Décima Primeira Rodada

 
     


Bar de Dignimont André


 

Rodadas Passadas

 
   

 

   

faz um pra mim

 

Cinzel

Por Viviane Marques

 

Por Ângela Gomes

eu sempre escrevi todos os versos
pixei no seu muro
rasguei minha blusa

eu sempre fui a frívola, a fácil
sempre me dei como se fosse
um lixo

e sempre fui aquela que amou demais

agora, faça um favor
faça um poema pra mim
faz um pra mim...
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Mataram-me mais

Do que havia para morrer.

Encantamento trincado,

Azul desfigurado,

Silêncio pra remoer.

Enterro sem sepultura

À sombra dos varais

Secando os nós da ruptura

Molhados de entardecer.



Colher de cal, cimento e sal

Sem lágrimas, sem mar.

Somente um corpo velando

Sua insone noite escura.

Como fosse ígnea a treva,

Lúcida a loucura.
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Há risco

 

Eu Me amo

Por Maria Júlia

 

Por Me Morte

O risco rasura as linhas traçadas à risca
enquanto a mente revolve o risco,

os dedos desatinados percorrem o papel,
palavras escorrem, ora doces, ora fel

a certeza balança lenta envolta ao mistério
do descomedido vitupério... tormenta,

a noite é uma roleta muda, a bola não para onde enumerei
arrisco mais uma rasura bem na frase que mensura os sentimentos que a (risquei).


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Hoje acordei assim
Libidisosamente minha
Recitei-me, poetei-me
Fiz melhor,
Me compus.
Hoje me olhei no espelho
E me apaixonei.

Pena que as paixões são breves...


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Bodas de outono

Por Lameque Lopes

Consultou o relógio cogitando a hipótese de Janete haver desistido. Ele sabia que o atraso das noivas fazia parte de um ritual cumprindo a risca por dez entre dez mulheres, mas aquela demora o consumia em incertezas. Motivos para temer o abandono em pleno altar não ele não poderia deixar de tê-los, afinal, houve muita oposição da parte dos parentes da noiva em relação aquelas bodas. “Onde já se viu? Unir-se a um homem que mal conhecia?” tornou-se um bordão entre boa parte dos familiares da noiva que também definiam o casório como “um gesto de irresponsabilidade em dose dupla”. Entretanto, a futura companheira dobrara a todos se utilizando daquilo que Nestor logo percebeu ser uma das suas maiores virtudes: a teimosia. Casariam-se e ponto final. O resto “que se danasse” como Janete costumava dizer com singela naturalidade.
O noivo afrouxou levemente o incomodativo nó da gravata enquanto matutava sobre a possibilidade de Janete haver de véspera pesado os prós e os contras de uma união com aquele quase desconhecido e concluir pela desistência. Encarando de cima do altar as incontáveis cabeças humanas a congestionar o átrio da igreja, Nestor pensou no papel mais ridículo que ele representaria em sua vida medíocre se a cerimônia não se realizasse.
Recordou-se do primeiro encontro entre dois, em uma feira-livre, há algumas semanas, quando ele ainda lutava para acostumar-se ao vácuo provocado pela ausência da sua esposa. Desde a sua partida, Nestor descobrira o quanto fora dependente da mulher e o resultado desta submissão o tornara incapaz de lidar com as mais corriqueiras tarefas domésticas. Sempre fora homem da rua, provedor de uma casa que, ausente de filhos, funcionava satisfatoriamente sob o comando da companheira. Agora, além da dolorida saudade, tinha que, resignado, adaptar-se a sua nova vida e tentar vencer e o desafio que uma banal feira-livre poderia representar.Foi dela a iniciativa de aproximar-se e perguntar ao homem atrapalhando diante do dono da barraca de temperos se precisava de ajuda, depois de observá-lo confundir de modo patético um molho de salsa com outro de hortelã. Janete em minutos desvendou-lhe os segredos das especiarias, apresentadas a Nestor embrulhadas por cativantes sorrisos. Tímido, o homem agradeceu o que a princípio lhe pareceu certa intromissão de uma desconhecida, mas a simpatia que aquela mulher suburbanamente trajada e puxando um carrinho de feira emitia desfez a sua prelúdica má impressão. Em minutos, Nestor deixou a feira-livre com a leve sensação de estar apaixonado.
E era paixão mesmo, das boas. Desde que conhecera Janete, a ida semanal a feira tornou-se um acontecimento especial na vida de Nestor. Arrumava-se como se a um importante evento fosse, trajando roupas da melhor maneira aceitável para aquele ambiente, tomando cuidado de não destoar dos outros freqüentadores e tornar-se uma figura caricata entre as barracas de frutas e legumes. Quando avistava Janete, seu coração galopava de ansiedade. Forçava a coincidência do encontro e ia feliz em companhia de sua amada, trocando simpatias entre odores de peixes, reclamando dos preços em meio a temperos e hortaliças, falando mal do governo tendo como fundo musical o pregão dos feirantes.Um dia, Janete o convidou para irem ao cinema. Apesar de surpreso pela audácia do convite, ele alegremente aceitou. Nestor gostava de comédias açucaradas, Janete adorava filmes de terror. E na escuridão do cinema, entre gritos histéricos da mocinha perseguida por um psicopata na tela em cinemascope, o casal trocou o primeiro beijo. Na semana seguinte, no alto de uma roda-gigante, ela o pediu em casamento. Novamente surpreendido pela ousadia feminina, Nestor aceitou sem pestanejar.


Pendurado naquele altar, imerso em verdes recordações, Nestor envergava seu terno de missa, ensopado pelo suor que o calor daquela tarde-noite de verão produzia. Associava-se ao desconforto do clima quente o seu nervosismo em protagonizar aquele espetáculo sob risco de não se realizar.Suas dúvidas foram sepultadas ao ouvir os primeiros acordes da marcha nupcial invadindo a nave com Janete surgindo na entrada da igreja. Uma linda noiva, conduzida com seriedade pelo seu irmão preenchendo a lacuna deixada pelo pai falecido. Para Nestor, pareceu uma eternidade a distância percorrida pela futura esposa até o altar. Seu cunhado, um tanto contrariado, a entregou e, diante do sacerdote, os dois selaram sua união perante Deus e os mortais.
Festa simples. Bolo minúsculo onde não faltou o casal de noivinhos no topo, sidra ordinária estourada e votos de felicidades. Lua-de-mel mais parcimoniosa ainda, no quarto onde de agora em diante eles iriam morar. Estavam casados. Era o que interessava. O resto “que se dane”, pensou Nestor com sorriso maroto estampado na cara, deitado na cama de casal, na companhia do seu pijama novo, comprado especialmente para a ocasião. Janete saiu do banheiro vestindo sua camisola de núpcias encobrindo o corpo magro. Sorriu para ele. Nestor estendeu o braço direito e ofereceu o ombro para a esposa aninhar-se. Passaram a noite assim, abraçados, trocando confidências e juras de amor até que o sono os assaltasse. Quem precisava de sexo aos oitenta anos? Ambos haviam experimentado destes prazeres com seus respectivos primeiros cônjuges. Para aquele casal de agora ex-viúvos bastava a mútua companhia. O resto, inclusive os idosos, testemunhas da sua noite de núpcias, que ocupavam aquela ala dos dormitórios do asilo onde eles se internaram para viver o outono de suas existências, que se danassem.


*XII Antologia de Contos Albert Renart. Fundação Cultural Cassiano Ricardo (São José dos Campos - 2007)

Blog do Bar do Escritor, em 09 de julho de 2007


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O susto

Por Efe

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sem palavras

Por Wilson R

 
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Bragança Paulista. Um dia qualquer deste mês. Uns caras roubaram uma loja na qual um deles trabalhou durante anos. Raptaram uma criança de 5 anos e seus pais. Amarram-nos dentro de um carro e atearam fogo. A criança foi queimada vida. Com seus pais.

A pena de morte não pode ser admitida. Sabe, a gente não pode ser criminoso como eles. Estamos longe dos tempos de Hamurabi, hoje as leis são modernas. Hoje as leis são feitas de códigos de acusação e defesa, hoje há advogados... Afinal, não somos mais bárbaros da estirpe “olho por olho”. Isso é passado distante e já esquecido. E a criança foi queimada viva. Com seus pais.
O problema do país é social, é educacional, é profundo. Quem tem uma vida miserável e cheia de carências não dá valor à própria existência, quanto mais à existência dos outros. A desigualdade social é a causa primeira dos crimes no Brasil. Quem é discriminado socialmente não pode receber toda a culpa do fardo que lhe impuseram. O discriminado socialmente é tão vítima quanto agressor. E a criança fui queimada com os pais. Estavam vivos, os três.
Num país onde a distribuição de renda é tão injusta, não é difícil entender por que a criminalidade aumenta tanto. E o ser humano é complexo e alguns não sabem lidar com algumas facetas ocultas na própria personalidade. Esse ser humano envereda-se pelos tortuosos caminhos marginais à lei dos homens quase que involuntariamente. E a criança foi queimada. Viva. Os pais estavam com ela.
Sabemos que a justiça dos homens apresenta algumas falhas, mas é a lei que temos e a lei que devemos cumprir. Não há como manter a ordem numa civilização, aliás, não há nem mesmo como existir uma civilização se não houver obediência às leis dos homens. Nós a aplicamos e esperamos seus efeitos, afinal, todos têm direito de defesa e podem ser reeducados e reintegrados à sociedade. E a criança demorou para morrer, queimada dentro do carro.
E, caso falhe a justiça terrena, não nos esqueçamos da Justiça de Deus! Todos morremos e teremos que prestar contas ao Criador sobre nossos atos. Não importa a religião, todas – TODAS – pregam a bondade e o amor ao próximo. Todas as religiões podem oferecer conforto e todas as religiões prevêem a salvação dos pecadores. Deus perdoa, ora, claro que perdoa!
E a criança não entendia nada, enquanto morria queimada. Gritava e procurava seus pais. Eles estavam com ela, ali. Dentro do carro.

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InterNerd, 10 de novembro de 2007
Editado por Giovani Iemini