Décima Sétima Rodada

 
     



 
Cartum do Botequim do Hugo 


     
 

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Para plantar Lembrança

Por Barbara Leite

Não tem mais tic-tac
Os relógios correm digitais
Até o merthiolate
Quando uso não me arde mais

Eu já não ouço o tempo
Mas ainda sinto dor

Não tem mais telegrama
Sentimento é virtual
E a música baiana
Resumiu-se em carnaval

Eu já não mando cartas
Mas ouço os filhos de Canô

E diante das mudanças - Ando
Diante das andanças- Mudo
Diante das mudanças - Muda

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Triste fim do bravo guerreiro


Por Alana Nunes

O bravo guerreiro
mil guerras venceu
deu passos certeiros
nunca esmoreceu
Se diz brasileiro
por mérito seu
pois é estrangeiro
de sangue europeu
Nasceu num puteiro
foi lá que cresceu
juntou algum dinheiro
e desapareceu
Viajou o mundo inteiro
e nunca conheceu
um amor verdadeiro
pra chamar "amor meu"
Era artista, maconheiro,
andarilho e ateu
escolheu o Rio de Janeiro
e logo o mar o acolheu
Este mesmo mar sorrateiro
que muita inspiração lhe deu
absorveu o bravo guerreiro
para o seu fundo e lá o esqueceu.

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Danem-se os ...

Por Leonardo Spoke
que se danem todos os bêbados
deste buteco imundo e fétido
que vomitam a poça ingerida
servida em copos mal lavados,
caídos por seus cantos tétricos
nus, inconscientes e ridículos.
danem-se os cafetões dos viados
e as esmolas caídas nos bueiros
onde defecam as sobras das guarnições
os usuários daquele bar medíocre
de fachada falsa e vampiresca.
fodam-se os idólatras dos mendigos,
dos vagabundos inúteis e chatos
que fedem os seus banhos de urina
e choram por uma mulher sem pecado
que os esperam em casa com outros três.
que arrombem suas portas e violem
suas dependências descensuradas
na noite promíscua e propícia
de orgias bizarras e masoquistas
onde gentes pútridas se misturam
e engasgam o dinheiro que recebem.



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Foda, se


Por Carlos Cruz

Foda, se...
O pau está duro
O quarto está escuro
A boceta está molhada
A azeitona não está na empada.

Foda, se...
A grana está curta
O chefe é um filho da puta
A carroça está lerda
A vida está uma merda.

Foda, se...
O cadáver está na pista
A pelada está na revista
O tiro atinge a parede
O vírus está na rede.

Foda, se...
Os cobradores estão à porta
A reta saiu torta
A faca não mais corta
A liberdade está morta.

Foda.
Na falta de paudurescência
Fôda dos outros a paciência.




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está aberta a tempora de caça aos poetas...



Por F. Celeti

.

matemos todos
matemos as rimas
matemos a melancolia

empalemos sentimentais
queimemos na fogueira
aqueles que anseiam
com suas besteiras
entrar para os grandes anais

vômito estético
musicalidade
poema fétido
infertilidade

masturbações mentais
precoce ejaculação
jorram palavras banais
na lama, no chão

.


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Constatação

Por Cristiano Deveras

Armazeno palavras
no oco oposto da minha cabeça
e as despejo destratadas
de maneira tosca e infiel
entre as bordas brancas
de um pedaço de papel,
sem orgulho ou presunção
sem plano ou meta
escrevo palavras ao léu:
sou pobre, não poeta.

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Extinção
 

Por Flá Perez

Homo sapiens fêmea procura desesperadamente Homo erectus. Desaparecido.

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Genialidade Brasileira



Por Quimas


Aos três anos aprendeu a ler. Aos dezesseis graduou-se em matemática. Finalmente, aos sessenta e oito, morreu como indigente maltrapilho, em uma noite de inverno, encolhido dentro de uma caixa de papelão sob o viaduto.



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Túnel de Luz


 

A moto ficou destruída com o acidente; o piloto, jogado no asfalto, suspirou profundamente. A dor dos ferimentos desapareceu, uma calma absoluta o possuiu e, docemente, faleceu.

"Eu não queria ter morrido assim", pensou Sergio, enquanto recobrava a consciência. Abriu os olhos mas uma luz branca o cegou. Logo se acostumou com a claridade e percebeu que a luz saia de uma abertura oval ao final de um longo corredor.

Tentou olhar o próprio corpo para avaliar os ferimentos que lhe causaram a morte. Estranhamente não conseguiu. Sentia que levantava a cabeça mas não enxergava o resto de si. Havia, por outro lado, uma força que o energizava. Sentia-se bem. Excelente, na verdade. A despeito de onde estivesse e como viera parar ali, Sergio aproveitava a sensação inigualável de potência que aumentava com o tempo. Sabia que em breve algo explodiria!

Subitamente ouviu seu nome. Cerrou os olhos, bloqueando a luz, e só então notou que não estava sozinho. Dezenas, ou talvez centenas, de pessoas o cercavam. Ele sabia que eram pessoas, embora visse apenas a aura que as cobria. Reconheceu algumas, eram parentes e amigos que já haviam morrido. Não teve medo, pelo contrário, ficou muito feliz em vê-las.

"Sérgio, vamos para a luz."

A voz feminina era suave. Notou que não o chamava mas o impelia. Viu que todos ao redor buscavam alcançar a luz. Ele próprio esforçou-se, sem saber bem o porquê. Percorreu o longo corredor como se voasse numa densa neblina. Junto com outras pessoas, Sergio atravessou o portal de onde surgia a luz brilhante. Estavam extasiados, um calor confortável percorreu o ambiente.

Inesperadamente, Sergio abriu os olhos. Nem se lembrara de tê-los fechado. As auras de seus companheiros pareciam bailar num caos controlado por pulsos regulares. Continuavam em transe. Sérgio, então, resolveu olhar para trás, queria conhecer o portal de onde vieram.

Um vórtice de cores o atingiu como um turbilhão de sentimentos confusos. Demorou muito até perceber que estava consciente novamente.

- O túnel?...

- Calma! - Um bombeiro-militar o segurou na maca. - Você está indo para o hospital. Sofreu um acidente de moto.

- Eu estou bem? Eu vi o túnel de luz...

O bombeiro olhou para o paramédico, que guardava o equipamento de desfibrilação, e sorriu.

- Sim, está bem. Por um segundo o perdemos, mas agora está bem. - Mudou o tom de voz. - Você disse que viu o túnel de luz?

- O túnel. Eu o vi! - Um flash de imagens passou em frente aos olhos de Sergio, que relembrou da tudo desde o acidente . - Eu estava no túnel. Fui para a luz, atravessei o portal. Mas... fiquei curioso e olhei para trás. Eu vi. - Arregalou os olhos. - Eu vi o túnel.

O bombeiro e o paramédico se entreolharam.

- O túnel era um pênis. - Gritou. - Um pau! - Balançou a cabeça piscando. - E éramos os espermatozóides nadando no sêmem. Um grande mar de porra.

O paramédico assentiu com a informação.

- Oras, então quando morremos nos transformamos em espermatozóides na luta pela fecundação? Uma chance de uma nova vida? Interessante.

- Não. - Gritou Sergio. - É uma vida diferente! - Trinitrou entredentes. - O pênis era de um orangotango.

 



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Vínculos


O yin e o yang, numa dessas folgas que o destino guarda e o I Ching vela, sentaram-se, após ininterruptas eras de combate, frustrações e devaneios. O yang, sempre sereno, pacato e bonachão, tentava, em vãs filosofias budistas, converter o yin, protestante em praça pública mesmo:
- Veja bem, a harmonia tende sempre para o Bem, você se sentirá muito melhor na paz! – insistia o yang em mudar a polaridade negativa do inseparável companheiro.
- Vá se fudê, manezão da hora! Que porra de historinha de cerca Lourenço é essa? Vá dá o rabo! – retrucava o yin, despejando todo o seu vocabulário apreendido em eternidades prostibulantes.
E essa discussão durou alguns milênios. Já perto da aurora de outra era, o yang sacou de uma caneta, pegou uma folha lisinha de papel, escreveu algo e entregou ao yin. Este, por sua vez, mirou a folha rabiscada. Olhar desconfiado, coçando a cabeça sem parar, careta de quem não está entendendo nada. Pelejava para ler e compreender, esforçou-se mais e teve êxito. Lia-se o seguinte:

“A flor perfeita ainda não germinou, pois a semente perfeita não fora idealizada ainda. Quando isso ocorrer, ser humano nenhum poderá tocar a mais sedosa das pétalas, nem sentir o mais sereno dos perfumes, tão pouco extasiará com a mais bela aparição de formosura, candura e acalanto. Tudo isso, porque o Homem não tem solo para desfrutar dessa flor. Ela tende a brotar no coração jubiloso do próximo.”

O yang, ansioso por uma resposta de seu meio-irmão, fitava-o, na expectativa de que seu escrito surtisse algo semelhante a uma renovação de áurea, torcendo para que o positivo finalmente triunfasse. O yin virou-se para ele, sorriu-lhe amavelmente, afagou-lhe a alma com suas íris incolores, virou o bilhete e escreveu-lhe nas costas. Por fim, entregou-o ao cármico amigo. Este num afã incontrolável, leu-o, sem mais delongas:

“Ô viadinho, leia isso e vá se fuder depois:
Dois homens sentados num banquinho de praça, discutiam. Um tentava convencer o outro, querendo impor, cada qual, seu ponto de vista. O otimista discorria sobre as maravilhas da alma embevecida no amor, na esperança e na fé. O pessimista só descartava as hipóteses, apostando todas as suas fichas na impossibilidade de haver esperança para o mundo. Por fim, na intenção de fechar a contenda e sair-se vitorioso, o otimista lança uma frase de efeito, dessas reprovadas em redação de vestibular:
- Não se esqueça, meu amigo: “A esperança é a última que morre!” – disse num tom solene, colocando uma das mãos no peito e a outra levantada, em riste, apontando para cima, estátua de mártir católico.
O pessimista atalhou-o:
- Mas morre!! - A resposta foi imediata e veio na lata do cidadão, deixando-o envergado, enquanto o outro se retirava.”
Após a leitura, sem sorrisos serelepes e serenos no rosto, expressões apagadas, não restou mais nada ao yang, a não ser engalfinhar-se novamente com o yin e reiniciarem sua milenar batalha de equilíbrio.


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InterNerd, Brasil, 7 de abril de 2008
Editado por Giovani Iemini