Segunda Rodada

         
                   
               
           
               
      Me Morte do Vale das Sombras     Merda, poesia e mediocridade      
                   
                 

 

                 
                   
 

Usual

         

Meu olho esquerdo

   
 

por Me Morte

         

por Larissa Marques

   
                   
  Pensei que teu sexo era meu
Para uso contínuo,
Como remédio controlado,
Estaria sempre ali, ao meu lado,
E eu jamais ficaria sem.
Eis que o mundo abriu as portas,
Numa prateleira de pílulas douradas,
Todas dispostas, amontoadas,
Num desfile de tentação.
Teu sexo ficou banal,
Usual, trivial, corriqueiro...
E agora experimento o mundo inteiro
Para encontrar o toque de tuas mãos
E com elas um pouco de teu cheiro.
          Não repare
Não me olhe muito
Pois percebi agora
Que meu olho esquerdo
É enorme
Mais permissivo
Mais revelador
Menos punitivo
Menos constrangedor
Quem me dera tivesse
Dois olhos esquerdos
Para ver apenas um lado
Para perceber melhor os outros
Pois meu olho direito
Só inflama
Só me reprime
Só me engana.
 
                   
 

Cores Quentes

         

Fuga Boêmia

   
 

por Roderick Usher

         

por Jairo Alt

   
                   
  O poente laranja cai sob as nádegas da montanha
as estrelas sedentárias começam a dar risadas
a pouco o casal de rolinhas trocava carícias safadas
nuvens branquelas formam desenhos mundanos
o azul quer tudo pra si feito cafetão enciumando
a brisa bolina as folhas e troncos das bananeiras
e esse é todo o quadro orgiástico da aquarela brasileira

          Que a alma não se alucine
E o corpo não se decline
Entre fumaças e talagadas
De algo que na vida me fascine.

Fujo da impureza fétida do corpo,
Arrasto-me, arranco-me de dentro.
Sai do inóspito o espírito torto,
Dele ecoam vazios de argumentos

- É da fonte cristalina que escorre minha sujeira!
- É no fogo onde reacende o pensamento frio!
- É da claridade imensa onde faz-se minha cegueira!

Quanto mais me faço de vivo
Maior minha morte em desalinho
E quanto mais se tem...Morro!
Mais há ladeiras em meu caminho.

Que a alma não se alucine
E o corpo não se decline.
Que alma e corpo,
Por um breve amor contaminem-se!
Que corpo e alma,
Pelo amor duradouro exercitem-se!
Sempre!
   
                   
 

Pós Vivência

         

Sobre homens e ampulhetas

   
 

por Anderson

         

por Jimmena

   
                   
  cego
no luxo da lâmpada,
parado
no mal do carro,
enferrujado
da água encanada
que bebo e após escarro

derretido
pós microondas,
nato quimicamente
por sondas,
morto estatisticamente
moderno,
pós graduado
em céu e inferno

decomposto disfarçado,
pós mea culpa por sentença,
sendo diariamente caçado
via celular, internet e imprensa

CIC e RG para o Estado,
em total estado de falência,
espero solitário o resultado
do meu obituário
pós vivência
          "No se detiene nunca la caida
Yo me desangro, no el cristal. El rito
de decantar la arena es infinito
y con la arena se nos va la vida."
Jorge Luis Borges




Como terrena
não destôo
do rigor
da gravidade.
Me entrego
humildemente
pouco a pouco

Sem pretensões
sem heresia
seguindo a lei.
Sem vaidades
desmistifico
a transcendência
de ter alma.

A lucidez
de ser perene
meu envoltório
me resgata
ao chão
sem ilusões
de reviravoltas.

Deixo aos místicos
o afã da
eternidade
E a ampulheta
o incansável
labor
de resgatar o pó
ao solo.
   
                   

 

       

         
                   
       

Primeiro Beijo

         
       

por Barba Uonderias

         
                   
        Eu estava confusa. A mão dele nunca me pareceu tão fria, nem mesmo daquela vez que dormimos na chuva esperando o veterinário abrir o consultório. O médico chegava às seis da manhã, daí a passarmos a noite protegendo o Plock, o cachorrinho dele. Tínhamos dez anos de idade na época.
O rosto dele nunca esteve tão próximo por tanto tempo, nem mesmo daquela vez que nos escondemos do Bartolomeu, um velho que odiava crianças. Nós atiramos um ovo na varanda de sua casa e fugimos para onde estava sendo construído o futuro ginásio da escola. Ficamos em um bueiro até ter certeza que o velho desistira de nos pegar. Tínhamos doze anos na época.
Nunca havia sentido a respiração dele tão ofegante, nem mesmo daquela vez que tivemos que correr quatro quarteirões para alcançar o carro da mãe dele. Ela havia esquecido a bolsa, o relógio e os óculos. Tínhamos quinze anos na época.
O coração dele nunca bateu tão forte, nem mesmo daquela vez que fomos conferir o resultado das aprovações do vestibular. Quando deparamos com nossos nomes na lista de aprovados, eu em letras e ele em jornalismo, pensei que carregaria mais uma vez ele desmaiado para a enfermaria do colégio. Tínhamos dezoito anos na época.
Ele nunca me olhou dessa forma, nem mesmo daquela vez no campus da universidade, quando colocou os meus livros no chão e deu-me o que viria a ser o nosso primeiro beijo.
Tantas sensações, tudo ao mesmo tempo. Sem pausa, sem descanso. Agora só me resta rezar para a ambulância chegar logo, enquanto vejo o sangue dele escorrer pelas ferragens destruídas do meu carro.
         
                   
                   
       

         
                   
       

Merda, poesia e mediocridades

         
       

por Kaspa

         
                   
        - Mas o porquê de tanto lixo?
- Não é lixo, seu estúpido. Isso tudo é apenas mediocridade digitalizada.
- Bom, ao menos não gastam papel.
- Gastam minha paciência, que vale bem mais do que papel.
- Mas basta não entrar aqui e não ler as poesias.
- Que poesias? Não vi uma só poesia. Muita mediocridade escondida em estrofes e versos, mas poesia não há por aqui. Bom, na verdade talvez até aja, mas não tive paciência para continuar procurando. É questão de estatística...
- Como assim?
- Se nas cinco primeiras tentativas eu só perdi meu tempo, quais as chances reais de continuar lendo os posts e achar poesias de verdade? Não sou bom com essas coisas relacionadas a lógica e cálculos, mas acho que é melhor terminar a busca.
- Então não volte mais aqui, já que toda vez que viemos acabamos nos sujando em merda.
- Já disse que não é lixo e nem merda, é só mediocridade... O que, na verdade, é até pior.
- Mas me fale: alguma vez teve real esperança de encontrar algo de interessante aqui?
- Sim, claro que sim. Mas pior do que não encontrar nada, foi encontrar a mediocridade sendo elogiada. Sabe, se, ao menos, quem escrevesse porcaria fosse esculachado, pensariam duas vezes antes de voltar aqui. Schopenhauer dizia isso – com outras palavras, é claro. Ele não usaria termos como ‘esculacho’. Mas não sou Schopenhauer, sou apenas o velho Kaspa.
- Antes de irmos embora, me diga só mais uma coisa. É impressão minha ou os mais medíocres dentre os medíocres optam pela poesia?
- Você não está totalmente errado. Mas algumas vezes eles se aventuram na narrativa. O problema é que o ridículo de não se saber escrever fica muito evidente em textos dissertativos ou narrativos. Na poesia é mais fácil parecer ter conteúdo.
- Será?
- Na verdade isso só se aplica quando estamos falando de leitores e críticos tão medíocres quanto o pretenso escritor.
- Mas aí o mesmo valeria para a prosa...
- Nem sempre. Como já disse, na poesia, sob as condições que também já expliquei, fica mais fácil esconder a própria estupidez. Mesmo leitores medíocres ficariam envergonhados em elogiar uma narrativa muito mal escrita e cheia de lugares comuns. Já na poesia, sempre uma parcela dos leitores irá se identificar com algo: seja um verso sentimentalóide ou, pelo contrário, uma pueril e fingida expressão de rebeldia ou uma escatologia adolescente. O fato é que tantos medíocres optam pela poesia por ser mais fácil esconder sua mediocridade nos versos.
- Vou parar de ler poesias.
- Você é um estúpido também. A culpa não é da poesia em si. Ela é, em potencial, extremamente libertadora. Tudo o que eu disse foi uma defesa da poesia. Chega de conversa, vamos embora!
- Não te preocupa o que dirão deste nosso diálogo, ou melhor, desta sua opção pelo diálogo para expressar sua tristeza frente toda a mediocridade?
- Em minha idade nada do que digam importa. E o que me interessa a opinião dos medíocres?
- Mas se realmente não se interessa, e se você despreza a todos desta comunidade, então porque escreveu isso tudo?
- Porque sempre há esperanças de que alguém que realmente seja interessante leia o que escrevemos. A massa é sim desprezada por mim, mas não todos. É a média que entedia, não a totalidade. Mas é melhor parar por aqui, senão estaremos começando a ficar muito nietzscheanos, e isso pega muito mal atualmente.
- Aquela coisa de culturalismo acrítico da pós-modernidade?
- É sim, “aquela coisa”...
         

 

       

         
                   
        Me Morte do Vale das Sombras          
                   
                 
       
O Bar - Como surgiu o personagem ME MORTE? como foi a escolha do nome? o que a autora espera com este pseudônimo? para quê serve (para manter intacto o alter-ego ou para aumentar o interesse)?

Eu sempre fiz poemas, mas de estilo romântico e sociais.Divulgava na net e na minha cidade. Participei de concursos e antologias. Um dia conheci a morte de perto, um acidente na família onde várias pessoas morreram. Passei então para uma fase meia tétrica. Só saiam poemas sobre morte. Comecei a divulgar e criei um fake para isso. Eu não me escondia totalmente e começaram a surgir adeptos. Fui batizada por eles de "Noiva da Morte". Achei infantil, mas aceitei. Criei o nome Me para suavisar a expressão MORTE. Descobri que muita gente curte os poemas nesse estilo. Criei o Vale das Sombras e ele cresceu rapidamente. Só que, comecei a ter problemas com os fakes. Um descobriu onde eu morava e foi inconveniente, outro meu telefone e tive que trocar o número. Por isso tirei todas os dados que me identificavam e investi no mistério. A fase gótica passou e veio a libidinosa. Essa ficou até hoje.Tudo isso rolou em dois anos, mais ou menos.
Desse pseudônimo eu espero algo mais que fama, espero DINDIN, se Deus olhar por mim. Eu ainda aposto na Me para me dar bem literariamente, pois hoje em dia, se não se apela para algo diferente, somos só mais um.

O Bar- O que você acha da atual safra de escritores brasileiros? Quais os teus preferidos?

´Você é adepta de alguma escola literária?

Eu adoro novos escritores, curto tdo que eles tem a oferecer e mesmo Paulo Coelho eu li tudo já, apesar de achar medíocre. Eu prefiro os novos, sou contestadora, odeio o grupinho dos tradicionais escritores nos currículos das escolas. Não quer dizer que não goste de Machado de Assis, Érico Veríssimo e outros, adoro, mas não consigo aceitar esse catálogo que criaram para ensinar os jovens. Eu não esqueço nunca uma aula de sociologia que tive, onde a professora tirou a gente da sala e levou para um campo de futebol. Ali ficamos durante 2 horas e foi onde mais aprendi. Prefiro a leitura desconhecida da mídia.Tenho meus preferidos entre os conhecidos, claro, Bocage, Pessoa, Vinícius, Nilo, Goulart, Florbela Espanca, Sade, adoro ler Sade pois ele me ensina muito, "o que não fazer na cama" aprendi com ele,rsss.Eu não gosto de Nelson Rodrigues, eca, acho ele machista demais; sou apaixonada por Monteiro Lobato. Mas o que mais gosto é de ler os do Orkut, contos do Cris, irreverencia da Alessandra, Wilson e, a despeito de ser puxa saca ou não, TODOS do Mão Branca.

Eu já tive escola literária, era adepta do Romantismo, 1822, incorporava todos da época. Agora me permito ousar, gosto de tudo um pouco.

O Bar - Como e quando foi seu primeiro contato com a Literatura? Como você descobriu sua veia poética? Ainda guarda seu primeiro escrito?

Eu não guardo meus primeiros escritos, era muito nova, perdi tdo. Eu tinha seis anos quando fiz meu primeiro poema, tinha um caderno que usava para escrever e dizia que era meu livro publicado, nem sabia o que era isso. Desde que me entendo por gente, dizia que seria escritora, além de médica cardiologista. Médica não deu pra ser, muito caro, mas, escritora estava nas minhas possibilidades. Não digo que acho que escrevo bem, não, eu sempre admirei 50 por cento do que escrevia, hoje em dia, talvez, uns 80. Sou muito crítica comigo mesma, faço muita besteira, muita. Não tenho ninguém com veia literária na família, sou a ovelha negra. Tive em casa sindicalista, vereador, mecânico e advogado. A única que tem a cabeça nas nuvens sou eu. Minhas origens estão no Rio Grande do Sul. De lá trouxe o amor pelas coisas que gosto, um amor quase fanático, como o INTER, que aprendi a defender. O que adubou meu sonho de ser escritora foram as escolas gauchas, lá eles ensinam muito, totalmente diferente de outros lugares. Eu sou péssima em gramática, mas por pura preguiça, prefiro a literatura, não gosto de regras, rimas, métrica. Se eu rimo é pura inspiração, não fico construindo cada frase em prol da anterior.
Porra! Quando vão me perguntar sobre sacanagem? Tá muito sério,rss. (brincadeirinha).

O Bar - Quando vc fez a sua primeira boquete?

kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
Exagerado hein! Quando decidi gozar de outras maneiras que não a tradicional ora, não sei quando foi. Mas rendeu um belo poema:

Sonhos se perdem
Se a imaginação os espera...
Um alvo na cama, estirado,
Um teto solar entraberto,
Refletindo indícios claros
De que vai amanhecer!
E o corpo nu apagado
Cobre os olhos desnudos,
Dos pelos a um desejo absurdo
De absorver, tomar, comer,
Antes que a conciencia retorne...
Beijos ressequidos, breves,
Dos pés à cabeça, uma sede louca
Tomando o que a mim foi ofertado
Por te ver ali, adormecido
Para meu gozo e meu prazer!
Sugo mil cálices em teu contorno
E enquanto não te seco total
E depravadamente, não largo.
Sem deixar vestígios, serro de vez
Os lábios,numa insensatez...
Tomei tua essência, roubei-te
E de tuas forças alimentei-me
Caiu prostrado nos panos brancos
Enquanto fuji de volta à vida
Na espera de teus agrados
O Bar - Existem diferencas flagrantes na literatura de ambos os sexos?
Se existem, quais são elas na tua opinião?

Eu acredito que a maneira da mulher sentir seja diferente, então, daí surgem as diferenças, mas cada pessoa é de um modo. Se eu fosse generalizar, diria que a mulher é mais coração e o homem mais cérebro. Eu costumo dizer que a literatura feminina permite mais a fantasia, pois ela é ousada, vai até onde sua vontade alcança. O homem é mais chão. A partir daí, penso que, se sou romântica, meus escritos serão sentimentais em exagero, se sou depravada, maliciosos em exagero. A mulher sai de seus limites. Eu gosto de ser assim.
Sou mulher. Minha mente é extremamente feminina. Esse depravamento das escritas, esse jeito arrojada, todo ele é feminino. Odeio cantadas, não gosto de transar por transar. Para que eu vá para a cama com alguém tenho que ter um mínimo de envolvimento. Isso já me condena o sexo frágil. Apenas me permito fazer o que gosto na cama, com quem gosto e espero de meu parceiro o mesmo. Meu sonho em criança era ser puta. Não o fui por que as putas não podem escolher seus homens, eu jamais treparia com qualquer um, só com quem escolho e sou exigente,rssss.
O Bar - Me,você cumpre um rotina diária para escrever suas coisas?

Não, odeio rotina. Eu escrevo em qualquer hora, qualquer lugar. Acordo várias vezes no meio da noite quando estou inspirada. Os bolsos andam cheios de papéis no trabalho (escrevo escondido). Eu escrevo mais do que bebo água. Faço muita besteira, depois retiro o que presta.

O Bar - Como você consegue ter uma participação tão efetiva no orkut?

Minha participação efetiva no Orkut é porque trabalho 24h por dia em frente ao PC. No local de trabalho, meu serviço envolve internet, por isso fica fácil de olhar o Bar e tantas comunidades onde sou ativa. Em casa faço trabalho de digitação para defender uma grana, pois sou a "cabeça" da família, daí fica fácil cuidar de meus blogs/comus/etc...

O Bar - Existe uma outra escritora por trás da Me, com um trabalho literário, digamos, "paralelo" ao do fake?

Existe sim, claro. A Me existe só a dois anos. A dona do personagem há muito mais. Como Me eu não tenho nada publicado. Com meu nome tenho várias publicações em Antologias. Já fiz trabalhos em jornais e rádio (minha voz é linda,rsss). Não publiquei meu livro ainda, mas pretendo para esse ano. Ainda não decidi se como Me Morte ou "EU", isso vai depender de um patrocínio que nem possuo ainda, to batalhando.
O Bar - É senso comum, que há escritores que nunca interpretaram nada, bem como, o de que há atores que nada escreveram... Vc, especificamente, por ser diametralmente diferente da tua personagem, me faz crer na tua perícia nestas duas Artes...
Como "rola" na tua cabeça , a possibilidade de, um dia, interpretar a personagem ME?
Vc considera que "esgotou" as possibilidades da ME transmutar-se numa personagem? Ou ainda... Como vc considera possível introduzir o universo Gótico, na literatura perene e geral?
O Bar - Muito escritores ganham o desejo de escrever através do estilo gótico, muito relacionado principalmente a uma fase na adolescência. Época essa em que devoramos as traduções de Byron, os contos na taverna e toda literatura apresentada pela escola.
Ainda existe espaço para a poesia gótica? Claro que não tratamos de um ultra-romantismo, mas de uma remodelação na sua estética.
Qual a cara do gótico moderno? Como a poesia gótica pode enveredar por novos caminhos e se redescobrir?

Eu não sou muito diferente da Me, pode apostar. A minha vida é que é diferente do universo da Me. O pensamento da Me Morte, a libidinagem, as tendências para o tétrico, a sêde de poetar a morte, tudo isso é fato de minha personalidade, apenas guardo aqui dentro. A gente tem que aprender a conviver com o "normal", se nos damos ao luxo de sermos nós mesmos, chocamos. Eu admiro muito Sade por isso. Apesar de não concordar com sua tendência sexual, admiro a coragem com que trouxe essa sua performance a público. Eu sou na vida real somente 50 por cento do que sou aqui dentro. Sade ousou ser os seus 100 por cento. Foi um gênio.
As possibilidades dentro do universo Me Morte são infinitas. Cada dia eu me deparo com uma nova forma de dizer, escrever, participar, eu creio que o campo não tem limites, apenas a dona talvez um dia diga o Stop, é difícil conciliar as consequêcias da Me na vida real. Tem dias que esqueço do outro lado e fico presa nesse perfil, isso não pode acontecer.
Repito, não sou gótica, sou uma pessoa que aprendeu a poetar a morte, tive que aprender na marra pois, se não o fizesse enlouqueceria. Um dia eu escrevi um poema dizendo que tinha muitos corpos ao meu lado. Choquei meio mundo, recebi emails de malucos falando coisas absurdas, nem procurei saber da veracidade, se eram loucos ou idiotas.Apenas colhia as consequencias de um poema que escrevi. Eu tinha realmente muitos corpos ao meu lado, mas numa situação real, só que acharam que eu era uma doida, uma adepta de seitas ou sei lá o que.Esse tipo de rótulo é ruim. Nunca assumi ser gótica, mas sempre fui rotulada. Passei então a dizer na minha biografia "poeta gótica". Se era assim que me viam, foda-se o resto.Se esse meu estilo for considerado gótico, bom, que bom que contribui de alguma forma, mas foi impensado.
Eu conheço essa fase da adolescência onde tudo é motivo de contestação, o modo de vestir, a maneira de falar, onde se tenta chocar os mais velhos. Eu tenho a comunidade Vale das Sombras com mais de mil membros. Lá 80 por cento dos membros são adolescentes nessa fase. São jovens que tem seus momentos de tristeza, que curtem rock , que falam de morte como que toma sorvete na esquina. 50 por cento tem em torno dos doze anos de idade. Lá eu mostro uma Me mais gótica do que libidinosa. Recebo mails todos os dias, tenho fã clube. Eu criei uma certa responsabilidade que as vezes me incomoda. Um dia uma menina me escreveu dizendo que ia se matar. Até eu descobrir se era verdade ou não foram horas de agonia. Consegui telefone, liguei, falei, fiquei brava, cheguei até a falar com os pais. Era alarme falso, tinha brigado com o namorado e disse que queria cortar os pulsos para sentir o gosto que eu tanto falava nos poemas. Nunca falei de suicidio, mas passei isso a ela sem querer.Eu não tive essa fase, mas ela existe e com grande força, principalmente no orkut.
A cara do gótico moderno é uma coisa totalmente diversa do que faço. Eu apenas brinco com o goticismo. Uso de bom humor para descrever o mundo gótico, longe de ser o real dele.Como introduzir o goticismo na literatura atual? Só dando oportunidade, abrindo os olhos para o novo, tirando os preconceitos, assim, não só o gótico, mas todos os estilos terão oportunidade. A poesia gótica tende a se redescobrir por si só, basta ser olhada com outros olhos por todos.
O Bar - As letras da Me Morte são totalmente experiências de um "eu-lírico" imaginário ou tem algo autobiográfio da mulher por trás da máscara?

As letras de Me Morte tem tudo da dona. Na parte "tétrica", são consequências de uma revolta sobre a vida e a morte. De qualquer forma, é uma maneira de contestar o que vi ou vivi. Tenho um poema que descreve isso, fala de como sou nesse lado gótico "Ser poeta é ver rosas onde só existem cadáveres". É isso, depende de quem lê para interpretar o que eu sentia na hora.
No lado libidinoso é como eu sou na essência. Não quer dizer que vivi tudo no sexo, não, talvez o que eu tenha como meta de vida com relação ao sexo. De qualquer forma, é como vejo o sexo e como penso que deva ser um relacionamento sexual. Eu não saio pregando minhas verdades, mas nos poemas me permito ser eu mesma.de qualquer forma eu jamais digo o que não sinto.Mas não ouso isso na vida real, um Sade já foi demais, eu não teria essa coragem,rsss

O Bar - Acredita que grandes poetas tramam as poesias antes de colocá-las no papel? Escuto muito dos acadêmicos que ideologia, métrica, rima, forma, conteúdo, ligação com o meio ou não, e tantas outras coisas mais aparecem antes mesmo do poeta escrever.
Acredita nessa verdade acadêmica?

Poetas existem de todas as formas. Os que constróem e os que simplesmente escrevem a base de inspiração. Eu não construo jamais.Já fiz no passado, não mais. Eu sento e escrevo. Não me preocupo com rimas. No final do poema, olho e altero se achar que tem algo sobrando, algo muito meloso, muito ruim. Eu me preocupo com a beleza e não faço ligação disso com a métrica. Não critico quem faz, tenho lindos sonetos na memória e grandes escritores que fazem assim. Acho que é uma questão de estilo e todos são válidos, basta ser bem feito.
O Bar - Me, você diz que teve que aprender na marra a poetar a morte. Você acha que isso pode ser consequência ou algum trauma do acidente ocorrido, como mencionou?
A arte de escrever permite que nos exponhamos bem mais do que o poderíamos expor na vida real, bastando para isso, um pseudônimo. Assim, na vida real você se considera uma pessoa feliz ou triste?
Estamos sempre nos evoluindo seja nas letras, profissionalmente ou em qualquer situação. Qual é a tendência de seus próximos estilos literários?

Trauma a gente tem na hora. Eu tinha uma família que de um dia para outro diminuiu em 4 pessoas. Eu passei alguns meses sem escrever nada, isso foi trauma. Eu tive que reaprender a fazer poemas normais e até conseguir, fiz o que meu coração mandou. Eu sou uma pessoa batalhadora, jamais desistiria do sonho de ser escritora, muito menos da vida, nunca, então eu defino minha fase gótica como um período de readaptação. Tive que me enfrentar para voltar a escrever. Mas não sou traumatizada, nada disso, sou muito feliz. Hoje eu me vejo bem mais madura e consciente do que quero. E também, gosto do resultado que essa experiência de vida me deu. Hoje eu amo meus escritos, antes não. A tendência de meus próximos estilos literários só Deus sabe,rss. Eu jamais havia imaginado esse GOTICISMO forçado para minha vida, então, futuro, não sei nada sobre ele.

O Bar - Me, sinto que ainda há muito a se descobrir de você. Conheço fora dessa veia erótica uma Me amiga, ou melhor explicando uma mulher amiga, pronta pra servir, que tem compaixão. Essa mulher escreve poemas sobre esse lado, ou nega essa parte em "Me"? Porque um faque e não você de verdade? O que teme dizer fora do fake?

O meu eu verdadeiro escreveu bem mais que a Me. Tenho por volta de trezentas poesias, na maioria medíocres, bobas, sem sal.O que eu considero de boa são as sociais, fiz muitas. O que resultou a partir da Me foi qualidade, apurei meu estilo. O que a Me me deu foi reconhecimento, auto estima, os poemas da Me são feitos de sangue, de sentimento a flôr da pele. Eu dou valor nisso. Não posso simplesmemnte assumir com meu eu verdadeiro e pronto. Eu aprendi a duras penas que, tenho que me virar sozinha, descobri que a Me me rendeu em dois anos o que eu não consegui a vida toda. Não falo de dinheiro, falo de qualidade, aprendizagem. Mas pensando em dinheiro e futuro, que depende só de mim, o mistério vai continuar. Eu fiz curso de marketing em um de meus empregos e aprendi que, o mistério, quando bem utilizado, faz a diferença, atrai, estimula, VENDE. Eu não sou nada. Se um dia eu conseguir algo de grande com a Me, aí sim, assumo ela de vez. Por enquanto só registrei ela no BN e estou na batalha.
O Bar - fora a tua poesação erótica, tua contação de contos bem posta. é. gosta desgosta de que mais? pinturas. hã. música da qual. gosta d'algum animal?

Tirando literatura eu gosto de música e filmes de vampiros, já assisti quase todos, antigos e novos. Na música meu gosto é bem diversificado, curto desde nacionais (José Ramalho, Fagner, Cazuza, Barão, Titãs, Engenheiros, os mineiros do Clube da Esquina, Vinícius, Kiko Zambianki, Paralamas,Charlie B.Jr, etc...), a black in music (2Pac, Snoop Doog, etc...). Gosto também dos Mamonas Assassinas e de música clássica,rsss.
Adoro pintura, vivo procurando telas na net, sou obsecada em aprender, mas até agora não tive tempo de investir nisso, nem sei se tenho dom ou se é só curiosidade.
Adoro animais. Tenho 4 cachorros, 1 gato e tive um ramster ( não sei se é assim que escreve) mas meu cachorro comeu.
Não gosto:PEDÓFILOS (tenho pavor, se pudesse exterminava com todos da face da Terra).

O Bar - Hahahahaha, não deu pra resistir. Seu cão comeu o Hamster? Triste mas engraçado. Hahahahah. -Pára de rir porra!

Eu cuidava permanentemente do gato e quem comeu foi o cão. Isso é triste porra! Mas pode rir.
O Bar - Lembro que quando chegou aqui a poesia erótica ainda não estava consolidada no seu estilo, pelo menos muitas vezes ela ainda não atingia a expectativa que nós leitores tínhamos de um poema sensual.
Mas com o trabalho e lapidação você desenvolveu muito seu estilo. Você acha que o Bar foi fundamental para isso? Como o Bar ajudou você nesse amadurecimento literário?

O Bar foi fundamental sim, evolui a partir de duros comentários. Eu sempre fui uma pessoa aberta a críticas, sempre mudo um poema se achar que foi construtiva a dica. Eu mudava muitas vezes até atingir o ponto ideal. Mas, quando entrei aqui estava já no caminho do erotismo, faltava só a lapidação, essa devo ao Bar. Também, sempre fui uma pessoa pesquisadora, sempre procurei nas bibliotecas e na net respostas para tudo, através dos grandes escritores. Nos contos eu era leiga. Tinha vontade e inspiração, mas saiam muito rebuscados, cheios de coisas supérfluas, uma leitura cansativa. Não sabia desenvolver um conto. Quando conheci o site do Mão, comecei a imitá-lo na sequencia das histórias. Ainda era pouco e como estávamos consolidando uma amizade, me aproveitei dele,rss. O Mão foi fundamental na minha evolução em contos. Esses eu assumo, não sabia como fazer, aprendi a partir dele. Hoje eu faço contos criativos e jamais posto sem que ele tenha lido. Outro dia fiz um em homenagem ao seu aniversário e não podia enviá-lo para que corrigisse ou estragaria a surpresa. Fiquei meia insegura e abusei da boa vontade da Alessandra, foi quem corrigiu. Mas, segundo ela, eu não tive erros, um ou dois no máximo e isso me surpreendeu.
O Bar foi uma escola, assumo, quem sabe não seja futuramente escola literária de muitas outras pessoas? Eu acredito nisso.
O Bar - sua criatividade é inquestionável! no seu processo criativo, como surge a idéia? vc matuta as coisas ou elas vêm duma vez?

Eu tenho uma personalidade muito sacana. Não sei se já perceberam minha predileção por sacanear os personagens masculinos em meus textos. Eu sou uma pessoa piadista, adoro chocar com finais que ferrem ou que gerem risos. Esse é um fato marcante em minha personalidade que transporto para meus contos. A inspiração surge do nada, talvez incentivada por essa sêde de criar algo engraçado. Um exemplo disso é o conto de seu aniversário. Eu tinha que fazer algo que te desse prazer em ler e ao mesmo tempo fosse sacana. Se eu penso dessa forma as idéias fluem. Nem preciso de papel. Eu tenho certa facilidade para escrever desde que me conheço por gente. Um fato que talvez seja surpresa é que 70 por cento dos poemas que postei no Bar foram feitos no próprio tópico. Eu gosto assim, quase não uso o Word( por isso te dou tanto trabalho nas correções,rss).
O Bar agradece à Me a disposição em ser entrevistada e à elucidação de todas as dúvidas. Agora a poderosa Me Morte está mais fácil para todos.
         
                   

InterNerd, 09 de maio de 2007