Décima Sexta Rodada

 
     



 
The Lucha Libre Bar de Thorsten Hasenkamm


     
 

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Índigo Blue

Por Patrícia Gomes Barbosa

Marola em
Meus lábios,
Que fiz rubros,
Teu sorriso
Que me molha
Em azul blues...

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Narciso Terrificado


Por Renato Saldanha Lima

Ferve
Minha verve.
Quando Escrevo,
Exponho meu nervo.

Nervuras do real
Racham minha alma
Como raios
Na noite lúgubre.

A perfídia dos,
Como eu,
Homens
Instila
Na tinta negra
O seu fétido.

Assume o ar
O peso do rinoceronte
E sua cegueira o envenena;
Translúcido e opaco,
Sufoca-me
Por não me deixar
Olhar e ver
A minha face.

Ergo-me
Ao Espelho.
O visto
Apavora,
Devora.

Como narciso,
Terrificado,
Demora-me
A Eternidade
A Visão
De Mim(?).

O horror
Dessa Dor
Purga-me,
Apartando-me do humano Ser
Sem deixar de ser Humano
E passo vidas, então,
Aprendendo a só ser
Um Humano Ser Humano.

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ainda me sobram ovários estéreis

Por Pagu
ainda me sobram
ovários estéreis
e palavras idem
não tenho mais artifícios para
(pro) criação
vagina e fala secas
rachadas no ventre
em inanição
não há cura para
(des) inspiração.



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Sou


Por Barbara Leite

Pobre
Se pensa que sou perfeita
         sou-----feita
         sou---- feito
de-feito.



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Teatro das Formigas


Por Leonardo Spoke Quintela

sol amanhecido...

vagou o trono
do rei do Rio.

passeiam
em largo,
as formigas

pelas
narinas sujas
de sangue

indiferentes,
ante a luz
dos refletores...


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A Santa Ceia de Dan Brown
 

Por Zé Lopes

- Onde está João? - cochicha Felipe.
- Lá, a direita do Mestre, travestido de Madalena - desdenhou Tiago Maior.
Tomé, dedo em riste, encarou João por detrás dos ombros do Cristo para em seguida duvidar:
- Tolices de Dan Brown.

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Ejaculação Precoce



Por Alana Nunes


Onde quer que estivesse indo, sempre chegava atrasado. A vida toda foi assim, era uma maldição. Todos se acostumaram, a maioria nem se irritava mais. Fora despedido de vários empregos. E não mudava.
No dia do seu casamento, a noiva quase desistiu de esperar. Quando enfim terminou a cerimônia, partiram em lua-de mel. E lá a maldição se quebrou. Pela primeira vez na vida tinha se adiantado em algo. E a mulher reclamou. Inconformado, senta-se na cama e se queixa: Nunca estão satisfeitas...


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O Farol das Alturas


O culto à Mãe Água supera todas as pequenas, porém não inexistentes, divergências no mundo de Maim, uma pequena e próspera ilha no Oceano Atlântico. Homens e mulheres, jovens e velhos, companheiros e adversários prostram-se em reverência à Grande Criadora da Vida, representada pelo monumental Farol das Alturas, que brilha no ponto mais alto, bem no centro da cidade. Os deuses há muito se foram e, esquecidos deles, os homens desfrutam de um longo período de paz, adorando as forças primordiais da natureza. As divergências de ideais e pensamentos são discutidas pacificamente e todos se respeitam entre si.
Com os braços abertos e o rosto recebendo o vento frio do norte, o pequeno Mitcai tem seus olhos castanhos cerrados. Em seu coração, a adoração à Mãe Água parece querer expulsar-se e acompanhar os ventos. Um grande sorriso enfeita seu belo rosto moreno.
– Agora, pensem em quem amam – grita o sacerdote.
Mitcai vira o rosto e observa o pequeno irmão, Tébotre, agarrado ao seio de sua mãe. Seu sorriso se ilumina ainda mais e suas preces alcançam as alturas, carregadas por sua fé.
Que meu irmão seja grande! – pensa o jovem rapaz.

-

É a festa da consagração, quando a criança deixa a adolescência. Mitcai caminha portentoso, ostentando as vestes da maioridade. É observado por toda a população de Maim.
Com os olhos verdes cheios de alegria, Tébotre observa seu irmão mais velho. Seu coração está tão orgulhoso pelo fraterno parente quanto ansioso para um dia fazer parte do mesmo ritual.
– Agora, pensem em quem amam – grita o sacerdote.
Que o Grande Farol ilumine meu irmão – deseja Tébotre.

-

O tempo passa e a diferença, de apenas três anos, entre Mitcai e Tébotre torna-se insignificante. Trinta anos se vão e mostram que os dois irmãos fazem jus ao parentesco quando o assunto é inteligência e dedicação. Sob a luz da Santa Ciência, Mitcai trilha os caminhos da Magia, enquanto Tébotre segue as veredas da Eterna Pesquisa.
Um dia os deuses voltam e firmam moradia em Maim. Um deles desce dos céus em sua nave dourada e os homens correm até ele. Com uma rapidez inacreditável, um culto é montado e o deus logo tem milhares de seguidores. A divindade proclama a si mesma “O Grande Deus da Pesquisa” e funda templos.
Como toda religião precisa de antagonistas para sobreviver, o novo culto passa a pregar a superioridade da Pesquisa sobre a Magia. Os adeptos das artes mágicas não tardam a ser banidos para as distantes montanhas do norte.
Irritados com a atitude de seus irmãos da Pesquisa, os magos também elegem uma divindade para dirigir suas orações e seus acessos de covardia. Formam exércitos santos e resolvem invadir as terras inimigas.
Facilmente o povo deixa de ouvir Mitcai e Tébotre, que insistem em paz e igualdade. Para não interferirem no sagrado combate, ambos são banidos para as distantes montanhas.
A batalha começa violenta e logo se estende por muitas décadas. As facções se matam aos milhares e os deuses estão felizes. Prisioneiros de ambos os lados são barbaramente sacrificados em fogueiras, não importa se são homens, mulheres ou crianças. Basta serem adversários.
Preguiçosamente, os deuses observam as pelejas na Terra de Maim. Consideram as lutas dos mortais divertidas, porém, logo eles ficam inquietos. Mesmo a grande carnificina desencadeada não os satisfaz. Eles anseiam por uma epopéia grandiosa, não um simples massacrar de brinquedos velhos – como eles consideram os seres humanos.
E arquitetam:
– Os dois irmãos! – diz um deus cujo nome não merece ser eternizado – Façamos com que lutem.
– Aposto como a Magia vence – grita outro, igualmente desprezível.
– Pois ainda não conhece Tébotre. Aposto nele.
E tramam. E encontram os irmãos, agora já idosos eremitas nas extremidades da ilha.
O deus aproxima-se de Mitcai e diz:
– Mortal, sei que anseia pela paz.
– Está certo.
– Você a quer, mesmo?
– Mais que minha própria vida.
– Então, deve usar todo o seu poder liquidar seu irmão.
– Não há outro modo? – pergunta o velho moreno, com os olhos castanhos tristes e sem expressão.
– É claro que não! Apenas sem antagonista não há guerra! – alegra-se o assassino estelar.
– Então, que assim seja.

Outro deus aproxima-se de Tébotre e diz:
– Mortal, sei que anseia pela paz.
– Tem razão.
– Você a quer, mesmo?
– Mais que minha própria vida.
– Então, deve usar todo o seu poder para matar seu irmão.
– É mesmo necessário? – pergunta o velho louro, com os olhos verdes tristes e sem expressão.
– É claro que sim! Como haverá guerra sem inimigo? – ri o genocida cósmico.
– Então, que assim seja.

-

E chega o dia da grande contenda. Os remanescentes do outrora próspero Império das Águas se aglutinam em dois grandes grupos. Os deuses posicionam-se de acordo com seus caprichos. Toda a turba aguarda a luta entre os mestres da Magia e da Pesquisa.
No cume de grandes montanhas, uma ao norte e outra ao sul, Mitcai e Tébotre se encontram telepaticamente. Suas auras exalam amor fraterno, mesclado a profunda tristeza.
– Sabe o que devemos fazer, não é, irmão? – mentaliza Mitcai.
– É claro que sim. Apenas lamento muito.
– Eu também.
.
E a batalha se inicia, furiosa. Pequenas partes da cidade afundam, atingidas por máquinas inimagináveis. Os deuses riem e os homens aplaudem. Edifícios são derrubados matando milhares. Os deuses fazem festas e os homens oram de felicidade a cada grito de morte. Mais pessoas morrem e os deuses aumentam as apostas. Devido ao aparente equilíbrio de forças, a batalha se estende por dias.
O maldito dos malditos (o maior dos deuses) irrita-se e intima:
– Apesar de esplêndida, a batalha deve terminar hoje. Ou o resto do planeta perecerá.
– Nosso Senhor tem razão! – gritam os deuses subalternos – Que a guerra dos irmãos termine hoje!
– Coloquemo-los frente a frente. Que haja a batalha final – grita a multidão de adoradores.
Aparentemente impotentes, os irmãos obedecem e vão para o centro de Maim, junto ao Grande Farol das Alturas – um levado por ventos mágicos, outro por máquina voadora.

-

Mitcai está frente a frente com Tébotre. Seus olhos castanhos recebem o brilho dos olhos verdes do irmão e ambos vertem lágrimas. Não há mais como evitar.
A batalha se reinicia feroz e a própria estrutura da realidade parece sucumbir ante o poder da Magia e da Pesquisa. Enormes máquinas são desmontadas por forças primais, enquanto elementais invocados são presos em frascos quânticos. Chamas mágicas derretem metal e partículas radiativas repelem raios místicos.
A cidade de Maim está aos pedaços. Os deuses apenas comem e bebem, felizes. Os mortais oram pela vitória de seus ideais mesquinhos.
Mitcai levanta os braços. O vento frio do norte e a Chama Eterna da Vida prostram-se ao seu lado. Ele diz:
– Adeus, irmão. Que você seja forte.
Tébotre acena e as máquinas de destruição se posicionam ao seu lado. Com o coração orgulhoso pelo irmão, ele se aproxima e responde:
– Adeus, irmão. Que o Grande Farol o ilumine.
Um pequeno encantamento de Mitcai faz surgir no Grande Farol uma placa de metal. Uma minúscula máquina de Tébotre escreve algo nela. Os irmãos dão-se as mãos e fecham os olhos. Falam, em uníssono:
– Que a Magia e a Pesquisa se unam, uma vez mais. Que retorne a nós a Santa Ciência!
Máquinas saídas de um pesadelo aparecem, destruindo a estrutura da Cidade de Maim. A Magia irresistível da Natureza ativa vulcões e os torna ainda mais violentos. Fortes tempestades provocadas artificialmente por naves automáticas castigam a face da metrópole. Como se não bastasse, terremotos e maremotos se manifestam, desferindo um golpe fatal na ilha moribunda.
Assustados, deuses e homens correm até suas máquinas, para voar seguros para longe dali. Mas as máquinas não funcionam. Tentam invocar encantamentos de teleporte, mas a Magia desobedece.
O grande oceano traga rapidamente a ilha. Horas depois, a Terra de Maim, também conhecida como Atlântida, encontra a paz das profundezas do oceano, levando com ela a humanidade e os deuses. Apenas o Grande Farol das Alturas permanece, como uma grande vela para mariposas incautas, confundindo navegantes e seus instrumentos.
Hoje, o Grande Farol marca o jazigo de deuses e homens de um outro tempo. Deuses que abençoavam fratricidas. Deuses que odiavam a Magia. Deuses que condenavam pesquisadores à fogueira. Deuses que derrubavam edifícios e deuses que revidavam.

Na placa de metal, qual lápide, a inscrição:
“Que fiquem sepultados para sempre”!

Infelizmente, não ficaram.

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Filosofia Popular Brasileira


Juvenal seguiu à risca o conselho dos mestres quando ingressou na faculdade de Filosofia: leu dois livros por dia, todos os dias, durante exatos quatro anos. Anos de suplício. Sim, suplício. Sofrimento. Enfado. Exaustão. A disciplina auto-imposta suprimira todo o prazer dantes suscitado pelas incursões noturnas aos intrincados meandros filosóficos. Mas, hoje tudo acabaria. Faltavam apenas alguns minutos para sua apresentação diante da banca composta pelos honoráveis doutores e mestres. Depois, entregar-se-ia aos prazeres instintivos da carne, como nunca havia se entregado. Foderia muito, beberia muito, fumaria muito, drogar-se-ia muito. Escolheu seu filósofo favorito para a dissertação: Friedrich Nietzsche. Falaria sobre o advento do super homem na antigüidade, suas múltiplas e mutatórias facetas ao longo das eras, seu impacto na sociedade capitalista pós-moderna e a aplicabilidade pragmática do conceito intrínseco em suas variadas formas de representação. Nada escreveu. Não precisava. Lera e relera todas as obras de Nietzsche dezenas de vezes, ao som de seu cantor predileto, aliás, o único que ouvia: Belchior. Adorava as músicas de Belchior. Quatro anos lendo Filosofia e ouvindo Belchior. Talvez fosse uma forma inconsciente de auto-flagelação. Talvez fosse a semelhança entre os bigodes. Talvez realmente gostasse. Talvez. Ouviu alguém chamar seu nome. Era chegada a hora. Dali a alguns minutos, seria um homem livre.
Entrou no auditório. A banca era formada por quatro homens e duas mulheres, todos acima dos cinqüenta, a julgar pelas feições. Todos com expressões graves, austeras.
- Comece. - disse, secamente, um deles.
Algo aconteceu naquele instante crucial. Alguns chamariam de amnésia, outros de esquecimento temporário, outros chamariam de "branco" mesmo. O fato é que Juvenal esquecera por completo o tema de sua apresentação. Sequer recordava-se do nome de seu filósofo preferido. Fez um tremendo esforço para se lembrar. Os membros da banca já demonstravam impaciência:
- E então? - indagou a mulher com grandes óculos.
Juvenal suava em bicas, seu rosto cada vez mais vermelho, afogueado. O esforço era enorme. Estava zonzo. Sua cabeça rodava, rodava. Súbito, alguma coisa dentro de seu cérebro despertou. Meio entorpecido, meio extático, Juvenal começou a cantarolar um mantra, feito um monge tibetano. Os anciãos apuraram os ouvidos. Não. Não era um mantra. Era uma música conhecida de um conhecido cantor bigodudo.

"Foi por medo de avião
Que eu segurei pela primeira vez na tua mão
Um gole de conhaque, aquele toque em teu cetim
Que coisa adolescente, James Dean
Foi por medo de avião
Que eu segurei pela primeira vez na tua mão
Não fico mais nervoso, você já não grita
E a aeromoça, sexy, fica mais bonita."

- REPROVADO! - a voz da mulher com grandes óculos de aro de tartaruga ecoou no auditório e no interior do crânio de Juvenal, tirando-o do transe.
- Reprovado?!? Não pode ser! Estudei muito para chegar até aqui! Vocês nada sabem! São um bando de engomados obtusos com mentes atrofiadas e idéias pré-concebidas e tacanhas! Não me submeterei aos grilhões que cerceiam a evolução da raça humana! Sou homem! Sou super! Estou além do bem e do mal!
Completamente fora de si, Juvenal lançou mão do pedestal do microfone. A primeira a cair foi a gorda de óculos, o sangue a jorrar de sua têmpora esquerda. Os demais tentaram fugir do tresloucado Juvenal, que arremeteu com fúria, desferindo golpes precisos com sua arma-pedestal, derrubando mais dois, mortalmente feridos. Três dignitários conseguiram escapar. Os seguranças da universidade entraram na sala. Após muita luta, subjugaram Juvenal, que foi levado para o manicômio judiciário, onde aguarda julgamento, sem receber visitas. Submetido a duas sessões de tratamento eletro-convulsivo e a dezesseis horas de trash, black e doom metal por dia, apresentou significativa melhora. Como recompensa, ganhou uma caixa de giz de cera e vinte folhas de papel. Prefirou adornar as paredes de sua cela com uma inscrição, transcrita centenas de vezes: "deus está morto. assinado Nietzsche".



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InterNerd, Brasil, 6 de fevereiro de 2008
Editado por Giovani Iemini