eu amo e sou grata a vocês, mas nossas trocas já me fizeram feliz o suficiente, agora me lanço na busca do que me falta.) E que este seja o primeiro registro oficial de alguém que realmente tenha morrido de saudade. Até breve, muito breve! Com amor, Sua décima esposa |
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| Isso é que dá pr´eu legar |
| Por Renato Rosa Reis |
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Isso é o que dá pr'eu legar |
| Com o passar do tempo |
| por Cristiano Deveras |
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No meio do saguão do aeroporto, o trique traque trique do salto alto de
Alice denunciava o nervosismo pela demorada espera andando de um lado
ao outro. Ele haveria de passar por ali, tinha certeza que embarcaria
para algum lugar paradisíaco, distante, intocável, onde as palmeiras
dançam ao som vento e o céu anil beija o mar no horizonte, provável
fundo de algum cartaz de agência de viagem. “Como fui estúpida!” –
pensava emburrada consigo. Ela o procurara durante anos e quando
finalmente o encontrou, deixou que escorresse pelos seus dedos longos,
saindo de cena com aquele ar de cavalheiro de outros séculos e o charme
blasé de filme de quinta. Alfredo sentia-se muito bem naquele momento. O adocicado cheiro da
liberdade invadia suas narinas; como é bom estar livre e saber-se acima
das pequenas vicissitudes da vida podendo escolher o que e quando fazer
algo, pelo puro prazer de poder. Parado ao lado do LearJet,
imaginava-se como um Bogart moderno: o copo de whisky, um piano de
cauda, sua música favorita sendo dedilhada com singela maestria.
Faltava somente uma Ilsa para fazer o pedido em sussurro: |
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| Quando eu morri |
|
Por Roberto Klotz |
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Levei três tiros. O primeiro, antes mesmo do amanhecer, na nuca – base do pescoço. E, por trás! Uma rosa de sangue sujou meu colarinho. Procurei olhar no espelho, mas não enxerguei nada. Eu me sentia bem, peguei o endereço e o carro e fui para a casa. Desconhecidos me vestiram um pijama e pediram que eu fosse para a varanda. Mandaram que eu me deitasse no chão. Levei os outros dois tiros. Foram nas costas. Entre as costelas, na altura dos pulmões. O sangue do pescoço já estava escuro e um enorme hematoma roxo assinalava a violência sofrida. Agora o sangue saía também por dois buracos do meu pijama. O líquido que imaginei ser quente escorria gelado pelas costas manchando o piso empoeirado. A varanda era enorme: uns trezentos metros quadrados. Churrasqueira, bar. Os banheiros masculino e feminino serviam também de apoio para a piscina e para a sauna. A varanda era o cenário perfeito para grandes festas. Políticos, jogadores de futebol, modelos e colunistas sociais disputavam espaços e champanhes. Acredito que a mesa espelhada era o suporte para fileiras do pó da alegria. Ao lado da varanda havia um enorme jardim com a assinatura de um paisagista renomado. Observei que apesar do sol já estar no alto as luzes do gramado permaneciam acesas. É muito desconfortável morrer num chão duro e sob um sol escaldante. A ambulância estacionou no meio do jardim. O carro da perícia também parou no gramado da casa deixando rastro de pneu na grama japonesa. As luzes estroboscópicas em cima da viatura anunciavam o fim da festa. Em vez de DJ o rádio berrava palavrões do delegado. Os policiais e os paramédicos não deram a mínima importância. Ninguém veio verificar meu pulso. Minha mulher também levou três tiros e agora, ao invés da cama, dividia o mesmo chão duro, quente e empoeirado. Estava a um metro e meio de mim. O rosto inchado pela bala estampada na têmpora direita a deixava pavorosamente irreconhecível. Os olhos azuis contrastavam com o violeta da pele. Os cabelos loiros e cheirosos estavam empapados de sangue endurecido. Mesmo estirada, ela continuava sensual naquela camisola de seda branca maculada de púrpura brutal. Parecia lançar moda de horror. O fruto do nosso amor estava junto de nós, fazendo sua própria poça de sangue. Três tiros no peito e um na testa. Nossa família, sempre unida, estava agora, sujando o piso da mesma varanda. Ficar naquela posição defunta era muito desconfortável. Perguntei para minha esposa se ela estava pronta para ser colocada no saco preto e ser lacrada com um zíper. Como sempre, não respondeu. Minha posição, deitado de lado, não permitia um bom ângulo de visão. Além disso, não sabia onde foram parar meus óculos. O máximo que via era os sapatos daqueles que nos rodeavam. Muitos sapatos diferentes. O sol de meio-dia esturricava nossa pele. O suor se misturou ao sangue. Estávamos sem protetor solar. Um moço de tênis cotelê verde providenciou três guarda-sóis. O alívio foi imediato. Desejei que aquele moço fosse um eunuco e então providenciasse ventinho com um enorme abano de plumas. Meus sentidos estavam prejudicados. Mesmo assim pude ouvir um sabiá assobiando docemente numa amoreira no fundo do jardim. Eu aprendi: a morte é lírica e acompanhada de canto de passarinhos. Apareceu uma sandália havaiana. A dona se abaixou e perguntou se eu queria uma água de coco. Respondi, irônico, que naquela posição só poderia tomar água de coco se me arrumasse um canudinho. A sandália não voltou mais. Dizem que o sangue é doce. E eu acreditei. As formigas começaram a fazer fila indiana nas minhas costas. Um par de sapatos pretos com solado grosso se aproximou e começou a me fotografar. Os flashes pipocavam e minhas pupilas acusavam o incômodo. – Puxa, quando será que vão me deixar em paz? Resmunguei baixinho. Atrás de mim ouvi um diálogo: – São só esses três? – Não. Tem mais um ali, na ambulância. Eu reconheci aquelas vozes: Selton Mello e Carlos Alberto Riccelli. Então a morte é lírica com canto de passarinhos e vozes de atores globais. Concluo que morrer pode ser interessante. O par de sapatos pretos com solado grosso retornou e voltou a pipocar flashes. As vozes de Selton e Riccelli repetiram o mesmo diálogo mais umas três vezes. Morrer pode ser interessante. Mas não muito. Agora apareceu um sapato marrom. O dono do sapato se abaixou e com uma fita crepe marcou no chão a minha posição. Quando os contornos estavam assinalados ordenou: – Preste bem atenção para retomar sua posição depois. Agora os atores vão descansar e depois retomaremos a filmagem no mesmo ponto. E cuidado para não melar a casa com a gelatina vermelha. ... |
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| Ensaio sobre a fodeza |
| Por Paulo Fardadão |
| Acordei e percebi que ainda estava dormindo, mas essa não foi a maior
de minhas surpresas. O fato é que eu me encoxava enquanto dormia.
Preocupado, resolvi ir ao médico, tentar tratar do problema antes que
alguém achasse que era viadagem. Examinando os papéis com o resultado de uma bateria de exames, ele olhou para mim com uma cara entre surpresa e divertida e disse: - Ao que tudo indica, seu problema é de excesso de fodeza. - Como? – perguntei, sinceramente confuso. - Todo ser humano tem uma capacidade X de fazer coisas fodas, e ao limite específico de cada um nós denominamos fodeza. É uma área muito nova da ciência médica, a fodologia. Eu me orgulho em ser um dos pioneiros do estudo da fodeza no Brasil e um dos mais renomados fodólogos do mundo. O seu caso é clássico, você tem um limite muito alto de fodeza, uma grande capacidade de fazer coisas fodas. - Hummmm! Mas isso não seria uma coisa boa? Essa minha capacidade de ser mais foda que o resto do povo? - Olha, uma coisa foda não significa necessariamente uma coisa boa. Essa sua habilidade de se encoxar, por exemplo, é uma coisa muito foda, que pouca gente conseguiria fazer. Mas até que ponto ela lhe traz benefícios? De fato, você não é nem mesmo o mais fodão dos meus pacientes, eu já tratei de pessoas com um nível de fodeza quase três vezes mais alto que o seu. Para elas, essa sua auto-encoxação seria apenas o início, se é que você me entende... - Então eu posso ir embora sossegado. Ninguém precisa saber que eu me encoxo durante o sono. - Na verdade não é tão simples assim. Eu deixei para lhe explicar por último, mas a sua principal "característica" não é sua fodeza, e sim sua resistência sobre-humana à fiascagem. Eu nunca tomei conhecimento de nada parecido, mas basta você entender que uma pessoa comum morreria fulminada como que por um raio se a taxa de fiascos em seu sangue chegasse a um décimo da que os exames indicam como a média para você. Na verdade eu acredito que você se encontra em um estágio em que mais do que suportar, seu organismo necessita de uma elevada taxa de fiasco na veia. Você é um viciado em fiasco, um fiascólatra. Eu recomendo que você procure o mais rápido possível o fiascólogo cujo endereço estou lhe repassando, bem como o F.A., os Fiascólatras Anônimos. Despedi-me polidamente e dali mesmo me botei a procurar pelo consultório do fiascólogo recomendado, num edifício caro bem no centro da cidade. No meio do caminho, em uma praça muito movimentada, não resisti e parei para me encoxar em público. Logo uma pequena multidão de curiosos se formou ao meu redor, alguns assobiando, outros me atirando moedas. Foi nessa hora que ouvi alguém falar em viadagem. Na mesma hora, sem interromper minha ação, olhos inflamados e face congestionada, passei a gritar para a multidão só fazia avolumar: - Viadagem nada! FO-DE-ZA!!!!
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InterNerd, Brasil, 30 de julho de 2008
Editado por Cristiano Deveras
Produzido por Giovani Iemini