Sobre golpes, tretas e literatura de comadre
- Seqüestramos seu filho! Disse o cara ao telefone. Veio com um papo que era do Corpo de Bombeiros, perguntou se eu conhecia alguém de vinte e poucos anos, descreveu mais ou menos a pessoa. Quando confirmei que era meu filho, veio com o golpe. - Chupe o pau dele! Foi minha resposta. Imagino que ficou tão desconcertado que emudeceu. - Com carinho, tá? Pedi. E desliguei. Eu não tenho filho. Sabia que o telefonema era um golpe. Coisa de presidiário, ligam para alguém, jogam um verde e exigem como resgate depósito em contas-laranja. Dá para fazer a transferência pelo computador da casa. Em minutos, extorquem a grana que será retirada em caixas 24 horas. Detesto golpe, constantemente somos assediados por sem-vergonhas tentando nos passar para trás. Pior é que agora a prática se expandiu para as grandes empresas. Minha conta de telefone veio 27 pilas mais cara. Liguei para a GVT. Uma eternidade entre labirintos de tecle zero para recomeçar. - Filho Falei com minha voz grave e pausada, pareço um excelentíssimo alguém com ela preste atenção! Explanei detalhadamente o que havia de errado. O atendente, intimidado, corrigiu a conta e pediu desculpas. - Não. - Não? - Não desculpo! Vocês sabem que erraram e mantiveram o engano pois o prejudicado era o consumidor. Detesto golpe. Desenvolvendo a idéia, vi há muito que grandes empresas, como as de cartões de crédito, que cobram pelo serviço o fazem apenas para ter um extra. O lucro bruto vem do pagamento das faturas. - Empresa de cartões? Ligo todo início de ano. Quero cancelar! Outra eternidade de labirintos numéricos e sempre sou enviado para uma central de análise para encerramento de conta. Centenas de opções depois, o atendente informa que retirará todas as tarifas do cartão para aquele ano se eu continuar com ele. Cumpro rigorosamente este ritual com todas as empresas que cobram pelo serviço. Algumas vezes consigo apenas um bom desconto. É uma treta, um atalho para fugir das taxas. Um contra-golpe ao sistema capitalista. A única saída anárquica porém legal à exploração exagerada, outro nome para roubo institucionalizado. Me peguei pensando nesta crônica na fila do caixa-eletrônico ainda não dá para imprimir dinheiro em casa. Retirei uma miséria, pois medíocre estava meu saldo. Imaginei se algum dia eu conseguiria ganhar algum dinheiro como escritor. Sei de tantos que ganham honestamente seus trocados em revistas e jornais, e outros, horrorosos, que são até homenageados. Quais são os caminhos para o sucesso? Escrever bem, ter boas idéias e... algo mais. Sorte? Talvez. O que tenho visto no meio literário é um grande suporte entre escritores, todos se cumprimentando e elogiando. Todos conclamam aos leitores que tais compadres são os melhores escritores depois deles próprios. Uma tremenda masturbação coletiva. Ao leitor, sobra a própria crítica às obras, pois não se pode confiar na sinceridade desta trupe de escritores tão desprezada. É nesta hora que a casa cai! Ele percebe que aquele sujeito tão elogiado é somente o amigo do elogiante, não um bom autor. Vê-se engrupido no pior dos golpes: a opinião, que nao precisa ser embasada, nem coerente e muito menos verdadeira. É só um incentivo. Quem perde é a literatura, pois vê mais um leitor fugindo da leitura, afinal, ele não é obrigado a aceitar porcarias. Em todas as áreas existe protecionismo. Nem dá para resistir, só lamentar não fazer parte. Obviamente se eu estivesse entre os que são elogiados e vendem livros e participam de congressos, recebendo belos cachês pelas besteiras que escrevem, não contestaria o sistema. Calar-me-ia, não sou trouxa. Mas não posso entrar para este grupo de literatura de comadre, sou muito crítico, escrevo muitos palavrões, não sei elogiar tosqueiras. Se um dia eu amadurecer, me enquadrar, tiver talento o suficiente e for convidado para o chá dessas tias, ah, ai sim será uma bela treta. Até lá, continuemos na batalha contra tudo e todos.
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fin |
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