Duas coisas que odeio: perdas e derrotas

 

Uma coisa que eu odeio é perda.

Não sei lidar com perdas. Qualquer perda, a de pessoas, situações, horários, idéias, mesmo daquele óculos velho que nem usava mais. Sempre acho que ele vestiria muito bem numa situação especifica. Ou que eu poderia doá-lo a alguém que o usaria com muito orgulho.

A cada perda acho que cheguei ao limite e penso que estou no fundo do poço. Descubro, invariavelmente, que o fundo é mais embaixo. Dá para afundar ainda mais.

O pior da perda é a conseqüência análoga. Perda é como morte de celebridade: sempre vem acompanhada de outra morte. Normalmente as celebridades morrem em trio. Lembro quando morreu o Mussum, logo depois se foi o Jorge Lafond (virou purpurina) e, por fim, o Linus Pauling (quem? o químico que inventou aquele troço que ninguém entende mas mandam a gente aprender no colégio). A perda acontece em cascata. Está sempre acompanhada de outra perda, outra derrota, outra tristeza. E, diferente das mortes de celebridades, a perda vem em número indefinido, três, quatro, cinco, sei lá quantas.

A perda é irreversível, indomável e extremamente surpreendente. Ela me choca ao mesmo tempo em que me derrota. Não importa o nível da perda, é a demonstração cabal que naquele assunto sou um perdedor.

 

Outra coisa que odeio é de derrota.

Sempre luto para vencer ou, ao menos, para aprender com a luta. A derrota é o ponto final na história que se desenvolve, mostrando toda a minha incapacidade de alcançar o objetivo e minha completa estupidez nos momentos cruciais das escolhas decisivas.

Acho, até, que eu não mais deveria fazer escolhas pois, hoje, considero-me perfeito para ter decisões erradas. Se quiser errar, faça o que faço (ou o que digo).

Da derrota não se tira vantagem alguma, não se aprende nada, não vale para nada. Nas próximas lutas o derrotado terá consigo a certeza que não foi capaz de vencer na luta passada e a insegurança de combater a nova luta, que sempre é diferente e, por isso, imprevisível.

Essa imprevisibilidade cria no derrotado o medo insuperável de lutar novamente. Cada derrota acumula dor e sofrimento suficientes para impedir qualquer vislumbre de sucesso, deixando claro que, se houver nova experiência, o único resultado será mais uma perda.

E eu odeio perdas...

 

fin

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