Sétima Rodada

 
     

Cartun de Emerson Wiskow

   

 

           
       

Imperfeito

   
       

Por Fernando

   
       

Na gana de parecer perfeito
Zelo pouco pelo conteúdo
Quanto à forma, contudo
Esmero para causar efeito

Eis o meu defeito!
Parecer o que não sou...

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Cotidiano

 

Parnasso

   
   

Por Paulo F

 

Por Wilson R

   
   

É que eu só não me convenço

que o meu cotidiano

valha sempre

mais ou menos

que o de outro ser humano.

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vivo
e oro
por todo tempo já corrido
pelo deus que alguém venera
por toda luz que existe
pela vida de toda uma era
pelo éden distante e perdido
pelo frio inferno que me espera
vivo
e oro
pela vida dos que já se foram
pela morte dos que ainda restam
pelos prazeres que castigam o corpo
pelos desejos sujos que não prestam
pela complacência dos submissos
pela ira dos que contestam
vivo
e oro
pelo ócio, pelo cansaço
pelo ódio, pelo abraço
pelo ópio, pelo bagaço

pela puta
pelo cabaço

vivo e oro
por meu parnasso.

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O Balão

         
       

Por Carlos Cruz

         
        Puta que pariu! Que sujeira! - exclamou a empregada, ao deparar-se com os pedaços de carne e todo aquele sangue ao longo das paredes, dos móveis e do teto. O computador estava ligado. Limpou o monitor. Aturdida, leu a seqüência interminável de elogios à poesia de seu patrão, conhecido na vizinhança e nos meios acadêmicos como "João, O Balão". Vira acontecer várias vezes, elogios o faziam, literalmente, inflar. Críticas negativas surtiam o efeito inverso. "Esses médicos filhos da puta não servem para nada. 'Sr. João, sua doença é nova. É o primeiro caso registrado nos anais da Medicina...' Vão todos tomar no cu, ou melhor, vão tomar nos anais deles" - ouvira-o esbravejar, certa vez. Olhou o monitor novamente. "É. Parece que esta agradou geral... Coitado do Seu João. O sucesso, que ele tanto queria, acabou fazendo-o estourar." - pensou, enquanto retirava um pedaço de intestino de sobre o teclado.
         
       

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Cinderela de óculos

         
       

Por Giovani Iemini

         
        Eu tava puto. O chefe me pedira para estacionar seu carro. Deu-me a chave e disse para tomar cuidado. Sujeito folgado, eu era vendedor não motorista. Se pedisse para limpar os tapetes eu o mandaria pro espaço.

Mal estacionei quando vi a loira. Cabelos lisos, peitudinha, já era balzaquiana mas exalava a sensualidade juvenil de quem busca aventuras. Ajeitei melhor os óculos escuros para investigar seu decote.

- Oi. – Ela disse. – Pode me ajudar?

É comigo? pensei.

- Onde fica o setor de hotéis? – Sua voz era impostada como uma atendente de tele-sexo. Uma placa atrás dela dizia “Setor de Hotéis Sul”. Notei que seus óculos eram sem grau.

- Ali. – Apontei.

- Oh. – Ela sorriu com uma sedução matadora. – Como sou tola. – Tocou de leve meu ombro. – Cheguei agora em Brasília e não conheço ninguém...

Guardei a chave do patrão no bolso e, num estalo, compreendi que ela me tomou pelo dono da Mercedes.

- Posso te indicar o Hotel Meliá. – Lá trabalhava o Welington, um amigo tão pé-rapado quanto eu. – Ótimo padrão. – Completei, charmoso.

Ela agradeceu e mais uma vez me tocou o ombro. Ficou me olhando, parecia esperar minha investida.

- Mais tarde podemos beber um drink, se quiser. – Nós, donos de mercedes, somos bastante galanteadores. E eu sempre quis dizer “se quiser” para uma loira daquelas.

- Claro. Será um prazer. – Seu sorriso quase me implorava maiores avanços. – Anote meu número.

Voltei para a empresa e fingi trabalhar até o fim do horário. Liguei para o Welington perguntando se uma loira havia se registrado lá.

- Ela tá perambulando pelo saguão. – Falou. – Tem a maior jeitão de golpista.

- Sim, eu percebi.

Corri para o hotel.

- Oi. – Ela estava no balcão do bar bebericando água de torneira. Sua satisfação em me ver foi evidente.

Chamei o garçom imaginando como pagaria a conta. Ela pediu Martini seco. Eu queria uma cachaça mas pedi o mesmo, não queria que meu copo fosse diferente do dela. Na mente vinham as notícias sobre o golpe “boa-noite, cinderela”, em que empresários eram drogados por um loira fabulosa e depois roubados ou seqüestrados. Eu certamente seria uma decepção, mesmo que ela fosse honesta. Ou melhor, menos vagabunda.

Conversamos amenidades. O garçom trouxe ainda três rodadas antes de mudarmos para o uísque. Eu mantinha meu copo longe de seu alcance, preso nos meus dedos. De repente ela deixou cair o batom do estojo de maquiagem que retirara para empoar o nariz. Abaixei-me e lhe entreguei o objeto. Nossas mãos se tocaram e ela a acariciou, parecia segurar meu pênis com aquele toque.

- Vamos para o quarto? – Perguntou, assim, na bucha. Será que era esse o mundo dos ricos e poderosos?

- Sim. – Balbuciei, forçando-me para parecer seguro.

- Antes beba seu uísque.

Meu uísque? A sirene de perigo tocou na minha cabeça. Ela poderia ter colocado algo do estojo de maquiagem na minha bebida quando me abaixei. Talvez fizesse efeito logo que subíssemos.

- Sim...- Concordei e levei o copo aos lábios. Ela me olhava fixamente, dando a certeza que eu precisava. Parei o copo no ar fingi-me hipnotizado por sua beleza. Puxei-a levemente pela nuca, trazendo seus lábios junto aos meus. Ela fechou os olhos para me beijar, eu troquei as bebidas. – Mas, antes, os uísques. - Virei meu copo de um gole só. Satisfeita, ela também virou seu copo e passou a mão sobre minha virilha.

Fomos ao balcão do hotel e pedimos um quarto. O Welington nos atendeu, fingindo que não me conhecia. Anotou os dados da loira.

- Aqui está. – Estendeu a chave. – Suíte 605.

- Obrigado, meu bom homem. – Peguei a chave e a coloquei no bolso. Virei-me para a mulher. – Querida, vou ao toillete. Esse uísque com gelo... Espere-me perto do elevador.

Ela me beijou e saiu. No caminho pegou o celular, discou e esperou.

- Me dá outra chave, Wel.

- O quê?

- Muda o quarto. Ela deve estar avisando alguém, um comparsa, sei lá.

Meu amigo sacou a jogada. Deu-me a chave do 506.

- Divirta-se. – Profetizou.

- Irei. – Respondi.

No elevador ela deu o primeiro sinal de sonolência. Nem percebeu que descemos no quinto andar. Em frente ao quarto agarrei seus seios e a pressionei de costas na porta. Ela não viu o número.

- Espere, querido, vamos beber outro uísque. – Sua língua estava grossa.

- Claro! - Abri uma garrafa de Balantine´s do bar sem nenhuma apreensão, eu não iria pagar aquela cara bebida. Servi nossos copos. Ela bebericava enquanto pestanejava. Devia esperar meu desmaio, nem notava que era ela própria que estava drogada.

- Vou me deitar. – Bocejei. - Venha aqui.

Ela se deitou ao meu lado. Mesmo delirante tentou proteger suas pretensas virtudes mas estava fraca demais. Refestelei-me com seu corpo perfeito, suas ancas arrebitadas e os peitos siliconados. Pedi outra garrafa de uísque e duas caixas de camisinhas. Descobri que o hotel vendia máquinas fotográficas descartáveis e registrei nossa foda em 36 poses.

Fui embora ao amanhecer, tinha que trabalhar. Welington me ligou contando que o quarto 605 havia sido invadido. O melhor foi saber que a loira acordou desnorteada e sem dinheiro para a conta. Chamou o marido, ou quem fosse, para o pagamento. Meu amigo, esperto, resgatou as fitas de vídeo da segurança a tempo de reconhecer o tal marido como o principal suspeito da invasão ao hotel. Àquela hora, umas 10 da manhã, estavam todos na delegacia tentando resolver o imbróglio. Contou ainda que a loira seria investigada como estelionatária.

Meu chefe pediu para limpar os tapetes de seu carro. Estacionei na rodoviária e o larguei de vidros abertos e com a chave na ignição. Foi roubado assim que entrei num botequim para beber uma água. O uísque havia me dado ressaca.

Peguei os óculos sem grau que havia roubado da mulher. Era um modelo bacana, italiano. Agradeci a mim mesmo por desconfiar de todas as pessoas que andam de óculos sem grau. Certamente ela o usava para disfarçar a aparência. Chamei o dono do botequim e o ofereci em troca de uma caixa de antárticas. Ele topou.

- A você, Cinderela, que tanto me satisfez. – Brindei e bebi. – E a você, ex-chefe, que vá procurar seu carro no espaço.

         
                   
       

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Aos poetas: a beleza insubmissa

         
       

Por Thomás Torpo

         
                   
        Pobre do poeta que crê poder tomar da natureza a beleza. Quantos são os que pensam que a escolha de um tema belo garante a criação de uma escrita também bela? Erro essencial. A beleza na escrita é outra.

- Mas poemas sobre o espírito são tão belos. Ou então os que têm flores e pássaros; adoro esses mais bucólicos!

A beleza verdadeira é em essência revolucionária, pois insubmissa. Não importa o tema ou a motivação, pois ela transborda temas e motivações. É insubmissa, pois indiferente e independente dos meios que a produziram. Depois de feita, tem vida própria – imprevisível.

- E o coração, a lágrima e a solidão? Sim, as rimas. E as rimas?

Não há regra para isso, pode ou não haver rimas. Não há garantia gramatical na produção da verdadeira arte. O fato é que se está sob controle não é verdadeiro. Por isso, toda ditadura teme a beleza da arte, mas deseja a plasticidade da publicidade.

- Então era isso! O tal engajamento.

Quem falou disso? Pode ser, ou não. A questão nunca foi essa. Os livros que importam são os primeiros a serem queimados. Não é o tema, é a potência. Se tiver os dois, então... O que interessa é saber que toda beleza verdadeira, por sua simples presença, quebra a ordem previsível imposta pelos determinismos históricos.
         
       

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InterNerd, 16 de agosto de 2007
Editado por Giovani Iemini