Uma cerveja para três garotas

 

“Nem um mês de prisão por ter matado a minha filha e suas amigas”, disse Maria à repórter do Correio, que estampou no dia seguinte: Justiça manda soltar acusados. Não precisei ler o jornal, acompanhava o caso de perto. Adorei a decisão, os assassinos seriam soltos. Viriam para mim.

Fotografei-os com os olhos ao serem libertados na delegacia. Uns de capuz e outros de boné, envergonhados, mas livres, enquanto a mãe que permaneceria para sempre enclausurada na dor da perda os via saírem com a autorização da lei. Lei? Era o resultado do sistema jurídico hipócrita que nos impunham! A história não ficaria barata, eu iria meter o bedelho. O que eu tinha com isso? Nada, oras, mas alguém tinha que fazer alguma coisa.

Os maiores de idade, Welinton e Daniel, foram para um fusca vermelho rebaixado, com vidro fumê e um tremendo ronco no escapamento, os menores entraram atrás. Rodaram duzentos metros, abriram os vidros e gritaram. Urravam vivas à liberdade. Achavam-se livres da polícia. Nem imaginavam que eu estivesse ali.

Os maiores foram os mandantes da matança. Ao bar Trunfu’s Chocker, no Paranoá, os dois, Linton, como era conhecido, e Daniel, chegaram para assistir a Brasil e França na copa de 2006. Encontraram uma garrafa de cerveja esquecida na mesa e a dividiram. Chegou China, o dono da cerveja, que reclamou do furto. Houve ameaças. Fugiram, amedrontados, quando China afirmou que buscaria uma arma. Dias depois viram duas garotas, Fernanda, 14 anos, e Regiane, 19, perambulando pela favela no carro de China, ajudando-o a encontrar os desafetos. Resolveram se vingar. O erro deles aconteceu aqui: se tivessem pegado o tal China estariam dentro do rígido código moral dos bandidos e impunes de qualquer vingança, porém os covardes escolheram matar as garotas, devia ser menos arriscado. Eu escolhi equilibrar as coisas.

Chamaram três menores para participar, talvez prevendo a captura pela polícia. Bastaria, então, pôr a culpa nos menores que todos se livrariam sem grandes danos. Marcaram com as garotas uma festa na terça-feira. Naiara, 17 anos, resolveu acompanhá-los, a decisão mais errada da vida. Capricharam no visual, com batom, perfume e sandália de dedo.

Numa estrada de chão, na altura do Del Lago, anunciaram a vingança. Executaram Fernanda e Naiara ao lado de uma cerca de arame farpado. Regiane correu para o mato, foi perseguida, espancada e só então fuzilada com seis tiros. Tudo por causa de uma cerveja.

Dirigiam rápido, de volta ao Paranoá, com curvas tangenciais em alta velocidade, travando a roda traseira em curvas fechadas. Eu os seguia sem me exceder nem fazer curvas rápidas, estava com a moto, uma Falcon 900, simplesmente confiava no motor. Freava, fazia a curva vagarosamente, depois acelerava fundo até alcançar o fusca, o potente motor zunindo.

Entraram num barraco grande, com gente na frente. Fizeram festa ao vê-los chegar. Enfiei a moto no mato e deitei. Esperei a noite inteira, de binóculo em punho. O funk ressoava no ar, o barraco balançando no ritmo, todos bebiam e se bolinavam, homem com mulher, mulher com mulher, homem com homem. Aquelas danças ridículas com suas reboladas safadas, “até embaixo, vai cachorra”, eram insuportáveis e deprimentes, embora a mulherada ficasse com um rabo delicioso.

Pelas tantas, quando muitos haviam ido embora, dois dos menores voltaram cambaleantes ao carro. Eu percebera que a confraternização pela volta daqueles filhos da puta iria longe, o plano de ataque estava preparado. Havia comprado uma Coca-cola dois litros, copos plásticos e dezesseis pílulas de Lorax quatro miligramas Enchi um copo para mim antes de diluir as pílulas na garrafa. Aproximei-me dos rapazes como se estivesse bêbado. Logo me abracei aos novos parceiros e distribui a Coca nos copinhos, para curar a ressaca. Chegaram outras pessoas que não eram meus alvos, não ofereci refrigerante.

Apareceram os maiores arrastando pelos ombros o quinto membro da gangue. Eles andavam todo o tempo juntos ou estavam facilitando as coisas para mim?

- Este porra bebeu feito um corno. – Falou Linton. – Tá mau.

- Dá Coca para ele, filho. – Resmunguei, o baseado que acabara de apertar entre os lábios. – Vai melhorar.

Servi a todos Coca e maconha e falamos sobre passar mal após beber em excesso.

- Vamos embora. – Disse Daniel. –Essa brenfa me deu sono.

“Não foi o baseado”, pensei. Entraram no carro e me despedi sorrindo. Arrancaram vagarosamente e andaram não mais que cem metros. Linton, ao volante, reclamava que estava muito tonto. Daniel nem ligava. Os três menores desmaiaram no banco de trás. Bati na janela com os nós dos dedos.

- Quer ajuda, filho? Você parece dodói. – Abri a porta e o jovem apenas me olhou apaspalhado. – Vá para o lado. - Empurrei-o com força. Certamente reagiria se fosse capaz, apontaria a arma, faria ameaças, mas agora babava levemente. Tinha na cabeça bebida, erva e anestésico suficiente para chapar uma vaca.

Assumi a direção. Fui para o lago Paranoá, ao lado da barragem. Com um facão cortei alguns galhos e fiz estacas. Amarrei todos com adriça, circulando-a pelos corpos para impedir os movimentos. Deitei-os de bruços, peito dentro d’água e rosto de lado para respirar.

Com a pedra mais jeitosa que achei, finquei as estacas no barro batido, duas ao lado de cada pescoço, enviesadas, formando grandes Xis, que prendiam minhas vítimas rentes ao chão. Se conseguissem se livrar, bem, eu não era um malfeitor de histórias em quadrinhos, iria ficar até o final, para consertar as coisas se meu plano desse errado, acertando cinco balas no meio de dez olhos.

Esperei ficarem sóbrios com o banho para explicar minhas intenções.

- Escutem, vou falar apenas uma vez. – Percebi que alguns me olhavam incrédulos, outros ainda se mexiam tentando escapulir. Foi o moleque que disse não gostar de falta de ar que pediu para os outros se calarem. - Atrás de vocês está a barragem do Paranoá. – Eu sabia que não conseguiriam vê-la. – As comportas são fechadas todas as quintas. – Sorri. – Às cinco da matina o lago começa a encher, coisa de dois centímetros por hora. – Consultei o relógio no pulso de um dos moleques. – Agora são seis e dez da quinta-feira.

Sentei sobre a pedra de bater estaca. Pensei no Coringa, do Batman. Que compulsão estúpida em explicar às vítimas o amargo futuro que as espera! Seria uma doença? Ou talvez a tentativa final de mostrar ao morto seus erros passados. Saquei o canivete para abrir a garrafa de cerveja. A explosão da tampinha me arrepiou de prazer. Servi um copo plástico e o levantei para o brinde.

- Uma cerveja para três garotas.- Anunciei e sorvi o líquido. Lavou minha garganta mais doce que o néctar dos deuses. Acho que é, apenas, a misericórdia atéia de explicar ao moribundo o motivo de seu falecimento. Sim, para olhar o arrependimento em seus olhos e cumprir uma parte do que a justiça divina deveria fazer. A espuma ficou no bigode, chupei com a língua.

Em minutos a água pareceu cobrir boa parte das cabeças. Tosses e engasgos eram entrecortados por pedidos de clemência. Longos períodos sem respiração, um estranho som, parecia um estampido, saia do pulmão dos rapazes quando um resquício de ar conseguia entrar. Aproximei-me de cada rosto para conferir as pupilas, ver se ainda havia movimento, vida.

Depois de me saciar com a morte dos canalhas, resolvi deixar um último recado aos malas do Paranoá.

Peguei o celular de Daniel no fusca. Liguei para o China. Sim, eu já o havia investigado.

- O que você quer, seu filho da puta.

Opa. China tinha o número do telefone de Daniel na memória.

- Quero te fazer uma surpresa. – Ele calou a boca e escutou. – Teus amigos, Daniel e Welinton, estão te esperando na barragem do Paranoá. – Expliquei exatamente o lugar. – Certamente gostariam de falar com vocês. – Desliguei e imediatamente liguei para a polícia. Avisei sobre as mortes e também expliquei o local. Joguei o celular ligado sobre uma moita de capim. Voltei para a moto no fusca.

Ainda pude ver o opala do China descer a estrada de chão até o local onde estavam os cadáveres. Um Fiat da polícia desceu atrás. Deve ter sido uma surpresa para ambos, encontrarem os corpos e logo depois, um ao outro, a polícia e os suspeitos. Os canas prenderão os inimigos dos mortos, que devem reagir, obviamente estarão armados e bêbados. Talvez algum seja morto. De qualquer modo, terão muito o que explicar.

Pensei na mãe da reportagem. Será que ela gostaria de saber que, ao menos, os assassinos da sua filha não ficaram soltos mais que 24 horas?

 

fin

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