Quarta Rodada |
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Pintura de Carl B. Johnson. |
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Por Roberto Denser |
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| Muito do que sentia não se explicava.
Por isso quando alguém lhe perguntava o que tinha, ele
sempre soltava: Nada. Seus olhos, no entanto, provavam o
contrário e por esse motivo ele nunca olhava nos olhos
de quem lhe fazia essa pergunta. Estava em uma festa, apartamento de uns amigos, muita bebida, baseados rolando de boca em boca e Janis tocando no aparelho de dvd. Um grupinho estava sentado no chão da sala por entre almofadas, fumavam e conversavam sobre sexo. Um outro grupinho formava um semicírculo num canto próximo da janela, onde ele estava, fitava o vazio com um olhar distante quando Mel se aproximou. Ela lhe ofereceu um copo com vinho e falou: Ta tudo bem contigo, Dé? Ele bebericou o vinho e, sem olhar para ela, respondeu: Sim. Ela pareceu realmente decepcionada com a resposta curta e direta e o silêncio que a seguiu. Acendeu um cigarro, pensativa. Você não quer dar uma volta? Perguntou Eu pego uma garrafa de vinho aqui com o pessoal e gente dá uma saidinha, que tal? Você não vai precisar me dizer nada, a noite ta uma maravilha e quem sabe você não se anima mais um pouco, hã? Ele permaneceu calado, introspectivo. Ah, Dé, você não vai me negar isso, né? Vamos! Ela saiu sem esperar resposta, pegou uma garrafa de vinho tinto na geladeira e duas taças, depois falou para todos, o mais alto que pôde: Pessoal, eu vou dar uma voltinha com o Dé, mas voltamos, ok? Eles ficaram em silêncio, tentaram convencê-la a ficar, mas acabaram assentindo. Mel foi até a janela e puxou André pelo braço. Ele hesitou um pouco e depois se deixou levar. A noite estava clara e movimentada. Eles caminharam de mãos dadas e em silêncio por uns cinco minutos. Foi ele quem falou primeiro: Acho que estou apaixonado, Mel. Ela assentiu com a cabeça e então sentiu um calafrio. Então era isso, pensou, claro, eu devia ter imaginado... Passaram-se alguns minutos até que ele resolvesse falar mais alguma coisa. Eu estou apaixonado por você. Ela sentiu-se tépida por dentro, dormente por fora. Seu coração começou a bater rapidamente e ela teve vontade de soltar sua mão na mesma hora. Tentou falar alguma coisa, mas não havia voz e, mesmo que houvesse, ela não saberia o que falar. Um pouco adiante estava o mar, eles se aproximaram, tiraram as sandálias e sentaram-se na areia. Melissa abriu a garrafa de vinho e encheu as taças. Eles começaram a beber, Melissa bebia avidamente. Ele notou isso e comentou: Se continuar bebendo assim tão rápido, vai acabar ficando bêbada... Ela não lhe deu ouvidos, bebeu mais um longo gole e então falou com a voz completamente insegura: André, quero transar com você. André nunca em sua vida se sentira tão surpreso, excitado e medroso. Seu coração parecia querer arrombar o tórax e sair voando dali. Pegou a garrafa de vinho e deu um longo e demorado gole, no gargalo. Ela sorriu. Eu estou tão insegura quanto você, Dé, mas eu quero fazer isso. Não me pergunte os motivos exatamente, pois eu não sei. Sei apenas que não posso me apaixonar por você, mas quero ao menos por um instante ter você dentro de mim. Ele olhou para o lado e falou com a voz trêmula: Você ta ficando bêbada. Ela sorriu. Você sabe que não. Nesse momento, ela aproximou o rosto e, com os lábios ainda úmidos de vinho, lhe deu um beijo de leve. Ele retribuiu-lhe o beijo de forma insegura e depois mais avidamente. Havia um breve sentimento de culpa em seu peito, mas havia muito tesão em suas calças e isso era suficientemente mais forte do que qualquer consciência pesada que pudesse ter pelo motivo em questão. Melissa... tentou falar, mas jamais terminaria àquela frase. Ela se afastou olhando em seus olhos e André percebeu que ela estava chorando. Sentiu-se culpado e quis abraçá-la, contudo ela se afastou e levantou sem pressa. Começou a despir-se, ficando apenas com suas roupas de baixo, e falou olhando para o mar: Ali, André. Ela caminhou a passos lentos e mergulhou no mar. Ele permaneceu sentado por mais um momento, fitando-a, desejando-a, o mesmo corpo que por várias vezes havia protagonizado o papel de amante em suas fantasias. Te amo... murmurou para si -, te amo, minha irmã... |
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Por Rroberto Menezes |
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| Colei o mapa-múndi na parede do meu quarto. A professora devolveu ontem. Sou louco por mapas. Deles todos, gosto mais é do mapa-múndi. Acho que Deus, quando fez os países, desenhou eles assim, para que ficassem lindos. Tem país azul, verde, vermelho, cor de pele. Meu lápis amarelo acabou quando pintei a Rússia. Que país grande! Deve ter muito russo lá. Tem um monte de países pequenos que o nome nem cabe dentro. O mais difícil foi pintar esses paisezinhos da Europa. Pintei a Holanda por cima da Bélgica. Ia colorir um de laranja e o outro de amarelo porque minha mãe falou que são eles os países das flores. Sem querer, borrei a Bélgica de laranja e a Holanda de amarelo, não deu para saber onde começava um e terminava o outro. E para piorar, quando fui dividir eles com meu hidrocor preto, a fronteira cobriu completamente os dois. Meu pai quando viu, falou: Fez bem, meu filho, esse preto lhes caiu bem, não sei o que ele quis dizer, nem perguntei. A professora gostou que eu pintei os mares e os oceanos de verde, mas mesmo assim tirei nove. Queria tanto ter tirado um dez. Chamei sem querer Antártida de Antártica, daí ela tirou meio ponto. Foi culpa do meu irmão, ele teima em dizer que é assim que se escreve. O outro meio ponto que eu perdi foi por causa Iugoslávia, que a professora disse que se dividiu. Eu nem sabia, copiei do atlas da minha irmã. Se fosse no tempo dela, eu ia tirar um dez. Esses países vivem o tempo todo se dividindo. Perguntei ao meu pai o porquê da divisão, ele me disse: eles fazem isso para que todo ano a gente troque de livro. Acho que não, talvez esses países se dividindo seja uma coisa natural. Meu irmão, por exemplo, está procurando uma casa para morar depois que se vai casar. Eu não queria que ele fosse embora, mas minha mãe me disse que a casa é pequena para tanta gente. Ela tem razão. Deve ser por isso também que a Iugoslávia se dividiu, acho que tinha tanta gente que não cabia em um país só. A Bielorrússia deve ser dos russos belos que formaram o próprio país. Isso a professora não me explicou. Mas não posso reclamar do meu nove, se minha professora tivesse visto que eu matei os holandeses e os belgas com uma pincelada, ia me colocar na recuperação. Deus me livre. Os que ficaram, ela mandou decorar as capitais dos estados dos Estados Unidos, de ontem para hoje. A professora da minha irmã não mandou ninguém para recuperação e todo mundo ganhou uma bandeira do Brasil de papel. Ninguém da minha turma ganhou a bandeira do Brasil. Não gosto de bandeiras, nem de decorar capitais. Ainda bem que não fui pra recuperação, foi chamada oral. A professora perguntou qual a capital do Kansas. Ninguém acertou. Era Topeka e eu tinha certeza que era Oz. Então onde é Oz? Será que é do lado de trás do mapa-múndi? Será que faz fronteira com a Terra do Nunca? Ou com o País das Maravilhas? Meu tio disse que esses países são alegorias. Será alegoria algum tipo de reinado, como a Inglaterra? Ou como Cuba? Quando eu crescer eu quero ser rei, os reis só morrem velhos. Não quero ser presidente, de vez em quando tem um louco querendo matar os presidentes. Eu acho que cada vez mais tem menos reis e mais presidentes no mundo. Deve ser por isso que tem tanto louco no mundo. Deve ser sim. Tenho tanto medo desses loucos, não sei por que eles fazem isso. Eu pergunto ao meu pai, mas ele é sempre ocupado, nem sempre me responde. Quando não está lendo jornais, está com os olhos nos telejornais, vendo esses loucos. Nem liga para as minhas dúvidas. Também não pergunto a minha mãe porque ela só sabe de flores, perfumes e remédio para dormir. Ela devia assistir a mais telejornais, o sono do meu pai é admirável. Meu pai tem sono de rei. Minha mãe, de presidente. Tenho medo de perguntar essas coisas para a professora. Não sou o queridinho dela, desde o dia que desrespeitei a oração. Mas quem ia agüentar? Ela trocou o pai nosso por pai troço. Quando ela falou isso, quase que teve um treco, engasgou-se. Não agüentei. Deus que me perdoe. Ano que vem vou fazer o catecismo, talvez eu entenda de onde vem tanta devoção. Tem muita briga no mundo por causa de pessoas que não respeitam as orações dos outros. Na TV, vi que os loucos no outro lado do mundo matam uns aos outros por um lugar bem pequeno, não entendo. Nem o nome do país consegui colocar dentro dele. Por que Deus, que é o presidente do mundo, não divide esse país? Não é simples?! É só passar um risco no meio. Fizeram isso na Iugoslávia, deu certo. Ou por que não leva a metade deles para África? Tem países enormes lá, muitos países com nome bonitos. Eu pintei um de vermelho, ele tem o nome de República Democrática de alguma coisa. Acho que lá os africanos vivem sempre na paz. Os únicos selvagens de lá são os leões e os tigres. Mas meu pai falou que os holandeses ou os belgas foram lá. Que bom! Se eles foram lá, devem ter deixado muitas flores na África. Com muitas flores não há como nascer loucos. Deve dá muito louco no deserto porque lá não nascem flores. Eles poderiam ir mesmo para a África. Mas talvez esses loucos não possam ir lá por causa das fronteiras que dividem os países. Aprendi que quando a gente vai de um país para outro tem que mostrar um monte de documento. E muita gente não tem como comprar esses documentos. Deus deveria dar esses documentos para todo mundo, para que todos pudessem ir de lá para cá quando quisessem. Esses loucos iam ver que tem lugares muito mais bonitos do que o deserto sem flores pelo qual eles brigam. E se todos tivessem esses documentos não teria sentido as fronteiras, não precisaria ter elas. Todos os continentes seriam uma coisa só, um só país. Do mesmo jeito que os mares e os oceanos são. Assim, sem fronteiras, o cheiro das flores da Holanda e da Bélgica se espalharia por todo o planeta, e contaminaria todos de amor. E além do mais seria mais fácil de fazer o mapa-múndi, ninguém iria mais para a recuperação. Eu pintaria o mar de verde e os continentes de rosa, a cor do amor. Assim, contagiados pelo amor seria sempre carnaval. Viveríamos todos colhendo e vendendo flores, porque todos iriam querer comprar para dar. | |||||||||
| - Cara, gosto das suas críticas. Que tal
escolher uma poeisa e um conto para o próximo ezine? -
Disse o dono do bar. - Muito bem. Escolho a poesia Verá o que quiser neste dia pálido da Larissa Marques e Maria dos meus sonhos de S. Quimas. - Respondeu Leonardo, seco. Ganhou um goró do Giovani pelas escolhas. |
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Verá o que quiser nesses dias pálidos |
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Por Larissa Marques |
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| Verá o que quiser nesses dias pálidos Nesses poemas incolores Embalados, carimbados e enfileirados, Nas prateleiras de supermercados Vendidos à vista, a prazo ou no cartão, Os coloridos estão intocados Na minha tristeza interior Mas ao tentar descreve-los Ficam assim letrinhas miúdas Numa folha de papel amarela Meus enlatados, conservados, Vão para as prateleiras Onde serão esquecidos Por não ter prazo de validade Ficarão lá pela eternidade À espera de olhos vencidos Tardios, abandonados, Par perfeito para o leitor aflito. |
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| As opiniões no bar |
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Maria dos Meus Sonhos |
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Por S. Quimas |
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| As suas mãos não estavam vazias. Um
pouco da terra que cultivara anos a fio pousava sobre a
palma da mão espalmada, como se mostrasse ao céu o amor
que tinha por seu quinhão de terra. Trabalhara ali sol a sol, quase todos os dias da sua vida. Desde menino ajudava o pai no trato do campo. Com habilidade, as mãozinhas capinavam as pequenas ervas, limpando o canteiro semeado havia poucas semanas. A terra fértil produzia muitos frutos, mas rapidamente enchia-se de mato também. Laborava mal nascido o sol e a jornada só se interrompia nas refeições e no adormecer do astro. Não tinha lido uma letra. Se leu, foi tão pouca que logo se esqueceu. Contudo, sabia os versos do céu e das estações. Não se via um farrapo branco tingindo o azul e adivinhava com perfeição a chuva horas depois. Era preciso na época certa para semear e sempre colhia em abundância. Menos uma vez, quando desconhecendo o que dizia o discurso do tempo, não percebeu que a geada se anteciparia. Perdeu a colheita, mas não se esquivou da esperança e continuou plantando. Certa feita, quando se retirava da lavoura, tomando a estrada estreita e empoeirada que lhe era caminho para casa, viu no lustro-fusco um vulto que se aproximava a passos curtos e apressados. Pensou que fosse uma aparição e fez por três vezes o sinal da cruz, mas, espremendo os olhos, viu que não era nenhuma assombração. Era Maria. Naquele momento ainda não lhe conhecia o nome, porém já a havia visto em casa de Nhô Toinho, numa festa de batizado. Não sabia que havia se apaixonado, mas naquela hora sentiu que sim, pois o estômago lhe dera mais voltas depois que viu de quem se tratava, do que antes de saber que era ela que se aproximava na estrada ao anoitecer. Quase mudo, só pôde dizer um Noite!, pelo qual também sucintamente foi correspondido: Noite!. Maria não era dada a muitas palavras e seu recato era fruto da criação rígida que a família lhe impunha. Sua vida, como a dele, perpetuava-se na faina diária. A dela entre a cozinha e o regato onde suas mãos lavavam a roupa da casa. Cedo assumiu os afazeres, pois a mãe ainda jovem encontrou a morte numa picada de cobra. Aos dez anos tornou-se o esteio da casa e alimentava ao pai e a dois irmãos, pois estes cumpriam sua sina na roça de milho. Além da casa, cuidava dos animais: um curral de porcos e um galinheiro, a leiteira Preciosa e algumas cabras. Não era rica, mas nunca conheceu a fome. Tinha com que viver. Naquele dia na estrada, andou alguns passos e, voltando-se para trás, viu Maria sumir na garganta da noite que vinha rápida. Nunca mais esqueceu aquele momento. Quando chegou em casa, lavou os pés, as mãos e o rosto, e sem poder comer um naco da broa sobre a mesa, devido à emoção que lhe trancava a garganta, foi-se deitar em sua esteira num canto da casa e sonhou acordado, até que o sono o fez dormir. Sonhou com Maria e contou para si mesmo histórias de romance e amor. Vestiu-a de noiva e pôs-se ao seu lado frente ao pároco na capela. Jurou-lhe fidelidade eterna e beijou-lhe a face sorridente. Viveu com ela até que no bolo não couberam mais velas. Criou três filhos que se tornaram doutores e lhe deram netos. Assim sonhou. Um dia o sol cismou e fez real o sonho que sonhara. Morreu assim, o corpo estirado no chão que cultivou com tanta paixão. Os braços abertos e as mãos espalmadas com um montículo de terra em uma delas. Parecia um cristo crucificado no solo pelo ardor do sol que lhe fustigava a face envelhecida. |
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InterNerd, 17 de junho de 2007
Editado por Giovani Iemini