O próprio enterro

 

O velho passou a vida inteira escrevendo. Era jornalista renomado, conhecido mais pelos romances que pelas matérias.

- Pára de comer ovo de manhã! - Alertava a antiga companheira. - Você deve fazer um teste de colesterol.

Teste feito, o resultado foi péssimo.

- Tá vendo, mulher, se não tivesse enchido meu saco com esse negócio de colesterol, eu ainda estaria bem.

- O que houve?

- O médico disse que vou morrer se não diminuir o colesterol.

- Você vai se controlar, não é?

- Bah, você já viu alguém morrer de "colesterol"? Pá, morreu de quê? Colesterol. - Abanou a mão como se espalhasse um peido. - Tudo é bobagem.

Continuou com os ovos de manhã. O médico ligou.

- Tem que parar de fumar também.

- O que?

- Fumar! Tem que parar!

- Sim, mas o que tenho que parar de fumar?

O médico refletiu.

- Tudo, tem que parar de fumar tudo.

O escritor nem deu bola. Resolveu até engrenar num novo romance para passar deliciosas horas enfurnado no esfumaçado escritório.

A mulher, preocupada, pediu ajuda aos filhos.

- Falem com seu pai. Ele não me ouve.

- Não te ouve porque tira a porcaria do aparelho de surdez. - O mais velho era tão desbocado quanto o escritor.

Os filhos se reuniram com o pai.

- Tem que se cuidar, velho, senão pifa!

- Espalhem que estou nas últimas.

- Como é?

O velho contou aos filhos o plano que tinha na cabeça há anos. Os filhos adoraram. Espalharam aos quatro cantos que o velho escritor estava no leito de morte. Alguns jornalistas consultaram seu médico e ele confirmou que o velho sofria de colesterol, além de fumar demais.

Matérias sobre o escritor estamparam jornais de todo o país.

- Tudo pronto. - Disse o velho. - Agora posso morrer!

O anúncio de sua morte já era esperado. Saiu até no plantão do Jornal Nacional, mostrando uma antiga entrevista do escritor com o gordo Jô.

No dia do velório, o caixão estava fechado.

- Ele estava muito doente por causa da fumaça e do colesterol! - Explicou a esposa.

- Ué, ele tá morto ou virou um salaminho defumado? - Disse um colega escritor.

O velho, que estava disfarçado de velha tetraplégica, numa cadeira de rodas, embaixo de ponches rendados e um grande chapéu escuro, pensou: - Boa frase, velho amigo.

Continuou vendo as pessoas que chegavam para cumprimentar sua esposa. Falavam com seus filhos. Diziam coisas bonitas ou confortantes. Com esses o velho pouco se importou.

- Ele me pediu para derramar cerveja no caixão. - Disse alguém. - Vocês não vão me impedir, não é?

Era um antigo e bom amigo. O velho agradeceu por ele cumprir sua promessa.

- Não, tio, pode fazer essas maluquices do papai. - Disse a filha.

- Ele também me pediu para colocar um rock'n roll como fundo musical. - Disse outro. O velho sorriu.

- E queria que eu distribuísse umas doses de cachaça. - O dono de um alambique, muito amigo do escritor.

- Já que estamos aqui, acho que vou atochar unzinho. - Pensou alto o mais jovem amigo do velho escritor. Era o seu novo traficante. O antigo já tinha morrido.

Alguns amigos fumaram com o traficante. Outros só beberam a cachaça. Ninguém reparou uma velha tetraplégica que bebia e fumava mais que todos juntos.

- Hora de enterrar o corpo.

- Inda bem que não fazem teste de bafômetro em carrinho de cemitério. - Disse o que falara sobre salaminho defumado.

Os cinegrafistas e fotógrafos dos meios de comunicação iniciaram uma pequena confusão. O velho estava compenetradíssimo em anotar quem compareceu ao enterro. Pediria para a mulher mandar um cartão de agradecimento. Os que não foram receberiam uma carta de impropérios, escrita de próprio punho pelo velho.

Com o caixão na cova, molhado pela cerveja derramada pelo amigo, cercado por todos que o importavam, o velho ficou emocionado. Tão emocionado que chamou a mulher.

- Acho que agora vai, filha.

- Você não pode morrer agora! - Disse a esposa. - Vão descobrir a farsa.

- Bem, querida, dê um jeito! Eu vou nessa.

Morreu, nos braços da esposa, o velho escritor. Ele ainda estava disfarçado de velha tetraplégica. Ainda estava no próprio enterro.

A mulher deixou o corpo na cadeira. Pegou um torrão de terra e escreveu na lápide do escritor: - O homem que viu o próprio enterro.

 

fin

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