Vigésima Rodada

 
     



 
The Night Cafe de Vincent Van Gogh


     
 

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Poema para Sara

Por Larissa Marques


Sara,
cure minhas infernidades
faça-me seu devoto
santo e demônio
preso entre seus quadris!

Sara,
cure minhas efemeridades
pagãs e agudas
que hão de penetrar seu corpo
e abarcar meu gozo!

Sara,
cure minhas feridas
minhas taras medidas
meu ser despedaçado
e acalenta meu falo!

Sara-me,
eis que conjugada
em verbo me cura
Sarei.

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Peito na cama


Por  Alex Plunk

Me punheto quando não estou contigo,
em ti
Em que me meti?
Teu corpo ao meu lado, nu e descoberto
Acordo no meio da noite e me punheto,
com teu quadril
Puta que'o-pariu, completo, compacto, inteiro
Me enterro, dou um berro
E o teu silencio de porcelana, minha princesinha
Que belo
Teu sorriso, Teu sorriso
Seu olhar, pra mim, Meu olhar!
Você deitada no meu peito, dormindo como um anjo
Meu pau no teu rego, meio-mole
Descanso.
Sou perdidamente apaixonado por você
Peito na cama é muito bom, pois sem ele, me punheto, me punheto
Peito é bom, o meu ou o seu
O Teu envolto ao meu
Pirú

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Metades dum poeta

Por Wilson R

.

É o poeta metade paz, metade guerra;
metade dor, metade festa;
metade boa e outra que não presta.

É o poeta metade sonho, metade chão;
metade doença, metade cura;
metade suja e outra metade que é pura.

E, se almeja o coração a vida e a liberdade,
os pulsos imploram a navalha
e os pés almejam o grilhão.

E, se a alegria lhe é mãe,
a melancolia é sua amante
e o pranto, seu irmão.

Metade lágrima feliz, metade riso triste.
Lutador cabisbaixo de punhos em riste,

Ah!, o poeta...
Um monte de metades
dum todo
onde sempre falta
uma parte.

..


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Protesto


Por Luis Fernando


Devo ter letras de chumbo
Cada vez que eu cá posto
Ao invéz de ver “eu gosto”
A bosta em branco vai ao fundo

E dá-lhe antologias, listinhas e outras orgias...




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.



Por C

.

sobrevivem ali
distantes
efêmeros instantes
sobre o manto escuro

e ali permanecem
pálidas, impávidas
enquanto traço linhas firmes
em papel vermelho

são sonho velho
de um menino triste
que ainda que no escuro
percebeu que o sol
apesar da noite
resiste


.

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Das praticidades da vida

Por Ivo Venarusso


Moça de família, feliz

Vende a preços módicos

O que o noivo não quis.


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Crtl + C
Por Edson Feuser

Salvei na memória
Suas sinuosas
Ondulações glúteas

É só fechar os olhos
Para em
Perfeita simetria

Desfilarem
Pela bela rua
Que te sonhei


















A conta por favor
Por Robertón Hefler

Eu quero chorar de tanto rir
Quero ver a Medusa parir
Quero a Ivone em má companhia
E a Jessy ficando pra titia

Eu quero mijar bem fininho
No dia qu´eu flagrar o Paulinho
Bolinando um verso da Maju
E o Véio postar com fake Du

Ah eu vou morrer engasgado
Quando a Mali fritar um pastel
Ou o Éfe botar no papel
A saga de um Perrone aviadado

Vou desrespeitar todas as regras
Boicotar o Muryel, o Gib@ e a Liz
Vou cheirar ou dar uns pegas
Pra entender o H e o André Luiz

Vou pedir perdão na missa
S´elogiar poemas da Larissa
Vou xingar em alto tom
O pai e a mãe do Fernadón

Vou vender baratinha minha alma
Quando ler as rimas do Djalma
Vou encher a cara de viagra e chá
Pra não fazer feio quando ler a Flá

Vou fazer estripetise no altar
Quando o Ossip tentar postar
Wilson R diga lá sobre o mistifório
Será que deixei alguém no purgatório

E se me expulsar o Seu Giovani
Que se lasque, que se dane
Digam apenas que eu fui
Levando um poema do véio Ruy













 



  



Embrulho
 

Por Rodrigo Domit

Ao pararem em um semáforo, ao lado de uma carroça puxada por um burro, o garoto ficou observando o animal, questionou-se por alguns momentos e decidiu perguntar:

- Vovô, qual o nome desse negócio que tapa a visão dos burros?

Sem nem ter visto o burro, o avô respondeu, com precisão:

- Preconceito, meu querido. Preconceito.



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A bruxa da rua quatro



Por Paulinho di Andrade


Maria, lembro-me ainda de você. Quando eu era criança e vivia brincando nas ruas, você vivia escondida em seu castelo mal-assombrado. Ele era feito de caixotes de madeira que você recolhia nas feiras. A criançada malvada inocentemente aprontavam mil "brincadeiras" com você.
Elas a chamavam de bruxa, sim você era a "bruxa da rua quatro", onde não se podia passar ninguém ali depois da meia-noite.
Maria você realmemnte parecia uma bruxa. Era velha, mas não possuia verrugas. Era corcunda, mas não demonstrava nenhum sinal de fraquesa. Quantas vezes eu a vi carregando enormes sacolas cheias de frutas recolhidas nos lixos de feirantes.
Maria, seu nome era de santa, mas suas feições de bruxa não permitiam que as pessoas lhe chamassem pelo nome. A molecada não a deixava em paz. "Olha a bruxa da rua quatro", elas riam e gritavam, "Vamos fugir antes que ela pegue a gente ". E eles corriam zombando de ti.
Maria, eu tinha pena de você. A molecada dizia que você pegava crianças para fazer sabão e isso me dava pavor. Mas um dia todo o meu medo sumiu. Você estava chegando da feira, carregava uma enorme sacola nas costas curvadas. Senti pena de você. Seu vestido antigo de chita rasgado e remendado. Com pedaços de pano colorido estava quase totalmente sujo. Pensei naquele momento: "Se ela pega criancinhas para fazer sabão, então por que não lavava seu próprio vestido com o sabão que fazia?"
Chegando perto de mim, você parou e me olhou nos olhos, seu sorriso triste parecia demonstrar um pouco de felicidade. Você desceu a sacola até o chão e, ao abri-la, pude ver muitas frutas estragadas. Mas quando você introduziu sua mão no interior da sacola e retirou uma maçã, fiquei maravilhado. Naquele momento acreditei que você fosse realmente uma bruxa. Pois a maçã em sua mão parecia ter se transformado em uma linda fruta. Impecavelmente sadia. Você me ofereceu a maçã e eu meio relutante a aceitei. "Mas e se tiver envenenada?" pensei com meus botões, "E daí, eu não sou Branca de Neve". Peguei a fruta e sai correndo em direção a minha casa. No meio do caminho eu parei e olhei para trás, você estava lá, parada e me olhando. Eu acenei com a mão desocupada e lhe dei um "tchau". Você fez o mesmo. Recomecei a correr e ao chegar em meu portão, olhei novamente em sua direção, "surpresa", você não estava lá, tremi de medo e entrei.
Dentro do barraco feito de madeira e tijolinhos de barro, haviam cinco crianças. Três meninas e dois meninos, eram meus irmãozinhos.
Com seus olhinhos fundos e suas roupas maltrapilhas. Imagine você Maria a alegria que todos eles tiveram ao ver a maçã em minhas mãos?!...
Parti a maçã com a faca em seis pedaços, dei a cada um deles um "téco". A minha parte dividi em dois e guardei um pedaço para minha mãe. À noite fui correndo pegar o pedaço de maçã que havia guardado para que ela comesse quando chegasse do trabalho. Mas ao abrir a portinhola do armário, não o encontrei. Olhei interrogativamente para meus irmãos e ao fixar os olhos no caçula, percebi que fora ele o "comilão". Não o culpei e sim me compadeci ao vê-lo me olhando com seus olhinhos tristes.
Ah, Maria, de alguma forma você sabia que esses"negrinhos" passavam fome.
Maria, Maria,... por onde você anda agora? Apareça. Hoje me tornei um "mago". Eu a protegerei dos "duendes" que outrora a atormentavam...



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Kichutes


 O dilema era: amarrar o kichute passando o cadarço por baixo do pé ou em torno da canela. Se por baixo do pé, o cadarço gastava rápido. Se em torno da canela, quando de um chute, o danado – comprado sempre um ou dois números acima “pra durar” – fazia um movimento de pêndulo e dava com o bico logo abaixo do joelho.

-É o seguinte: ou nós vamos com o pessoal do Diogão, ou nos coligamos com a situação.

Daí pra ter que ir numa reunião foi um pulo. O movimento estudantil é a chocadeira na qual se criam os políticos corruptos do futuro. É nele que se revela a vocação pra conchavos e sacanagens. Tanto fazia, eu só estava ali pela Claudinha. Quanto à política, eu estava com a sensação de que tinha amarrado o kichute na canela – e logo tomaria a bica.

-Tu consegue setenta por cento dos votos lá no Letras?

Claudinha era muito preta e tinha os dentes muito brancos. Eu só pensava naqueles dentes. Sentei do lado dela, na rodinha do baseado.

-Juliano, o Letras, tu consegue?
-Hã?

Eu ficava lembrando da citação ao Zequinha de Abreu, naquela música do Francisco Petrônio: “ai que saudade eu tenho dos bailes de outrora, das valsas bem rodadas, de Branca e de Aurora.” Esse era o grande amor do Zequinha, Branca. Eu acho que caras que têm grande amor são uns babacas. Mas a “Valsa Branca” é bonita. E a negrinha tinha uns dentes que ai.

-Porra, bróder, o Letras!
-Tranqüilo, eu mando naquela porra lá.

No tempo dos kichutes, só se beijava as negrinhas escondido, atrás do pátio da escola. Mas isso foi antes do multiculturalismo. Eu ia traçar a Claudinha e ainda ser bem visto entre os “companheiros”. Bando de comunista sem vergonha. Quanto a beijar negrinhas, eu tinha aceitado bem a mudança. Aliás, nada fora dos conformes: a vergonha de uma época não raro é o orgulho de outra.

-Mas, afinal de contas, tu é comunista ou não, companheiro?
-Tanto quanto o Jorge Amado.

Claro que nenhum deles sabia que o baiano abandonou o comunismo quando descobriu as cagadas do Stalin. Taí uma coisa que nenhum deles tinha feito: descobrir as sacanagens do russo. Bando de comunista sem-vergonha e burro. Eu continuei dando uns tapas e forçando a Claudinha.

-Próxima questão da pauta: Quem é que vai pro debate?
-Manda um dos surdos do Libras – sugeri. – Pega bem.
-Porra, companheiro, vamos manter o nível do discurso.
-Pensa bem, a gente ainda atrapalha pra caralho os oponentes. Vai precisar de um tradutor pra todas as questões.

Ficaram todos horrorizados, os trouxas. Mas a Claudinha riu, ah, que dentes brancos. E eu ficando sem saco com aquela reunião, duas horas debatendo bobagem. Ainda tinham me proibido de brincar na mesa de sinuca.

-Seriedade, companheiro, por favor.

Claro que sim, tudo muito sério – mas com o devido baseado passando de mão em mão. Pus o braço ao redor dos ombros da Claudinha. Embusteiro, sim, mas só nos dias ímpares.

-Eu sugiro o nome do companheiro Juliano, pro debate. Ele fala bem e tem o raciocínio rápido.
-E também sou o mais bonito. Lembrem-se do efeito Collor.

A Claudinha pegou o baseado da minha boca e deu mais um sorriso largo. Aquilo estava me matando. Depois jogou as pernas por cima da minhas.

-Quer fazer uma peruana?

Prefiro uma espanhola, pensei. Ah, que sujeito vulgar eu sou. E os comunistas querendo me mandar pro debate, eu: a bomba-relógio da retórica. Mas o dilema continuava sendo o dos kichutes, no fundo e apesar do tempo.

-Claudinha, tu gosta de samba?
-Claro!
-Companheiro, vamos respeitar a reunião.
-Não sou teu companheiro. E vai tomar no cu.
-Porra, Juliano.
-E aí Claudinha, vamos chegar no Bob Lanches?
-Só se for agora!
-Tu ta desrespeitando a democracia!
-Que se foda, eu sou imperialista mesmo.
-Tem mais um baseado pra gente ir fumando?
-Sempre.
-E o debate de sexta, companheiro?
-Pode pôr meu nome nessa porra aí.

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Kubrick, bosta e vômito


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Estou com sono e estou amando. Vai um remedinho? Alice é o nome da cadela. Sobrenome Groves. Alice Groves. Parece nome de transformista bissexual de anuncio de jornal. Por isso é só Alice. Conheci-a numa festa de roqueiros, hippies pós-modernos e cangaceiros ultra-vanguardistas. Um destemperado acaso bem no meio da madrugada. Cicuta vai, cicuta bem, maconha cá, maconha lá, e o meu parceiro Dedinho Joplin me chama para um canto melecado de bosta e vomito e me apresenta Alice. Dois beijinhos, Oi, como vai, Vou bem, E você, Ótima, ahhh! Então ta tudo em cima, Ô se não!

Sentamos em um sofá de espuma também melecado de bosta e vomito, tudo naquela maldita festa parecia melecado de bosta e vomito. Por um momento tive a impressão que Alice também fedia à bosta e vomito. Não entranhei, a maioria das garotas que conheço também fede a bosta e vomito.

Duas horas depois do segundo baseado, Alice põe suas mãos aveludadas sobre minhas pernas magras e diz, Olha, andré, isso tava escrito, Não, Alice, não tava, Tava, andrézinho, posso te chamar de andrézinho, É claro, todo mundo pergunta se pode me chamar de andrézinho, E você, deixa que te chamem assim, Nem sempre, uma vez um viado perguntou se podia me chamar de andrézinho... você sabe, né? viado é viado, tudo safado, Eu sei, andrézinho.

Alice é vidrada em tarô, carteado, reencarnação, pomba gira e batizado. Alice tem dezenas de sonhos. Sabe, andré, tenho dezenas de sonho, foi a terceira frase que Alice me disse. A primeira e a segunda eu não lembro. Nunca se leva uma mulher suficientemente a sério para considerar suas duas primeiras frases.

Alice não toma Álcool. É uma pena. Fuma maconha, já experimentou êxtase, mas, cachaça, nana-nina-não. Titio morreu de cirrose e eu procuro evitar, sabe como é, né, andrézinho, Meu avô morreu em um cabaré e nem por isso eu deixo de freqüentá-los, Você não entende, não tem coração, seu coração estão nos bagos.

Alice não sabe nada sobre mim, nunca soube. Mas é bem possível que eu queira uma mulher assim, como Alice. Alice é meu tormento e meu principal tema. Noventa e nove % dessa bobalhada que escrevo têm origem em Alice e em seus olhos de ameixas murchas dentro de uma lata de conserva. Mesmo quando escrevo sobre Panquecas ou sobre Uísque dezoito anos, é em Alice que estou pensando. Tudo me remete a Alice. Qualquer gozo meu é dentro do buraco estreito de Alice, não importa qual buraco seja. Toda ofensa que disparo é contra Alice, não importa contra quem. Preciso urgentemente de Alice. Preciso surrá-la. Preciso Mantê-la em cativeiro, pão, água, duas punhetas diárias e três beijos molhados, Antes, Durante e Depois do pôr-do-sol. O ápice do amor dá-se durante o espancamento. Nunca surrei Alice. Talvez seja isso o que falta em nossa santa-sagrada-ecumenica afinidade entre dois putos apaixonados. Alice é o bueiro onde sempre sonhei malocar meu rato peludo e malcheiroso. Tragam-me Alice, viva ou morta, não interessa, tenho um freezer enorme nos fundos de casa. Alice é do tipo de mulher que empina mais o nariz do que a bunda, o tipo de puta que suporta mais que três semanas sem duas trepas distintas.

Certa vez ela me convidou para assistir laranja mecânica em sua casa. Papai e mamãe tinham ido fazer comprinhas e Alice tava afim de kubrick e uma bronha.

- Esses caras são demais.
- É verdade, são uns putos de uns filhos da puta!
- Não, não é. Glauber Rocha, Gordard? Tem coisa melhor.
- Ah! Larga de bancar o intelectual, andrézinho. Glauber e Gordard seriam incapazes de produzirem um tapão na cara... imagina essa zorra toda.
- Deixa de titití, doidinha. Antes Antonio das Mortes a esses retardados de uma ova.
- Preciso de maconha em pílulas. Meus pulmões estão cheios de catarro.
- Quem mandou levar chuva ás duas e meia da madruga?
- Levei chuva porque você é um fudido e não têm carro.
- Cala essa boca. Se eu tivesse carro eu pegava coisa melhor que você.


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InterNerd, Brasil, 22 de junho de 2008
Editado por Giovani Iemini