Odeio grito e adoro roupa ridícula e ainda odeio leite
Coloquei a máscara de mergulho e afundei. Ela vazava mais que pipi de vovô. Tentei prendê-la com a sucção do meu nariz. Não deu muito certo, mas consegui ver os corais no fundo (nem tão fundo assim) do mar. Escutei, de longe, gritos desesperados. Emergi assustado. Procurei quem morria. Era apenas uma garota na praia chamando o Raul. Emputeci-me e fui ter com ela. - Tá procurando o Raul? - Sim, ele tá mergulhando. Respondeu a moçoila. - Sabia não dá para ouvir nada debaixo d´água? - Sabia. - Então por que tá gritando pelo Raul? - Porque tô procurando ele. Fez cara de desdém. Tive impulsos de torcê-la pelo pescoço. - Ele me disse, lá debaixo d´água, que iria esperá-la naquele quiosque. Apontei o local mais distante na praia. - Naquele? Ela duvidou mas acabou assentindo e saiu em direção ao ponto de encontro. Tive silêncio por instantes. Tempos depois passou por mim um moleque, máscara e snorkel na mão, gritando Vanda, cadê você?. - Raul? Perguntei. - Eu. Disse o moleque. - A Vanda me pediu para te falar que ela voltou para o hotel. - Que hotel? Rebateu o menino. Estamos numa casa. - Eu falei hotel? Engano meu, queria dizer casa. Casa, hotel, é tudo lugar de dormir e cagar. - Tá bom! E foi-se embora, levando seus gritos consigo. Houve mais um pouco de paz.
Uma coisa que adoro é roupa ridícula.
Continuei na praia mas sem torrar a pele, a noite já chegava. Bebia cerveja e cachaça on the rocks para me refrescar. De longe vi o que parecia ser uma família. Todos meio parecidos, exalando aquela sensação de que eram produto do mesmo saco. Ou da mesma trompa. Logo reconheci o Raul, olhinhos vermelhos de choro. - Foi aqui que eu a vi pela última vez... E soluçava. Um moço disse que ela tinha voltado para casa... Mais soluços. Mas ela não voltou.. Abriu o berreiro. Fiquei feliz por ter sido chamado de moço e mais feliz ainda por estar usando um boné que escondia meu rosto. Pelo outro lado da praia vi uma rádio-patrulha se aproximando, iluminando o paraíso onde estávamos com suas luzes coloridas. Dela saíram quatro meganhas e Vanda. Ela também havia chorado muito. - Foi aqui, seu Guarda, foi aqui que perdi meu irmão. Resmungou a menina. - E o moço que te mandou para o quiosque, cadê ele? Rosnou o tira. Calcei os óculos escuros, enrolei-me na canga da minha mulher e sai rebolando de fininho. Inda prendi as havaianas nas canelas para ficar mais bicha. Os transeuntes praianos que cruzavam comigo abriam caminho. Deviam temer aquele homossexual abrutalhado que trotava para fora da praia. Depois fiquei sabendo que o reencontro entre Vanda e Raul foi recheado de abraços, beijos e lágrimas de felicidade. Senti-me recompensado pelo meu ato.
Outra coisa que odeio é leite.
Em casa, despi-me do disfarce senão meus colegas de veraneio não me reconheceriam. O que dormia o dia inteiro aproximou-se. - O leite acabou. Anunciou. - Será uma greve das vacas? Perguntei, deveras assustado. - Greve das vacas? Fez cara de desentendido. - Pois é. Vacas, leite, há uma relação, sacou? O que se achava apareceu. - Também preciso de leite. - Ué, você ainda não desmamou? - Eu bebo leite todo dia! Falou em tom altaneiro. - Ah, então entendi porque você é assim. Resmunguei. - Assim, como? Bronqueou o que se achava. - Veja bem: leite é um suco de teta de vaca. Produzido pelas glândulas mamárias de um animal bovino. Você bebe essa porcaria e qual a reação que acontece? - Greve das vacas! Gritou o que dormia o dia inteiro. Entendi. Muito engraçado. - Volte para a cama. Disse o que se achava. Qual a reação? - Sei lá! Dei de ombros. Só sei que nenhum outro animal da natureza bebe leite depois de adulto. Muito menos leite de outro animal. Deve te algum mistério ai. - Os gatos bebem leite de vaca. Interviu na conversa o que falava demais. - Os gatos lambem o próprio cu, trepam de costas e só cagam na areia. Continua querendo usá-los como exemplo? Os três me olharam enraivecidos. - E tem mais: se leite fosse bom, não precisaria de pasteurização. Expliquei. - Por que não? Exaltou-se o que falava demais. - Se fosse bom, não precisariam transformá-lo em pastel. Desistiram de mim. Um até bufou e abanou a mão no ar como se espalhasse um peido.
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fin |
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