O êxtase das garrafas vazias
No mundo encantado, todos os objetos são vivos, com sentimentos, prazeres e deveres. Nem todos se movem, mas todos interagem. As garrafas são um espécime curioso. Nascem peladinhas, são vestidas por um beija-flor, cheias por néctar divino, por fim tampadas para lacrar o nascimento. Está pronta a garrafa. A vida da garrafa é longa, quanto mais velha mais interessante, porém algumas perdem o frescor. O melhor é sempre conhecê-las em sua melhor época. A garrafa é um ser indefinido, sem muitas pretensões na existência. Ela tem apenas um objetivo na vida que, por fim, acaba tornando-se o seu prazer, seu hobby, o motivo de sua existência e de sua morte. A garrafa quer uma única coisa: ser bebida. Ela sente o prazer da penetração quando o saca-rolha se enfia forçosamente entre suas cortiças e arranca o cabaço da tampa como um herói ao refastelar-se com sua amada. E goza languidamente quando é sorvida até o fim, a última gota aguardada ansiosamente, o líquido mágico que eleva ao padrão transcendente, estelar, sem preocupações mundanas, apreciador das artes e filosofias, quanto mais estrambótica e inútil, melhor, até o tremelique final, o ponto alto do amor na relação entre a garrafa bebida e o ébrio satisfeito, encerrado pelo desmaio de bruços nas mesas dos bares e nas esquinas de imundos bordéis. O paraíso para uma garrafa. Contudo, algumas tem que se resguardar por sua preciosidade, outras pela raridade, muitas somente pelo preço, sempre valorizando o prazer em ser bebida e a vontade de ser paparicada antes e durante o procedimento. Seu fim é seu êxtase, o encontro com sua paz, seu nirvana. O dever do homem é beber a garrafa para cumprir o destino. Só assim o ciclo energético do objeto, no caso a garrafa, será cumprido e ela assim poderá unir-se ao todo. Empreender o dever obrigatório humano, bebendo, sempre, e muito, para finalizar o maior número de garrafas e, assim, elevá-las à Força, é participar do complicado vetor de energias cósmicas que nos faz uno com o universo. Tão simples, tão bom. - Tão tonto eu fico quando participo do êxtase das garrafas vazias.
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