Pipoca doce
Estava num bar bebendo com dois amigos, um solteiro e outro casado e com um filhote. O relógio marcou seis da tarde. - Tenho que buscar meu filho no colégio! Disse o pai. - Dê um vale-transporte para ele voltar sozinho. Argumentei. - Ele só tem cinco anos! Enfezou-se o pai, sem motivo, pois sempre achei o garoto bem esperto. - Então pode passar por baixo da roleta. Concluí. - O que você vai fazer? Perguntou o solteiro. - Oras... farei o que é certo. Respondeu o pai ao pegar o celular e ligar para a esposa. - Querida, tô muito ocupado por aqui. Você pode pegar o Rafa? Não sei o que ela respondeu, mas logo estávamos no carro do pai indo buscar o moleque no colégio. Mães são muito convincentes. Comprei um saco de pipoca enquanto esperava o pai receber o filho na sala de aula. - Salgado por cima e doce por baixo, tiozão. O segredo da boa pipoca. Sentei-me atrás no carro, junto com o Rafa. Devorávamos as pipocas. Num semáforo, várias garotas barulhentas atravessaram a pista. Meus amigos comentaram algo sobre os atributos físicos da moças. - Gostosas? Perguntei a eles. - Sim. Respondeu o Rafa. Olhei espantado para ele, tão novo e já interessado em meninas. Só então percebi que ele se referia às pipocas que infestavam sua boca. Sorri e ele retribuiu o sorriso, babando pedaços mastigados na camisa. - Rafa, coma mais rápido pois ao final tem uma surpresa no saco de pipoca. Instiguei a criança. - O que é? Ele me fitou animado. - Coma logo que você vai descobrir. Ele enfiou os dedos lambidos no saco e encheu a boca com três míseras pipocas. Logo viu as pipocas rosas. - Por que ela é rosa? Quis saber. - Prove que irá descobrir. Colocou a pipoca rosa na boca e a apreciou com a serenidade de um sommelier. - Qual a diferença dessa pipoca rosa para a pipoca normal, a pipoca branca? Perguntei. - Essa não tem sal! Falou calmamente. Eu queria que ele notasse que era doce, mas ele percebeu apenas o óbvio: aquela não tinha sal. Matutei sobre a resposta do moleque. O óbvio é tão evidente que poucos o percebem. É preciso uma criança, em sua infinita inocência, para mostrar aquilo que queremos saber. Quisera eu ainda ter essa inocência; as gostosas ainda seriam as pipocas e não outras coisas que a metáfora da vida nos imputa a aprender.
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fin |
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