O cupinzeiro
O meio do cerrado. Vegetação baixa e retorcida. Muita seca durante o ano. Alguns córregos mantêm a vida nessa árida região. A terra pobre e cascalhenta. Muito calcário. Embora a desolação predomine no horizonte, a vegetação castigada é de grande diversidade. A flora é tão grande quanto a fauna. Os milhares de insetos vivem adaptados ao local. Um cupinzeiro grande e antigo se ergue majestoso num pequeno capão no mato. O local é passagem de animais até a cachoeira próxima. Há uma larga trilha ao lado do cupinzeiro. A rainha produziu muitas princesas que geraram outros cupinzeiros. Ela estava velha e cansada. Quando morreu, houve uma luta entre as princesas restantes para assumir o reino, mas os outros cupins não acataram a majestade da vencedora. - Só aceitaremos como líder a Rainha nossa mãe. - Anunciou o general do exército do cupinzeiro. - Mas nossa mãe está morta! - Gritou a princesa vencedora. - Não importa! - Se vocês não se resignarem, vamos todos morrer. De fato, sem o controle da rainha, algumas tropas desorganizadas tentaram expulsar uma lacraia que entrou pela abertura norte. Muitos morreram antes do general conseguir direcionar o combate e matar o intruso. - O fungo está secando. - Lembrou um dos chefes dos operários. - Temos que umedecê-los senão não teremos comida. - A princesa virou-se para o general. - Seus guerreiros voltarão a proteger os operários? - Não. - Estava impassível. - Só obedeceremos a rainha. A princesa pediu para os operários voltarem ao trabalho. Precisavam trazer folhas para o fungo. Algumas horas depois, um chefe dos operários voltou, acompanhado de alguns guerreiros. - Muitos grupos de operários se negam a trabalhar. Dizem que se a rainha morreu, eles não devem mais seguir ordens. - O general também mandou avisar, - Disse um guerreiro, constrangido. - que o exército está dividido. Apenas nosso grupo apóia a senhora. A princesa olhou o grupo de guerreiros. Era o fim do cupinzeiro. Só não sabia como aconteceria. Alguns dias se passaram. Com o esforço extra dos operários e guerreiros fiéis à princesa, o fungo estava sendo cuidado e as fronteiras continuavam protegidas. Dentro do cupinzeiro, porém, a algazarra era total. Grupos de cupins estavam jogados nos corredores, alguns descansavam e outros conversavam. Todos ficavam ociosos. Gangues de ex-guerreiros lutavam entre si, pela soberania dos salões. O cupinzeiro acabou dividido em quatro partes. Uma dominada pela princesa e seus seguidores, outra pelo general e as outras por gangues rivais. Todos, contudo, ainda se alimentavam do fungo que era criado pela princesa. Certo dia uma das gangues notou que seus membros estavam escasseando. Foram procurá-los e descobriram que uma grande aranha havia penetrado no cupinzeiro. Ela havia tecido suas teias em vários corredores e salões. Os cupins que ali se aventuravam ficavam presos e eram devorados. - Uma aranha. - Gritaram em pânico. Construíram uma barreira no túnel principal. A aranha nem tentou destruí-lo. - Cupins, escutem! - Anunciou a aranha. - Deixem-me com os salões que já conquistei. Se não me incomodarem, não os atacarei mais. - Sua voz era aveludada e macia. Os cupins da gangue derrotada nada podiam contra a aranha. Em grupo, foram pedir asilo em outros salões do cupinzeiro. - Agora vocês querem nossa ajuda, não é? - Gritou o líder de uma gangue. - Não os ajudaremos. Podem morrer comidos pela aranha. - Mas somos irmãos! - Não importa! Não temos espaço para vocês. O general, que era o líder da outra gangue, aceitou os sobreviventes. - São reforços! - Explicou. No dia seguinte a princesa procurou novamente os dissidentes. - Não vêem que nosso cupinzeiro já foi invadido? Essa é nossa última chance de sobrevivência. Temos que nos unir e expulsar a aranha. - Você não é nossa rainha. - General, o senhor pode ser um grande líder, mas é um estúpido. O outro líder reuniu os seus e foram embora. Chegaram em seus salões e sentiram um cheiro estranho. - Parece que há mais alguém aqui. - Comentou um cupim. Uma garra o pegou pela cintura e o levantou no ar. Foi cortado em dois pelo escorpião. O pânico impediu a luta coordenada dos guerreiros da gangue. O escorpião lutava apenas com as garras. Deixava seu mortal ferrão esticado e inerte. Matou centenas de cupins. Quando achou que se divertiu o bastante com o massacre, o escorpião recolheu muitos cadáveres de cupins e começou a comê-los. Os cupins que ainda estavam escondidos nos salões e corredores próximos estavam apavorados. Os sons dos cadáveres de seus companheiros sendo dilacerado e mastigado pelo escorpião gelava-lhes o sangue. - Ouçam, cupins. - A voz estranha e enrolada do escorpião. - Tenho tudo o que preciso aqui. Se eu for atacado, os destruirei. Se eu os encontrar, os destruirei. Se sentir a presença de algum de vocês, os destruirei. - Ele comia enquanto falava. Sua boca cheia de pedaços de cupins assombrava os que o ouviam. - Após minha refeição irei descansar. Quem quiser, aproveite para fugir. Quem não quiser, fique para a janta. - A gargalhada fez cair pedaços de pernas de cupim de sua boca. Os cupins sobreviventes, sabendo que o general os receberia, fugiram para lá. Mal chegaram aos domínios do general, ouviram o sibilar. Uma cobra penetrou pelos túneis, alargando-os e destruindo alguns salões. Nem houve luta. A grande maioria dos cupins do general morreu esmagada só por manter-se na frente da cobra. Ela apossou-se dos principais salões e enrolou-se no meio do maior. Olhou para os lados, com desprezo pelos pequenos cupins e adormeceu, calma, segura de si. O general e poucos combalidos guerreiros conseguiram chegar perto da entrada da região da princesa. Foram recebidos por ela. - Princesa, - Pediu o general. - Acolha-nos. O cupinzeiro está tomado por seres alienígenas. - Eu sei, general. - Uma aranha, um escorpião e uma cobra dominaram vários salões. - Sim. - Precisamos expulsá-los! - Bradou. - Claro que não. Somos impotentes. - Pela memória da rainha. - A rainha está morta. Nós estamos vivos! - Gritou a princesa. - Todo o cupinzeiro estaria vivo se o senhor me ouvisse. O general, com olhos vagos, retrucou. - Só ouço a rainha. - Eu sou a rainha agora! - Berrou a princesa, batendo as patas no peito. O general a olhou. - Guerreiros! - Chamou. Os cupins que haviam vindo com o general se apresentaram. - Vamos! - Sua voz estava imponente e decidida. - Vamos fazer a última investida contra a cobra. Os guerreiros entreolharam-se. - Mas senhor, - Retrucou um cupim. - O que podemos fazer contra uma cobra. - Não importa! - Urrou o general. - Vamos! - Caminhou para a saída do salão. Nenhum guerreiro o seguiu. Com raiva, o general avistou a cobra. Subiu sobre ela e picou em sua barriga. Não conseguiu cortar a pele. Foi para o rosto da cobra. Tentou mordê-la no olho. A cobra se irritou e balançou a cabeça. O general foi jogado longe. Caiu sobre um pedaço de teia da aranha. Ficou preso. A aranha sentiu algo puxando sua teia e logo descobriu o general. - Ora, um líder. - Disse. - Eu adoro líderes. São maiores, mais fortes, mais gostosos. O general estava apavorado. Sabia que as aranhas comem primeiro a cabeça da presa e depois passam semanas comendo as outras partes. - Porém não tenho fome agora. - Eu tenho. - Gritou o escorpião. A aranha se preparou para o combate. - Acalme-se. - Pediu o escorpião. - Não vou atacá-la. Se você não me atacar, é claro. - A aranha consentiu na trégua. - Se você nunca me atacar, também nunca a atacarei. Teremos, assim, a melhor moradia do cerrado: o cupinzeiro. - E a cobra? - Perguntou a aranha. - A cobra me respeita. Falarei com ela. Alguns minutos depois o escorpião voltou e em seu encalço a cobra. - Sim, aranha. - Disse a cobra com sua voz arrastada. - Se vocês são espertos o suficiente para repartir o cupinzeiro, participarei do trato. Não os atacarei. Do alto de uma abertura no salão onde os confidentes parlamentavam, a pequena e sábia voz da princesa se fez ouvir. - Vocês são fortes, mas não são hábeis. - O que você quer? - Perguntou o escorpião. - Um acordo! - Com vocês? - Riu-se a aranha. - Vocês logo serão minhas próximas refeições. - A chuva e o vento logo corroerão o cupinzeiro. Sem manutenção, em poucos meses ficará em ruínas. Nem vocês poderão viver aqui. Os aliados se olharam. Sabiam que a princesa estava certa. - O que você propõe? - Perguntou a cobra. A princesa limpou a voz e explicou: - Nós manteremos o cupinzeiro com a condição de sermos protegidos por vocês. - Protegidos contra quem? - O escorpião. - Uns dos outros. De você, escorpião, e sua cauda venenosa. De você, aranha, e sua teia de armadilhas. E de você, cobra, de sua imponência sibilante. - A princesa estudou as reações a suas palavras. - Também deveremos ser protegidos dos seres de fora do cupinzeiro. - A princesa diminuiu a voz. - Vocês poderão comê-los. O silêncio após o discurso da princesa foi demorado. O escorpião o quebrou: - Sou um solitário. Se não me perturbarem, protejo o cupinzeiro. - Também sou uma solitária. Se tomarem cuidado com minha teia, protejo-os durante seu trabalho cortando plantas. A cobra estava quieta. Enfim falou. - Não me importo com vocês. Só quero ficar quente e seca. Para mim temos um acordo. Feliz com o acordo, pensando que talvez conseguisse salvar seus pares, a princesa pediu, finalmente: - Ótimo. Aranha, por favor, solte o general. - Não! - Gritou o escorpião. - A anistia é daqui para frente. O general continuará prisioneiro. - Por que? Não seremos protegidos por vocês? - Cale-se, princesa. Já disse que o acordo é daqui para frente. - A cauda do escorpião se contraiu, preparada para o bote. A princesa ficou assustada. - O que você quer com o general? - Perguntou a aranha. - Sempre mato minhas presas com minhas fortes garras e depois as devoro. - Explicou o escorpião. - Nunca tenho o prazer de devorá-las ainda vivas, com o delicioso sabor do medo e da dor ainda correndo por suas veias. O general gelou. Preso na teia da aranha, viu o escorpião aproximar-se e delicadamente abocanhar sua pata. Ele a triturou na boca e sugou o sumo. A dor era indescritível. O general sobreviveu oito dias, sendo devorado por partes pelo escorpião. Cada vez que perdia um pedaço, pensava que talvez pudesse ter sido menos intransigente com a princesa.
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fin |
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