Décima Segunda Rodada

 
     

 
Sei Lá
 

 

Il Bar del Crocevia de Alberto Sughi

 
 

Rodadas Passadas

 
   

 

   

Palavras 1204

 

Dado o grito

Por Viviane Marques

 

Por Spoke Quintela

Eu disse: não quero ir!
Mas lá fui eu cuspida
ninguém quis me ouvir

E vi tanta luz
e senti tanto frio
que não agüentei, chorei

Ai, o que era aquilo?
O que estava acontecendo comigo?

Então meus olhos se acostumaram
e tudo que fiz até hoje foi me acostumar
e desde então
tudo que tenho são só as palavras
meu novo jeito adulto de chorar

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o grito seco
da boca que vai
se calar,
na bala custada
e assinada
não vem maculado
na mancha
que o corpo
vem dar
pra gente lavar.

e grito já dado
feito e
matado
quem assinou
o jogo
de dados do dia.

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Ambientalizta

 

Rima pobre

Por Liz - Betty Vidigal

 

Por Robinson Sete

Por ora,
quero ser a mulher que te pesca e te devora.

Amanhã,
devolvo-te à água,
num gesto humanitário,
o anzol rasgando-te as entranhas.

Depois
para sempre na memória
a lembrança de ter sido erguido no ar,
sem ar,
preso a uma linha imaginária.
Para sempre o medo
de que mais tarde ou mais cedo
isto suceda
outra vez:

a isca ilusória,
a vara de pescar,
a angústia - e então
de volta ao mar.

Melhor o arpão.

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Nessa vida comeu putas
mentiu
traiu amigos
jogou
escreveu poemas como quem não quer ver o dia amanhecer
varou noites em claro pelo simples prazer de ter seus ossos doendo
roeu as unhas do pé
se engasgou

quase teve um enfarte
decifrou cartas
vendeu sua alma
nadou contra a maré
não se intimidou

sujou de sangue cobertores e talheres
ouviu discos arranhados e arranhou paredes de concreto armado
usou roupas da moda
ajudou senhoras idosas
inventou poções milagrosas
e roubou santos no altar

lambeu blushs e batons
amou mulheres e insultou sultões
fez o que lhe deu na veneta

só não atravessou o São Francisco a nado
porque um temporal danado
nesse dia
caiu
do seu lado

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Auto-crítica

Por Zé Ronaldo

Os escritores da comunidade entraram em polvorosa ao saberem da notícia: todos seriam contemplados com a publicação de um livro. No ato, mais de oitenta por cento dos participantes pararam de escrever.
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Valtinho Binômio

Por Anderson H

  Valtinho tinha jeito pra coisa. Era tudo no binômio:

uma esquerda federal - uma direita de responsa;
fôlego de sobra - coragem no teto.

Sabadão, noite quente-favela fervendo. Nós dois no balcão do bar analisando o sobe-desce: um olho no gato - outro no peixe. Só cerveja - bomberinho (pinga - groselha).

- Truta, aí, quem é o mané de azul?
- Sei não, Valtinho. Ele tá na dele e nós na nossa.

Mais cerveja-bomberinho...

- Ei trouxa, qual é a parada?

Sem resposta.

- Qual é trouxa, fala não?!
- Deixa o cara, Valtinho! Nada ver cê arruma treta essas horas, no meio do movimento.

Valtinho grudou no sujeito, caiu pra fora do bar e foi uma trocação de soco daquelas! O mané enfileirou uma seqüência na altura do abdômen e o Valtinho ganhou o chão de joelhos. O sujeito-atrevido sumiu morro abaixo.

- E aí truta?! Hahahahahaha Ta caindo fácil assim, é?!
Quando se levantou a camisa estava empapada de sangue. Uma faca-curta, ponta-serrada, matadeira...ele sabia...

- Não me deixa morrer, meu irmão! Pelo amor de Deus, não me deixa morrer assim!

Nunca mais vi o mané na área... Valtinho só nos pesadelos...

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Venéreo
Por Muryel de Zoppa
Da roda, era ele o que comia todas, sobretudo as que não convinham.
A turma de amigos, um bando de desocupados que nutriam de um senso de humor inconteste.

Em sua lápide, ao lado da devida biografia, lê-se pichado 'Aqui jaz Pac Man'.

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Abaixo a poesia

Por Robertón Hefler

  ...

Cansam-me os poemas, são repetitivos, limitam-se nas rimas, pelas métricas, em seu próprio mundo. Sofrem com amores efêmeros, com desamores, com paixões dilacerantes e enquanto todos transpiram, os poetas inspiram-se dos odores naturalmente fétidos do corpo...

Poesia é a razão que se apaixonou pelo tudo ou pelo nada, é como se cruxificassem a argumentação, é congelar o sentimento da emoção mais íntima, estravasando-a nas micro-ondas do poeta...

Poetar é como doutrinar a palavra com ritmos e rituais, é como ordenhar um dicionário em busca da exatidão mais ampla, e, num instante seguinte, libertá-las na contextualização do leitor.

Os poetas, sempre tão cuidadosos em seus parâmetros, sonham, sofrem e amam com tal intensidade que amam e sofrem e sonham simultaneamente, são escravos da liberdade matemática, tradutores das emoções, desbravadores do óbvio, precursores do caos ordenado, sensíveis insanos, zeladores da paixão...

E despejo minha inveja cronicamente...

...
 

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InterNerd, 20 de novembro de 2007
Editado por Giovani Iemini