Político sub unguial

 

Assistia ao programa político na tv, adorando o desfile de comediantes com suas propostas estapafúrdias. Alguns, porém, causavam-me asco, principalmente os ricos com ânsias vaidosas pelo poder. Aqueles que buscavam ascensão social através do Legislativo também.

Olhei para minha mulher que cutucava as unhas do pé.

- Que tá fazendo?

- Tô cortando a película sub unguial. – Virou-se e viu minha cara de pastel.. – A pele que nasce debaixo da unha.

Adorei aquilo. A idéia de destruir pela raiz aquela pelezinha nojenta e seu nome.

- Acho que vou cortar a película sub unguial também. – Resmunguei. Ela nem me notou. Porém, dentro da minha cabeça, alucinadamente, uma profusão de planos para colocar em ação e providências a serem resolvidas. Imaginava as armas, os tipos de tocaia e principalmente as vítimas. Quem eu pegaria?

Sim, havia decidido dar cabo de alguns políticos durante suas campanhas, para evitar que pudessem ser eleitos ou reeleitos. Minhas escolhas deveriam ser justas, afinal fazia aquilo para o bem de todos, era o extermínio da parcela sub unguial da política local. Escolhi pegar apenas três, dois homens e uma mulher.

Procurei minha primeira vítima durante dois dias. Era dono da Branal, o maior grupo empresarial da cidade, mil e quinhentos empregados, dezesseis firmas com faturamento de trezentos milhões. Nunca entendi como um cara que começou do zero construiu um império de tal magnitude. Sei, apenas, que só aqui em Braxília isso acontece. Influência do dinheiro público jorrado na capital do país? Claro, mas por que somente para os lobistas dos governantes? Isso era difícil de engolir.

Honório Marciano estava sobre o trio elétrico, discursando para a multidão que engolia seus cuspes e bobagens em troca de promessas futuras ou o reles pagamento de dez reais por dia de torcida durante a campanha. A maioria era de desempregados que adorava mendigar o lanche servido ao rebanho eleitoral e receber o soldo depois do dia de batalha pela sobrevivência.

Quase sorri, pela facilidade. Estacionei a camionete a duas ruas do trio elétrico que rodava como uma tartaruga pelo asfalto. Atarraxei a mira telescópica, tirei a tampa da lente e abaixei o vidro. Sem esforço coloquei a cabeça branca e quase careca do Marciano no ponto perfeito de tiro. Prendi a respiração. O barulho sequer seria escutado perto do trio. Minha primeira película sub unguial tombaria com a cabeça furada, sem confusão nem balbúrdia. Quando perceberem que foi atingido por um disparo, já terei colocado a terceira rua entre nós. O alvo ficou sozinho no meio da pequena multidão sobre o trio. Com calma, atirei.

Minha segunda vítima não tinha feito nada de errado, mas certamente faria. Ou melhor, talvez já tivesse errado, ao nascer, era cria do demônio. Stéfane Mary Muniz, filha do poderoso Araquém Muniz, o mais corrupto e esperto governador que o DF já teve. Obras faraônicas, indenizações milionárias, desvio desde verbas até trabalhadores braçais. Uma bandalheira sem tamanho, mas tudo sem vestígios ou no limiar da legalidade. Nunca se provou nada contra ele, mas não dá para aceitar um governante que compra mais da metade das terras e imóveis do lugar durante seu governo.

Foi mais fácil. Menos conhecida, caminhava pela quadra das sapatarias no bairro do Assombradinho cumprimentando os transeuntes. Ninguém a conheceria se não fossem as duzentas pessoas contratadas que a seguiam com cartazes e faixas. Balões circulavam a candidata para montá-la numa espécie de palco colorido no meio da rua. Todos gritavam e dançavam ao seu redor, era deprimente. Meio feiosa e gorda, a mulher sorria com dentes tortos e manchados. O dinheiro ainda não é capaz de comprar tudo.

Guardei a Bereta no bolso, já atarraxada ao silenciador, e fui postar-me atrás de Stéfane. As pessoas conversavam e sorriam e andavam para os lados, sem muita atenção. Esperei o chatíssimo discurso para os amigos das sapatarias, as puxações de saco dos amantes do microfone e os elogios esdrúxulos gritados em coro pela corja dos mascates de voto. Pelo buraco no bolso da jaqueta, apontei a pistola para as costas da minha segunda película. Ao trovar dos fogos de artifício e com a música ensurdecendo meus ouvidos, atirei sob a escápula de Stéfane. Eu estava num local mais alto, a bala correu para baixo no corpo e furou o coração. Nem deve ter sentido que morreu. Melhor assim.

As pessoas que a acudiram no chão nem perceberam o furo no vestido vermelho. Quase a agradeci quando vi o que vestia. Não havia muito sangue, o coração não bombeara nada para fora do corpo. Uma técnica de tiro bastante usada por profissionais.

Meu terceiro sub unguial seria o mais complicado e o mais divertido. Era o bispo evangélico que alavancara a carreira da Igreja Cura Nosso Chão do bairro Tamanduá. Em poucos anos instalaram filiais em quase todo o país, compraram diversas rádios e uma estação de tv. O dinheiro do dízimo era bem administrado, principalmente com a renda assegurada pelo desconto no contra-cheque dos fiéis. Era dez por cento e nada menos, ainda que a fome fosse a alternativa. Seu carisma magnético e sua boa aparência faziam sucumbir corações apaixonados e fervorosos admiradores, todos usados em glória própria por Edson Ferrovalle.

O bispo presidia a Aipe, associação internacional dos pastores evangélicos, que regia a indústria da fé, sendo respeitado até pelo famoso dono da Igreja Galáctica do Reino de Deus, bispo Emir Mancebo A associação comunicou a todas os pastores que deveriam incluir nas pregações o pedido de voto ao bispo Ferrovalle. Como os fiéis não avaliam com clareza o que lhes é falado nos cultos, os pedidos de votos se tornavam ordens de votação, inclusive com punições infernais aos desobedientes. Eu abominava aquele domínio pela fé.

O bispo estava sempre protegido por diversos seguranças disfarçados de pastores. Ou por pastores disfarçados de seguranças. Nunca se expunha em lugares abertos e sempre trocava de rota em sua rotina. Por cinco dias o segui a distância, sem oportunidades de ataque. A essa altura, a notícia que dois candidatos haviam sido assassinados de surpresa durante a campanha estava em todos os jornais. O medo passou a rondar os cúmplices dos políticos mortos. o bispo Ferrovalle era o pastor de ambos, vivia agora ainda mais protegido.

Depois de outros três dias de perseguição incansável e improdutiva, resolvi apelar. Não gostava de usar outras armas mas tinha que aceitar que se não estava dando para acertar com a direita precisava usar a esquerda.

Apesar da aparência atlética e da religião evangélico, o bispo era chegado num birinaite. Seu fornecedor era o dono da maior supermercado de Saberlândia, o setor mais humilde da cidade, um devotado fiel. Entregava as caixas de vinho diretamente na sede da Igreja.

Consegui subornar o entregador para trocar uma caixa pela que eu oferecia. Certamente não aceitaria a troca se eu não o ameaçasse com a Bereta com silenciador, mesmo assim foi regiamente pago para se manter calado depois de todo o ocorrido e, sobretudo, para não ser indiciado como cúmplice.

A caixa do meu vinho foi entregue secretamente na sala do bispo. Esperei no carro do lado de fora da igreja durante horas, queria ver o que aconteceria. Logo chegou uma ambulância. Pensei que tivesse alcançado meu intento. Chegou outra ambulância e mais outra. O lugar foi tomado por equipes médicas e carros do corpo de bombeiros. Pessoas eram carregadas em cadeiras de rodas, macas ou no braço mesmo para as ambulâncias que saiam arrancando.

- O que aconteceu? – Perguntei à uma senhora que organizava o socorro aos doentes. Muitos estavam vomitados e cagados, com aparência esverdeada e olhos fundos.

- Intoxicação alimentar. – Foi a resposta.

Descobri mais tarde o que tinha acontecido. A cozinheira da igreja preparava strogonoff para servir aos fiéis em comemoração à criação de um novo templo em algum bairro carente. Sabendo da existência do vinho do bispo, surrupiou uma garrafa e a usou para temperar a comida. Serviu aos pidões, que passaram mal logo após a refeição. Eu havia dissolvido Mão Branca, um poderoso veneno a base de chumbo, em cada garrafa, com quantidade suficiente para matar quase instantaneamente com apenas um gole. O pouco de vinho diluído na comida foi capaz de contaminar quase cem pessoas.

O bispo era o mais solícito ao ajudar os combalidos. Acompanhei-o de longo. Percebi que trocava olhares discretos com um jovem pastor magrelo e perfeitamente engomado na camisa de linho com gravata. Em meio à balbúrdia dos doentes, percebi o bispo sussurrando algo ao rapaz. Minutos depois, desapareceu. Até os seguranças-pastores ficaram a procurá-lo. Segui o jovem pastor por intuição. Ele pegou um carro e foi ao parque da cidade.

Estacionou perto do bosque de pinheiros. Uma BMW se aproximou e parou ao lado do carro. Vi quando o pastor entrou na BMW e cumprimentou com um beijo nos lábios o motorista. Era o bispo Ferrovalle.

Finalmente eu encontrava a oportunidade. O bispo também era pederasta. Devia ter despistado seus seguranças para encontrar o amante, provavelmente não queria que soubessem também desta característica.

Esperei um breve período para as coisas esquentarem dentro do carro. Engatinhei até a traseira e dei uma espiada lá dentro. Vi apenas a cabeça do bispo jogada para trás, os olhos fechados. Seu amiguinho trabalhava nele com afinco. Até pensei em suborná-lo, porém eu ficaria na exposto durante as negociações. Eu nunca me arriscava. Encerrava o problema sem espaço para erros.

Puxei a maçaneta mas estava trancada. Tive que bater levemente na janela para ser visto pelo bispo, que acariciava a nuca do guloso rapaz que o chupava. Assustou-se comigo e puxou o amante pelos cabelos.

- Abra a janela.

Tentou guardar o equipamento enquanto abaixava o vidro.

- Pelo menos seu amigo não usa batom. – Comentei sorrindo. – Sobrariam marcas no seu piupiu.

- O que você quer? – A voz estava controlada, o bispo já tentava assumir o controle da situação.

Apontei a pistola para o boqueteiro.

- Volte à igreja e jogue fora todos os vinhos. – Ele me fitava apavorado. – Se contar para alguém, divulgo suas fotos orando no crucifixo do bispo. – Era mentira, eu não tinha foto alguma, mas ele não sabia. – Agora!

O pastorzinho voou de volta ao seu carro e arrancou. Voltei-me ao bispo.

- Só quero saber uma coisa. – Encostei a boca do silenciador no peito de Ferrovalle. Ele mantinha-se impassível. – Você realmente acredita em deus ou é apenas balela para enganar os trouchas?

- O que você acha? – Foi a resposta. Provocativo, o bispo rangia os dentes.

- Acho que suas dúvidas acabaram. – Engatilhei a arma antes de atirar. Queria vê-lo bem ao saber que eu iria ser alvejado e morrer. Em seus olhos não notei fé alguma na vida eterna, somente um ódio mortal por mim.

O corpo só seria encontrado na manhã seguinte. Mais um assassinato dos matadores de políticos. Outros haviam começado a me imitar exterminando corruptos. Mais de sete mortes sem pistas para a polícia. Eu nem desconfiava quem eram seus autores. Os jornais especulavam que não foi o mesmo grupo que praticou todos os crimes, os métodos e as vítimas eram bastante diferentes, e afirmavam que o incentivador da onda de violência era o assassino dos dois primeiros crimes, do empresário e da filha, pois despertou na sociedade a vontade de fazer justiça com as próprias mãos. Eu nem me importava com essas análises. Estava satisfeito por fazer o que eu tinha que fazer.

Em casa, vendo o noticiário, pedi o alicate de unhas à minha mulher.

“Nova vítima do serial killer que vem amedrontando os candidatos da próxima eleição.” Falava a repórter.

- Tenho mais uma película sub unguial aqui no pé para cortar.

 

fin

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