túnel de luz

 

A moto ficou destruída com o acidente; o piloto, jogado no asfalto, suspirou profundamente. A dor dos ferimentos desapareceu, uma calma absoluta o possuiu e, docemente, faleceu.

"Eu não queria ter morrido assim", pensou Sergio, enquanto recobrava a consciência. Abriu os olhos mas uma luz branca o cegou. Logo se acostumou com a claridade e percebeu que a luz saia de uma abertura oval ao final de um longo corredor.

Tentou olhar o próprio corpo para avaliar os ferimentos que lhe causaram a morte. Estranhamente não conseguiu. Sentia que levantava a cabeça mas não enxergava o resto de si. Havia, por outro lado, uma força que o energizava. Sentia-se bem. Excelente, na verdade. A despeito de onde estivesse e como viera parar ali, Sergio aproveitava a sensação inigualável de potência que aumentava com o tempo. Sabia que em breve algo explodiria!

Subitamente ouviu seu nome. Cerrou os olhos, bloqueando a luz, e só então notou que não estava sozinho. Dezenas, ou talvez centenas, de pessoas o cercavam. Ele sabia que eram pessoas, embora visse apenas a aura que as cobria. Reconheceu algumas, eram parentes e amigos que já haviam morrido. Não teve medo, pelo contrário, ficou muito feliz em vê-las.

"Sérgio, vamos para a luz."

A voz feminina era suave. Notou que não o chamava mas o impelia. Viu que todos ao redor buscavam alcançar a luz. Ele próprio esforçou-se, sem saber bem o porquê. Percorreu o longo corredor como se voasse numa densa neblina. Junto com outras pessoas, Sergio atravessou o portal de onde surgia a luz brilhante. Estavam estasiados, um calor confortável percorreu o ambiente.

Inesperadamente, Sergio abriu os olhos. Nem se lembrara de tê-los fechado. As auras de seus companheiros pareciam bailar num caos controlado por pulsos regulares. Continuavam em transe. Sergio, então, resolveu olhar para trás, queria conhecer o portal de onde vieram.

Um vórtice de cores o atingiu como um turbilhão de sentimentos confusos. Demorou muito até perceber que estava consciente novamente.

- O túnel?...

- Calma! - Um bombeiro-militar o segurou na maca. - Você está indo para o hospital. Sofreu um acidente de moto.

- Eu estou bem? Eu vi o túnel de luz...

O bombeiro olhou para o paramédico, que guardava o equipamento de desfibrilação, e sorriu.

- Sim, está bem. Por um segundo o perdemos, mas agora está bem. - Mudou o tom de voz. - Você disse que viu o túnel de luz?

- O túnel. Eu o vi! - Um flash de imagens passou em frente aos olhos de Sergio, que relembrou da tudo desde o acidente . - Eu estava no túnel. Fui para a luz, atravessei o portal. Mas... fiquei curioso e olhei para trás. Eu vi. - Arregalou os olhos. - Eu vi o túnel.

O bombeiro e o paramédico se entreolharam.

- O túnel era um pênis. - Gritou. - Um pau! - Balançou a cabeça piscando. - E éramos os espermatozóides nadando no sêmem. Um grande mar de porra.

O paramédico assentiu com a informação.

- Oras, então quando morremos nos transformamos em espermatozóides na luta pela fecundação? Uma chance de uma nova vida? Interessante.

- Não. - Gritou Sergio. - É uma vida diferente! - Trinitrou entredentes. - O pênis era de um orangotango.

fin

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