Sexta Rodada

       
                   
     
 
 
 

 

     
       

A Bar at the Folies-Bergère de Edouard Manet

         
                 
                   

 

           
   

Tesão

 

Veneno

   
   

Por Leonardo Spoke

 

Por Sirlei Passolongo

   
   

Acordou molhada,
Dos sonhos
Sádicos.

E como gostava
Dos sonhos
Sádicos...

Sempre deixava
A porta aberta
Nas noites quentes.

E num belo dia

Acordou penetrada
Pelos homens
Maus.

As opiniões no bar


 

Há um veneno
em minhas veias
Que embriaga minha alma
Fez meu coração em teias
E do meu sangue tirou a calma

É um venero, é um vicio.
Sem antídoto,
Um feitiço!
É um veneno que queima
Que amarga
Embriaga
alucina
contamina

Na boca ainda sinto o gosto
Do veneno doce que você deixou
Agora, sem ver seu rosto
Só seu veneno restou.
E no meu peito o sufoco
de um veneno que mata aos poucos
E morrendo estou devagar
Sem você para me salvar.

As opiniões no bar


   
             
   

Minha língua negra

 

Engolir ou cuspir

   
   

Por Larissa Marques

 

Por Cucumber

   
   

minha língua negra
de escárnio e mal dizer
não se cansou de profanar os cúmulos
e fere
deliciosamente lambe
as vergonhas alheias
desnuda as virgens santas marias
descarna os sacerdotes puros
falseia
e ri de tudo
toda prosa se reinventa
cuspida e ardilosa
chama a dor de gostosa
e gargalha-se
do mal
minha língua preta
de tanto lamber o sapatos
agora é pura graxa de estação
que molha os trilhos
e leva ao tesão
cantem a língua da maldita
da senhora treva
que faz todos dançarem
em torno de si
olhos de fogo
hão de arder em seu sexo
e em chamas
chamará meu nome
sou a lama em que todos chafurdam
sou a cama em que todos se entregam
sou a gota menor
do veneno maior
sou língua profana
que a todos inflama.

As opiniões no bar


 

Eita melado!
Um pulsar do cão!
É como ela faz:
Língua, dente, mão.

Eita melado!
Um roçar no chão!
É pra não sujar?
Pô, engole então.

Eita melado!
Porra na boca,
Que puta louca,
Que cuspiu em mim,
Meu gozo sem fim.

As opiniões no bar


   
             
   

O vento

 

O santo boquete

   
   

Por Wilson R

 

Por Flávia

   
   

o
vento
nada
traz.

o
vento...

(lindo)

o
vento...

(maldito)

o vento...

ele

leva.

As opiniões no bar


 

Sacio-me no auge que é teu falo de Hermes
Gosto de amoníaco e excentricidade
anjo demoníaco e casto
tu me lembras o choro contido que guardei tanto
enquanto, esvaindo-se em esperma
Me batizavas, santo, com tua virilidade

As opiniões no bar


   

 

       

         
                   
       

Cain está entre nós

         
       

Por Zé Dr Jeckyll

         
                   
        Levava vida insignificante em uma cidadezinha do interior. Jovem filho de um político local, não foi difícil arranjar colocação no único jornal daquela comunidade provinciana. Sob o grosso manto do emprego intermediado pelo pai, produzia artigos verborrágicos que julgava admiráveis. Aos sábados, semanário dobrado e encaixado sob a axila esquerda, desfilava sua arrogância pelos bares da cidade.

Era alvo constante dos louvores do seu chefe, um editor atolado em dívidas com o tal político e tão medíocre quanto ele. Em verdade, o destino — este sarcástico incurável — ligara as três personalidades apagadas: o Pai, o Filho e o Espírito Pouco Santo do editor.

Acreditando estar escorado pelo prestígio paterno, ficou abalado quando certa tarde o editor lhe fez uma pequena crítica. Construtiva ou não, o chefe lhe dissera que faltava vida no artigo que escrevera. Voltou para casa amuado, deitou-se na cama, encarou o teto e chorou seu primeiro fracasso.

As críticas se tornaram cada vez mais freqüentes. Tentava argumentos que imaginava sólidos, mal disfarçando sua irritação. Cheio de mimos, odiava ser contrariado, pois crescera desconhecendo o significado de uma negativa aos seus caprichos. Em seu íntimo, estabeleceu assim que o editor não passava de um incomensurável cretino, esquecendo que o considerava genial quando antes o elogiava.

Dando seqüência a sua orgia de rancores, decretou que o editor era o maior idiota já parido pela humanidade quando ele passou a desfiar elogios aos textos de uma estagiária de pernas grossas, recentemente contratada.

Neste dia embebedou-se e vomitou o seu despeito.

Passou a acompanhar com avidez as matérias escritas pela estagiária, apontando defeitos nos textos da mocinha e, em contrapartida, auto elogiando-se. Já não era bem visto no jornal e começou a ser evitado pelos colegas na redação que o travavam pelas costas de Caim, o invejoso.

Quando foi publicamente censurado pelo editor ao trocar em uma matéria o nome de uma autoridade estadual em visita a cidade, voltou para casa furioso, ligou para o amante clandestino e exigiu prazer naquela noite como tentativa de apagar sua sensação de derrota.

Todo o ódio reprimido explodiu ao saber que o editor tinha um caso amoroso com a estagiária de pernas grossas. Como nutria uma paixão platônica pelo chefe, sentiu-se duplamente traído em sua vida sentimental e jornalística.

Naquele dia, não voltou para casa, não chorou seu fracasso, não vomitou o seu despeito em álcool e muito menos aplacou suas frustrações nos braços de um rapaz. Matou a estagiária com cinco facadas e, vestindo as roupas da vítima, bateu na porta da casa do objeto de sua paixão. Ao atender, o editor pasmou-se com aquela caricatura de mulher, sangue maculando as mãos, rosto desfigurado pela insânia, desesperadamente a gritar: “Eu te amo!”.

         
       

As opiniões no fórum do Bar

         
       
         
                   
                   
                   
       

Libertação

         
       

Por Zé Ronaldo

         
        - Ô mulher, ninguém te gosta não! Olha, às vezes, temos que pagar a algum forasteiro para que venha te procurar e fazer programa com você. Por piedade mesmo. Você é a mais antiga aqui e todas nós nos afeiçoamos a ti. Por isso fazemos isso! – e saiu, tampando o riso com a mão, enquanto as outras colegas de trabalho davam-lhe tapinhas nas costas e riam debochadamente, ora olhando para trás, num intuito de machucar a vítima ainda mais, ora falando que ela era doida de falar assim com a velha.
Quedou-se sem fôlego por um momento. Olhou ao redor mas sem enxergar nada. Surda também ficou. Ouvia apenas a batucada frenética que seu coração, aumentado em decibéis, ensurdecedoramente produzia. As têmporas já estavam anestesiadas de tanta dor. Um gosto de sal na boca e nos olhos principiou-se. Desabara.
De volta ao seu quarto, mirou-se no espelho do armário capenga, onde guardava seus objetos e bugigangas. Deu um longa e infinita olhada em si mesma. De cima para baixo. De baixo para cima e além, de fora para dentro. Enxergou-se. Um nanoconto passou-lhe pelas idéias. Crescera, virara moleca, fora deflorada, desgraçou-se, prostituiu-se.
As lágrimas borravam-lhe a maquiagem barata. Choro sentido, convulsionado, com soluços pueris de quem nunca fora criança. Abriu a primeira gaveta do armário. Sacou de lá um saquinho de drogaria, com umas cartelas de comprimidos antidepressivos. Um a um, engolia-os, às tragadas de uísque pé-de-chinelo. Deitou-se.
E delirou entrando num Paraíso profano, com uma falange de caralhas voadoras a recebê-la, logo na entrada, durinhas, durinhas, a salpicar-lhe gotículas de um esperma gozo-viscoso, e inúmeros dedos hirtos a forçarem-lhe passagem pelo esfíncter, num afã descontrolado de lascívia e desejo. Urros prazerosos ouviam-se, mesclados às músicas fuleras de motéis furrecos, sinfonia bolinativa suíte número quatro, enquanto línguas de fogo lambiam-lhe os seios e o clitóris e dentículos mordiscavam a ambos . No ápice do sonho surrealista, eis que surge Príapo, envolto em.um manto púrpuro luxuriante, com um inúmero repertório de imagens douradas das posições do Kama Sutra E, num beijo voluptuoso, arrebata a ela e cavalgam, majestosamente, num falo alado, para as imensidões das Terras Molhadas.
Encontraram-na morta, no dia seguinte. Um baita sorriso tatuado em suas faces e uma mancha de corrimento descomunal no colchão furado.
         
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  Não me importo com os brasileiros

         
       

Por Giovani Iemini

         
                   
        Minha azia atacou, eu lia as notícias matinais na privada. Lugar perfeito para tanta merda: corrupção, descaso, roubo, falta de vergonha. O estômago repuxou. Pensei no povo:

- Desisto.

A azia provocada pela ansiedade de um Brasil melhor sumiu. Assim, magicamente, na hora que entendi que a responsável pela manutenção da própria desgraça é a população.

O voto, para mim, um anarquista, é a expressão da dominação oligárquica através do sistema democrático. Com a obrigatoriedade os cidadãos acabam concedendo a alguém a sua anuência ao governo. Numa sociedade basicamente analfabeta (para não dizer ignorante), as manipulações econômicas são evidentes. Resta aos instruídos e excluídos da pilantragem (claro) a triste aceitação passiva.

- Sim, passiva, senão me ataca a azia.

Contudo, conhecendo melhor o povo, vê-se que ele não é um Grande Otelo mas um Mané Garrincha. O Otelo mostrava-se malandro, fugia dos problemas por cima, porém deixava claro que só é feliz quem é correto. O Mané, em seus prazeres parecia abobalhado, gostava da simplicidade, mas era um sedutor arguto e beberrão incorrigível. Fingia-se tolo para ser perdoado. Dava um jeitinho. Igual ao povo.

A troca do voto por qualquer favorecimento pessoal é responsável pela existência da trupe de peraltas que urubuzam o estado brasileiro, restando aos cidadãos contentarem-se com as réstias da lavagem.

Mesmo a venda do voto em troca da comida, ainda esta, é um ato execrável. “Você come, mas condena seus filhos à fome” diria um sábio.

É a concordância com a roubalheira, a corrupção, a indolência, a hipocrisia dos governantes. É como se participasse de toda a libertinagem, porém, curiosamente, o espólio não surgisse, permanecendo nas mãos dos donos do poder. Nem a isso presta o povo: continua pobre enquanto enriquece os sacanas.

Em Atenas, o voto era comum a todos os cidadãos (homens, adultos e gregos), 2% da população. O resto, a plebe, esta permanecia sob o jugo dos democratas. O curioso é que os debates ferrenhos conquistavam quase metade das partes para cada lado, com o destino sendo decidido pelo decisivo voto de poucos. Assim, quase a metade (dos cidadãos, sem contar a plebe) deveria aceitar o que pouco mais da outra metade decidiu. Que raio de igualdade é esta que tantos devem aceitar o que poucos escolheram? Por que, aliás, todos devem ser iguais?

Talvez, nos tempos gregos, com a tecnologia do aço apenas, os filósofos não conseguissem vislumbrar uma sociedade em que cada cidadão tivesse sua importância baseada naquilo que ele devolve a esta sociedade em forma de trabalho, impostos, participação e outros fatores subjetivos. Será que este cidadão, hoje, após a revolução digital, deveria ser obrigado a aceitar a decisão de um grupo que pensa diferentemente de si ou, talvez, pudesse ter suas impressões respeitadas para seguir um curso paralelo?

A azia. Parei com tanta filosofia.

- O povo é burro. – Lembrei-me.

Ele jamais entenderia que tem nas mãos a capacidade para mudar o próprio destino. Nem tentaria explicar que a anulação do voto é a forma precípua de informar aos legisladores que não queremos mais este sistema formal e ultrapassado, além de execrar os candidatos partícipes da bandalheira pútrida do nosso governo. Me forcei, contudo, a aceitar que o povão não entenderia que simplesmente votando em pessoas desvinculadas de qualquer interesse corporativo eles alterariam o curso corrompido do sistema existente.

Sim, ainda sonho em ver os brasileiros colocando a própria gente nos cargos de relevância, para organizar esse trem pensando no bem de todos. Não quero mais ver o esfacelamento do poder pela simples incompetência dos governantes. Basta da corrupção de inaptos.

A azia.

- O povo é burro ou se faz de burro – Disfarcei para mim mesmo. – querendo dar um jeitinho...- Respirei fundo, tentei me controlar, mas acabei gritando: - a prova que realmente é burro!

Oras, não percebe que corroborando o sistema vigente jamais será patrão, nunca deixará de ser empregado.

- Não me importo com os brasileiros! – Menti em voz alta. Me senti melhor, mais calmo, o estômago ficou frio. Preparei-me para o dia e sai. Sem puxar a descarga, afinal, sou brasileiro: não me livro da merda.

         
       

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InterNerd, 18 de julho de 2007
Editado por Giovani Iemini