Sobre perdão, orgulho e moicanos.

 

O faroeste O Último dos Moicanos era comum na Sessão da Tarde. Cabeças com as laterais raspadas apareciam em todos os redutos punks. Eu também queria entrar na moda porém minha mãe simplesmente não deixava. E pronto.

Um amigo apareceu de moicano. Mesmo apreciando a atitude, tirei um sarro, claro, sacaneávamos tudo ao redor.

- Tá parecendo um filhote de vassoura piaçava com crista de galo.

Ele não titubeou, acertou-me o nariz num veloz direto. Com os olhos lacrimejantes, tentei reagir. Tomei outro. Fomos separados pelo resto da turma.

Fiquei puto. O inchaço deixou-me parecido com um pão de batata. Meu orgulho ferido exigia vingança, planejei uma violenta represália.

O tal amigo apareceu na minha casa. Estava amuado.

- Queria te pedir desculpa. – Falou. – Eu te acertei sem motivo.

Desconfiei. Será que ele pretendia eximir-se da culpa? Ora, era fácil bater e depois pedir perdão; queria vê-lo apanhando e tendo a mesmo papel altaneiro. Aliás, seria isso que eu teria que fazer, engolir meu orgulho ferido e aceitar as desculpas, ainda com o nariz inchado e o ego destruído.

- Desapoquenta. – Falei. – No futuro nem lembraremos disso. – Profetizei.

E acertei. Lembro claramente do dia do perdão. Fiquei satisfeito com o desfecho, ainda hoje tenho amizade com o ex-moicano. A briga perdeu completamente a importância, meu nariz se curou e meu ego foi às alturas pois meu algoz foi nobre o suficiente para reconhecer um erro e tentar reaver nossa ligação, mostrava que ele se importava comigo. Sei que também agi com maturidade, eu poderia menosprezar o perdão. Se assim fosse, certamente hoje só lembraria dos dois murros que levei no nariz. Seria apenas mais uma lembrança triste para delinear melhor as rugas.

Ontem vi um garotão usando moicano. Era o estilo David Bekham, com as laterais curtinhas e o centro arrepiado com gel. Na minha época, o penteado intuía um espírito guerreiro, uma rebeldia juvenil, o desleixo com o sistema. O garotão estava com gel. Gel? Quanto tempo ele passou na frente do espelho se emperiquitando?

- Tá parecendo um filhote de vassoura piaçava com crista de galo. – Impliquei.

O garotão me olhou com desprezo. Será que tentaria me acertar com um direto?

- Tenho orgulho dele, tá!? – Respondeu-me. Achei-o um tanto delicado, talvez um emo.

- Ok. – Recolhi-me à minha nostalgia. – Eu te perdôo por isso.

 

fin

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