Odeio moda e adoro ilusão

 

- Comprei um tênis falsificado na feira pela metade do preço. – Contou-me.

- Falsificado? Qual foi a vantagem? – Perguntei.

- Vou tirar onda.

- E os pés?

- Os pés que se danem. Todos verão meu tênis de marca.

Tentei imaginar a vantagem que ele sentia. Não consegui. Tenho os pés grandes, tortos e muito complicados. Sempre compro os melhores calçados senão eles reclamarão com bolhas e calos.

- Qual a vantagem?

- Vão pensar que o tênis custou o preço verdadeiro.

- Ah, então você quer enganar seus amigos, mostrando ter mais dinheiro do que tem na verdade.

Ele enrubesceu, depois enraiveceu pela minha sinceridade, então assentiu.

- Qual a vantagem? Você continuará andando sobre tênis falsificados.

- Todo mundo usa esses tênis. Tenho que entrar na moda.

A moda, sempre ela. Age sobre aqueles que precisam de adereços para se firmar na sociedade, os que não se acham suficientemente interessantes para atrair atenção sobre si mesmo apenas pela personalidade. Quem é o dono da moda? Quem a usa?

- Claro, meu caro, claro. – Resolvi calar-me. Conselho bom é aquele que não é oferecido. De que adiantaria eu contar que, se ele amadurecer, sua atenção se voltará apenas aos pensamentos dos outros e não aos trapos que protegem seus corpos. – Agora que tá na moda, como se sente?

- Igual aos outros. – Confessou, feliz.

- Exatamente! – Afirmei, contendo-me. - Igual aos outros.

 

Uma coisa que adoro é ilusão

 

- Chega – Gritou. – de jogar na megasena. Gasto muito dinheiro. - Reclamou meu amigo.

- Eu só jogo quando tenho grana.

- Tenho que parar! – Os olhos estavam esbugalhados, com os nervos em frangalhos. – Crio muita expectativa. Faço planos sobre como gastar o prêmio.

- Eu também. – Confessei.

- Mas meus planos são detalhados, calculo quanto vou dar para cada parente, que presente vou dar para cada amigo...

- Você me dá uma Harley-Davidson?

- Não! Moto é muito perigoso...

- Nem tem grana e já fica murrinha...

- Penso nos lugares que visitarei, - Continuou. - nas mulheres, nas festas...

- E qual o problema de sonhar? – Eu quis saber.

- Não é sonho! – Falava sem fixar o olhar, com a visão esbugalhada. – É obsessão, é neurose, é ilusão.

Eu sou um eterno iludido. Acredito que “no fim tudo dá certo. Se não tá certo é porque não chegou ao fim”. Muitas vezes não sabemos que ainda estamos no caminho, ficamos cansados, nessa hora é preciso se iludir: acreditar piamente no sonho. Só assim mexemos a bunda procurando algo melhor.

- Se você não jogar, o que acontecerá? – Perguntei.

- Sei lá. – Pensou um pouco. – Nunca vou ganhar!

- Isso, além de não sonhar. – Sorri. – Só não pode viver na ilusão.

Ele matutou uns instantes.

- Certo. – Falou.

- Certo? – Não entendi. – Estou certo sobre a ilusão?

- Certo, vou te dar uma Harley-Davidson se ganhar na Megasena.

Ueba!

 

fin

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