Uma coisa que odeio é xópin. Quando eu era moleque e era obrigado a que viajar com meus pais nas férias, pois não sabia ainda fazer Kinojo para sobreviver comigo mesmo, eles avisavam: - Vamos para São Paulo. - Guarujá? - Eu questionava. - Capital! Já ficava triste. Freqüentaria xópins com minhas primas o dia inteiro e todo dia. Era a época do surgimento dos xópins no Brasil e São Paulo era a sede desses locais de compra. - Ah, deixa eu ficar em casa.- Eu pedia. - Você não gosta das suas primas? - Gosto. - Não gosta dos seus tios? - Gosto. - Então porque não quer ir? - Porra, eu odeio xópin! Obviamente meu linguajar não era esse, mas o teor era o mesmo. Sempre preferi passar o dia na beira do lago Paranoá jogando pedrinha na água, ou andando de bicicleta só para ver o pneu ficar careca, ou até mesmo jogando gol-a-gol o dia inteiro com algum moleque do que ir a qualquer xópin. - Mas no xópin tem praça de alimentação. - Prefiro a comida da Tereza! - É a minha mãe. - No xópin tem fliperama que você gosta. - A ficha é muito cara. - Tá cheio de meninas. - Mulher que gosta de xópin não é mulher que eu goste. - Toda mulher gosta de xópin. - Hei de encontrar uma mulher sã! - Eu sentenciava. A Renata gosta pouco de xópin. Ainda conseguirei explicar para ela que esses locais só servem como ponto de encontro. - Vamos acampar na Chapada. Onde a gente se encontra? - Na frente do xópin Flamboian. E ponto. Xópin é muito chato! Outra coisa que odeio é tagarela no cinema. Fomos ao cinema do xópin Brasília (a origem da minha bronca) assistir O Grito. Sentamos, com nossos lanches embrulhados em papel barulhento. Enquanto eu tentava comer fazendo o menor barulho possível, um grupelho de uns seis jovenzitos atrás de nós estava no maior tititi. O filme, com muito suspense, se desenvolvia na tela e o jovens riam e conversavam para espantar a tensão. Virei-me para pedir silêncio mas minha dona me segurou. Algum tempo passou e a conversa continuava. Virei novamente e a patroa continuou me acalmando. - Toma. - Ela cochichou no meu ouvido. - Beba seu chá de ervas. Mantive-me calmo até que o estresse do filme e da balbúrdia juvenil se tornaram insuportáveis para mim. Virei e falei antes de ser contido pela minha senhora: - Hei, dá pra vocês fazerem silêncio pois eu quero assistir ao filme? - Assiste ai, então! - Retrucou alguém no meio do grupelho. Todos me olharam gozadores. - Se vocês não calarem a boca eu vou ai! Silêncio. Até duas dondocas que cochichavam na nossa fileira se calaram. Ouvi o gerador do cinema projetando o filme. Dei-me por satisfeito com o silêncio e voltei-me à tela. Calem a boca no cinema, tagarelas! Uma coisa que eu adoro é o poder da escuridão. Nunca se sabe o que pode sair da escuridão. É por isso que o ser humano tem um medo primitivo do escuro. Sabemos que no escuro existe apenas a falta de luz, mas ainda assim ficamos amedrontados. No cinema, quando eu pago um sapo para um grupo de barulhentos, uso apenas minha voz grossa e o poder da escuridão. - Dá pra vocês calarem a boca, bando de filhos da puta sem noção? - Falei certa vez, para uns quinze carinhas da minha idade, quando descobri o poder da escuridão. - Vá se foder! - Respondeu-me um. - É, cala a boca você! - Falou outro. - A GENTE vai ter que calar a boca de vocês, MOLEQUES babacas? - Gritei, em tom cavernoso. Os quinze carinhas se calaram. O poder da escuridão! Eles não sabiam com quantos amigos eu estava nem o meu tamanho. Não sabiam a minha idade nem a minha caixa muscular. Se soubessem que eu estava só e que sou um fracote barrigudo, teriam me desprezado. Mas se calaram. O poder da escuridão! |
fin |
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