Décima Nona Rodada

 
     



 
A dona do bar de Alberto Sugui


     
 

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Poema da vagina

Por Águia Mendes


1

a vagina
é um bolso
um calabouço
um poço no jardim.

é a caixa de pandora
a lâmpada
de aladim
que homens adoram
e mulheres que não
e que sim.

2

a vagina é uma chama
uma chaminé
o chapéu do pênis
o tênis do seu pé.

é a boca de um jacaré
sem dentes
um galpão
uma gruta
um grotão
um cano
de passar gente.

3

a vagina
é uma mala
uma maleta
um vale
uma valise
uma valeta.

é um cone
um canal
um monte
uma fonte
um horizonte
vertical.

4

a vagina
é uma boca
com gula
um forno
uma fornalha
uma fagulha.

é um viaduto
um aqueduto
um bornal
a caixinha de rapé
para o nariz do pau.

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Poças de mar


Por  André Espínola

Nos teus olhos verdes,
Há duas pequenas poças de mar
Fora do oceano.

As águas são calmas,
E Netuno não é soberano.

Não preciso de vento
Nem de vela.

- Éolo que mande seus ventos
para outros cantos! -

Basta-me teu olhar, ,
Para neles seguir navegando.

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Invento eu

Por Júnior Moreno

Meu eu se faz presente nas horas escuras
Nas noites quentes em que a lua emudece
Nas flores de plástico que não sabem murchar
Nos arames farpados de uma cerca velha
Nas paredes úmidas de banheiro branco

Eu sinto as cores, as luzes, as vidas, os laços...

Mas nada me sente...

Ando pelos lados, pois é largo o caminho do meio
Gosto do estreito, do aperto, do sufoco, do errado,
do que exala dor...
Enfrento quase tudo
Mas tenho medo do tudo nas mãos
Prefiro a falta, a eterna busca...

Eu vejo os muros
E o que há por trás deles
Mas isso já não me interessa
Conheço mais que muros
Existem labirintos dentro de mim...


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Ecos


Por Leonardo Spoke

a garganta
apela

aperta a voz
rouca
que sai
expremida
feito o sumo
de limão...

é a vez
de sangrar
com verdades
engolidas
a seco...

rasga o
eco
que coa
coroas
de
espinhos





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Te Navego como a um Rio



Por Heloisa Galves

Te navego como a um rio
Minha língua; uma jangada
Não há porto nem parada
Deslizo por teu rosto, misturando nossas águas
Tua boca uma cascata
Onde me atiro sem leme
E esse encontro faz tremer
Milhas e milhas abaixo.
Me encaixo
As horas de tempestade
Te fazem aos poucos riacho
Nele, línguas serpentes se acham.
Sem pressa me afogo
No afago dessa torrente
Quente
Teu pescoço uma ponte
Que percorro calmamente
Minha boca se dissolve
Em cada pegada molhada
Te beijo, te mordo, te aperto
Tentando engolir a explosão
Agora não!
Pelas ondas dos teus ombros, me assombro.
Incontroláveis gemidos caem como granizo
Gelando meu corpo inteiro
Mais!
No levante deste rio encontro enfim os teus seios
Tornados perfeitos
Me sugam, me destroem
Tonta, me entrego a eles
Os sugo, os destruo!
Língua, dentes, sussurros...
Sou deles
O tempo agora é ninguém
Mas tua Correnteza me leva
Além...
Na calmaria do teu ventre
Não sou mais eu
Estou ausente
Viro um ser de outro plano
Me embriago
Entre tuas pernas naufrago
Morta, me sinto mais viva...
Mordo, me sirvo, me salvo.
Te sinto, te sirvo, te caço
Te amo, te laço, te mato
Choro quando sinto teu gozo
Gozo quando ouço teu choro
Renasço...
E faço o caminho de volta
Sonhando com meu rio sinuoso
E seus inúmeros braços...



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Sendo

Por Lena Casanovas

Sou o que agora chamam solidão
cadela no cio
corpo de vulcão

Sou o que chamam melancolia
mente arredia
parada na contramão

Mas na verdade eu sou a certeza de quem não acerta
o cuidado de quem se joga de qualquer altura
a esperança de quem tá cansado de apostar no invisível...

Sou o não e o sim
dentro de mim
E não posso perdê-los num grito de gozo
Porque também sou o limite do amor infinito...


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O presente no fim do dia
Por Jessiely Soares



Desembrulho
Do papel de seda
O primeiro raio de luz

Com tal zelo
Desafino uma canção

Rasgo
Sem pressa
Teus laços e tuas
frestas
Das quais
emanam
ruas

Onde verbos
apressados
Entrelaçam-se
- formando nós
Numa desvairada
Conotação -

E caminha,
Com tal passo
controverso
À demora que se segue
Ao relógio

Chegará ao último
Olhar de luz
Quando o claro
Se pintar
De anoitecer

Embrulharemos o dia
Em papel de seda
Entre frestas e fitas
Canções, madrugada
Eu e você.



 



  



Embrulho
 

Por Anderson H

- mas que besteira!
- besteira nada!
- claro que é! imagina! nos dias de hoje um sujeito inteligente como você ficar pregando aí o comunismo.
- e você, que fica aí com esse seu capitalismo de merda pregando um cristo em cada poste?!
- bicho, bota na tua cabeça oca que o comunismo não deu certo.
- e o capitalismo deu?!
- claro que deu! o capitalismo existe! tanto que a Rússia é capitalista.
- então faça um favorzinho pra mim.
atravesse a rua e diga àquela criança que está comendo lixo que o sistema não faliu. ah! e aproveita pra dizer que você concorda com a situação dela, porque o teu tão amado capitalismo admite, com muita serenidade, a fome.
- aqui só passa fome quem quer!
- olha, dou a mão a palmatória. você tem razão.
- tenho?
- claro! acabei de ver nos olhos daquela criança que ela quer porque quer passar fome. na verdade só agora percebo que ela adora as dores que dançam em seu estômago...
- que bom que você caiu em si.
- realmente...que bom...



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Onde é que eu estava mesmo?



Por Eduardo Klebis


O que me aprazia de início – O que foi? Eu estou ocupado, caramba! – nas palavras das gentes eram o som e o sentido. Nunca tive ouvidos aos significados e a estes – Está lá na mesa da sala. Eu mesmo coloquei lá. Procura direito, amor... – sempre me mostrei pouco curioso. Os sons, entretanto, fascinavam-me, e após, o sentido. Tomei gosto – Agora eu não posso; estou escrevendo... (Puta merda! É só eu sentar no computador que você inventa alguma bosta pra eu fazer). Dá um tempo, mulher! – pela leitura dando vozes às palavras. Não entendia nem me preocupava o entendimento; tudo se me vinha na forma de impressões. Eu não pensava os textos; apenas os ouvia – Eu já falei que a droga da chave tá na mesa da sala! Você é surda ou o quê? – com os olhos e os via com os ouvidos.
Às tardes, caminhava por entre a manada de transeuntes
– Agora não! Eu to escrevendo, já falei! – , pelos passeios públicos e calçadões – NÃO GRITA COMIGO! ABAIXA ESSE TOM DE VOZ, MOCINHA!– do centro da cidade. Andava em captura das palavras alheias – PORCARIA?! EU SÓ ESCREVO PORCARIA?! E VOCÊ QUE É PROFESSORINHA DO ESTADO! – como num gesto de rapina. Os pregões dos ambulantes, os gritos das mães – GRANDE BOSTA! EU NÃO PRECISO DESSA MERDA! SABE O QUE VOCÊ FAZ COM ESSE SE SALARIOZINHO DE FOME? – zelosas de seus filhos, o “pega-ladrão” dos pequenos comerciantes, os murmúrios das moças desfrutáveis e lascivas, as provocações dos rapagotes púberes, as altercações dos bêbados vespertinos – CALA ESSA BOCA, CACETE! PUTA QUE PARIU! SAI DE PERTO DE MIM! QUE MER... Ah! Achou a porra da chave! Eu não falei que estava lá na mesa da sala?Pois é... (onde é que eu estava mesmo? ... lembrei!) – à porta dos botequins, tudo me era motivo de encanto e atenção. Eram melodias que se enredavam na harmonia caótica dos automóveis, das máquinas, das sirenes e buzinas, dos passos, do farfalhar das sacolas plásticas, de tudo aquilo que, na sinfonia da urbe, era acompanhamento às vozes humanas.
Não tenho – Tudo bem... tá desculpada. – a paciência de Deus. Fosse eu o criador do mundo, teria completado a criação – Eu já te desculpei. Sério! – num único dia. E que bela porcaria teria saído tal empreita! Por certo indigna de ser – Nossa! Que roupa é essa? – historicizada num outro Gênesis. Contudo, creio que ao invés de um mundo físico, teria eu criado – Hum, que gostoso! Mas, amorzinho, eu tô escrevendo agora... – um universo sonoro, sem coisas – Ai, amor... Não faz assim, que você sabe que eu fico louco... – , apenas sons; sem significado, apenas sentido; não o sentido da vida, mas o sentido da música – Ai, que delícia... Isso, faz assim, faz! –, que não carece de – Isso... Assim... Hum!Onde? Na mesa da sala, é? Sua safadinha! – explicação alguma – Ah! Quer saber? Depois eu continuo essa porcaria de texto.




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Embarque internacional


Por Kumka

 

]Abrir portas[

-Sou o diabo, madame. Não acredita? um dois três e sua alma é minha. Você a perdeu junto com a fé. Diabo é coisa de Deus, madame. Não acredita? um dois três e você está abortando. AHAHAH! Joguem o feto aos leões. Eu compro seus olhos apavorados. Quanto eles valem? Quanto mal a madame já fez?
um dois três. Faça seu preço...

[Fechar portas].

O quarto de hospital era tranquilizante e ela estava só. "Perdi o vôo e todo o resto".
Lembrou-se da gravidez, mas sentia-se oca. "De novo. Dessa vez eu queria". Levou as mãos aos olhos... doíam. "O Diabo é bonito de doer" - pensou. Sentia-se fraca... Em breve a polícia iria entrar pela porta verde, a interrogaria e a levaria presa. Ela teria que explicar como aquela cocaína foi parar dentro de suas botas, seria obrigada a confessar todos os detalhes do tráfico, "blá blá blá... é a porra da delação premiada". Ela já sabia de tudo na teoria, mas na prática...

]Abrir portas[
... iria morrer antes que a polícia entrasse por aquela porta.



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Covardia


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Desespero. Vazio. O vento esfriava suas lágrimas roucas: Pára, pai.


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InterNerd, Brasil, 15 de maio de 2008
Editado por Giovani Iemini