O porteiro Gabriel e as velhas do condomínio

 

- Chama o Gabriel! – Pediu dona Alice quando o chuveiro queimou.

O porteiro, muito educado, fez o serviço. Inda trocou um armário de lugar.

- Obrigada, meu bom homem. – A velha sorriu com a dentadura perfeita. Pagou cinqüenta mangos pelo trabalho que ele cobrou “uma cervejinha”. – O senhor é um anjo.

- Se precisar de mim para outros serviços, pode chamar!

Ele mudou o olhar quando disse “outros serviços”, parecia quase lascivo. Talvez fosse apenas com uma coceira, esfregava a Havaiana com os dedos do pé.

- Sim – falou dona Alice – preciso. – Puxou o homem de volta ao apartamento e o beijou na boca. Ela nem imaginava como ele iria reagir, talvez a rejeitasse, talvez gostasse, mas àquela altura da vida pequenas dúvidas não podiam mais ser remoídas. Resolveu agir, chance como aquela poderia nunca mais ocorrer. Se fosse a última, ela haveria arriscado.

Gabriel se assustou. Mas só a princípio, também não era garoto, 54 anos, com aparência de sessenta e cinco. Muito trabalho braçal a vida inteira. Os dentes caíram na mesma proporção que as sarnas subiram até as canelas. Sentiu cheiro de maça azeda na mulher, coisa de velho, a boca parecia conter uma estranha baba seca, com gosto de Superbonder. Cola de dentadura, talvez. Gostou, sonhava arrancar os dentes restantes e pregar um belo e alinhado teclado de piano daqueles na boca. Abraçou-a e impressionou-se com a rigidez, ela estava em boa forma para uma mulher de oitenta e três anos, magra, bons olhos, vivia sozinha e era novamente independente depois que instalou um corrimão ao lado da privada.

A tarde de amor foi memorável. Dois orgasmos para ela, que retribuiu escondendo duas notas de cem no bolso do macacão esquecido no sofá.

- Chama o Gabriel! – Ao interfone, a velha não dava sossego. Duas ou até três vezes por semana requisitava os serviços do zelador. Insaciável.

Na festa de natal do prédio, dona Alice bebeu umas a mais e confidenciou às amigas o namoro com o zelador. Contou que o ajudava com uns trocados, mas só para ele se apresentar melhor.

- Chama o Gabriel! – Pediu dona Teresinha, a arretada moradora do 102, ao interfone.

Ele bateu à porta. “Pode entrar”, ouviu lá de dentro. Assustou-se ao ver a mulher de espartilho. Aos 72 anos, nunca passou de metro e meio mas a cintura cresceu a vida inteira. Parecia uma batata enrugada com cabelos de palha de milho. Deitava-se no sofá, lânguida, torcendo as pernas flácidas num suposto balé sensual.

- Vem cá, meu anjo. – Ronronou.

Ele não queria trair dona Alice, mas, oras, já era casado mesmo. E sua própria mulher não o procurava há anos. Deduziu que a dona Teresinha não estaria se contorcendo feito uma minhoca gorda para ele se dona Alice não tivesse contado sobre o caso, ele não era tão sedutor assim.

Aproximou-se da gordinha e a despiu do espartilho vermelho, jamais se excitaria. Ela achou uma atitude máscula e selvagem, partiu para cima e arrancou o macacão do zelador, que adorou aquela ansiedade. Mandaram bala: chupadas, lambidas, esfregadas, enfiadas, balançadas, até mordiscadas com a dentadura fora da boca de dona Teresinha. Ele adorou.

Ela escondeu três notas de cem entre os guardanapos do sanduíche que deu a Gabriel ao despedir-se. – Coma tudo para ficar forte.

- Chama o Gabriel! Chama o Gabriel! – Gozavam os colegas da portaria. Diziam que havia se tornado o “anjo protetor das velhas do condomínio”, tantos eram os chamados. Porém, começaram a desconfiar dos bens do amigo: roupas, relógio, prótese dental e até a entrada num carrinho bem conservado. Dedaram para o síndico, dizendo que o homem andava extorquindo indefesas senhoras, provavelmente enganando-as nos trabalhos domésticos.

- Chama o Gabriel! – Mandou o manda-chuva.

O zelador estava sumido, prestando serviço em algum apartamento.

- A dona Dilma requisitou o Gabriel hoje às duas. – Comentou alguém. Como era quase o horário, a comitiva seguiu para o apartamento da mulher na esperança de descobrir o mistério.

Tocaram a campainha no horário marcado. “Está aberta”, falou dona Dilma. Ela havia conversado com dona Teresinha, sabia que Gabriel gostava de apetrechos sexuais e atitudes atrevidas. Usava os piercings que acabara de furar nos mamilos. Era a peituda mais velha a comprar calcinha de couro, segundo o vendedor.

Encontraram-na na sala, a meia luz, brandindo um chicote. O surpresa foi para todos, principalmente para Gabriel, que chegava agora.

- Gabriel, seu safado, então você está é comendo essa velharada? – Apontou o síndico para dona Dilma que, embora ultrapassasse os sessenta anos, era bem conservada, ainda atraia olhares na rua. Gabriel esperava ansiosamente pelo dia que ela solicitasse seus préstimos.

- Como se atreve? – Interviu dona Dilma. – Ponham-se daqui para fora!

Todos iam saindo do apartamento.

- Você fica, Gabriel. – A voz era doce mas autoritária.

Ela bateu a porta. Os homens, calados, desconfortáveis no hall do elevador, sabiam que Gabriel não perdoaria a intromissão deles. O síndico sentia-se desmoralizado, não aceitou ser expulso. Tocou a campainha.

- Gabriel, faça o que quiser – Gritou. – mas fora da hora de serviço!

A porta foi destrancada. O zelador, sem camisa, apareceu e perguntou quem estava de folga. O mesmo que lembrou de dona Dilma se apresentou.

- Tome, trinta pilas, fique hoje no meu lugar. – E bateu novamente a porta, atrevido e satisfeito com o novo ofício.

 

fin

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