Sexta Rodada |
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A Bar at the Folies-Bergère de Edouard Manet |
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Por Zé Dr Jeckyll |
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| Levava vida insignificante em uma
cidadezinha do interior. Jovem filho de um político
local, não foi difícil arranjar colocação no único
jornal daquela comunidade provinciana. Sob o grosso manto
do emprego intermediado pelo pai, produzia artigos
verborrágicos que julgava admiráveis. Aos sábados,
semanário dobrado e encaixado sob a axila esquerda,
desfilava sua arrogância pelos bares da cidade. Era alvo constante dos louvores do seu chefe, um editor atolado em dívidas com o tal político e tão medíocre quanto ele. Em verdade, o destino este sarcástico incurável ligara as três personalidades apagadas: o Pai, o Filho e o Espírito Pouco Santo do editor. Acreditando estar escorado pelo prestígio paterno, ficou abalado quando certa tarde o editor lhe fez uma pequena crítica. Construtiva ou não, o chefe lhe dissera que faltava vida no artigo que escrevera. Voltou para casa amuado, deitou-se na cama, encarou o teto e chorou seu primeiro fracasso. As críticas se tornaram cada vez mais freqüentes. Tentava argumentos que imaginava sólidos, mal disfarçando sua irritação. Cheio de mimos, odiava ser contrariado, pois crescera desconhecendo o significado de uma negativa aos seus caprichos. Em seu íntimo, estabeleceu assim que o editor não passava de um incomensurável cretino, esquecendo que o considerava genial quando antes o elogiava. Dando seqüência a sua orgia de rancores, decretou que o editor era o maior idiota já parido pela humanidade quando ele passou a desfiar elogios aos textos de uma estagiária de pernas grossas, recentemente contratada. Neste dia embebedou-se e vomitou o seu despeito. Passou a acompanhar com avidez as matérias escritas pela estagiária, apontando defeitos nos textos da mocinha e, em contrapartida, auto elogiando-se. Já não era bem visto no jornal e começou a ser evitado pelos colegas na redação que o travavam pelas costas de Caim, o invejoso. Quando
foi publicamente censurado pelo editor ao trocar em uma
matéria o nome de uma autoridade estadual em visita a
cidade, voltou para casa furioso, ligou para o amante
clandestino e exigiu prazer naquela noite como tentativa
de apagar sua sensação de derrota. |
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Por Zé Ronaldo |
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| - Ô mulher, ninguém te gosta não!
Olha, às vezes, temos que pagar a algum forasteiro para
que venha te procurar e fazer programa com você. Por
piedade mesmo. Você é a mais antiga aqui e todas nós
nos afeiçoamos a ti. Por isso fazemos isso! e
saiu, tampando o riso com a mão, enquanto as outras
colegas de trabalho davam-lhe tapinhas nas costas e riam
debochadamente, ora olhando para trás, num intuito de
machucar a vítima ainda mais, ora falando que ela era
doida de falar assim com a velha. Quedou-se sem fôlego por um momento. Olhou ao redor mas sem enxergar nada. Surda também ficou. Ouvia apenas a batucada frenética que seu coração, aumentado em decibéis, ensurdecedoramente produzia. As têmporas já estavam anestesiadas de tanta dor. Um gosto de sal na boca e nos olhos principiou-se. Desabara. De volta ao seu quarto, mirou-se no espelho do armário capenga, onde guardava seus objetos e bugigangas. Deu um longa e infinita olhada em si mesma. De cima para baixo. De baixo para cima e além, de fora para dentro. Enxergou-se. Um nanoconto passou-lhe pelas idéias. Crescera, virara moleca, fora deflorada, desgraçou-se, prostituiu-se. As lágrimas borravam-lhe a maquiagem barata. Choro sentido, convulsionado, com soluços pueris de quem nunca fora criança. Abriu a primeira gaveta do armário. Sacou de lá um saquinho de drogaria, com umas cartelas de comprimidos antidepressivos. Um a um, engolia-os, às tragadas de uísque pé-de-chinelo. Deitou-se. E delirou entrando num Paraíso profano, com uma falange de caralhas voadoras a recebê-la, logo na entrada, durinhas, durinhas, a salpicar-lhe gotículas de um esperma gozo-viscoso, e inúmeros dedos hirtos a forçarem-lhe passagem pelo esfíncter, num afã descontrolado de lascívia e desejo. Urros prazerosos ouviam-se, mesclados às músicas fuleras de motéis furrecos, sinfonia bolinativa suíte número quatro, enquanto línguas de fogo lambiam-lhe os seios e o clitóris e dentículos mordiscavam a ambos . No ápice do sonho surrealista, eis que surge Príapo, envolto em.um manto púrpuro luxuriante, com um inúmero repertório de imagens douradas das posições do Kama Sutra E, num beijo voluptuoso, arrebata a ela e cavalgam, majestosamente, num falo alado, para as imensidões das Terras Molhadas. Encontraram-na morta, no dia seguinte. Um baita sorriso tatuado em suas faces e uma mancha de corrimento descomunal no colchão furado. |
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| As opiniões no fórum do Bar |
Por Giovani Iemini |
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| Minha azia atacou, eu lia as notícias
matinais na privada. Lugar perfeito para tanta merda:
corrupção, descaso, roubo, falta de vergonha. O estômago
repuxou. Pensei no povo: - Desisto. A azia provocada pela ansiedade de um Brasil melhor sumiu. Assim, magicamente, na hora que entendi que a responsável pela manutenção da própria desgraça é a população. O voto, para mim, um anarquista, é a expressão da dominação oligárquica através do sistema democrático. Com a obrigatoriedade os cidadãos acabam concedendo a alguém a sua anuência ao governo. Numa sociedade basicamente analfabeta (para não dizer ignorante), as manipulações econômicas são evidentes. Resta aos instruídos e excluídos da pilantragem (claro) a triste aceitação passiva. - Sim, passiva, senão me ataca a azia. Contudo, conhecendo melhor o povo, vê-se que ele não é um Grande Otelo mas um Mané Garrincha. O Otelo mostrava-se malandro, fugia dos problemas por cima, porém deixava claro que só é feliz quem é correto. O Mané, em seus prazeres parecia abobalhado, gostava da simplicidade, mas era um sedutor arguto e beberrão incorrigível. Fingia-se tolo para ser perdoado. Dava um jeitinho. Igual ao povo. A troca do voto por qualquer favorecimento pessoal é responsável pela existência da trupe de peraltas que urubuzam o estado brasileiro, restando aos cidadãos contentarem-se com as réstias da lavagem. Mesmo a venda do voto em troca da comida, ainda esta, é um ato execrável. Você come, mas condena seus filhos à fome diria um sábio. É a concordância com a roubalheira, a corrupção, a indolência, a hipocrisia dos governantes. É como se participasse de toda a libertinagem, porém, curiosamente, o espólio não surgisse, permanecendo nas mãos dos donos do poder. Nem a isso presta o povo: continua pobre enquanto enriquece os sacanas. Em Atenas, o voto era comum a todos os cidadãos (homens, adultos e gregos), 2% da população. O resto, a plebe, esta permanecia sob o jugo dos democratas. O curioso é que os debates ferrenhos conquistavam quase metade das partes para cada lado, com o destino sendo decidido pelo decisivo voto de poucos. Assim, quase a metade (dos cidadãos, sem contar a plebe) deveria aceitar o que pouco mais da outra metade decidiu. Que raio de igualdade é esta que tantos devem aceitar o que poucos escolheram? Por que, aliás, todos devem ser iguais? Talvez, nos tempos gregos, com a tecnologia do aço apenas, os filósofos não conseguissem vislumbrar uma sociedade em que cada cidadão tivesse sua importância baseada naquilo que ele devolve a esta sociedade em forma de trabalho, impostos, participação e outros fatores subjetivos. Será que este cidadão, hoje, após a revolução digital, deveria ser obrigado a aceitar a decisão de um grupo que pensa diferentemente de si ou, talvez, pudesse ter suas impressões respeitadas para seguir um curso paralelo? A azia. Parei com tanta filosofia. - O povo é burro. Lembrei-me. Ele jamais entenderia que tem nas mãos a capacidade para mudar o próprio destino. Nem tentaria explicar que a anulação do voto é a forma precípua de informar aos legisladores que não queremos mais este sistema formal e ultrapassado, além de execrar os candidatos partícipes da bandalheira pútrida do nosso governo. Me forcei, contudo, a aceitar que o povão não entenderia que simplesmente votando em pessoas desvinculadas de qualquer interesse corporativo eles alterariam o curso corrompido do sistema existente. Sim, ainda sonho em ver os brasileiros colocando a própria gente nos cargos de relevância, para organizar esse trem pensando no bem de todos. Não quero mais ver o esfacelamento do poder pela simples incompetência dos governantes. Basta da corrupção de inaptos. A azia. - O povo é burro ou se faz de burro Disfarcei para mim mesmo. querendo dar um jeitinho...- Respirei fundo, tentei me controlar, mas acabei gritando: - a prova que realmente é burro! Oras, não percebe que corroborando o sistema vigente jamais será patrão, nunca deixará de ser empregado. - Não me importo com os brasileiros! Menti em voz alta. Me senti melhor, mais calmo, o estômago ficou frio. Preparei-me para o dia e sai. Sem puxar a descarga, afinal, sou brasileiro: não me livro da merda. |
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InterNerd, 18 de julho de 2007
Editado por Giovani Iemini