Vingança
A vingança é um prato que é servido frio. Quem escreveu isto é um tremendo idiota. A vingança é um prato que não deve ser servido, frio ou quente, pois ela é degustada com infelicidade e desprezo. Entretanto, nem sempre agimos de forma altaneira. Quando nos vemos vilipendiados, injustiçados, engrupidos, passados para trás, enganados ou qualquer outra cousa mais, temos que dar o troco, nos vingar, mostrar que não somos trouxas, ensinar uma lição, fazer ver com quantos paus se faz uma canoa. Assim foi e assim será. Será? Os caminhos inusitados da vida levaram o jovem a transformar-se em professor. Perto do final do ano letivo, naquela época em que os alunos mais fraquinhos entram em pânico, ele se viu obrigado a tomar certas medidas punitivas a um aluno. Este aluno, que já se encontrava na corda bamba de sua permanência na instituição de ensino, foi expulso. Obviamente culpou o jovem professor por sua desgraça. Esqueceu-se de tudo o que havia feito de errado durante quase um ano e resolveu descontar naquele que entornou sua taça. Uma semana depois de ter-se transferido do colégio, o aluno voltou escondido e esperou o professor chegar com seu carro. Esperou o professor trancar o carro e entrar na escola. Esperou até o momento em que ninguém estava olhando. Mirou, correu e aplicou um tremendo bico no pára-lamas do carro do professor. Felicidade e êxtase eram os sentimentos da vingança concluída. O aluno correu de volta para casa exultante. Mostrara quem era o maioral. A roda dá voltas, o CD dá voltas, até a bailarina dá voltas, por que o mundo não daria? Alguns anos se passaram desde aquele feliz dia. Feliz para o aluno já que o jovem professor, mesmo sabendo que fôra o autor da financeiramente prejudicial mutilação em seu automóvel, arcou com as despesas de conserto sem alardear para o fato. Nem ao menos tentou receber a restituição que lhe era devida. O aluno tornara-se homem e o professor continuou homem, só que mais experiente. Eles novamente cruzaram seus caminhos. O respeitável e mal remunerado professor tornou-se um elogiável e mal remunerado assessor de Relações Humanas de uma empresa de computação. Trabalhava tranquilo em seu escritório, entrevistando possíveis empregados e analisando seus currículos. Certo dia, recebe em mãos um bom currículo de uma pessoa que imaginou conhecer, pois o nome lhe era familiar. Puxou pela memória mas ela estava muito habituada a falhar nos momentos mais necessários, assim como os computadores da empresa que trabalhava, e ela lhe faltou. O dono do currículo estava marcado para ser entrevistado logo depois, e assim aconteceu. Qual não foi sua surpresa ao ver, entrando na sala, um bem-apessoado jovem de aparência muito conhecida. Mais amadurecido, obviamente, porém definitivamente conhecido. O jovem também reconheceu a pessoa que iria entrevistá-lo. Olhou para ele a princípio com surpresa, depois com reconhecimento, por fim com desilusão. Depois dos cumprimentos iniciais, o jovem sentou-se já derrotado na cadeira em frente à mesa do entrevistador. Finda a entrevista, o jovem foi embora, sem comentarem o fato de já se conhecerem de outras paragens. Qual não foi sua surpresa ao ser convocado para assumir a vaga na empresa em que almejava ingressar? Ele nem mais cogitava ser escalado para o emprego, visto a pessoa que o entrevistara. Alguns meses se passaram, algumas roupas se passaram, algumas up-grades se passaram e finalmente o antigo aluno e o antigo professor se cruzam nos corredores da empresa. Eles trocam olhares e se cumprimentam com a cabeça, mas passam um pelo outro sem se falar. Angustiado, o jovem volta e aborda o professor, da mesma forma que o fazia no antigo colégio, só que agora com a educação que a idade proporciona. -Professor, por favor, um minuto. -Claro, pois não? -Desculpe, mas estou muito ... não sei, curioso ou impressionado. O senhor lembra-se de mim? - Havia tremedeira na voz e algumas gotas de suor na face do jovem. -Mas é claro! -E o senhor lembra do que eu fiz quando fui expulso do colégio? -Como iria me esquecer... -Então por que o senhor aprovou minha contratação? Como o senhor não alertou a empresa que eu já fui expulso de um colégio? Por que não se vingou? -O que você fez depois que foi expulso? -Bem, fui para outra escola. Meus pais me obrigaram a estudar corretamente e, sei lá, foi normal. -Se na época do chute ... foi um chute, não? -Sim, foi! - O jovem agora suava à cântaros. -Bem, se na época eu tivesse pedido indenização dos seus pais, isso teria feito alguma diferença? -Provavelmente eu tomaria uma surra, mas de resto seria a mesma coisa. -Bem, então eu não era tão mau professor como você e eu imaginávamos. A lição que você aprendeu naquela época foi encerrada hoje. Você provavelmente se arrependeu amargamente da sua atitude quando entrou na minha sala para fazer a entrevista. Mas você era jovem e amadureceu com o tempo. Não tinha eu mais motivos para puní-lo pelo estrago no meu carro. Você aprendeu com isso. E eu participei dessa lição. O jovem pensou por alguns segundos. O professor estava com razão. -Mas, o senhor não quis se vingar? -Meu jovem, as suas feições ao entrar na minha sala foram o suficiente. Mesmo que eu nunca tenha pensado em me vingar. Aliás, fiquei com muita pena de você. Foi até hilária sua desilusão. A vida passa e dela levamos apenas as lembranças. Por que não levar uma boa amizade surgida de uma vingança não consumada?
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fin |
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