Décima Quinta Rodada

 
     
 

Como eu amo você
Pausa
Lançado o anzol
Vaso sanitário




 

     
 

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Como eu amo você




Por Paulo E. F. M. S. y Gonçalves





Amo você como quem ama um carro.
Como quem ama fumar um cigarro.
Amo você por amor ao prazer.

Amo o prazer de andar de braço dado,
de ser somente eu a caminhar ao seu lado
e a inveja que causa esse nosso caminhar.

Amo sobretudo a calma e a certeza
de saber a quem pertencem
você e sua beleza,
amo a luxúria que existe em amar.

Amo o amor como aquele que amaria
a mais linda beldade
a que aprouvesse um dia
tomar a liberdade de apenas deixar-se amar.

Amo você algo que casualmente,
por ter nos posto a vida
lado a lado simplesmente
tendo-me então imperado:
- Tu! Põe-te a amar!

Amo você como quem ama bocas
que por não ser nenhuma,
torna-se então em todas,
pois o que amo é o êxtase,
que qualquer das bocas dá.




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Pausa

Por Angela Oiticica





Ser errante
e de repente parar
nubla as trilhas do destino.

Continuar e continuar...

Tudo se desenrola tão de repente
Quando se vê passou

Estava assim naqueles momentos
quando a buzina na estrada chamou.

Terei de ir.
Não há espera, a volta que aguarde.

Adeus supermercados
cobranças
de gaz e luz
Para traz
choro de crianças
bocas insatisfeitas
fogões
colchões
adeus cobradores
de cartões

Adeus adeus
nem aguardem
Adivinhem
um sorriso rústico
me espera na
estrada
Muito longe
estarei guardado
qual ermitão
alado
voarei aqui e além


Adeus ainda direi
assim mesmo chamarão
Segunda
terça
nem na quarta e quinta
ouvirei
na sexta já me livrei
mesmo assim cobrarão
e o sol
qual tição
queimará
todo o segredo
vomitando a
paixão
Nada sabem
onde irei
já nem me
lembrarei
que toquem
o telefone
que berrem
xinguem
que cobrem


Leva-me trem
errante
para a estação
da luz
lá onde o coaxar dos
sapos
anunciam estrelas
suposições
e razões






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Lançado o anzol

Por Devora-me






Ninguém é mais que a espera
num porto de partida
ninguém é mais que o anzol
entre o peixe e a isca
no lamarão que bordeja
entre o gozo e o ataúde
ninguém é mais que uma vida
entre a gávea e a quilha
entre o leme e o timão
ninguém é mais que uma ilha




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Vaso sanitário

Por André Espínola





O céu recebe
Ao mesmo tempo
Ares sórdidos de cigarros
No pulmão.

Algumas nuvens
São apenas átomos
De tabacos
Em combustão.

Outras preferem drogas
Alucinógenas
Metamorfoseando-se
Em diversas formas
Como forma de diversão.

A tosse contagiosa,
Quase tísica,
Gera benfazeja
Brisa.

O pássaro bêbado
Segue o mesmo caminho
Pelo qual
O vento voou.

E a chuva como urina
De toda a cerveja
Que o céu tomou

...C
..a
.i
.

Enquanto a recebemos
No vaso sanitário
Da vida.

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O Devedor

Por Flávio Gustavo


Eu devo de tudo. Devo boceta, casa, trabalho, família, dinheiro, jóia, coca-cola, salame, presunto, computador, DVD, escola, universidade, diversão, putaria. Devo tudo isto aos pobres. Eu sei que devo, mas não pago, não irei pagar porra nenhuma. Se tem uma coisa que eu não gosto nesta merda de país, são os pobres. Eu poderia aqui ficar dando mil explicações, dos porquês deste meu ódio. Prefiro ser suscinto e dizer que pobre é tudo um cu, porém um cu cheio de câncer que não para de crescer. Sendo assim, jurei que ia mandar grande parte deles para o cemitério. Ia demorar, é claro que ia, mas Roma não tinha sido construída em um dia, tinha?

Entramos no carro, eu o Marcelo e o Fernando.O Marcelo era um pouco mais rico que eu, eu tinha um pouco de inveja dele, não, não era inveja era admiração mesmo, rico não inveja ninguém, rico apenas admira. Ri em silêncio do meu pensamento. Já o Fernando era um novo rico, enfim, uma merda, ele tinha que mostrar o valor dele perante a nós.

Acendemos nossos charutos. Eu gostava de fumar um charuto antes de fazer uma ação social.  Descemos do carro, e de cara ouvimos a música. Puta que pariu! Àquela música, aqueles tambores de merda, era tudo invenção de pobre. Caralho! ia ser fantástico, íamos foder um tanto de miseráveis de uma vez só.

Marcelo e Fernando, cheguem atirando, mirem nas mulheres, mirem nelas, eu atiro nos homens. Matem o maior número de vagabundas possíveis, elas cagam um monte de pobre no Brasil, lembrem-se disso; lembrem-se, elas defecam um monte de pobre. Deixem as crianças e os homens filhos-da puta-comigo.

Eles concordaram e deram uma risada, uma gargalhada de rico. Em seguida, seguraram as metralhadoras enquanto desciam do carro, eu fiz o mesmo.

Tiros, gritos, sangue, garrafas quebrando, pobre clamando por Deus, crianças chorando, tudo isto ao som do pagode. Àquela música de merda, soava como as canções de Bach para os meus ouvidos, graças aos arranjos que eu e meus amigos estávamos adicionando a elas. Fiz questão de matar as crianças primeiro, depois foram os adultos. Marcelo e Fernando alvejavam as mulheres. Tiro na cabeça, só tiro na cabeça, eu gritava!

Saímos de lá. Tudo tinha sido um sucesso, uma grande obra, uma grande composição de Bach. Roma estava sendo construída, tínhamos dado o primeiro passo.

No outro dia, no notíciário, o repórter dizia, briga entre gangues de traficantes rivais mata vinte no Pagode do Gegê. Os próprios putos se matavam. Perfeito! brindamos, fodemos umas putas  e cantamos.

Viva Roma!


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Banalidades...

Por Klaus Merschbacher




Desdenhou... Ficou mais feliz depois do partido tomado. Mais segura da pílula, da estátua, honra mantida, ego inflado. Sua nudez a permanecer intacta – certeza que jacta, beleza rara, inteligência que coloca e retira, campeaníssima. Nunca sabia o que queria de certo, em estado de erro crível, e alguns diziam que isso era característica de signo. Teoria tralalá, quiçá tratava-se de frevença, título de nobreza... Na maioria das admiráveis, é isso o que se dá: O azar é sempre alheio, nunca particular. Os períodos são curtos e grossos - tu de notar há.
Esta aí, a desdenhadora, a passar pelo meu bizarro e inverossímil crivo, é que se frustra toda e, ao mesmo tempo, furta-se às insistências de um certo rapaz, que também é dedilhado aqui - e se me permite a pirata modéstia - com a perícia de um Baden Powell... Ode que soa, liça de louça nunca matreira, só escopa, a franqueza dos detalhes pode perpassar pela minha obsessão, cauterizada àqueles que teorizam o simples e desvalorizam o escárnio. Porém, no meu intento, essa louça não há de partir, não... E é através deste casal que eu vou mensurar os valores novos, atados aos velhos, cheios de paradoxos. Uma bulhufa interessante, ao menos é o que a mim se mostrará.

Uma destas descritas, tão mencionável, depois de terminar mais um engodo, mais um namoro instável, em colóquio por tempos mensurado inócuo, mas, em permeio ao que é circunstancial, naquela hora era uma lâmina que pedia para sair da bainha... Depois do término, o cansaço mental e a vontade de ligar para todas os ombros da lista, “Vamos beber até sorrir”. Em ambos os casos, nos dois lados, nos dois gêneros, a bola da vez: Chega de groselha. Agora é sangue jorrando da jugular.
Serviço pronto e Hamlet morto, a subida pra casa dera-se depois desta longa e vitoriosa conversa, com aquele Um, o ignorável. Era começo de primavera, e as festas voltavam com um vapor de cem, não dava para ficar parada, à espera. “Parada em frente a uma televisão, abraçada?” – Cansaço total, tédio intolerante, “Que cera!”. Sacolejo da moçada, era essa a pedida. E quem a reprimiria? – Estava na flor da idade, era linda e bem quista, cursava um curso de status, era primeira e derradeira entre a preferência.
Não era, é.
O Um, ignorável, ficou derrotado, é claro... Era mais simples, ocasional, informal, bestial... Todos o consideravam firmeza, gente da legalidade. E quando se viu ao lado daquela estátua, totem de idealização, palavra incontestável e ímpar, aquela formosura quieta falava mais que mil frases... Sintaxe à vontade? – Nanãnina, admira! E os olhos se bastavam. Todavia, a mais pedida não, “Eu não preciso disso!”. Suportou o quanto pode, e quando a firma de seu ventre clamou intervalo, não titubeou: Deu aquele chega pra lá no Um e saiu desfilando galhardia pelos balcões.
Enquanto a Admirável se emperiquitava, O Um só fez foi descer aguardente, uma atrás da outra, com algumas pausas, para não perder a dignidade e ser alvo de comentários ignominiosos, dos desditosos seres nomeáveis. Queria mais uma chance ao lado da Preferida, mas o custo era alto demais. “Melhor deixar voar”, replicou no pensar enquanto batia treva no estômago.
Quentura de tristeza – Era só uma fase, sabia e já havia passado por isso... Não imaginava que o sofrimento seria assim, tão... Chuva rala, garoa fina, sem trovanejar. Mas o intento para tomar todas nos botecos, isso sim era boa hora.
Calha, tu de convir há.
A “A” passava de lá pra lá dos quintéus com seu vestido novo, sua bota nova, seu charme de balada... Bebida numa mão, dígito na outra, fingindo o envio de mensagens para cupidos e ídolos. “Aquele João, é claro, gostoso e incitável!” – que as amigas de flerte e de certe já botavam pilha. Roda de beldades, ingênuas e com um desejo tão Tão...
São qualificadas, as filhas da mãe.
O Um não via graça no jogo e permanecia fazendo-se de tolo. “Mocorôngo!” – Os sobremináveis pensavam, “Não vai conseguir outra dessa nem hoje nem nunca, vai ficar só na saudade mesmo, o tempo vai mostrar a ele, incompetente, choroso, metido, burro, bicha, ficha, tosco, trisca-réla, apela-pelva, cata-guerra... Vai morrer pobre e feio!”.
Na outra borda alvitral, o que não sentiam era que o Um era senhor de sabedoria, calculador da rotina, e intuía que o rumo era magro, único e possível: Fim de filme, fim de caso. “Bye-bye meu anjo, veja se consegue correr até aquele posto e me traz um maço de cigarros antes de eu puxar meu carro”, e enquanto isso regurgitava, sofria uma desilusão que só.
“Merda!”. Tentaria vencer pela via dos fatos, mas, como já se disse, “Deixa quieto, deixa voar”. E a preferida voou, evidentemente. Não tinha como segurar. Sabia que era muito prumo pro seu horto, vago e torto. Quase estóico, nem sentia amargura quando se via em um rótulo: “Merdinha!”. Mas sempre chegava em casa e tocava alguma trilha, pra amenizar e sonhar como quê se fosse outro Um. Ilusão perdida? – Plantaria outra, sem maiores reflitamentos. “Ah, mas aquela... Eu sei que era A”.
Aquela, sob outra vereda agora, na verdade usava mais um disfarce que uma auto-estima, um “Deixa pra lá e siga vida” que só. Sentia-se envergonhada por, no início, botar afinco e visto num relacionamento tão fugaz. Não podia mais errar, levar fulano pra casa, sicrano pra jantar com pais, brincar de ninar, enroscar pernas e pupilas no rubro do toque-me-mais. A balada era seu refresco, assim como a cana era para o Um. Mas ela, na sua subjetividade feminina, sofrer calada preferia, e se botar de pé no hino “O azar é todo teu” era a melhor sina. Até inclinada ao reato se poria se o Um em ti chegasse junto, insistioso, persistente... Soluçou até um anel de compromisso, veja só! – Mas o Um só sabia admirar sua beleza, e não tinha muita paciência para falsidades. Euforia de bijuteria, então, um acalanto sem senso, feijão-de-sopa. Impetuoso demais, sincero em demasia, as amigas do selo de qualidade nunca iriam entender. “Covarde de uma figa!”, tento que, no fundo, todas elas queriam para si, cá para nós e sem maldade.
No começo, foi uma entrega incondicional, uma troca de afagos e carícias que pareciam prometer eternidade. A “A” gritava o nome do Um nas arquibancadas, falava dele muito e para muitos, orgulho amiúde. O Um ouvia trilha e ficava até emocionado, pela incidência e pela saudade. As moças do Chico agora falavam com ele, aquele figura. Os lugares ficavam chatos se o Um não se visse ao lado da A e vice-versa, ela com uma foto três por quatro no escapulário que levava ao pescoço, e ele com a ousadia de colocar o seu futuro atrelado à presença da tenra garota, sem hesito nem querela... E foram vários almoços dominicais entre família para mostrar segurança, horas ao fio para rememorar lembrança, “Eu estou longe, mas tu, de alguma forma, comigo estarás”, “Minha pequena, é no tempo do frio e da coberta que eu me vejo mais saudoso de suas tetas!”, e por aí vai, sem entrar ademais no mérito das intimidades... Mas, sem querer já querendo, ele... Deslizou... Foi na cama o mistério. A promessa não se cumpriu e se incinerou no primeiro ato. O Um fraquejou, diversas vezes, e seu ímpeto de cromossomo dominante ficou à guisa de contestação. “Mas meu coração a acompanha, não entendo!”. A mente não se estende, não dá para deitar nela como se fosse uma rede. Como o bom baiano já havia declamado, “Não sou proveito, sou pura fama”, e essa trilha tocava imensa em sua cabeça, desde o deslize até o então. A preferível achou estranho, claro – tão atraente que é, como pode alguém não ficar literalmente louco? – E o Um encanava-se, e potencializava a celeuma mais do que a revelação. Lutou, lutou, lutou... Rapaz bão, este...“Sentimento, logo há de aflorar... E aí, vou ser nota A!”. Não era o garoto quente de chocolate da cidade, mas tinha lá seu valor, a sua lascívia. Se a beldade tivesse paciência, contornaria... “Resquício do último e mais intenso relacionamento, eu não preciso de divã!”, não confessaria isto nunca, evidentemente, logo as coisas - e o falo - falariam mais alto. Confiança plena, behaviorismo à janela.
Entrementes, cá comigo, permita-me à inferência. Essa sexualidade pós-moderna... Bota na roda, vai? - Estava sendo patético, isso sim é o que transparece e talha. Carne preguiçosa, o Um e sua verdadeira história. Meia bomba - pacas! – que eu mesmo me ponho à prova. Mas, eppur si mueve... Adentrando no âmago, matéria para estudo, enquanto para a Preferida o apelo da paixão foi à primeira vista, fogaréu e luzerna na cova e na língua, para o Ignorável foi algo mais crescente, no pouco a pouco do enleio... Sua paixão era condicionada ao tempo, ao desnudamento do jeito, ao bem-me-quer, mal-me-quer. Preferia sentir amor primeiro e deixar a loucura pra depois, mais adiante... “Idealista antiquado”, alguns diriam, e o resultado imediato tu já sabes, curto prazo: Perderam-se no curso, desencontraram-se nas intenções e nas intensões, apesar de, a julgar pela personalidade, combinarem feito ninguém.
A velocidade era uma qualidade primordial para o sucesso. Tanto na empresa quanto na vivência. O urgente e o caráter, o símbolo e o saudável, o verso e o recitável - Não, não mais devanear possível seria. Ou se abastecia ou se parava, “Ou vai ou fica!”. E o Um só sabia andar a pé.
Ainda tentaram algum lucro, na luz do vinho, no carinho do deleite, na parceria no truco, nas fotos disparadas frente belas obras de arte. “Casal tão bonito este!”, em lugar de campo de lírio, agora só viam seca, chão rachado - assim mesmo, sem plural: imenso-total, o consolável.
- Apesar da seca, será que este chão ainda poderia fertilizar algo, seria ele irrigável?
Claro que sim, mas precisariam de uma aluvião e de uma dúzia de milagres... É que o coração já pedia água, a vida já seguia em linha reta, enquanto o Um ia p’rum canto a “A” ia pra outro, e a raiva já florescia com suas flores do mal; E agora, onde tudo era Gandhi vertia-se um caos total, sem força nem para definições, sem luxo nem lixo, mais para Baudelaire que pra Vinícius, “Se o tempo falhou, quem é que vai acertar?”.
A insistência mostrou-se inviável, precipício: Tu concordarás.
Mas o Um, singelo e carinhoso que sempre foi, ainda sonhava com a volta... Que o desvencilho foi bruto, a ruptura foi radical demais, em si sentia algo que ainda faltava pôr ponto final... Queria tirar a reticência do corpo, afinal e também. A Preferida, sacolejo da moçada, já esquecida das estrofes e dos bofes, burburinhava sorrisos e coloria seu olhar e sua boca com um batom vermelho escarlate – coisa que nunca fazia quando saia com o Ignorável.
Ele, no acaso da sorte (ou do azar, vá lá saber quantos pontos de vistas dá para desenhar), viu-a assim, toda colorida e no desdém da forçada simpatia, num dia destes de sábado de alegria – e ela, inconquistável, fingiu que ele não existia. Contraditoriamente, a Preferida botava tanta rima no seu corpo, jogando os cabelos para trás e abraçando com insinuação todo e qualquer bocó jocoso, que o Um até ensaiou um xaveco em alguma desdonzelada por lá... Mas notou que corria o risco de fazer papel de ridículo risível, e fez ir por terra esta má idéia.
Não ficou desesperado, surdo, taciturno... Mas Freud explica: O coito veio-lhe à lembrança, cisma de maricas. Sentiu-se envergonhado, cabisbaixo, sem dignidade, “Eu que fora o número um agora sou ignorado?” “Não serei digno nem de um olá?”.
Na verdade, a Primeira da preferência ainda ecoava um sentimento pelo pequeno ali postado, e achava melhor não cumprimentá-lo pra não correr o risco de ficar excitada novamente, ver aquela sua paixão de verão incontrolável aflorar de novo pelo mesmo fracassado de outrora, “Aquele idiota!” - que insistia em comentar -, mas seu coração batia mais forte, ironia da ilusão - o figura ainda repercute. Aquele jeito lento e sincero de entrega era original demais, sincero demais, intenso e coloquial como o ar bochorno que sai do escapamento de um ônibus da central... E o Um, tentando reagir: “Ela deve me achar um grande tapado, já está com outro em outro caso, que dardo atirado bem ao centro do alvo, que fardo pardo e pesado!”, tem de se entender que a realidade de Um não era a de A. Volveu o olhar pra outras beldades, evitou o encontro no horizonte, tirou os óculos para enxergar mal e nada, buscando só a síntese para evitar a prosa... Bebeu, rodou, desceu, falou, sapateou, fingiu, cantou. Amigos mais bonitos o acompanhavam agora, talvez isto lhe daria mais status na hora da derrota - Ou do empate, quem sabe?
Enfim, fingiu não colocar mais cisma e, único rumo possível, foi embora.
Tu até com dó deve estar.
Em casa chegando, leito desgostoso, tomou um café pequeno e sem açúcar, deitou-se e teceu outras possibilidades, “Já pensou se fosse não assim, mas assado?”, repetia o ritual de botar trilha, cantor de blues resplandecia, e quando no clímax da consciência de sua condição se encontrou, estes versos rabiscou no seu tosco caderninho de poesias, que agora eu trago à tua vista:.... 



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Desperdício ou Evolução?

Por Robertón Hefler



Pronto, a ciência acaba de descobrir que o genoma feminino é mais complexo que o dos homens. Agora sim está confirmada a luta desigual entre os sexos. A mulher tem um cromossomo X de reserva, assim como sapatos, saias, blusas, namorados, maridos...Garanto que quem descobriu foi um cientista, que, como bom pesquisador, desconhecia completamente a índole exploratória, oportunista e exibicionista da mulher. Normalmente o cientista tenta explicar aquilo que todos já sabem: Homem é muito mais simples!

Essa grande descoberta explica muita coisa. Por isso que as mulheres são infinitamente mais perdulárias do que os machos, o desperdício começa na genética feminina. Nós, homens de verdade, somos seres superiores na cadeia evolutiva e de qualidade genética inquestionável. Macho que é macho não precisa de reserva, se garante... Se fosse o homem que gerasse a prole não ficaria durante nove meses grávido. A gestação duraria apenas três meses e os rebentos já sairiam andando e comendo arroz com feijão. Mulher fica preparando a cria três ou quatro meses, o restante é pura frescura, só pra chamar a atenção do homem e justificar aqueles desejos mais inimagináveis. Homem é muito mais eficiente e resignado, quantos verdadeiros representantes da masculinidade não carregam barrigas onde tranqüilamente caberiam quadrigêmeos adolescentes sem reclamar nadinha, sem gastar uma gota sequer de óleos, cremes ou elastificadores.

Homem sabe usar o que têm, já imaginou o que seria da espécie humana se fosse a mulher quem tivesse o pênis? Estaríamos condenados à extinção... As mulheres jamais conseguiriam concluir uma relação sexual em apenas uma noite, só nas preliminares levariam 25 horas, até chegar a famosa dor de cabeça e dizer, com o maior desdém: Você me fez brochar!

Mulher ia enfeitar todo o bilau... Botar laçinho, brinquinho, botox... Imagine a mulher lavando o ... Lá se iam mais uns vinte minutos só pra lavar e perfumar! O quanto não gastaria com cremes anti-rugas, enrijecedores... Nem quero pensar no que se transformaria 500ml de silicone ou um simples xixizinho, o que seria da nossa clássica e orgulhosa balançadinha... A natureza é sábia...

Essa natureza cromossômica da mulher explica por que nós, machos, somos obrigados a produzir milhões de espermatozóides a cada ejaculação, como a mulher tem um cromossomo X a mais e neurônios de menos, até conseguir escalar qual será o cromossomo que vai participar da fertilização leva um baita tempão... Aí fica: vai você. Não, não... Peraí; vai o X aí da esquerda ou o X da direita? Ih... Acho que deve ir o Y... Até acontecer a decisão e haver uma eventual fecundação, 99% dos espermatozóides se cansam e desistem ou se suicidam de tanto tédio...

Mas a mulher ainda gosta de ser vista como o sexo frágil – sic – afinal precisa de nós, homens realmente machos, senão quem lhe mandaria flores no dia seguinte? Quem lhe faria poesias cheias de paixão? Quem procuraria ama-la sem sequer tentar entende-la?
Cabe a nós, a cada dia mais raros, homens machos de verdade, admirar a natureza feminina, por sua emancipação social, profissional e por que não dizer genética. Cabe a nós, homens machos, mas sensíveis, amar essa mulher por sua sinuosa e deliciosa anatomia, por suas inseguranças e por suas indecisões. Cabe a nós verdadeiros representantes da virilidade nos redermos ao carinho e a paixão pelas mulheres.


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Sobre o ano-novo e a ressaca

Por Giovani Iemini

 

"Se eu não faço nada, fico satisfeito

Durmo o dia inteiro e aí não é direito

Porque quando escurece, só estou a fim de aprontar"

Tédio (com um T bem grande para você) – Legião Urbana

 

 

O fim do ciclo solar traz a mesma sensação de um início de noite quando se dormiu o dia inteiro de ressaca: a vontade de aprontar! Ou melhor, de fazer algo construtivo, importante, de reorganizar o tempo e cumprir tudo aquilo que sonhou porém não conseguiu realizar.

Eu já amadureci; não reclamo mais das ressacas nem digo que "nunca mais beberei", apenas me conformo com o estômago provocando uma cisão político-biológica com o resto do corpo. Aceito a ressaca, assim como reconheço que o ano vindouro será apenas mais um ciclo que em não cumprirei minhas metas.

Essa ansiedade em corrigir os pretensos defeitos, para começar uma existência mais plena e feliz, mas somente no ano novo, é a desculpa dos desiludidos. Todos que sonham alcançar o próximo degrau do auto-desenvolvimento renovam as esperanças. Contudo, esquecem que qualquer mudança deve ser gradual e introspectiva. Não adianta fazer "listas de ano novo".

Eu sou um desses desiludidos. Já compreendi que meus defeitos não sumirão, nem no ano novo e nem no dia de São Nunca. Devo conviver com eles e contorná-los, para aprender a sofrer cada vez menos com minhas falhas.

Entretanto, não me abstenho de permanecer um ébrio, tanto das mais deliciosas cachaças quanto dessa idiotice chamada esperança. Em cada ciclo imagino o defeito de personalidade que eu poderia limar ou a característica que deveria absorver; sempre tenho boas intenções. Até a meia noite! Daí para frente só penso em acabar de encharcar a cara de mé!

Quando vier a ressaca do dia Primeiro de 2008 já terei esquecido todas as promessas, não saberei quais planos me dedicar nem como resolver meus problemas (que eu certamente havia solucionado na noite anterior). Não começarei a malhar, nem a estudar, nem controlarei minha língua (e pena) ácida. Não serei paciente, nem dedicado e tampouco deixarei de reclamar sobre tudo. Continuarei cultivando meus defeitos (é claro que na intenção de regá-los cada vez menos) e buscarei não perder as ínfimas virtudes que mantive até agora (como cactos num deserto). Serei o autêntico eu, só que um tantinho mais sábio, afinal, quem não aprende com os erros é um imbecil.

- ô imbecil, se continuar fazendo as mesmas besteiras não subirá o tal degrau no auto-desenvolvimento. – Diria o leitor.

Sim, reconheço, porém não farei as mesmas besteiras. Farei, na verdade, novas besteiras, cometerei outros enganos e praticarei diferentes pecados. Ano novo, bobagens novas. Afinal, sabiamente, precisarei atualizar meu rol de problemas para avaliá-los ao final do ano e resolver corrigir alguma coisa para 2009. O ciclo nunca termina, mas a ressaca, essa sim, uma hora vai acabar.

- Bebamos, então! – Um brinde ao ano novo.

 

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 InterNerd, 15 de janeiro de 2008
Editado por Leandro de Almeida (Doctor T)
e produzido por Giovani Iemini