| Sou brasileiro e não me
orgulho nunca Parte XII
- Este país é uma vergonha! Bradou meu colega de copo. Concordei. Vergonha é o sentimento nacional mais abrangente. Uma vergonha íntima, triste, profunda. - Só tem vagabundo! Completou. Olhei para ele com admiração. Falava nada menos que a verdade. - Se eu fosse político, as coisas seriam melhores. Epa, pensei, não force a barra! Estávamos num botequim de terceira, em plena sexta-feira ao meio-dia. Havíamos fugido do trabalho para tomar uma ou outra (dúzia). Obviamente não voltaríamos ao trabalho e, se voltássemos, ficaríamos ruminando o álcool sobre nossas mesas sem fazer nada. Como ele se atrevia a dizer que era melhor que nossos políticos? - Melhores como? Perguntei. - Melhores, oras. Virou mais um gole. Para todos.- Chacoalhou o copo no ar, como um candidato que promete o que for necessário para ser eleito. Ele nem sabia o que melhorar pois não sabia qual era o problema. - Você daria trabalho para todos? - Sim! Levantou o copo mais uma vez. Trabalho para todos! Gritou. - Então por que não tá trabalhando agora? Ele me fitou com olhos ignorantes. - Meu chefe me liberou. A voz estava mais baixa. Seu chefe era eu. Ou não? Eu queria apenas beber, não conversar bobagens políticas. Minha impressão sobre nosso país resume-se à capacidade de criar novos adjetivos superlativos para sobrepujar os já existentes, como ridículo, por exemplo. Segundo o dicionário, é o que provoca escárnio (desprezo). A história do Brasil não pode mais ser considerada ridícula, afinal a fase da aversão foi superada há tempos, hoje temos apenas repulsa no que trata da política nacional. O sentimento de vergonha alia-se à incapacidade de entender o que acontece em estâncias superiores, tanto do Legislativo e Executivo quanto do Judiciário. São os poderes do mal. O que os define atualmente é uma palavra que ainda nem existe no português, é algo mais forte que ridículo, mais despiciendo que qualquer ação dos bandalheiros que nos dirigem, é algo como um burlesco vulgar sem precedentes. - Relaxa, - Acalmei-o - mas pára de falar merda! Entornei meu copo. Afinal, somos também brasileiros, filhos desta mesma pátria puta que nos cagou até o pescoço.
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fin |
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