Primeira Mão

 

Resolvi dar um tempo de tudo e viajar pelo nordeste. Botei algumas coisas na mochila e estiquei o dedão na estrada. Um caminhoneiro chamado Olavo Castanheira me deu carona. Depois de algumas horas batendo papo, contou uma história de sua cidade.

- Ficou muito falado nos anos setenta. – Ele era um homem forte, de dentes grandes e olhos claros. – Mas disseram muita besteira. Eu conheci a história verdadeira. – Respirou antes de continuar. – Começou quando mataram o Barbosa, marido da Isabel. Ele era um bandido pé-de-chinelo, fajuto, dedo duro, por isso os outros o apagaram, para calar a boca. Sua mulher ficou inconsolável. Jurou que daria um jeito na quadrilha do marido, os assassinos.

A noite descia no horizonte. O homem falava como se já tivesse contado aquela história milhares de vezes.

- Um a um eles começaram a morrer. Cada um de um jeito. Acidente de carro, tiro, despencado de janela, rolando em escada. A polícia notou que eram todos bandidos, os jornais fizeram manchetes, o povo dizia que havia um matador de bandido. – Sorriu e me olhou de soslaio. – Eu fui consolar a viúva. A mulher era boazuda. – Olhou para frente e continuou. – As investigações não deram em nada. Quando morreram todos que mataram o marido de Isabel, ela me chamou e disse: olha, vamos dar uma volta. Coloquei-a no caminhão e passeamos por São Paulo.

Eu acompanhava a história olhando a paisagem e percebendo a baixa velocidade do nosso caminhão na subida.

- Quando voltamos, a notícia do matador havia se espalhado. Muitos bandidos estavam morrendo em vários lugares, de modos diferentes. Isabel ficou assustada com aquilo. Um boato começou a surgir nos botecos e inferninhos, dizendo que o nome do matador era Mão Branca.

Olavo fez uma pausa dramática. Achei até engraçado, mas ele estava sério. Olhei a estrada e vi que ainda havia muita subida pela frente.

- Diziam que o Mão Branca era um ex-policial que queria limpar o crime. Diziam também que era um bandido arrependido. Ou um grupo de vingadores. Ninguém sabia, na verdade, quem era o Mão Branca. Eu nem me metia, ficava só com a viúva. – Sorriu novamente. Era simpático o grandalhão. – Isabel, coitada, acompanhava cada ação do Mão Branca nos jornais. Sofria com cada morte. Pedia para Cristo que o morto fosse mesmo bandido. Dizia que tudo começou com a morte dos assassinos de seu marido. Era, em parte, culpa sua.

O semblante de Olavo ficou triste.

- Por que culpa dela? – Perguntei.

- Ela disse que o matador havia se compadecido dela e começado sua jornada de matança com os assassinos de Barbosa. Não a questionei, sempre achei que houvesse algo mais naquela história, porém não queria saber. Estava bom demais só de colar naquela potranca.

Um grito de “CALA A BOCA” saiu de trás de Olavo logo antes do homem encapuzado. Ele apontava uma pistola para sua cabeça. Senti o cano do berro na minha nuca quase no mesmo instante. Outro encapuzado me segurou pelo pescoço. Eles haviam subido no lento caminhão enquanto conversávamos. Aos berros, mandaram Olavo entrar numa estrada de terra e encostar o caminhão. Estavam nervosos.

Juntaram-nos em frente ao pára-choque dianteiro. Um encapuzado foi para o volante e o outro nos apontou a arma. Virou-se para ver se a estrada estava vazia. Olavo rapidamente abaixou-se, pegou um pedregulho e o passou sorrateiramente para mim. Assustei-me, mas o escondi nas costas. O grandalhão afastou-se para a direita.

O encapuzado gritou com ele e foi ao seu encontro. Acertei sua cabeça com a pedra, caiu feito abacate podre. Olavo pegou a arma e andou decididamente atrás do outro assaltante. Disparou três tiros à queima roupa.

- Não se preocupe. - Falou. – Não furei o estofado.

- Que bom.- Concordei.

- Um dia, depois de gozar duas vezes, ela me contou o resto. – Voltou-se à história que contava. – Logo após a morte do marido, ela fingiu não saber o motivo e continuou na companhia dos assassinos. Trepou com alguns deles. Quando tinha oportunidade e estava bem segura, envenenava os caras com chumbinho. Enquanto se contorciam e babavam, ela explicava o porquê estavam morrendo. Sempre disfarçava a vingança jogando o cara de uma janela ou o rolando pela escada. Só a polícia sabia a verdade, que todos morriam envenenados com Mão Branca.

- Mão Branca?

- A nome da marca do veneno era Mão Branca. Imagino que durante as investigações os policiais mencionaram o nome e alguns suspeitos espalharam. Quem conta um conto aumenta um ponto. Logo o veneno se tornou um homem, um matador de bandidos.

- Mas e os outros bandidos que morreram enquanto vocês estavam em São Paulo?

- Outros Mãos Brancas. Existem muitos. Cada um tem seu motivo.

Sisudo, abaixou-se e arrastou o cadáver do bandido até o lado do outro desmaiado no chão. Apontou a arma e disparou outras três vezes. O tórax ficou com estrelas vermelhas estampadas na camisa.

- Há um código – Voltou ao caminhão e saiu com o estojo de primeiros socorros. – para facilitar com a polícia. Antigamente marcavam as iniciais M e B na carne dos cadáveres. Outros escreviam cartas à polícia. Agora basta fazer isso. – Pegou uma luva plástica do estojo e a jogou sobre os mortos. – Os tiras vão saber que os cadáveres são bandidos e saberão o que fazer. Ou o que não fazer.

- Legal. – Foi o que consegui dizer.

Contornamos a estrada de terra com o caminhão e voltamos ao asfalto. O caminhoneiro ainda me explicou um monte de coisas sobre como fazer emboscadas, tocaias, onde arranjar armas e munição, como descobrir recursos. Escutei atento. Entendia vagamente que aquilo me preparava para um outro nível de participação na sociedade, deixaria de ser uma provável vítima para ser um justiceiro vingador. Gostei disso.

No último posto de gasolina antes de nossos caminhos se separarem, Olavo apertou minha mão e sorriu com seus fortes dentes.

- Tenha sempre cuidado, você está sozinho. Adeus, Mão Branca.

 

 

fin

Gostou? Não gostou? Nem leu? Quer que o Mão Branca vá se foder? Escreva para ele: Mão Branca

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