O BANCO

Sexta-feira à tarde. A temperatura está alta e o sol brilha intenso. Não há vento. Nem ao menos uma brisa. O funcionário da empresa alegra-se quando uma colega passa apressada ao seu lado, fazendo o ar movimentar-se. Um alívio imediato e passageiro. Da sua mesa olha pela janela e calcula a hora. Mais ou menos 3:30 PM. Vê o sol e sua angulação relativa ao horizonte, abaixa o rosto e mede mentalmente o tamanho da sombra do poste. Sim, agora são 3:32 PM. Continua com o punho segurando o rosto e o cotovelo na mesa, neste marasmo que marca sua estada de doze anos nesta empresa. Nota o aumento de um milímetro no comprimento da sombra. 3:33 PM. Ai, que tédio. De súbito, levanta da cadeira apoiando as duas mãos abertas sobre a mesa. Meu Deus, o Banco!

Nesta quente cidade, os bancos fecham rigidamente às 4:00 PM. Os empregados mais humildes, que são os porteiros ou ascessoristas, deveriam ser os mais compreensivos. Eles porém não descontam nem os segundos. Batem a porta na cara do cliente e se regozijam. Esses pretensos e risíveis Juízes dos Direitos dos Homens quando questionados sobre o motivo de tão bizarras atitudes, tais como fechar as portas corrediças de um banco quase que beliscando o umbigo de uma grávida de oito meses ou esperar o cliente correr ate a porta para só então fecha-la, apelam para a covardia de repetir que são ordens superiores. Ora, qual instruído gerente cometeria pecado semelhante? Quem, cristão ou pagão, não esconderia o atraso de alguns minutos para resolver o problema de uma velha senhora cambaleante ou mesmo de um contínuo atolado de recibos? Pois é, estes seres inconvenientes apelidados Pequenas Autoridades são capazes de qualquer coisa para mostrar poder. Pobres coitados!

O funcionário procura em seus documentos pessoais espalhados sobre a mesa o carnê de pagamento da casa. Acha. Segura-o em suas mãos, lembrando o dia em que o assinou. Era um contrato vantajoso, onde o financiamento de compra da casa própria tinha juros baixos e ampla data de parcelamento. O grande porém era o fato de, caso não efetuasse um único pagamento no dia do vencimento, perderia a casa e todo o dinheiro já pago anteriormente e sem direito a reclamação. Ele deveria ter lido as letras pequenas mas havia esquecido os óculos. Maldito esquecimento! Duplamente maldito, pois hoje é o último dia de pagamento da última parcela do último carnê. Ele foi deixando para depois e agora está desesperado.

O desesperado nota que a secretária do chefe levanta para pegar o bule de café. 3:35 PM. Ele perdeu dois necessários minutos parado e pensando no passado. Agora é o presente e o futuro todo depende de ele chegar ao banco nos próximos vinte e cinco minutos. Ele precisa fugir da sala sem ser percebido pelo patrão, que é um chato e certamente não compreenderia a gravidade da situação. Instantaneamente arquiteta um plano. Agilmente disca no teclado do telefone o número da mesa do chefe. Enquanto espera que ele atenda, com o fone no ouvido preso pelo ombro, arruma dentro de um envelope pardo os recibos do carnê que serão exigidos no banco. O chefe atende. Ele afina a voz e diz ser a secretária do Presidente Executivo da empresa. O chefe pigarreia. Ele, ainda com a voz fina, pede que o chefe aguarde na linha que o Presidente tem um aviso para transmitir. O chefe concorda. O ator de necessidade, antes de colocar o fone na mesa, ainda dá uns assobios e umas batidas no bocal para parecer que a linha está congestionada. O chefe abaixa a cabeça e com a outra mão tampa o ouvido livre, para poder escutar melhor. O funciionário se levanta despretenciosamente, com o envelope segurado atrás do corpo. Caminha até a porta e no meio do percurso, vira de costas e continua andando de ré. Ele imaginou até a possibilidade de o chefe perguntar aonde iria, mesmo ocupado esperando o Presidente da companhia. Neste caso ele se safaria dizendo que não está indo e sim voltando, retornando então para sua mesa. Como nada de imprevisto aconteceu, ele se vê do lado de fora da sala. Liberdade.

José, que é o nome do sôfrego funcionário, desce correndo as escadas. A rapidez é tanta que ele passa do térreo e chega ao subsolo. Irritado, ele volta um lance de escadas e ganha a rua. Olha para a praça e encontra a conhecida dupla de velhinhos jogando dama. O velho mais velho cospe de lado, como que para avisar ao amigo que é sua vez de jogar. 3:42 PM. Ele anda em círculos para decidir em que banco vai. Tem um a dois quarteirões para a direita e um quarteirão para baixo, mas este está sempre cheio. Existe o banco que fica a três quarteirões para cima, porém ele é muito pequeno e há a possibilidade do pagamento não poder ser efetuado ali. Tem uma agência a um quarteirão para a esquerda e dois para cima, mas lá os caixas são muito incopetentes e demorados. O outro velho, o mais novo, tira uma meleca e joga nos pombos avisando ao colega que completou sua jogada. 3:43 PM. Ele perdeu mais um minuto nesta indecisão. Resolve ir à agência bancária que fica um quarteirão abaixo e dois para a esquerda, passando pela avenida. Passa os olhos em volta para ver se vai correndo, se pega um táxi, se toma um ônibus ou se pede carona. O primeiro velho emite um característico ruído com a garganta. José sabe que ele está para cuspir novamente e decide ir correndo, pois já são quase 3:44 PM.

Na maratona até a primeira esquina vai tudo bem, sendo exatamente ali que acontece um problema. No momento em que ele vai virar à esquerda com um perfeito traçado tangencial na curva, uma senhora vem em sentido contrário e escondida pela parede da esquina. A trombada é inevitável. Rolando pelo chão, José pensa ter ouvido um barulho de pneus freiando no asfalto quando tentou parar sem atropelar a velha. Ele levanta-se em um pulo. A senhora fica deitada com cara de morta. Ao chegar perto da velha ele percebe que ela ainda por cima levava uma sacola de supermercado com umas mil latas. Tem lata por todo lado. José pega a vitimada senhora pelos ombros e a levanta com uma puxada, encostando-a na parede para que não volte a cair. Rapidamente recolhe as latas mais distantes e vem chutando as que estão mais perto em direção aos pés da velha. Pede desculpas simulando tirar um chapéu e sai correndo. A senil senhora, atordoada, grita para José avisando que ainda tem uma lata na calçada exatamente por onde ele esta indo. Ele vê a derradeira lata e sem perder o ritmo e irritado aplica um tremendo chute na mesma, que infelizmente vai de encontro com o vidro frontal de um carro que, inconvenientemente, esta estacionado em frente à vidraça de uma padaria. Sorte do padeiro, azar do motorista, pensa José.

Ele levanta o rosto suado ao escutar um barulho de avião. Um sete dois sete da Varig sobrevoa a cidade preparando-se para pousar no aeroporto. 3:50 PM. A adrenalina produzida pelo medo faz doer seu coração. Começa a mancar e a bufar. Passa a mão pelas sobrancelhas tirando o suor e acelera a marcha. Ele chega à segunda esquina são e salvo, de onde é possível avistar o banco situado no final da calçada, na outra esquina. Sente-se revigorado, respira aliviado. Levanta a cabeça e corre fazendo pose, como se estivesse na praia do filme Carruagens de Fogo. Canta a música mentalmente e balança os braços para a frente do corpo. Corre mais devagar e fica observando as duas mãos se alternando em frente a sua barriga. Tem alguma coisa errada. Desfaz o sorriso que estava no rosto e continua olhando as mãos fechadas, vazias...É isso! Ele perdeu o envelope quando atropelou a velha. Alucinado, faz a volta e corre desengonçado para o local do acidente. Com os braços abertos não se preocupa mais em desviar das pessoas. Grita pedindo caminho. A cada duas palavras uma é palavrão, dado o estado de nervos de José. A uns vinte e cinco metros da desgraçada esquina, ele vê a confusão causada pelo tombo da velha e pelo vidro do carro quebrado, mas não se dá conta. A senhora, chorando e cercada por populares, conversa com um policial explicando o ocorrido. O dono do carro, que era novo em folha, está raivosamente berrando que isto é um absurdo, que é preciso tomar uma providência contra este tipo de terrorismo. Assim que vai chegando perto do centro do tumulto, José empurra as pessoas para conseguir espaço conquistando a antipatia dos curiosos. Aparece na frente da senhora, entre ela e o guarda, e pega de suas mãos o envelope que ela encontrou e segurava rente ao peito, como um escudo. Sem querer, empurra a velha e o guarda para trás ao pegar impulso na corrida, no mesmo movimento de uma braçada dentro d'água. A senhora cai sentada. O policial pega o apito e o revólver e vai correndo no encalço de José, apitando e ameaçando atirar se ele não parar.

Correndo de volta ao banco, José passa novamente pela segunda esquina. No meio da rua ele estanca e olha para trás, querendo saber o que é o barulho que ele escuta desde que resgatou o envelope. Um monte de gente corre seguindo um policial que grita e apita. José decide aumentar a sua velocidade para não ser alcançado pela multidão, para que eles não atrapalhem a sua missão. Um borrão branco cai do céu ao seu lado e ele nota que é uma cáca de pombo. Procura com os olhos a proveniência do bolinho e vê que é a mesma pomba que pousa no torre direita da Igreja Matriz todo dia às 3:59 PM. Ele sabe que pela velocidade de voo de uma pomba e pelo local onde ela agora está, vai demorar ainda um minuto para chegar à Igreja, então são exatamente 3:58 PM. O banco está perto e ele sente vontade de chorar, sabendo que vai conseguir entrar em tempo. Sua vida está salva.

Com um último passo, ele pára de correr e começa a andar tranqüilamente. Está na frente do banco, a poucos passos da porta que já tem um guarda para fechá-la. Olha o vidro da fachada com o logotipo bancário e o toca, sentindo estourar no peito um sentimento de vitória. Inesperadamente surge na sua frente um rapaz pobremente vestido, que sem nada a dizer segura seu braço e mostra um papel manuscrito. José tenta não dar atenção mas o rapaz conseguiu interromper o seu caminho. Ele tenta desviar mas o rapaz fica na frente, segurando o braço e balançando uma folha no rosto de José. O guarda do banco olha o relógio de pulso e coça o nariz. 3:59 PM. Todo guarda coça o nariz quando esta prestes a interromper a entrada dos incautos. Tentando se safar do rapaz, José tira uma moeda do bolso e a estende para ele, que recusa. José estão olha para o papel e lê algo como assinatura de revista para surdos-mudos. De soslaio, percebe que o guarda tira as travas da porta corrediça. Por sobre o ombro do guarda ele avista o terceiro caixa e a sua operante. Ela passa as duas mãos no cabelo e na seqüência com a direita segura o pescoço. 4:00 PM. Em pânico, José se projeta para a direção da porta. Tropeça. Cai nos trilhos que são a fronteira do banco com a rua. O tronco e a cabeça para dentro da agência e as pernas de fora. O segundo guarda aparece neste momento para encerrar a entrada de clientes. Começa a fechar as portas. Pergunta para José se ele vai ficar dentro ou fora, porque ali ele não pode. Ele diz que vai entrar. Quando ele se apoia nos joelhos para levantar sente a perna esquerda puxada para fora. Com uma mão, segura na barra da calça do primeiro guarda. A perna direita também é segura e puxada. José com a outra mão abraça a perna do segundo guarda. Começa assim um estranho cabo de guerra, onde José é a corda. Tendo as pernas puxadas e os braços segurando nos guardas do banco, o corpo de José é levantado do chão. Abaixando a cabeça ele vê entre suas pernas que uma delas esta sendo presa pelo policial que conversava com a velha e a outra pelo rapaz surdo-mudo, ganhando eles o apoio da tumultuada multidão gritante e pulante que ali está. José volta a atenção para dentro da agência bancária. Com um olhar suplicante invoca o auxílio dos guardas que estão servindo como âncora. Não entende o que o guarda donde ele segurou as calças está gritando, mas entende que não obterá dele ajuda, já que quase tirou inteiramente as vestes do envergonhado segurança. Sem nada entender e de novo com vontade de chorar, só que de tristeza, José começa a perder as forças. O empura-empura, a gritaria, o puxa-puxa, a multidão sem ordem, os guardas sem saber se continuam fechando ou abrem de vez a porta, o policial apitando, o surdo-mudo tentando falar, o dono do carro querendo providências, o envelope com o carnê no chão dentro do banco e toda espécie de confusão acontecendo. Ele olha para fora mais uma vez, por cima do ombro e vê a velha saindo não se sabe de onde e indo para o meio de suas pernas. Ela diz algo como deixa comigo que eu resolvo e de sopetão segura entre as pernas de José, apertando e puxando. José, assustado com a situação e com a dor, desmaia e é arrastado pelos pés para a rua.

Sentindo a consciência voltar, José nota estar deitado. Abre os olhos. Com aquela conhecida cena cinematográfica, ele vê rostos embaçados fitando-o em forma de círculo. Alguém grita que ele voltou a si e recomeça a confusão. Todos pedem explicações e reclamam ao mesmo tempo. Ele senta no sofá em que está, ainda sem nada dizer. Os ânimos crescem querendo esclarecimento. José sente os olhos encherem-se de lágrimas. Aos poucos, todos vão se calando e respeitando a dor transmitida por aquele que acusavam.

-Eu só queria pagar a prestação da minha casinha que vençe hoje, dia 5. Diz ele, com a voz entrecortada com soluços.

Todos se olham com uma expressão de incredulidade no rosto. O silêncio reina absoluto. Alguns suspiram, outros põem as mãos na testa. O surdo-mudo olha interrogativamente os outros, já que não ouviu nada. Teria sido José perdoado por seus semelhantes dado um motivo de pecado tão humilde? O policial, prestativo, sorri e esclarece:

-Dia 5 foi ontem.

E agora, José?

fin

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