Vagabundo Sagrado
O homem era preguiçoso. Levara a vida na flauta e tava desempregado. Morava com um amigo que pagava todas as contas. Ele se encarregava apenas de encontrar a maconha. - Acabou o estoque. - Quanto tá custando? - Alaor, o amigo, perguntou. - Antes dessa prensa da polícia tava cinqüenta por cinqüenta. - Ele esfregava as mãos. Os políticos andaram cobrando resultados no combate às drogas e a polícia andava descendo o sarrafo. Abaixou os olhos enquanto falava. - Agora tá setenta pilas por cinqüenta gramas. Mas é do bom! - Ressaltou. - Toma. - O vício do amigo sustentava Juvenal. - Compra também um chocolate pra sarar a larica. Anos se passaram nesse ritmo. Juvenal, com a idade de Cristo, não fazia nada a não ser buscar maconha para o amigo.. Certo dia Alaor chiou. - Você vai ter que arrumar um emprego, cara. - Ele estava muito sério. - Não tá dando mais pra pagar todas as contas sozinho. Conversou com algumas pessoas pedindo emprego. Por sorte, um conhecido de seu pai tinha uma vaga num cabide de emprego do serviço público. Era um cargo destinado a um partido político, uma forma de mamar nas tetas do Estado. Tomou posse e dedicou-se ao novo trabalho, afinal, tinha que fazer algo da vida. Durante dois dias chegou no horário. Logo descobriu que não muito o que fazer, a não ser cumprir as oito horas de serviço diárias, com desconto de quinze minutos de atraso por dia, que ele começou a usar religiosamente. A repartição era um emaranhado de salas e mesas de escritório. Tudo de cor creme. Haviam cadeiras com rodinhas em frente a cada computador. E também muita gente velha, feia e chata. Juvenal decidiu então gastar o tempo fazendo aquilo que sempre desejou: escrever um livro contando as histórias de sua infância. Passava o dia escrevendo. Gastava não mais que duas horas por dia cumprindo as tarefas de seu emprego e todo o resto sentado na frente do computador teclando loucamente. Coçava o queixo, olhava sério para a tela e mandava as dedadas. Algumas vezes sentava-se pensativo, cabisbaixo até. Refletia sobre o texto e depois voltava a escrever alucinadamente. Páginas e páginas ficavam cobertas de histórias. Os outros funcionários, que gastavam o tempo conversando ou falando ao telefone, logo perceberam a atitude de Juvenal. - Como trabalha esse homem! - Comentou a senhora do café. - Ele deve estar organizando as coisas aqui. - Disse um escriturário. - Se tá organizando, deve ser chefe. - Falou uma secretária. - Mas ele não é chefe. - Retrucou o chefe, preocupado em perder seu cargo. - Se não é chefe, - A senhora do café fez uma pausa para atrair a atenção de todos. - só pode ser espião. - Espião? - Alguns perguntaram ao mesmo tempo. - Espião do chefão! - A senhora do café esticou o dedo apontando o teto. Ficou conhecido como espião do chefão. Ninguém se atrevia a olhar o que ele escrevia, nem a gastar muito tempo conversando perto dele. Começaram a trabalhar mais e a conversar menos, preocupados com as coisas que o espião poderia estar registrando. Algumas semanas se passaram e o chefão desceu ao departamento de Juvenal. Reuniu todos numa sala. - Quero parabenizar vocês pelo bom trabalho que estão desempenhando. - O chefão sorria agora. Ele sabia que infringia medo aos seus subordinados. - Tenho recebido muitos elogios sobre vocês. Os funcionários se olharam espantados. O elogio do chefe só podia ter uma origem: Juvenal. - Obrigado, chefe. - Falou o chefe da repartição, aproveitando para fazer uma média. - Agradeço em nome de todos aqui. - Aplausos finalmente ecoaram pela sala. - E quero também agradecer, em nome de todos, o bom trabalho realizado pelo senhor Juvenal. - O chefe apertou-lhe a mão. - Realmente um bom trabalho. - Isso é verdade, Juvenal? - O chefão perguntou. Ele se interessou pelo rapaz pois estava com um cargo vago de assessor e precisava de alguém jovem e impetuoso. Juvenal já não era mais tão jovem e ímpeto era algo que ele realmente não possuía. Sem saber o que responder, Juvenal concordou. O chefe continuou. - Claro que é verdade. - Passou o braço pelo ombro do elogiado e aproximou-se do chefão. - Ele, na verdade, é o cabeça dessa repartição. - O chefe queria ver-se livre do espião. - Acho que aqui ele está sendo pouco utilizado. Em uma semana saiu a nomeação de Juvenal para assessor do chefão. Foi instalado em sua própria sala com banheiro e secretária. Descobriu que tinha menos trabalho ainda para fazer. Nada burocrático, apenas manter-se informado dos acontecimentos e mandar alguns relatórios ao chefão. Ele ditava e a secretária redigia num caderno para depois digitar no computador. - Por que você não digita logo no computador? - Juvenal estava intrigado com a lentidão de sua secretária. - Eu nunca tinha pensado nisso. - Seu nome era Tália. Filha da ex-doméstica de um ministro. Boazinha, a moça, mas devagar de raciocínio. Casaram-se logo que ele completou dois meses como assessor. Decidiram morar no quarto de Juvenal até que a casinha que estavam construindo ficasse pronta. Tália ficou grávida e a pequena Jália nasceu meses antes da mudança. - Vocês vão mesmo colocar esse nome na criança? - Alaor segurava o neném nos braços. Sorria. - Jota de Juvenal e ália de Tália. Jália. Vão mesmo fazer isso? Coitada. - Sim.- Juvenal não entendia o escárnio do amigo. Alguns anos se passaram e Juvenal tinha se tornado chefe de gabinete do ministro. Continuava sem fazer nada, apenas escrevendo histórias. Cercou-se de seis secretárias e dez diretores, que faziam tudo o que o ministro mandava. As secretárias eram responsáveis por escolher qual diretor resolveria cada questão. Tudo funcionava, menos as histórias de Juvenal. Ele continuava um escritor impublicado. Chegava em casa toda noite e fumava um baseado na varanda de sua confortável casa de dois andares. Haviam se mudado para um bairro nobre. Além de Jália, nasceram Juvália e Julia. - Poxa, pai, - Juvália sempre reclamava a mesma coisa. - por que vocês não me deram o nome de Júlia? O casal nunca admitiu que demoraram anos para fazer a mais simples e bonita composição de seus nomes. "Coitadas das mais velhas", pensava Julia. Ao cair duma noite de outono, Juvenal resolveu voltar mais cedo para casa, afinal, podia sair do serviço a hora que quisesse. Na verdade, estava sentindo uma coisa estranha no estômago, uma sensação parecida com medo. Chegou em casa e estranhou o cachorro não latir feito um doido. A seqüência de acontecimentos, então, se transformou em lembranças que apareciam como flashes em sua cabeça. Nunca conseguiu entender completamente o que aconteceu. A única lembrança nítida é a de um anu preto que pousou no umbral da entrada quando Juvenal chegou em casa. O primeiro cadáver que viu foi do cachorro. A cabeça separada do corpo. Assustado, Juvenal correu para a sala. Uma grande bagunça: os móveis estavam quebrados, pratos e talheres por todos os lados, roupas e equipamentos eletrônicos amontoados num canto. Um barulho no quarto das meninas o fez correr para lá. Um homem fuçava no armário das suas filhas. No chão, Jália e Júlia deitadas sobre sangue. Juvenal passou a mão num grande cinzeiro de vidro e o espatifou na cabeça do homem, que caiu desmaiado. Desesperado, tentou socorrer as filhas. O talho no pescoço mostrou que não havia mais salvação para elas. Correu pela casa gritando o nome da esposa. Encontrou-a morta na cozinha, com várias estocadas no tronco. Juvália estava ao seu lado, com sangue coagulado num corte na cabeça. Sua família estava morta. Voltou ao quarto das meninas e viu que o homem começava a se recuperar. Prendeu-o pelos braços com um cinto. Pensou no que deveria fazer. - Quem é você? - Perguntou ao homem, que não respondeu. - Por que você matou minha família? - Juvenal sentia um furacão nascendo em seu peito. Queria gritar, queria voltar no tempo, não acreditava no que estava acontecendo. - O que você quer? O homem olhou para Juvenal sem expressão no rosto. Disfarçadamente tentava se soltar do cinto que prendia suas mãos. - Por que você matou minha família? - Juvenal olhou nos olhos do bandido. - Fala! O homem manteve-se em silêncio. Apenas devolvia o olhar de Juvenal. - Nunca fiz nada de mal aos outros. - A voz de Juvenal estava baixa. Tinha tom de confissão. - Nunca quis fazer muitas coisas. Nunca quis muitos bens. - Olhou para as duas filhas mortas no quarto. Não haviam lágrimas em seus olhos, apenas o vazio da mais profunda tristeza. - Os únicos bens que me importavam você matou. Por que? O bandido mexeu-se mais um pouco. Logo conseguiria se livrar do cinto. - Não preciso de vingança. - O rosto de Juvenal estava impávido. Aproximou-se do bandido e soltou-lhe o cinto. - Mate-me também. - Fechou os olhos, esperando o ataque do assassino. Mas o homem apenas nocauteou Juvenal com um soco e fugiu. Dias depois do enterro foi preso. Juvenal nem compareceu ao julgamento. Não se importava mais com nada. Alaor trouxe o amigo de volta para o antigo apartamento. Juvenal voltou a viver como antigamente. Limitava-se a arrumar maconha. Fumava o dia inteiro. Meses se passaram. Alaor ficava cada vez mais preocupado com o amigo. Juvenal não fazia nada a não ser manter-se entorpecido pela maconha. Passava o dia sentado no sofá, olhando para a janela. Um dia uma música ecoou no apartamento vinda do rádio do vizinho: "Saudade Desfaz-se no tempo da idade Guardo no pulmão os ventos Apenas dos bons momentos". A preguiça de Juvenal apossou-se de vez de seu corpo e espírito. Preguiça de continuar vivendo. Pensou em se matar mas logo mudou de idéia. - Ainda guardo no pulmão o ar que respirei com minhas garotas. - Falou para si mesmo. - Vou espalhar esse ar por onde minhas pernas me levarem. - Levantou-se do sofá, escreveu um bilhete de despedida para Alaor e saiu andando pela cidade. No bilhete, escrito com uma cuidadosa caligrafia, Juvenal agradecia a amizade de Alaor e explicava que iria viver da caridade alheia. Não suportaria possuir outros bens. "O que me importava se foi. Sou apenas um vagabundo. Alaor nunca mais viu o amigo. Ficou sabendo que ele perambulava pelo interior, magro e maltrapilho.
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fin |
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