Homem morto não conta história

Para Motorhead e Zumbis do Espaço

 

Parei no estacionamento, vazio. Abaixei-me no banco e subi as janelas escuras. Talvez esperasse muito pela minha vítima. Separei as sementes do camarão de maconha e joguei pela janela, na esperança de germinarem, e distribui o produto uniformemente na seda. Enrolei e enrolei e enrolei o papel, fechei com uma lambidela, pilei as laterais, taquei o filtro dum lado e o fogo do outro. Traguei.

Vi o homem chegando de bicicleta. Barbudo, roupas simples, parecia perdido. Olhou para os lados, andou até o meio da rua, depois olhou as casas, finalmente conferiu um papel do bolso virando-o para cima e para baixo.

Tive pena; um miserável, quase analfabeto, procurando algum endereço para prestar seus serviços de jardinagem ou qualquer outro trabalho manual. Estava perdido e inseguro, solitário na selvageria da sociedade capitalista. Pensei em largar o baseado e ajudá-lo.

De repente, o homem pegou debaixo da camisa um revólver e apertou a campainha. Na porta, uma mulatinha enrolada num vestido curto e imundo, com uma vassoura numa mão.

- Quié?

- Assalto.

Apontou a arma e a empurrou para dentro da casa. Assustei-me. Tossi. Mas continuei abaixado no carro.

O homem gritou alguma coisa e fechou a porta num baque surdo. Mais alguns gritos e tudo se acalmou. O danado havia rendido a casa em um minuto apenas.

Dei uma tragada funda. Prendi a fumaça no pulmão, para aumentar a potência. Uma sirene surgiu no ar, longe, quis seguir o instinto e cair fora, mas fiquei, curioso com o desfecho.

O Uno da PM travou as rodas na frente da casa. Saltaram com as armas em punho, apontadas para o céu, fingindo as táticas da Swat. Sorri com o amadorismo. O barbudo enfiou o cano pelo vitrô na parede e fez dois disparos. Os soldados pularam atrás do carro. Pediram reforços pelo rádio.

- Agora vou embora. – Falei e girei a chave na ignição. Mas voltei atrás mais uma vez. Curiosidade mata, pensei, e permaneci escondido.

Em minutos a rua foi fechada por carros de polícia. Apareceu um batalhão de operações especiais, um helicóptero, logo a luz de uma câmera de televisão iluminou o ambiente, embora ainda fosse dia.

Eu já não podia ir embora sem conseqüências, deveria passar com o carro no meio do cerco policial. Não me senti muito seguro, já que tinha arma e maconha no carro. Decidi continuar encolhido, agora pouco confortável.

A polícia travou a negociação aos gritos. O bandido tinha uma série de exigências para libertar a empregada. Sem chance, pensei, só sai preso ou morto. E se fosse morto poderia levar consigo algum refém, qualquer outra pessoa que estivesse dentro da casa. Talvez alguém da família, quem sabe minha vítima?

Gritos de um lado, berros de outro, luzes, carros, buzinas, gente para todo lado, eu ainda encolhido no carro, com a ponta do baseado na mão e o trinta e oito na cintura. Abaixei ainda mais no banco, assustado. Fumei até o toco, queimando o rolo de papel que usei como filtro. O gosto ardeu na garganta, mas travei no peito para não perder o último resquício de erva. Fixei o foco na casa invadida e decidi intervir, afinal, não poderia deixar minha vítima à mercê de um amador pé-de-chinelo descontrolado, que poderia feri-la ou pior, matá-la.

Pelo rádio FM num canal policial informaram que a casa era de um bispo da igreja Cura Nosso Chão. Deixaram de dizer, contudo, que o tal cara estava envolvido no assassinato de outro bispo, político poderoso. Talvez não soubessem, eu não costumava deixar vestígios das minhas intervenções.

Mas, puta merda, como eu iria salvar a minha vítima do meio de um assalto transmitido ao vivo pela tv?

- Pela incompetência do brasileiro! – respondi para mim mesmo.

Liguei para o 102 e descobri o telefone da casa assaltada. Liguei para lá. Tocou uma, duas, na terceira uma voz rompeu.

- Quié?

Era a mulatinha, trêmula.

- Chama o barbudo, querida. – Usei a voz amiga e autoritária.

Ela tirou o fone e resmungou.

- Quem é?

- Major Nico. – Ou Mar Jônico, pensei e ri. – Se você sair agora, poderá levar a refém e a arma. Não o prenderemos. – Fiz uma pausa para ele engolir a história. – Entendeu? Deixaremos você ir com a arma e a refém, porém deve sair agora. – Para enfatizar minha autoridade, impostei a voz, mesmo sorrindo. – Aqui é o Major Nico.

- Vou poder ir embora? - Perguntou, duvidoso, o barbudo, com uma voz rouca.

- Sim, mas mantenha a arma na mão e acima da cabeça.

- Certo. – Confirmou de bate pronto. – Estou saindo. – O estúpido assaltante havia caído na minha embromada. Jamais qualquer polícia o libertaria com o refém e ainda armado. Felicitei-me pela ignorância do nosso povo, ajudava minha enrolação. E também pela inércia da polícia, que demoraria horas para descobrir, de acordo com as leis, o telefone da casa e contatá-la, como eu havia feito em segundos.

Abri o vidro do passageiro com o botão elétrico. Expulsei o ar inflamado de maconha. Sabia que a onda da marola chamaria a atenção de muita gente, principalmente dos tiras mais espertos. Muitos olharam para trás, em busca do maconheiro. Não viram o barbudo saindo da casa com a arma acima da própria cabeça, segurando a mulatinha pelo colarinho.

Mirei o trinta e oito na luz do poste mais próximo e disparei. O barulho assustou a todos. não houve luz de disparo, pois o cano estava para cima. O barbudo soltou a mulata e tentou apontar a arma para o cerco, foi respondido por uma saraivada dos meganhas que não estavam de costas procurando o cheiro de marijuana. Estes, quando escutaram o tiroteio, se voltaram disparando novamente contra o cadáver do barbudo, que ainda estava de pé impulsionado pela força das balas. Quando tombou, era uma peneira.

A mulata estava branca com rajadas grenás do sangue esguichado do barbudo. Iria se recuperar.

Olhei para o poste. Havia errado o tiro. Eu também era de uma incompetência impressionante.

A polícia tomou conta da situação. Descobriu o bispo dentro da casa, com cara de assustado. Foi entrevistado pelo canal de tv no caminho até a ambulância. Fez cara de boqueteiro e olhou para a lente.

- Foi um horror. – Um bico e continuou. – Gente, um horror. – Outro bico. Não conseguia falar.

Sai do carro e levando uma garrafinha plástica de água. Fingi dar um gole enquanto caminhava até a ambulância. Se alguém me observasse atentamente, veria que a garrafa estava vazia, porém ninguém ficaria olhando um marmanjo bebendo água na rua, principalmente ao lado de cerco policial com tiroteio.

Na porta da ambulância apenas o policial que havia escoltado o bispo até o atendimento médico. Logo saiu para fazer outra coisa. A imprensa focava agora o cadáver e os policiais, sabia que o reféns não poderia falar de dentro da ambulância.

- Sou o Major Nico. – Disse ao médico, enquanto enxugava o rosto com um lenço. – Saia agora. - Obedeceu sem pestanejar. É incrível como as pessoas acreditam no que escutam.

Subi na ambulância, encaixei a boca da garrafa plástica na boca do revólver, segurei a ponta como uma glande e apontei para o bispo.

- Homem morto não conta história. – Vi em seus olhos que me reconheceu. Só havia me visto uma vez, quando eu o flagrei pagando um boquete no bispo político e o liberei antes de executar o canalha. Mandei-o ficar calado, mas me arrependi por não ter dado cabo dele também, afinal, um cara casado que chupa o pau de outro homem, ainda mais também casado e, o pior, sendo ambos bispos evangélicos, certamente uma hora ou outra contaria minha aparência a alguém, talvez à polícia. Sem vestígios, era o meu lema. Eu tinha que cortar aquela aresta de forma rente e eficaz. Não poderia jamais deixar aquele amador barbudo ter a possibilidade de tentar matar alguém da casa na frente do bispo, ou talvez ferir o próprio numa tentativa fracassada, senão ele poderia divagar que havia sido punido por descumprir qualquer lei religiosa que fosse e querer confessar seus pecados. Sua liberdade espiritual significaria uma pista para me identificar, e meu lema, quebrado, seria minha ruína..

Atirei. O barulho foi contido pela garrafa, que perdeu o fundo, um silenciador descartável. O bispo jogou a cabeça para trás quando a bala o atingiu entre os sobrolhos.

- Sem vestígios.

Sai da ambulância com o rosto virado para o chão. Atravessei o cerco e fui embora. Deixei o carro, eu o pegaria depois. Tinha que sumir com o Major Nico, a única pista até mim. Será que o médico conseguiria me descrever. Improvável. Para ele eu era apenas o suado e grosseiro Major que o expulsou da ambulância. Será que o barbudo comentou com a mulatinha que o Major Nico iria soltá-lo? Espero que sim, a polícia descobriria e deduziria que foi o mesmo que matou o bispo. Imaginarão que é apenas uma vingança? Já não me importa. Podem investigar todos até de cabeça para baixo, o único que poderia me reconhecer não o fará nunca mais. Tenho certeza disso.

 

 

fin

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