o homem que perdeu os sonhos

A única coisa que o homem tem em sua vida é a esperança. Se existe uma vida além, ele leva apenas as lembranças. Essa é a história de um homem que perdeu os sonhos.

Desde jovem ele era acometido por dúvidas. Virar à direita ou à esquerda. Estudar ou fazer esporte. Namorar sério ou deixar acontecer o amor. Sempre teve que fazer escolhas. Passar em um curso que oferecesse bom futuro ou estudar aquilo que gostava, aplicar-se na universidade ou curtir a juventude, trabalhar por experiência ou esperar a grande oportunidade. Eram as escolhas da vida, as escolhas malditas.

Ele gostava de artes, música e cinema. Escolhera a burocracia para trabalhar. Apreciava a liberdade e vivia longe do sol. Gostava de pessoas diferentes e ativas mas diminuiu a possibilidade de conhecê-las. Amava as viagens mas perdeu alguns passeios preciosos.

Em certa altura de sua existência, ele percebeu que em alguns momentos de dúvidas fizera algumas escolhas erradas. Parte de sua vida já havia passado e ele não mais poderia voltar atrás. Pensou então em recomeçar.

Contudo para ele a vida não era um jogo que se joga quantas vezes forem necessárias, até aprender. Era um jogo único e sem volta. Ele continuou a vida sem tentar jogar novamente. E assim o tempo foi passando e ele ficava cada dia mais descontente com o que fazia e cada hora mais distante da possibilidade de um recomeço.

Então conheceu uma mulher. Ela era forte e confiante. Ela confiava mais no homem que nela própria, pois tinha por ele muita fé. Ficaram juntos, ela ajudou o homem a perseguir seus sonhos, consertar o que havia de errado, jogar novamente. Mas o medo de fazer uma outra escolha errônea afetou-o e ele com medo de atrapalhar a vida da mulher escolheu não estar mais com ela. Ela ainda quis ficar, mas ele, irredutível, preferiu não permanecer com ela e novamente fez uma escolha maldita.

Os anos passaram e nenhum dos sonhos do homem se realizou. Ele há muito deixara de tentar realizar seus desejos. Vivia por viver, fazendo as coisas sempre que elas deviam ser feitas. Jogava um jogo que sabia que não iria vencer. Era um homem sem sonhos.

As noites eram como a vida do homem. Ele dormia e acordava sem prazer. Nunca tinha nada para contar, não tinha projetos para o futuro, não pensava no que iria realizar. A noite dormida era apenas o espaço do dia que ele usava para descansar e continuar vivendo. Nunca mais sonhou os sonhos que surgem da esperança de algo melhor, da vontade de construir os desejos.

O homem via as pessoas que cresceram com ele e invejava o prazer que elas tinham em situações simples como passear, conversar ou brincar. Não entendia mais o sentimento da esperança. Um dia pensou no porquê de nunca ter suicidado. Descobriu que não era tão corajoso, ou covarde.

Andando pela rua, já velho, viu um rapaz angustiado. Sem entender o que lhe motivou, pois nunca mais sentira vontade de ajudar os outros, foi ter com o jovem. Descobriu que o rapaz estava triste pois achava que já cometera muitos erros na vida, e que não seria capaz de tentar perseguir seus sonhos. O velho olhou para o rapaz e viu sua própria pessoa. Sentiu pena do jovem, pois se ele não tentasse recomeçar agora que ainda era jovem, seria um velho rancoroso e sem esperança como a si mesmo.

O homem contou ao jovem sua vida, em poucas palavras, pois sua vida não valera à pena. Pediu, implorou ao jovem que não desistisse e partisse em busca dos seus desejos. O jovem olhou o velho e perguntou se ele seria capaz de também recomeçar agora, mesmo já velho. O velho disse que não. E o jovem percebeu que também estava velho, não em corpo, e que também não conseguiria jogar novamente o jogo.

O velho foi embora, esperar a morte. Mais infeliz ainda, pois sua dor viveria outra vida, na pele do jovem que não conseguira ajudar.

Essa é a história do homem que perdeu os sonhos. Ele não tinha nada na vida, e dela nada levou.

fin

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