Primeira Rodada |
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| Cesar Ribeiro do Boteco do Ribeiro | sobre poesia, escrevinhadores e outras esquisitices | |||||||||||
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por Me Morte |
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| Eu disse para você o quanto
amo uma boa espiga de milho! Na forma de um bolo
crocante, um mingau, vulgo Curau, como chamam em Minas
Gerais ou assada direta no fogo.Hum...deliciosa! Mas
nenhuma das formas se compara a uma boa espiga de milho
cozida na água e sal. Você abocanha ela, crava seus
dentes e arranca grão por grão, no final dá uma bela
chupada na espiga e vem aquele caldinho saboroso. Só de
descrever sinto a boca cheia de água! Eu perco minha cabeça quando devoro um milho assim!Avisei você, não foi? Não tens o direito de morrer agora esvaindo-se em sangue! Sabias que eu odiava sexo oral.Então por que, cargas d'agua, foi dizer: ___Imagine uma bela e tenra espiga de milho cozida! |
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Por Muryel de Zoppa |
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| Quando aqui adentrei achava-me,
assim como grande parte dos novatos, não o melhor, não,
mas um grande escritor, dotado da sensibilidade
recorrente nos grandes da literatura universal,
talentoso, O Poeta, ledo engano. Fui massacrado,
pisoteado por pessoas desconhecidas que, num primeiro
momento, odiei, pela sinceridade posta, cruel, pela
sagacidade em identificar meus erros, pelo sarcasmo, pela
autonomia em esmiuçar minha 'aura' de poeta, pela
clareza e autenticidade das críticas. Fui vencido. Foi quando aprendi a amar. Amar a literatura como deve ser amada, com paciência, incursões, com tato. Aprendi detalhes que nem mesmo a Academia poderia ensinar: Poesia, meu caro, se faz com imagens, com sentido; nela, menos é mais. Aprendi a aprender. Fui puta, bêbado, louco, fui rei, fui Baudelaire, fui amante e fui amado; fui Deus e criei. A cada dia de acesso, a cada hora depositada um aprendizado, um gozo, uma lástima pelo erro, algumas vezes aplausos... fui Poeta. Gio, Me, Cris, Roberto, Lameque, Jimena, Alessandra, Anderson, André, Sacerdote, Eduardo, Emmanuel, Paulo, Afonso, Jeandro, Anaconda, Larissa, Véio, Leo e outros e outros e tantos que forma esta constelação chamada Bar do escritor. A vocês este simples e emocionado obrigado. Aos novos colegas uma pergunta: Você é um bom escritor? |
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por Giovani Iemini |
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| Pirilampulam blogs de poesia.
Jornais as publicam diariamente. Na tv, é chique. Baita-machos
confessam ler e até escrever uns versos. A literatura
retoma ao lirismo seu patamar de nobreza. O que deu no povo para render-se ao poema? Escrevinhadores são seres estranhos. Incapazes para qualquer profissão ou vagabundos. Os melhores são ambos. Escrevem pois é uma ânsia irresistível, íntima, reveladora dos segredos, preconceitos, opiniões polêmicas. Tão pessoal que alguns jamais revelam suas preciosidades, engavetam e pronto. A interNerd difundiu esses tesouros. Expôs ao mundo aqueles versinhos do fundo da alma. Milhares de poetinhas encontraram um varal para pendurar suas composições. Esses escrevinhadores, estranhos, descobrem que escrever bem não é mérito raro. Pior: percebem que a poesia é, na verdade, sentimental. Não basta um bom texto, tem que dar sorte do leitor estar no momento certo para ler. Daí, os tecladores malucos que adoram resfolegar baba nos textos dos amigos, se aplicam em elogiar a todos como uma metralhadora giratória, esperando acertar alguém que o elogie de volta. Um ciclo, viciado e imprestável, que não é verdadeiro nem capacita os debatentes. Por outro lado, os neuróticos digitadores também percebem que há bons ou, quiçá, maravilhosos poetas que usam a rede como mais um meio para construir a literatura. Repito: construir. Os bons poetas crescem ao ler textos alheios, ao receber críticas embasadas e, principalmente, quando divulgam na rede uma visão poética sensível, responsável, preocupada em difundir a poesia não como forma de engrandecimento pessoal, mas numa concepção mais humana, que aproxime as pessoas através dos sentimentos comuns, das tristezas, dos sonhos perdidos, daquilo que faz de todo homem um irmão: o amor. Esta excentricidade poética existe desde sempre, por todo lado, sem tabu de sexo, cor ou nível. Faz do homem um igual, conversa sem linguagem, exibe o que os maus escondem: a nossa fraqueza. E, assim, nos abraça como espécie. (-Espécie? -É. Sapien. -Ah). |
| Cesar Ribeiro do Boteco do Ribeiro | |||||||||
| > Quem é o Ribeiro? Mais um na multidão que procura encontrar um diálogo fora do grão de areia para fugir da tempestade, e para isso acabou caindo numa espécie de redoma da arte e da literatura como maneira de afugentar os fantasmas, que são muitos e presentes o tempo inteiro. |
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| > De onde surgiu a inspiração e a idéia para
criar o Boteco do Ribeiro? Escrevo desde os 19 anos. Aos poucos acabei caindo num grupo de escritores, intelectuais e artistas e montei um grupo de literatura no Yahoo chamado Sociedade dos Escritores. Esse núcleo surgiu nos anos 2000 eu acho, e funciona até hoje, mas faz uma cara que não apareço por lá. Com a popularização do computador e a invenção dos sites de cultura, blogs e outros urubus cibernéticos resolvi montar um blog, apesar de ter umas poeiras guardadas em relação a esse tipo de virtualha, que achava muito diariozinho virtual. Como vida nenhuma é realmente interessante e todas são muito parecidas em suas questões e gororobas, fiz o blog na metade do ano passado e escrevia uns dois textos por mês, por aí. Nunca tive muito saco pra expor minhas idéias, a não ser com um círculo restrito de comparsas. Mas comecei a entrar mais em blogs de camaradas e vi que aquilo podia ter outro figurino. Há muitas coisas bacanas nesse meio que fogem quase completamente dessa merreca que é a imprensa oficial, em que você vê nos sites as divisões política, televisão, horóscopo e a imbecil junção arte e entretenimento, com meia dúzia de linhas sobre a estréia da peça da atriz global ou o novo livro da besta do Paulo Coelho. Sei que arte não mata a fome de ninguém, a não ser que você venda suas naturezas mortas para restaurantezinhos do Morumbi para os esfomeados beberem o vinho ao lado de uma pintura "bonitinha". Mas como hoje basta você ter um PC com uma conexão bacana pra falar ao mundo e pensar que o mundo te escuta houve uma proliferação de vozes. O lado ruim disso é que um monte de gente que sempre quis berrar suas verdades encontra um canal para isso, e então surgem várias atrocidades. O lado bacana é que no meio da avacalhação sempre aparecem pessoas com fala poderosa que não encontram espaço na mídia, que normalmente opta por ouvir o senso comum e o que não afeta a engrenagem. Por sua vez, a divisão em si do poder da oratória, com vários profetas gritando seu mundo, tende a diminuir o efeito do alcance dos grandes oradores de plantão da sociedade anterior a esta era da informação - e é sempre mais interessante você deixar que todo mundo grite e que o poder de alcance desse grito seja diminuído, o que impede certas chacinas usuais, como as geradas por todas as religiões e tiranos de plantão na janelinha. Voltando ao blog, não queria que ele fosse um exercício do ego, em que só colocasse textos meus. Não sou profeta de nada e tem várias vozes que querem falar e tem verbo bacana. Então acabei fuçando nesse meio, fazendo contatos e colocando mais um espaço para divulgação de idéias com as quais eu concordo - o que é uma forma de replicar conceitos interessantes para mudar a esquina em que vivemos. |
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| > Sabemos que o teu blog recebe textos de
colaboradores diversos.Que > critérios você usa para selecionar os textos que chegam e quantas pessoas estão > envolvidas no processo?Existe algum tipo de censura? É um blog pessoal, o que significa que eu escolho o que entra. Aí vem o gosto tanto no ponto de vista ético como no estético. Não adianta você mostrar seu maravilhoso quadro da banana que de tão bom dá até vontade de comê-lo. Isso não me interessa. Tudo passa por um conceito particular de o que é arte, que ao meu ver significa uma maneira diferenciada de refletir a realidade, expondo o lado sombrio, o que está oculto. A realidade está aqui e ela é bem desinteressante, com seus corvos de plantão, suas vaidades, a espera de uma vida com significado. O problema é que para entrar em uma existência com um mínimo de verba é preciso se aliar ao altar. Esse é o conceito vigente. Os valores vão para liberdade, igualdade e fraternidade com uma dose de psicologia para envelopar o conteúdo e muita cachaça para segurar o tranco. Acho estranho. Liberdade é abstrato e inexistente, porque tudo está interligado. O máximo ponto a que podemos chegar é definir quais as amarras que aceitamos, ou então saímos por aí disparando o chumbo em qualquer carcaça. Quanto à igualdade, há a frase-chavão de como atingir uma igualdade com leis iguais para abutrinhos tão diferentes. Há uma aceitação e submissão a certas regras absurdas que insistem em continuar por aí porque ninguém está preocupado com os gambás de casaco de pele, estão é interessados em entrar pra tropa, em ter seu próprio apê nos Jardins. Mas vamos pensar no MST, na Via Campesina e outros movimentos. O conceito envolve a questão da terra, a questão de uma mínima condição de sobrevivência. Aí você cai em temas como de Proudhon, da propriedade ser um roubo, da idéia de um ser além do bem e do mal de Nietzsche, da irresponsabilidade do oprimido e da necessidade do opressor de Hannah Arendt... É cômodo responsabilizar o outro pela tragédia e seguir essa vida de igualdades e da tradição cristãzinha do bem, ou então retrucar colocando que a força significa ditadura. Qualquer ditadura é uma merda e cometerá sempre seus genocídios, pois é isso que mantém sua sobrevivência, mas o que não dá para sustentar é a idéia da fraqueza de quem sofre como algo benéfico, como sina de vida, que o trabalho enobrece o homem e forma o caráter. A maioria dos trabalhos ultraja o homem, mas a sociedade tem de funcionar, então é necessário o discurso. O que rola nos blogs e nesta era de informação é que com a tecnologia começou a ser possível a divulgação de outras idéias, idéias que fogem dessa rotina perversa de sustentação de um estado naturalmente excludente. De certa forma, esses conceitos estão por trás do que entra no blog, que objetiva dar de maneira poética esse gênero de discurso - porque é de discurso que se trata, por mais sutil que seja sua assinatura. |
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| > O que pretende atingir com o Blog? Acho que isso já está respondido na pergunta anterior. |
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| > Qual sua visão a respeito do panorama atual da
arte brasileira? A arte em si é muito boa e provocante, apesar de suas falhas muitas vezes estéticas, o que pode ser visto nas más interpretações de certas peças de teatro, na repetição exaustiva de temas da moda colocados no cinema e na própria industrialização da música. O problema é que há uma intensificação da tentativa de venda do entretenimento como arte - e vice-versa -, o que acaba confundindo a cabeça até mesmo do próprio artista. Sem essa divisão de o que é arte e o que é entretenimento se confunde os objetivos do fazer arte, que deve ser algo contestatório e que procure uma transformação de valores, apesar de essa transformação ser impossível. O que se vê hoje é muito a necessidade do artista de sobreviver em um mundo que dá mais valor ao pastel com goiabada, o que acaba fazendo com que o dito artista coloque outros temperos em sua obra. Temperos não muito agradáveis. Por outro lado, mesmo quando segue uma linha dissociada do interesse cultural da sociedade mas consegue sair da lama e ser visto, essa visibilidade acaba gerando uma fórmula que o artista repete, para poder perpetuar-se na fama. É preciso entender que tudo, no indivíduo e conseqüentemente no artista, trata-se de poder. O que o artista deseja? O poder de ser ouvido, de ter suas idéias transmitidas à população. Só que muitas vezes essa vontade de poder é maior do que a necessidade fundamental que poderia dar sustentação a ela: ter idéias. Isso acaba gerando a reprodução infinita de bundas e ninfas de auditórios, de micos de circo em big brothers etc. O artista sempre apontou tendências e muitas vezes as criou. Hoje a indústria da comunicação fabrica essas tendências e o artista, com medo da geladeira vazia, procura segui-las. Muitas vezes sem consciência disso. Aí a chave é mudada da cabeça de arte para o cérebro do entretenimento. O artista e a arte perdem sua função. Esse é o problema central dessa falta de visibilidade criada em um país que não valoriza seus pensadores, sejam eles da arte ou da filosofia ou de qualquer outro campo que lida com a reflexão de uma sociedade. |
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| > A cada dia milhares de blogs são criados na
internet. No que o Bar do > Ribeiro se diferencia dos inúmeros blogs que povoam a grande rede? Sinceramente, acho que em nada. É mais um blog que vem colocar idéias, mostrar textos interessantes de pessoas igualmente interessantes, apresentar artistas plásticos que talvez poucos conheçam mas que merecem ser vistos pela qualidade de sua pesquisa, apresentar músicos, escritores etc. O poder único de blogs quem tem é a Bruna Surfistinha e outros do gênero. Não acho que isso seja realmente interessante. Quem se destaca individualmente com seus blogs são personalidades ou pessoas atreladas a alguma corporação, seja ela jornalística ou não. E muitos deles até são interessantes, ao revelar bastidores da política, por exemplo. Quanto aos outros, o lance é esquecer o egocentrismo e pensar na força que os blogs semelhantes podem ter ao criar uma rede de mútua influência, como pequenas vozes a repetir mais ou menos o mesmo assunto. Na linha do Boteco do Ribeiro, de centralização na arte e na literatura contemporâneas com pincelada de outros artistas consagrados, como Kerouac, Velvet Underground, Pollock, há vários. Esses blogs e seus blogueiros e freqüentadores, unidos, podem criar uma voz interessante. |
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| > Como surgiu a Cia de Orquestração Cênica da
qual você é o diretor? A necessidade central é a comunicação, seja ela em teatro, literatura, filosofia ou o que for. Com isso acabei montando a companhia. Ela surgiu em 1994 de uma pesquisa que envolveu basicamente textos de Dostoievski, Baudelaire e Allan Poe. Esses autores serviram de base a uma trilogia de peças, sendo elas Subterrâneo, Desimagem e Millennium. Não foram encenados textos deles. O que fazemos normalmente é estudar as obras, dialogar sobre elas, puxar matérias de jornais e livros para mergulhar em um tema. No caso de Subterrâneo, inspirado em Dostoievski, a idéia era voltada a um estudo da violência. Em Desimagem (Baudelaire) mergulhamos no conceito de belo e sublime. Em Millennium (Allan Poe) foi a vez do mistério, do que não se quer revelado. A pesquisa foi se estendendo depois a Erasmo de Roterdã, que gerou a peça Queen - A Festa, sobre a loucura da normalidade, depois caiu em Beckett, numa pesquisa sobre a incomunicabilidade que gerou Diálogo Inútil do Abismo com a Queda, Intermezzo e Sinfonia Patética. Em meio a essas bases, que foram se somando ao longo do tempo, também entraram Nietzsche e Foucault. Mas isso não significa um teatro cabeça, mesmo porque toda a idéia de criação envolve a representação como pesadelo. Não se pode esquecer que o teatro é uma arte estética, e somando isso ao que falei antes sobre a não representação real da realidade, tudo acaba caindo para o onírico. Essa leva é realçada por outras influências, mais pop, como Seinfeld, South Park, quadrinhos e filmes futuristas e obras de artistas como Picasso, Magritte, Bacon e outros. Em maio estrearemos no Porão do Centro Cultural uma mostra de repertório do grupo com 5 peças, ocupando o espaço de terça a domingo. Lá estarão Queen - a Festa, um peça interativa em que o público dança músicas da época disco e bebe vinho; Diálogo Inútil do Abismo com a Queda, que conta a história de um casal de velhos que estão juntos há 350 anos e voltam ao local em que se casaram para se separar; Desconstrução, uma coletânea de crônicas escritas por mim; e Intermezzo e Sinfonia Patética, duas peças sem texto, criadas a partir de representações de seres urbanos, como andarilhos, profetas das cidades, poetas boêmios e outros. É conferir para entender um pouco desse universo de filosofia, uísques e máquinas. |
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| > Dá para viver de Teatro no Brasil? Dependendo do tipo de teatro. No teatro comercial você até vive bem, com peças normalmente cheias, ensaios pagos e tal. No teatro de pesquisa, que é o meu caso, a coisa fica mais complicada. Durante a temporada, dá para se sustentar bem meia-boca, mas enquanto não está com peça em cartaz não rola. Por outro lado, desde a gestão da Marta o teatro em São Paulo mudou de figura. Os teatros da prefeitura foram recuperados e cedidos temporariamente a grupos, houve projetos de formação de público, surgiram os CEUs, vingou a Lei do Fomento. Ou seja, o panorama mudou. Mas ainda assim é necessário ter outro trabalho para conseguir a sobrevivência, seja dando aulas de teatro ou fazendo qualquer outra coisa. A conta aí é simples: digamos que um grupo receba 300 mil do fomento. Essa grana vale para seis meses. Se o grupo tiver cerca de 20 pessoas, como a Cia de Orquestração Cênica, e você quiser pagar um salário mensal de 2 mil a cada integrante da equipe, só aí você já tem 240 mil gastos em salário. Sobrariam 60 mil para montar a peça, cuidar do espaço de apresentação (caso tenha um) e outros gastos. Dá para ter uma noção de como funciona o negócio. Ou não funciona. A questão é complicada. Na mão de empresários não dá para deixar, como no caso da Lei Rouanet. Na mão do estado é complicado, pela burocracia, falta de recursos e falta de uma política que coloque a cultura em um plano adequado. O pensamento corrente é que cultura é luxo e que não dá para você tirar verba da saúde, da habitação e tal para colocar na cultura. É um pensamento que dá para entender seu princípio, mas a falta de cultura gera a fome de amanhã, a falta de capacidade de sobrevivência pessoal do indivíduo, o que perpetua a necessidade de ferramentas assistencialistas, que é infelizmente a base de qualquer projeto social no Brasil. |
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| > Quais são os melhores escritores e quais os
que, de certa forma, o > influenciaram a escrever? Fora os já citados, Kerouac, Schopenhauer, Guimarães Rosa, Bukowski, João Cabral, Hemingway, Lautreamont, Kafka, Milton, Chaucer, Dante, Plínio Marcos, Adorno, Hobbes, Platão, os pré-socráticos, Darcy Ribeiro, Milton Santos, irmãos Campos... São muitos e variados. |
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| > Como ele definiria o poeta dos dias de hoje em
contraposição aos de > outrora, e quais são suas peculiaridades? Primeira coisa é ter perdido o caráter clássico, do qual também gosto bastante. Em segundo lugar acho que vem a descoberta do parágrafo. A poesia reflete seu tempo, e o tempo atual é de confusão, de excesso de informação, de acúmulo de perguntas e tecnologia. Então ela acabou ganhando o bife gorduroso. Isso é uma conquista. Anteriormente falava muito de caviar e deuses, hoje fala do balconista do boteco. Escreve-se poesia hoje como quem faz um conto, mas em vez de continuar a frase você dá um "enter". Essa é uma fórmula genial, principalmente pra mim, que como escritor tenho pouca intimidade com a poesia. Posso dizer que só aprendi a escrever pseudopoesias após a tecla enter. |
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| > O brasileiro lê poesia? Olha, poucas pessoas lêem de maneira geral, até mesmo bula de remédio. Mas a poesia é um dos gêneros mais lidos por normalmente ser curta, o que afasta a impressão de ignorância do indivíduo e concilia com o tempo acelerado da atualidade. Mas ainda assim, apesar de ler pouco, escreve pra caralho. É só espirrar que aparece um poeta. |
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| > O que os leitores esperam de um escritor ou
poeta que se proponha a > falar-lhes? Ou seja, hoje em dia o que é preciso para ser lido? Bom, se você quer leitores em quantidade o necessário é criar uma estética com musicalidade que reflita questões que normalmente são encaradas como bacanas pela maioria das pessoas. Reflexões sobre o amor sempre agradam à maioria. Outra possibilidade é o retorno à natureza, o caráter bucólico. Mas isso só é interessante pra quem faz poesia pensando que está escrevendo um jornal, querendo público. Se o caso for escrever como que morre, ou como quem nasce, então é preciso colocar cada vez mais a própria idéia, reforçar um estilo próprio, insistir nele, e não ter medo dos significados. Perde-se em quantidade, mas ganha-se em qualidade, mesmo porque ninguém lê o autor, as pessoas lêem é a si mesmas refletidas no autor. Isso significa que pode ser a melhor obra do mundo, mas se o santo do autor não bater com o santo do leitor naquele momento específico da leitura a obra não terá significado algum. Ler é atenção. É preciso estar com um determinado tipo de atenção ao mundo para que as palavras entrem. Se hoje minha preocupação está voltada para sombras e você me fala de flores, eu vou mandar você cultivar teu palavrório em outro jardim. Não há como ser diferente. |
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| > Qual a relevância social da poesia nos
ciberespaços? A mesma relevância de qualquer palavra, de qualquer tentativa de comunicação. Para alguns, isso significa relevância nenhuma, pois a arte não transforma ninguém. Para mim, a idéia de transformação é ambígua: não se pode transformar o mundo porque se tem uma idéia de mundo sem misérias, de um paraíso de santos que bebem mas não se embriagam. Isso é impossível. O que se pode fazer é combater as misérias mais intoleráveis para mudar sua gradação, encontrando misérias mais toleráveis. A poesia entra nisso com o mesmo efeito de um filme, de uma pintura, de uma aula, de uma conversa de boteco. Quando uma pessoa fala x, entendemos y. Quando outra pessoa fala x novamente, começamos a prestar atenção a esse x mas ainda achamos que x é y agora misturado a w. Aos poucos, com essas repetições, começamos a nos preocupar com a criação de um conceito sobre x. É isso que chamei de criar uma atenção. Nelson Rodrigues resumia com a frase só os profetas enxergam o óbvio. Um exemplo atual disso é o tema da ecologia, da sustentabilidade do planeta. Essa questão foi massificada no começo dos anos 80, foi repetida exaustivamente nos anos 90 e chegou ao exagero atualmente. O discurso não mudou nem a qualidade dele. No entanto, com a repetição do argumento, o pavor se alastrou. Então surge a necessidade social de uma mudança. Essa necessidade social se estabelece porque o indivíduo dentro dessa sociedade percebeu que é necessário mudar para afugentar a extinção. Esse é o processo de apreensão, uma repetição exaustiva de argumento até que o indivíduo crie um pavor e preste atenção ao que está sendo dito. Esse pavor é fundamental para criar a atenção. É ele que nos leva a criar uma tentativa de busca de significados, pois sem ele continuaríamos sentados na poltrona assistindo ao Faustão. |
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| > O que achou do Bar do Escritor? Entro naquilo que falei sobre o Boteco do Ribeiro: a importância não pode ser individual porque nossa voz tem um limite de alcance. A soma dessas vozes multiplica a capacidade de ser ouvido. O Bar do Escritor é outro site que está nessa seara de fugir do conteúdo formigas na sopa da imprensa oficial, e com isso vem criando ao lado de outros um espaço interessante de troca de conceitos que reflete as necessidades reais de diálogo atual. Essa unidade temática do universo virtual precisa ser multiplicada. Nos blogs isso funciona através do agrupamento dessas pessoas responsáveis pelos blogs, indicando outros blogs, sites interessantes, eventos necessários e por aí vai. Quando você entra no Boteco e vê a poesia do Sicrano Fulano, entra no Bar do Escritor e vê a entrevista do Sicrano Fulano, vai ao site e está lá o figura de novo, então começa a prestar atenção. Creio que seja esse nosso papel, mostrar que há outros filtros possíveis, outros universos. |
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| > Para encerrar, a palavra é sua. Queria agradecer ao Mão Branca e à virtualha do Bar do Escritor por oferecer esse espaço para uma troca de idéias. Precisando, estamos aí. E apareçam lá no Centro Cultural pra dar uma conferida em nosso trabalho. |
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InterNerd, 18 de abril de 2007