Os ultracaras

 

Ele nasceu para a música aos seis anos quando viu um mendigo tocando gaita. Chegou-se para olhar as feridas do maltrapilho, escutou a harmônica, cada nota conversava um assunto. Descobriu, batendo um graveto contra uma grade de ferro, os tons e os sustenidos. As oitavas aprendeu num colégio de música.

Formou uma banda. Cada amigo tocava um instrumento: Ruivo a bateria, Neto o baixo, Marcelo cantava, e ele próprio como guitarrista. As músicas compunha sozinho mas deixava as letras serem completadas por algum membro para dividir a autoria. Cantava melhor que o vocalista e era melhor baixista e baterista, mas sempre guardava espaço em cada composição para um solo do colega. Gostava de dividir as atenções, era generoso por natureza.

- Qual vai ser o nome da banda? – Marcelo perguntou durante um ensaio.

- Ultracara, tchê. – O sotaque forte de Ruivo impostava sua voz. – Afinal, temos um ultracara como líder. – Abraçou o Lucas.

- Não sou o líder. – Resmungou Lucky e dedilhou a guitarra num zunido mágico. – Sou só um membro da banda. – Sorriu sincero. – O guitarrista! – Concluiu. Gostava de ser humilde, era importante para sua alma.

O talento do guitarrista, a beleza de suas músicas e sua perfeita execução pela banda logo chamaram a atenção dos fans. No dia seguinte a um show que foi filmado por um nerdezinho que o espalhou pela Internet, a banda já era cult. Dezenas de emails, ligações na casa de Lucas e um agente batendo à porta com um contrato.

- Não assino nada sem os outros membros da banda. – Disse na primeira entrevista à televisão.

- E qual é o nome da banda? – Perguntou a repórter, evidentemente excitada com o rapaz.

- Os... ultracaras. – Lembrou-se da sugestão do amigo.

A ascensão foi meteórica. Levados para a capital, logo foram elevados à condição de mega-star. O primeiro disco já saiu com um milhão de cópias vendidas. A crítica adorou e o público, curiosamente, também. As várias vertentes da música se sentiam lisonjeadas pela banda.

- É rock, é heavy, é pop, é reggae, é genial, é a expressão da nova geração... – O apresentador do programa de maior audiência no horário nobre fez uma pausa para aumentar a expectativa. – Os ultracaras! – Berrou a plenos pulmões superado em seguida pela multidão no auditório.

Durante a apresentação, Lucky percebeu que a câmera focava apenas nele. Passou o resto do show abraçando os companheiros e chegou a atrapalhar Ruivo com as baquetas. Riram-se do erro.

Nas entrevistas, respondia a cada pergunta citando algo sobre os outros caras da banda, pedindo opiniões e ajudas para as explicações. Sua humildade o demonstrava gentil, o que aumentava o fascínio sobre a banda.

Fizeram uma turnê mundial, visitando quarenta capitais nacionais. A banda era aclamada em todo lugar que fosse. Eram convidados para as mais excêntricas e luxuosos recepções.

Poucos meses após o primeiro disco, o baixista adoeceu de gripe. No hora do show o empresário apareceu com três músicos especialistas para substitui-lo.

- Sem chance! – Decretou Lucas. – A banda só toca se estiver completa.

Não houve quem removesse essa idéia do guitarrista. Ele não admitia fazer o show sem algum membro titular.

- Mas os fans? E o show? E o investimento? – Desesperou-se o produtor do evento.

- Adie! – Finalizou. – Só toco com a banda completa.

E assim se fez. Os ultracaras só se apresentavam com a formação completa, por exigência do mentor da banda.

A mítica sobre o conjunto aumentou ainda mais sua fama. Boatos diziam que fizeram um pacto com o demônio que os impedia de tocar separados. Lucky colocava mais lenha na fogueira ao responder nas entrevistas que seu talento estava unido a forças sobrenaturais.

Um dia, voltando de um apoteótico show num estádio, a van que levava a banda capotou. Ninguém se feriu, apenas o Lucky. Mortalmente. Nem chegou ao hospital.

A comoção popular ganhou pompa de evento de Estado. Alguns presidentes compareceram ao enterro. Até um rei árabe. Os dois discos lançados bateram recordes de vendas. Os fans, órfãos, lamentavam o futuro da banda.

- Tudo se acabou! – Choramingou o empresário, triste pelos lucros que não ganharia.

- Bah, que nada. – Bradou Ruivo. – Lucky nunca admitiu que tocássemos separados. Ele morreu, sobramos nós. Vamos tocar. Honrar sua memória.

- Mas quem tocará a guitarra? – Quis saber Marcelo.

- Você. – Respondeu Neto. – Toque guitarra e cante.

A re-estréia da banda sem o genial guitarrista foi cercada de desconfianças. Muitos reclamavam que os outros membros estavam desrespeitando a memória daquele que sempre exigiu a presença dos companheiros para qualquer show. Outros diziam que era uma bela homenagem.

A banda subiu ao palco sem muito alarde. Cada membro tomou sua posição antiga no palco, respeitando o espaço do amigo falecido. No primeira música deixaram claro que Marcelo só faria o acompanhamento na guitarra, sem as peripécias de Lucas. O som estava bom, ainda que simples.

De repente, num vácuo da música, onde o guitarrista faria um tremendo solo, uma microfonia arranhou o ouvido de todos. Ela durou o tempo exato. Os músicos continuaram, na parte do segundo solo, a mesma microfonia.

Alguns fans se benzeram, outros babaram de prazer ao presenciar uma manifestação sobrenatural.

No momento do solo final, a banda se esmerou na parte da cozinha do som, fez a deixa e ... microfonia. Nos momentos certos até aumentou o tom. A platéia entrou em júbilo. O baixista se ajoelhou enquanto tocava, Marcelo cantava de olhos fechados. A imagem correu o mundo no maior efeito de divulgação da história. Foi um sucesso.

Ninguém viu o empresário com o microfone de Lucky encostado na caixa de retorno. Ele provocou a microfonia. Sentiu-se feliz por entrar nos momentos certos da música. Até desconfiou que Marcelo tenha percebido o que ele fazia antes de fechar os olhos. Nos anos seguintes colheu os frutos do inúmeros shows da banda, que aumentou ainda mais a fama pois angariou como fans também os espíritas, os magos, os ufólogos, os teólogos, os jedaístas e aqueles que tinham curiosidade com o inexplicável. Todos iam aos shows esperando uma nova aparição.

Naquela mesma noite, Wander, o empresário, pegou o violão novo, colocou as cordas, afinou e tirou uns acordes. Tocou com segurança.

- Que fera. – Exclamou. – Isso é força.

Ele nada entendia de música. No dia da morte de Lucas sentara-se para dedilhar um violão em homenagem ao amigo. Lucky era amigo de todos. As notas soaram fáceis, parecia que um dom havia lhe crescido, Wander compreendia agora a música e era capaz de formar acordes. Surpreso, logo desconfiou que havia algo por trás do novo talento. Ele usava um violão elétrico ligado à uma caixa de 240Wolts.

- Lucky? – Perguntou em voz alta.

Microfonia.

fin

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