Encomenda cara

Acordei com minha mulher entrando no banheiro e peidando. Não gosto de acordar com peido alheio, prefiro os meus próprios. Levantei-me e fui para o banheiro do corredor. Sentei na privada e a trovoada começou. Minha mulher gritou de dentro do banheiro do quarto:

- Acordou, amor?

Claro que acordei! Quem você acha que está peidando desse jeito?

- Acordei, garota! O que quer de café da manhã?

- Leitinho com ovos e torradas.

Limpei a bunda para ir à cozinha fazer o café. Lembrei de lavar as mãos também. Preparei o desjejum e busquei o jornal. Lia quando ela chegou.

- Hoje ficarei ocupada até mais tarde no serviço. Encomendas extras.

- Você tá dando pro patrão?

- Não.

- E pro segurança?

- Também não.

- Você tá dando pra alguém?

- Sim.

- Pra quem?

- Pra você, meu gostosão.

Satisfeito, terminei o café e fiquei olhando-a acabar de comer. Arrumou suas coisas.

- Vai trabalhar hoje?- Perguntou-me.

- Sim.

Ela me beijou estalando seus lábios nos meus e saiu.

Fui para o computador. Recebi alguns e-mails: umas fotos de mulheres peladas, uns spams, algumas piadas velhas e um contato. Meu agente dizia que me encontraria na entrada do parque Olhos D'água às nove horas. Eram apenas oito. Enrolei um baseado, vesti-me, peguei meu equipamento e sai. Fumei enquanto dirigia. Senti-me calmo.

Meu agente já esperava no estacionamento. Parei o carro e o cumprimentei. Não sabia seu nome. Mesmo depois de tantos anos ainda não sabia seu nome. Melhor assim. Segurança.

- Como vai?- Estendeu-me a mão.

- Bem.

- Vamos correr?

- Vamos.

- Quanto?

- Seis tá bom pra mim.

Saímos trotando. Corremos os seis quilômetros sem trocar outras palavras, para não atrapalhar a respiração. Sentamos num banco e ele começou explicar o trabalho.

- Coisa simples. Você vai gostar.

- Quantos são?

- Apenas um. Um filho da puta. Você vai gostar mesmo. Nem precisa ser limpo.

- Quando?

- Quando você quiser.

- Motivo?

O agente me olhou. Ele nunca me entendeu mas sempre me aceitou minha exigência. Acho que por respeito, afinal eu era o único assassino contratado que exigia saber os reais motivos da morte.

- Você vai gostar. O cara é um advogado. Novo ainda, trinta e poucos anos. Dizem que o cara ganhou mais de dois milhões o ano passado. Metido, comprou carros, motos, lanchas. Comprou também uma cobertura na 309 norte.

Perto do meu apartamento.

- Ai o sacana resolveu dar uma festa de arromba. Chamou um monte de gente. Ao final, pediu para uma menina ficar um pouco mais. Flertava com ela. À sós, ofereceu vinho branco. Com anestésicos. Ela aceitou sem saber. Ficou com ela seis dias fazendo toda atrocidade sexual que você é capaz de imaginar.

- Sou capaz de imaginar muita merda, cara. Seja mais específico.

- Ele rasgou o cu dela por dentro até achar a boceta. Também arrancou os mamilos e o clitóris a dentadas e as orelhas com as mãos. Acham que ela morreu sufocada com o pau dele na garganta dela. O maxilar estava quebrado e havia porra do advogado nos pulmões da garota. Ele teve o boquete mais violento da história. Não dá para meter até os pulmões.

- Isso é muita merda, cara.

- Sem contar que ele queimou os grandes lábios dela enfiando uma faca em brasa na boceta. Dizem que depois comeu os grandes lábios na frente ela.

- Chega, cara. É merda demais para mim de manhã. Você sabe que vou investigar isso antes de aceitar. Respondo de tarde.

Enfiei uma calça e uma camisa que estavam no carro e fui para um cybercafé. Suava. Confiei no poder do desodorante. Pesquisei o nome do tal advogado que meu agente havia falado. Um processo. Caso de violência contra a liberdade sexual. Não entendi, pois era um homicídio. Não pude ler o processo. Fui ao fórum. Tive o cuidado de colocar uma camisa de banda de rock e um boné. Gostava daquela camisa, era do Dio, mas teria que jogá-la fora. Questão de segurança. Principalmente num fórum, onde tem câmeras. Não tirei os óculos escuros quando entrei no edifício com o nome de um desembargador que não interessa a ninguém. Encontrei meu contato.

- E ai, Jéferson.

- Ai, meu deus. Caralho. Era só o que me faltava. Eu vou embora.

Ele andou até a esquina do corredor. Virou e sumiu. Voltou no mesmo passo que foi.

- O que você quer.

- Você sabe o que eu quero. Preste atenção no nome.

Nunca anoto nada nem deixo os que trabalham comigo anotar. São vestígios! É através deles que os homens da lei acham os criminosos. Sempre cuidei para não deixar vestígios.

Jéferson voltou com um calhamaço de papéis envoltos numa pasta azul. Prendendo a pasta havia uma fita adesiva onde se lia a palavra confidencial. Achei patético. Peguei tudo e fui pro banheiro.

- Não demore.- Alertou-me Jéferson.

- Demoro o tanto que eu quiser, seu filho da puta!- Parece que meu contato esqueceu que me devia um grande favor. - Logo vou ficar com sede. Busque uma água tônica da Antártica para mim.

- Eu? Agora?

Não respondi. Apenas olhei para ele por baixo dos meus óculos escuros. Vi sua resignação. Entrei no banheiro, conferi se estava vazio e tranquei a porta. Acendi um baseado. Adoro fumar no fórum. Sinto-me no olho do furacão.

Li algumas partes do processo. Vi as fotos do laudo pericial. O crime era bárbaro, porém o advogado estava conseguindo escapulir graças a problemas burocráticos. Tinha até conseguido diminuir a tipificação do crime. Convenci-me. Aceitaria o serviço.

Uma batida na porta me alertou. Abri levemente apenas para pegar a água tônica.

- Cara, você é doido? Não pode fumar aqui.

- Cala a boca e vá embora. Saio em cinco minutos.- Acabei de ver algumas partes que me interessavam. Terminei o baseado e pinguei o colírio. Coloquei um Trident de canela na boca. Bateram novamente na porta. Abri uma fresta e vi que era um advogado engravatado. Deixei-o entrar.

- Desculpe, doutor. - Disse. - Tranquei a porta para fumar um charuto.

- Bem fedido esse charuto, hein?!

Sai do banheiro. Entreguei o processo ao Jéferson e chamei o primeiro segurança que vi.

- Amigo, não sei não, mas acho que tem alguém fumando no banheiro.

- Não se pode fumar nesse prédio.- Tão perspicaz o segurança.

- Olha, eu acho até que nem é cigarro. Tem um cheiro estranho.

O segurança acionou ajuda pelo rádio e foi ao banheiro. Se eu tivesse tempo até gostaria de ver o doutor se explicar ao sair do banheiro.

Passei uma mensagem para o celular do meu agente. Estava escrito apenas "sim". Sai do fórum e fui para o shopping Pátio Brasil. Fiquei zanzando até os bancos abrirem. Conferi no caixa-rápido do Banco do Brasil que o dinheiro havia sido depositado em espécie na minha conta fantasma. Tirei a quantidade que era permitida por dia no caixa-rápido. Faria isso durante 12 dias, até retirar tudo. Segurança.

Parei o carro no meu prédio na 309 norte. Sai e fui ao edifício do advogado. Calculei pelas janelas qual era o seu apartamento. Aproveitei uma velha saindo da portaria e entrei. Fui até o andar do advogado e apertei a campainha. Ninguém atendeu, como eu esperava. Nem me preocupei com o barulho ao meter o pé na porta e invadir o apartamento. Gente rica não se importa com a vida dos vizinhos. Sala grande, bem decorada. Fui ao bar e me servi de uma dose de cachaça. Era horrível. Lavei o copo. Peguei uma cerveja no frigobar. Importada. Nem abri.

Passei o resto da manhã fuçando nas coisas do advogado. Minhas mãos suavam por causa das luvas e da toca na cabeça. Vestígios. Eu nunca deixava vestígios. Descobri que o cara era tarado por menores de idade. Já tinha traçado um monte. Fotografava tudo. Muitas meninas novinhas, sem peitos nem pêlos pubianos. Como ele arrumava essas garotas?

No meio da tarde escutei o elevador parando no andar. Eu comia um sanduíche. Sentei na sala com a quadrada na perna. Acabei o sanduíche.

O advogado entrou na sala olhando a porta arrombada. Notou minha presença no sofá e logo viu a arma.

- Quem é você?

- Não interessa.

- O que quer?

- Você vai ver.

- Saia agora. Vou chamar a polícia.

- A polícia não vai te proteger.

Ele tentou correr para dentro mas me levantei e ele parou. Correu para a porta. Passei uma banda e ele voou de cabeça na parede. Ficou chapado. Arrastei-o pela perna para um quarto. Amarrei um lenço embebido em clorofórmio em seu rosto. O líquido iria queimá-lo todo. Tirei-lhe toda a roupa e prendi as mãos nas costas com algemas e os pés com uma adriça.

Quando acordou, eu ainda estava no quarto. Eu tinha tirado todos os móveis, menos um armário que coloquei na frente da janela.

- Quem é você? O que você quer?- Perguntou. A voz arranhava.

- De novo? Olha, ouça-me com atenção! Eu vou fazer algumas perguntas e você vai me responder de imediato e a verdade. Se eu notar que escondeu algo ou que mentiu te mato na hora. Entendeu essa parte?

Silêncio.

- Eu vou fazer algumas perguntas e você vai me responder de imediato e a verdade. Se eu notar que escondeu algo ou que mentiu te mato na hora. Entendeu essa parte?

- Sim! - Ele respondeu de imediato e a verdade.

- Se você tentar gritar ou fugir, se tentar se comunicar com alguém, se fizer qualquer coisa que eu possa imaginar que você esteja querendo fugir, como olhar muito para a porta ou para a janela, te mato na hora. Entendeu essa parte?

- Sim!

- Você não vai me perguntar nada, não vai dizer nada que não seja respondendo a uma pergunta minha e nem vai comentar nada sobre coisa alguma senão te mato na hora. Entendeu ...

- Sim!

- ... essa parte.

Deixei a arma na cadeira, longe do alcance, e levantei o advogado do chão, deixando-o sobre os próprios joelhos. Ele estava envergonhado por estar pelado e ter o pau pequeno. Ficava de cabeça baixa. Fitei-o até ele me olhar. Mantive os olhos fixos nos dele e olhei para a esquerda. Ele acompanhou meus olhos. Acertei um forte tapa na cara dele com a mão direita. Ele caiu e me olhou horrorizado. Levantei-o do chão e o deixei sobre os joelhos. Fixei os olhos nos dele e olhei para a direita. Ele acompanhou meu olhar. Acertei outro tapão em sua cara, agora com a mão esquerda. Ele caiu e me olhou novamente, agora incrédulo. Levantei-o, deixando-o sobre os joelhos. Repeti o procedimento para bater com a direita, mas ele quis dar uma de esperto e não acompanhou meu olhar. Olhou para a minha mão direita. Fechei o punho e acertei um direto no nariz. Ele caiu para trás, meio desmaiado. Levantei-o mais uma vez e acertei outro direto, mas com a esquerda.

- Você não vai tentar se adiantar quando eu estiver falando. Entendeu essa parte?

Levantei-o novamente. Ele não respondeu e dei mais um tapa.

- Sim.

Peguei uma cadeira e o pus sentado. Joguei um lençol para se cobrir. Ele estava muito envergonhado, perderia a concentração. Prendi o lençol atrás de seus ombros e sobre seu pintinho. Ele ficou agradecido.

- Aonde você arruma aquelas garotas das fotografias?

- Eu eu eu eu as encomendo.

- De quem e como?

- Dos pais, dos tios, pago para algumas diretamente.

- Onde encontra esses parentes?

- Procuro pessoas que estão respondendo a processos por dívidas. Ofereço dinheiro. Pergunto se não têm alguma putinha para alugar.

Mundo podre, pessoas podres. Não dá para confiar em ninguém.

- Onde mais?

- Internet.

- Como, na internet?

- Fico horas conversando com as meninas até elas confiarem em mim.- Ele engasgou e olhou para mim. Esperou eu pedi-lo para continuar falando. Chutei seu joelho. Ele gritou. Chutei o outro joelho. Outro grito. Acertei um soco na boca. Apagou.

Acordou quinze minutos depois. Havia descansado. Quando me focou com os olhos, soquei-lhe o queixo. Notei que a língua estava fora da boca. O sangue jorrou. Ainda bem que não bati forte o suficiente para arrancar um pedaço. Ele teria dificuldade em falar.

- Isso mesmo. Sem gritos. Se sentir dor, engula os gritos. Não quero ouvir nem gemidos. Entendeu essa parte.

- Sim.- A voz estava chorosa. Quase ri.

- Continue.

- O que?

Mais um murro, agora na testa. Não queria que ele desmaiasse de novo.

- Ai eu chamo uma menina para sair e ofereço dinheiro para ela trepar comigo. Nenhuma aceitou até hoje. Mas eu trepo assim mesmo, na força. Tiro as fotos e mostro pra elas, dizendo que se não ficarem caladas divulgo as fotos.

- Mentira.

Ele ficou calado. Voltei pra cadeira e peguei a quadrada. Puxei o ferrolho, engatilhando. Apontei para a cabeça do advogado.

- Eu roubo as meninas. Seqüestro. Em várias cidades. Nunca me descobriram.

- Você as mata depois de trepar?

- Só matei uma. Aqui em casa. Eu tava muito doido, foi sem querer. Tô respondendo processo. Por favor...

Enfiei dois dedos nos buracos do nariz do advogado e o arrastei para a cozinha. Ele tentava me seguir empurrando o corpo com os pés. O nariz arrebentou do lado direito. Sangrou. Ele gemeu baixo.

Peguei uma faca numa gaveta. Acendi uma boca do fogão e coloquei a faca em cima. Fiquei olhando o advogado cuspindo o sangue que saia do nariz e entrava na boca. Quando percebeu o que eu tava fazendo, olhou-me com piedade. A mesma piedade que não teve com as meninas que estuprou e com a que matou. A faca ficou em brasa. Segurei o cabo com uma luva de amianto para cozinheiros e encostei no mamilo direito do advogado. Ele urrou de dor. Encostei no esquerdo e ele gritou. Com a lâmina, fiz um corte na barriga do filho da puta, abaixo do umbigo. Corte pequeno, mas profundo. Joguei álcool em cima.

- Presta atenção. Eu vou embora agora. Se você conseguir enfiar o próprio pau dentro do corte na barriga, você fica livre. Se não conseguir, eu corto seu pau fora. Volto de noite. Tchau.

Ele ficou em silêncio. Chutei-o nas costelas.

- Tchau! - Eu disse novamente. Ele continuou em silêncio. - Tchau, porra! Larga de ser mal-educado.

- Tchau. - Disse baixinho.

Sai da cozinha e fui para a sala. Bati a porta da entrada para ele pensar que deixei o apartamento. Fiquei espionando-o por uma fresta na porta. Ele ficou parado por uns minutos, olhando o corte na barriga. Tinha uns três centímetros e ficava entre o pau e o umbigo. O sangue já tinha parado. Ele tentou se levantar. Tropeçou algumas vezes e conseguiu. Olhou para o telefone e foi pulando até ele. Virou de costas para pegá-lo com as mãos algemadas. Deu de cara comigo. Eu sorria. Bati em sua cara com a mão aberta. Bati várias vezes, até ele se abaixar e tentar se proteger com as costas. Peguei a faca e espetei em seu cu. Ele gritou. Acertei-lhe um soco na fuça para desmaiá-lo.

Deitei o advogado no chão, aumentei o corte na sua barriga. Ajeitei seu pintinho sobre o corte e esparramei superbonder. Virei-o de barriga para o chão. Seu cu sangrava. Quebrei um pedaço de um cabo de vassoura e enterrei no rabo do sacana. Depois molhei o cu sangrento com superbonder. Ele ficou com uma película de cola. Arrastei o verme para a poltrona no quarto de televisão. Era de couro, assento único, reclinável. Uma delícia. Coloquei um cobertor sobre o advogado. Ele iria relaxar. Trouxe da cozinha uma garrafa de coca e chocolate. Acordei o adormecido.

- Beba e coma, irmão.

Ele me olhou no rosto e levantou a boca. Botei um pedaço do chocolate em sua boca. Um gole de coca. Alguns pedaços e goles depois e ele ingeriu uma pet de dois litros e uma barra de quatrocentos gramas. As dores dos ferimentos voltaram. A sensação de relaxamento acabou. Ele gemeu. Trouxe o laxante e o mandei beber a garrafinha inteira. Ele negou com os olhos. Acertei a coxa esquerda com um tiro. Não houve barulho, o silenciador funcionava. Ele bebeu o líquido.

Sentei na cadeira em sua frente e esperei. Imaginei o que o fez beber o laxante. Ele já está todo machucado, sente que o preparei para um grande sofrimento e ainda assim bebe o laxante. Medo imediato, só pode ser. Se ele conseguisse pensar, provavelmente não beberia o líquido e aceitaria um tiro na cabeça sem arrependimento.

O advogado gemia de dor. Eu o olhava incessantemente. Ele sabia que um gemido mais alto seria acompanhado de um tiro com silenciador. Vinte minutos depois começou a se contorcer. Gemeu. Respirava fundo. Não agüentou e falou comigo.

- Por favor. Porque você tá fazendo isso?

- A menina que você matou deve ter te perguntado a mesma coisa. Qual a resposta que você deu?

Ele não respondeu. Torci o rosto, olhando-o incisivamente. Eu queria uma resposta.

- Eu disse que tudo ficaria bem.

- Tudo ficará bem.

Vi que compreendeu minha frase. O entendimento transformou-se em horror. Gritou. alto, forte. Pediu socorro. Disse que tava sendo seqüestrado. Chamou alguém, devia ser o vizinho ou o porteiro. Gritou novamente.

Eu não me mexi. Fiquei olhando para ele e sorrindo. Ele não percebeu que, no acesso de medo, se descontrolou e acabou por urinar e defecar. Como as vias estavam interrompidas, a cena foi nojenta.

A urina saiu pelo pênis e invadiu sua região abdominal. Entupiu a barriga. Ela estufou. O mijo começou a sair por alguns pontos do corte onde não havia cola suficiente. Vi um fino filete de merda escorrendo pelo sofá. Sua bunda também não estava totalmente vedada pelo superboner. Imaginei o que não deveria ter acontecido em suas entranhas intestinais. Provavelmente a merda se juntou à urina dentro de sua própria barriga.

Levantei e fui até ele.

- Calma, calma, me escute. Deixe-me lhe mostrar uma coisa.

Peguei minha carteira. Puxei minha identidade.

- Veja meu nome. Leia.

- Li.

- Repita-o em voz alta.

Ele repetiu.

- Decore todos os dados da minha identidade. Volto em minutos.

Deixei a identidade em seu colo. Ele percebeu que tinha mijado e cagado. Olhou para os ferimentos imundos e descontrolou-se novamente. Dei-lhe um cascudo.

- Decore todos os dados da minha identidade.

Ele abaixou a cabeça para ler minha identidade. Sai do quarto para buscar as coisas que precisava. Voltei em minutos.

- Decorou?

- Decorei.

- Repita tudo.

Ele realmente havia decorado minha identidade.

- Você sabe quem sou eu.

Ele me olhou atentou.

- Tudo ficará bem.

Mais uma vez horrorizado, o advogado encheu os pulmões para gritar. Quando abriu a boca, agarrei suas bochechas com uma mão, mantendo-a aberta. Meti um alicate lá dentro e puxei a língua. Com meu canivete, decepei-a com um corte. Ele tentava gritar mas se engasgava com o próprio sangue. Fui para o encosto da cadeira e o segurei pela testa, prendendo sua cabeça. Furei os dois olhos. Ele bufava e emitia sons guturais.

Tirei a algema e as adriças. Ele passou as mãos no rosto. Depois tentou descolar o pau de dentro de si mesmo. Sentiu dor e parou. Ficou em pé, de braços abertos, cego, mudo, desesperado. Derrubei-o com uma banda. Ele caiu. Pisei na sua mão direita. Senti alguns ossos quebrarem. Com a outra mão ele tentou tirar meu pé de cima da mão quebrada. Pisei na outra mão. Mais alguns ossos. Segurei em seu pulso esquerdo e conferi os dedos. Dois não estavam quebrados. Terminei o trabalho, um por um. ele tentou me empurrar com a outra mão quebrada, mas a dor o impediu. Quando segurei seu outro pulso, ele desmaiou. Quebrei os outros três dedos que estavam inteiros.

Sai do quarto. Procurei em suas roupas um celular. Liguei para 193, o número dos bombeiros.

- Preste atenção. Tem um homem morrendo aqui. Ele precisa de ajuda urgente. Anote o endereço. - Em menos de cinco minutos os bombeiros bateriam na porta.

Liguei para o jornal Correio Braziliense, que noticiou o caso do advogado.

- Preste atenção. Tem um advogado rico aqui que está sendo assassinado por um travesti. Anote o endereço. - Eles chegariam mais rápido que os bombeiros.

Liguei para 190.

- Atenção, matei um cara. Rastreiem esta ligação. Joguei o celular no sofá da sala e desci do prédio. Fui a pé para meu apartamento.

Logo escutei uma sirene. Bombeiros. Outra sirene. Polícia. Desci de bermudas e boné. Juntei-me à multidão que se aglomerava. Brasileiro adora ver tragédia. Os bombeiros desceram com o advogado numa maca, já previamente socorrido. Ele se mexia e parecia tentar falar alguma coisa. Provavelmente queria contar meu nome, o nome dos meus pais, o número da minha identidade e meu CPF, mas não conseguia. Ele estava estraçalhado. Quando foi colocado na ambulância quase pude sentir sua ansiedade para tentar ser entendido.

- Coitado desse rapaz. - Eu disse. - Tudo ficará bem! - Gritei sobre os ombros dos curiosos.

Ele ouviu minha voz. Tentou se levantar mas as dores o impediram. Fecharam a porta da ambulância, ligaram a sirene e o levaram a um hospital público.

Ele estava com uma infecção gigantesca, causada pelos próprios excrementos. Morreria em alguns dias, sofrendo dores terríveis. Ficaria angustiado por não conseguir se comunicar e delatar-me.

Morreria de ódio antes de morrer de verdade.

fin

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