Décima Terceira Rodada  

S7ete contitos em s7ete palavras
Vendinha de Interior
Década

Invadam-nos, iankees
 

A Midnight Modern Conversation de William Hogarth

 

Rodadas Passadas
Rodada Inicial

1a

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A guerra das lâminas Dores de Minas

Por Muryel de Zoppa

 

Por Anderson H e Leonardo Spoke


Metal educado
Em bainha-pedreira
Descansa seu corte
No corpo, caveira

O talo demanda
Do cinza do ferro
Expele, goteja
'Ferrugem' do cérebro

Espaça as entranhas
Açude em vermelho
Não dizem: tem corpo!
- Tem falo, esqueleto

O corte da lâmina
É preciso, amputa
Destina-se ao másculo
Dos cabras-da-puta!

Degola-se a espécime
Gemido profundo
Expõe-se a comenda
Às virgem em luto 

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O frio da navalha
Fura e corta afiado
As montanhas do Estado
Das minhas dores Gerais

São as pedras de Minas
Recortadas em cores
Que viajam sozinhas
N´ouro dos meus ais

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Sobre despertadores

 

Puta Sorte

Por Thais Mello

 

Por NegroJorgen

Quando nasce o dia,
Ponteiros em exclamação
Abortam reflexões
Na segunda- feira indigesta.

São mãos e passos
Apressados e aflitos
Em busca de partes de nós
Que a madrugada lançou
__________ [aos cantos.

Cabia a eternidade
Na escuridão que passou,
Mas esses raios da manhã
São tão pungentes!

Agora, só cabe pressa
No espaço que era infinito.
( Nossos olhares agudos
perderam- se na claridade.)

Éramos tão livres
E somos tão cativos...
Por horas, unidos;
Por minutos, apartados.

Por fim, um beijo açodado
E amores ditos, tão breves,
São apenas vestígios
De quando morreu a noite.

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A puta mulher
Abraça-me com amor
Transborda-me de carinho
Revela-se uma puta mãe
Puta amante
Puta gente
Puta filha

Na verdade a puta mulher
Queria um puta homem
Para uma puta vida
Numa puta Paz

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No fio da Lâmina Intuição de pequenas verdades
Por Sirlei Passolongo Por Bicho de Luz
 

No fio da lâmina...
A flor
A carne

Fina! Frágil! Ferida!

A vida finda
A flor cortada

Fina! Frágil! Fugaz!


Nada existe mais!

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Ainda subiremos aos telhados da noite,
Arrastando na carcaça velhos e novos sonhos.
Levaremos nossos pés entre coisas nulas.
Entre coisas nuas agitaremos nossos cabelos enrolados.

Nem vítimas nem algozes:
Na felicidade proibida das coisas próximas,
Aqueles momentos ficarão perdidos
No tempo como lagrimas na chuva.
Seremos adoradores perquiridores,
Os últimos de inédita súplica noturna.
Tente pensar com o coração;
Em voz baixa ler esse poema...
eu não vou chorar!
Afinal, julho é uma caixa fúnebre,
Uma vocação para o declínio dos corpos;
Invenção do amor a seus escravos
- só a paixão os salva!

Luz clamando contra muros,
Apáticos giramos amordaçados
olhando pelas ondas o tempo perseguir ladrões
do odor de vozes velhas e suas cinzas...

Para os vermes socrática paciência!
- Fala rápido carrasco contra vitima!
- Rápido cadela da grande raiva!

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S7ete contitos em s7ete palavras

Por Tiago Perreto

Soltar
Soltei os cachorros. Jamais voltaram. Nem ela.

Mágoa
Queria chorar, mas chovia. Deixei para amanhã.

Contemplar
Somente nos olhares dela eu me via.

Dançar
Dançava coladinho. Até ela chegar. Daí, dancei.

Aposta
Perdi tudo. Apostei no cavalo errado: eu.

Escultura
Esculpi até parecer real. Parei. Então, fugiu.

Final
No final vi um pequeno ponto preto.
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Vendinha de interior

Por Márcio Arnaldo

-- Tem dendê?
-- Tem o óleo. Vai?
-- É claro que é o óleo! Eu ia fazer o quê com a fruta?
-- Sei lá, problema seu!
-- Ô saco!
-- Vai levar o óleo?
-- Vou levar merda nenhuma!
-- Tem certeza?
-- Quê?
-- Precisa de mais alguma coisa?
-- Eu preciso: chame o seu gerente, já!
Gritando:
-- Ô Tião, vem atender o doutor, aqui!
-- Pois não, senhor?
-- Eu só queria comprar dendê, caramba!
-- Serve o óleo?

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Década
Por Cristiano Deveras
“Você pode enjaular um tigre ,mas jamais terá certeza que ele está domado.
Com os homens a coisa é mais fácil.”

C. Bukowski

Dez anos. Cento e vinte meses. Mais ou menos 3650 dias, pois o ano bissexto atrapalha esta conta e as próximas. Oitenta e seis mil e quatrocentas horas, trezentos e onze bilhões e quarenta mil segundos. Este era o tempo aproximado que havia ficado separado da minha vida anterior. De quem eu era e quem sou agora...
Shopping em dia de semana é para quem têm muito para gastar ou para quem trabalha para ganhar. Caminho no meio das lojas com minha mochila nas costas, cheia de livros, despenteado, deixo o cabelo livre cair no rosto, sem me importar com o efeito ou com o olhar preocupado de uns seguranças, interessado de algumas vendedoras. Vou para a praça de alimentação.
Comprei uma cerveja em lata para rebater a ressaca lazarenta que toma conta do corpo. Segunda à tarde e eu com ressaca. Nada de anormal nisso. Havia recebido o telefone de manhã, mas só comecei a ficar mal da ausência de álcool depois do almoço. Levei meus sobrinhos no colégio e pus-me a andar daqui para lá, resolvendo uma coisinha aqui e outra lá: depósito em banco, orçamento de editora, um taxa na prefeitura e depois vim parar aqui. Enquanto bebericava a latinha, saquei um livro de um velho safado* e o lia para ajudar a passar o tempo. Embora o tivesse lido várias vezes, ainda assim conseguia me tirar algumas risadas. Uma garota de cabelo roxo, sentada em uma mesa próxima, parece que gostou da cena; sentado com um latinha do lado, ria sozinho lendo o livro de bolso. Em duas oportunidades que retirei rapidamente os olhos das páginas, pude ver que ele acompanhava meus movimentos com interesse. Em outra oportunidade talvez rendesse frutos.
Ela chega como quem não quer nada, vai logo dizendo que apesar do cabelo comprido, me reconheceu de longe: era o único que estava bebendo e lendo ao mesmo tempo. Os cabelos dela também estão bem grandes, alisados e mais claros que antigamente; a pele clara e o nariz naturalmente empinado não mudaram, mas o que sempre chama a atenção, o que me chamou a atenção de início foram aqueles olhos. O azul profundo e por vezes avassalador daquele olhar ficou retratado na minha mente em várias oportunidades: no dia em que a conheci, dez anos atrás, eram claros e esperançosos, notava-se a vontade de acreditar no que eu dizia; quando caí de moto, tempos depois e fiquei uns dias de cama, aquele azul nublado demonstrava o quanto a preocupação dominava suas ações; quando disse que a amava pela primeira vez, explodiram em um anil celeste, digno de um céu de brigadeiro e por fim, o nublado quase cinzento quando de cabeça baixa, tentando escapar das perguntas dirigidas pelos olhos dela, disse que estava tudo terminado.
Quase cinco anos de relacionamento, e cheguei do nada e disse que havia terminado. Do nada é modo de dizer: havia me apaixonado por outros olhos, negros como a asa da graúna e incrustado em um rosto leonino de uma outra beleza exótica. Fiz a troca de quatro anos por uns meses... Intensos e eternos enquanto duraram, mas mesmo assim, alguns meses.
Após os usuais ois e como vais, as perguntas por amigos e parentes, nos transferimos para um local mais adequado para uma conversação daquelas. Em frente ao lago Vaca Brava (nome estúpido para um lugar tão belo), em um restaurante da moda nos acomodamos e continuamos a conversação. Respondia as perguntas dela, mas me esquivava das indagações daquele olhar azul de tempos antigos... Olho para os preços no cardápio e me lembro que quando começamos, eu sempre fazia as escolhas olhando para o lado esquerdo do menu. Os preços não eram problema, naquela época.
Hoje meus olhos correm desesperados pela fileira da direita, enquanto a mente faz as somas para saber se o bolso consegue equilibrar a balança entre receita e despesa.
Era mais magro, mas não tão atlético, meu guarda roupa era infestado de ternos e gravatas, sapatos pretos e o corte escovinha me fazia parecer um milico envergando um Armani. Hoje, camiseta branca e calça jeans constitui em suma meu acervo. Mais alguns milímetros e poderei amarrar a cabeleira. Ela continuou com aquele olhar penetrante. Tentou me devassar e falei um pouco mais do que deveria. O pior foi lembrar de detalhes que ela já desconhecia. Irônico, para um cara que destruiu parte do setor de memória. Politraumatismo craniano, história antiga.
Formada e com pós em alguma coisa que não entendi; eu reativando Letras, depois de ter jogado fora dois anos de filosofia pela janela. Trabalha agora na maior capital do país, em uma grande indústria de produtos de saúde; egresso do mercado de trabalho, apliquei esse anos em vários tipos de negócios, de dia ou noite, colecionei estórias e experiências. O dinheiro, similar ao que foi feito por um jogador de futebol, investi em mulheres e muitas farras, o restante simplesmente eu gastei.
- Trabalho com marketing agora. E você?
Tentei inventar algo sobre uns projetos importantes. A toalha voou rápido.
- Escritor cola?
A conversa tomou outros rumos, afinal a literatura não paga minhas contas, entretanto aquele olhar continuava me avaliando, não só o exterior, mas também tentava desencavar algo de dentro de mim. Para minha sorte e perdição, sempre consegui disfarçar muito bem o turbilhão de coisas que se passa dentro de uma alma atormentada. Se houvesse Oscar para isso, era meu com certeza. Em mais de uma oportunidade, diga-se de passagem. Um silêncio inconveniente foi quebrado graças a “Loosing my religion” e a voz rasgante e deslocada no tempo de Michael Stipe atiça o braseiro de lembranças.
Jurei mentalmente que se fosse seguida de “Refrão de Bolero”, me jogaria embaixo de uma carreta de dezoito rodas.
Matamos um pouco do tempo conversando sobre as pessoas que passaram em nossas vidas, neste espaço de tempo e sobre essa solterice que nos acompanha: a quase totalidade dos nossos amigos em comum está casada ou em vias disso. Lembrei que seu olhar sempre brilhava ao ouvir a palavra “casamento”, mas sempre desconversava e dizia que tinha que se formar e fazer um mestrado antes. Agora já fez tudo isso.
Tirou um envelope de dentro bolsa e o balançou lentamente no ar. Então era a respeito disso que se tratava este encontro. Pagou a conta no cartão, levantou-se e me deu um longo beijo, daqueles bem antigos, de durar música inteira. Depois ajeitou a maquiagem rapidamente, deu uma retocada no batom. Na saída, atirou-me o convite de casamento na cara:
- Você nunca vai crescer mesmo.
Aquilo me desmontou. Dei o sorriso mais sacana que pude e não entreguei os pontos. Agora era ela quem desabava. O olhar, aquele olhar, o mesmo de dez anos atrás, havia me dito tudo, havia entregue todos os planos e desilusões em um átimo de segundo, em um vislumbre poético de uma alma feminina, tão forte na dor quanto no parto. Invejei aquilo. Por fora era a mesma rocha de sempre, mas meu interior estava mais liquefeito que mingau. Sorri de novo. Um sorriso dado na hora certa sempre quebra o clima. Virou-se e saiu, altiva e nobre.
Enquanto ela entrava no importado que havia alugado, fiquei me cobrando uma atitude, qualquer coisa. Lembrei que ainda tinha um dinheiro no bolso e que ela havia pago todo o consumo. Assoviei para o garçom e pedi que reabrisse a conta.
- Têm Jack Daniel´s ? Traz um duplo. E sem gelo, por que gelo em bourbon é pecado grave.

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Invadam-nos, iankees

Por Giovani Iemini

 

imagine: os yankees se cansam da nossa indolência em relação à amazônia, ao pantanal, às bacia hidrográficas e, sabendo do sucateamento do nosso exército, resolvem invadir o brasil.

um anarquista ateu com formação marxista, como eu, certamente deveria se alistar nas fileiras rebeldes de resistência, afinal, a liberdade é o bem mais precioso do ser humano. contudo, brado:

- invadam-nos, yankees!

o motivo da minha mudança de posicionamento é simples e prático, relaciona-se à mais profunda característica do brasileiro que é a inutilidade. sim, somos inúteis. o ultrage à rigor foi certeiro ao compor a música sinônima.

a supremacia da política vermelha nos últimos anos me surpreendeu. fizeram, lula e seus companheiros, tudo o que programou o FHC (um direitista), com o diferencial de serem mais incopetentes, mais corruptos, mais coniventes e muito mais totalitários. os norte-americanos gostam tão pouco da esquerda que até seus carros são automáticos para não precisarem apertar a embreagem (o pé esquerdo fica lá, paradinho).

como os brasileiros, historicamente dominados, são incapazes de gerir as próprios obrigações com responsabilidade e igualdade (não falo em assistencialismo eleitoreiro, entenda!), uma invasão yankee nos mostraria como mandar nossos corruptos para a cadeia e não para casa com habeas corpus safados julgados por tribunais burocráticos e insensatos, afinal, libertar bandido por erro técnico é o mesmo que acorbertar suas pilantragens.

aprenderíamos que o serviço público é direcionado ao povo, o soberano do estado, e não aos interesses daqueles que contratam seus comparsas incapazes e fantasmas intuindo geri-los de salários até as próximas eleições, para, então, contar novamente com seu apôio, enquanto as necessidades trabalhistas dos cargos continuam inexequíveis.

saberíamos o que é salário mínimo, plano de habitação, seguro desemprego, reposicionamento laboral, aplicação construtiva dos tributos, não esses arremedos de ações públicas que servem de paleativo contra manifestações populares. por que lá essas coisas funcionam, enquanto aqui estas atitudes quixotescas funcionam apenas como canal para o desvio de recursos nacionais?

pior ainda é ver que prefiro um líder que se exceda sexualmente com a permissiva secretária, gozando em seu vestido, que um presidente carateca aliado à assassinas oligarquias (afinal, Lindolfo, seu avô, matou com um tiro um colega no senado) que tenha f... o povo e volte à cadeira desta apodrecida casa legislativa com o aval alagoano.

não sou um norte-americanista, pelo contrário, desprezo sua prepotência e a intromissão, porém detesto ainda mais a inconsistência e o "revolucionarismo" insusbstancial brasileiro.

Raul Seixas, em música regravada pelos Titãs, afirmou que a solução seria alugar o brasil. bem, até poderíamos fazer isso, mas para tanto precisaríamos da posse desta terra, porém, bem sabemos, a terra pertence aos índios que violentamente matamos, estupramos e expulsamos, além de ainda o considerarmos silvícolas, ou seja, incapazes. seriam mesmo os índios os incapazes?

 

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InterNerd, 10 de dezembro de 2007
Editado por Giovani Iemini