O Selvagem
As crianças são a forma mais pura do ser humano. Verdade. Somente elas ainda não foram corrompidas pela civilização. Vivem e agem conforme o mais simples ditado do mundo animal. A lei do mais forte. Quem pode escolhe seu destino. Os outros aceitam. A criança é assim até descobrir que pode mudar e o fraco pode se tornar forte, ou vice-versa. A dupla de irmãos entrou para o colégio de freiras. De classe media baixa, o pai conseguiu uma bolsa para eles estudarem na aclamada escola se sempre tirassem boas notas. Tinham uma diferença de três anos e meio entre si. Não eram muito ligados devido a esta distância de idades. O mais velho, com nove anos, era de estatura normal para a idade porém com mais carne nos ossos, o que lhe dava uma impressão parruda. Uma criança normal e calma, muito apreciada pelos professores dada sua facilidade com a lógica. O mais novo era pequeno mesmo entre os colegas. Frágil de saúde, estava sempre irritado com as coisas ao redor. Freqüentemente arranjava confusões entre os colegas, que o respeitavam pela sua ferocidade na hora da briga. O irmão mais velho sempre se divertia vendo o mais novo lutar com os colegas e sair vitorioso. Todo recreio havia brigas. Vez por outra o maior arranjava suas lutas, como toda criança normal, mas nem sempre vencia pois tinha um receio inato de dar tudo de si no embate. Não ganhou fama assim, sendo considerado pelos adversários apenas mais um. Diferente do irmão mais jovem, que vencia todos os colegas e certa vez surrou um garoto da classe intermediária entre eles. Virou o herói mirim. O horário do recreio era dividido. As crianças de mais de dez anos saiam quinze minutos depois dos menores entrarem. Estes eram bem maiores de tamanho e de malícia. Sempre aproveitavam as brechas para fazer com que os menores soubessem quem mandava. O poderoso entre os maiores era um grandão. Com doze anos, já tinha pêlos e mostrava para todo mundo. Depois surrava todos, amigos e inimigos. Era desenvolvido o suficiente para ser tomado por um garoto de catorze anos, a idade máxima do colégio. Um dia, no meio do ano, foi ser comemorado o dia da Santa Padroeira do colégio e as madres acharam por bem reunir todos os alunos para uma celebração. Péssima idéia. O pátio ficou forrado de moleques que corriam para todos os lados e gritavam mais que podiam os pulmões. Finda a celebração, as freiras decidiram deixar as crianças brincando como um agrado da santa. Os pirralhos adoraram e gritaram ainda mais, com os maiores correndo atras dos menores. O irmão mais velho ficou jogando bolinha de gude, numa circunspecta "vera", onde quem vencesse levava as bolinhas dos adversários. Ele era craque nisso. O mais novo estava a conversar com os amigos, numa rara demonstração de calma. De repente estourou a primeira briga e todos correram para assistir. Criança adora ver briga de criança pois sempre há um vencedor e o perdedor nunca fica muito machucado. Era entre o líder dos maiores com um garoto da sala do irmão mais velho. A vitória do maior foi arrasadora. Logo chegaram as madres e todos dedaram quem tinha brigado. Criança é muito sincera. Levaram o perdedor para fazer uns curativos e aplicaram uma tremenda bronca no vencedor, que nem te ligo. A multidão de moleques mal tinha se dispersado e apareceu outra confusão. O maior brigão descobriu o irmão mais novo e o provocou. Criança irritada como era, partiu para a luta. Tendo a metade da idade e do tamanho do outro, foi logo escorraçado. Todos riram e ele se sentiu humilhado. Correu de cabeça baixa e acertou uma chifrada na barriga do brigão, que se irritou e mandou os amigos segurarem o moleque para ele poder melhor espancá-lo. O irmão mais velho, vendo a confusão entre o irmão mais novo e o brigão, ficou assustado. Tudo aconteceu muito rápido e quando se deu conta os amigos do brigão estavam segurando seu irmão para surrá-lo. Não sabia o que fazer. Não teria tempo de chamar as madres para salvarem seu irmão antes que ele apanhasse feio. Seus amigos não iriam se meter com os maiores para salvar o moleque. Ele já não era muito bom de briga e para piorar era contra os maiores. O irmão levou o primeiro chute. O irmão mais velho não viu mais nada. A vista ficou meio avermelhada e ele, gritando sem saber, pulou no meio dos maiores e começou a distribuir socos, pontapés, unhadas e até dentadas se os inimigos chegasses perto o suficiente. As freiras foram acionadas e quando voltaram ao local das brigam viram uma cena assustadora. Dois garotos maiores sentados no chão muito machucados e outros dois fugindo correndo. O irmão mais velho estava montado em cima do brigão socando, esbofeteando e batendo com a cabeça dele no chão. O irmão mais novo, assim que se viu livre dos meninos, ficou chutando as pernas e as ancas do brigão que apanhava de seu irmão. Elas tiraram os irmãos de cima do garoto que estava quase desmaiado. Eles, ensandecidos, se debateram ferozmente para se soltarem. O mais velho chegou a unhar o rosto de uma madre, tamanha era sua fúria. O resultado do dia de celebrações foi duas mães chamadas ao colégio. Uma para levar seu filho ao hospital e a outra para receber conselhos para os filhos. Eles eram muito violentos. A senhora deveria procurar um psicólogo para eles, principalmente para o mais velho, que parecia ser calmo mas se fica nervoso parece um animalzinho. A pobre mãe, desentendida com esta troca de personalidades entre os filhos, perguntou para o mais velho o que acontecera. -Ah. Disse ele firme, sem tentar se desculpar. No meu irmão só quem bate sou eu. O irmão mais velho se transformou no ídolo do colégio. Os próprios amigos do brigão surrado começaram a apreciá-lo. Ele voltou a ser calmo, mas passou a ser constantemente provocado por outros garotos que tentavam tirar seu reinado de líder. Teve que brigar muitas vezes, não para se manter por cima, mas apenas para não apanhar. O irmão manteve-se ao seu lado. Um mês de escaramuças depois, encontrou o ex-líder dos maiores. Tremeu de medo. O outro era realmente muito grande. Sabia que não conseguiria manter a performance em outra briga se fosse provocado. Conseguira a primeira vez apenas para salvar o irmão. O grandão olhou para ele, devido ao respeito adquirido, apenas abaixou a cabeça em sinal de cumprimento. O irmão menor inflou-se de orgulho. Ele soltou o ar da tensão. Neste dia ele descobriu que o mundo é feito de aparências, e para ser bem sucedido teria que agir selvagemente e sem sentimentos, deixando a sua pureza de criança para trás.
|
fin |
| Gostou? Não gostou? Nem leu? Quer que o Mão Branca vá se foder? Escreva para ele: Mão Branca |