Decisões

 

Acordei com um suave carinho no rosto.

- você fica lindo dormindo. – Disse minha esposa. – mesmo quando solta esses peidos de metralhadora que me assustam.

- fedeu? – Consegui resmungar.

- parecia um gambá em decomposição. – Ela sorriu e sumiu no banheiro.

“Então não era metralhadora”, pensei, “era uma bazuca”. E soltei outro: sprong. Sim, fedia, eu devia ter acreditado nela.

No trânsito, os donos de Brasília faziam suas barbeiragens prepotentes; achando-se mais importantes por estarem em seus caros automóveis de luxo, dirigiam desrespeitando os princípios sociais de gentileza e boa convivência. Um pedestre apareceu repentinamente na minha frente. Ele tentava atravessar a movimentada W3. Em microssegundos pensei nas duas possibilidades que me surgiam: dar uma guinada no volante para não atropelar o sujeito mas, assim, albarroar o carro ao lado ou simplesmente atropelar o apressadinho. Lembrei que não possuía seguro e que o carro atingido poderia também não ter, o que nos deixaria com o prejuízo da batida, ou pior, talvez recaísse somente para mim, pois eu seria o responsável pela mudança de faixa. Olhei o cara na minha frente, pensando que possivelmente ele fugiria para não ser responsabilizado pelo acidente. Apertei o freio ao máximo, colei as mãos na buzina e mirei o meio do carro para o atropelamento não quebrar os faróis. O baque seco me assustou; soltei uma bazuca que empestou o ambiente.

 - filho da puta! Quer morrer? – gritei enquanto saia do carro, tanto para me livrar do cheiro do peido quanto para imputar a culpa pelo acidente a quem verdadeiramente o provocou.

O pára-choque de plástico estava quebrado e o capô com alguns arranhões. Imediatamente analisei as roupas do sujeito e vi que ele não era muito provido financeiramente. O carro em que eu bateria parou logo à frente.

- hei, você tem seguro? – Gritei ao motorista, que balançou afirmativamente a cabeça mesmo sem entender minha pergunta. – putz, decisão errada.

Ficou acertado que eu não surraria o sujeito por ele ser incapaz de cobrir as despesas, em troca de ele fugir mancando rapidamente do local para a polícia não abrir boletim de ocorrência com vítima. Ruim para mim e péssimo para ele, pois pelo menos acertei-lhe um chute no traseiro antes de partir.

- bom dia, Leidiane. – Cumprimentei a secretária da repartição pública em que eu fingia trabalhar enquanto escrevia contos descompromissados como este.

Ela não respondeu. Passou o dia de cara fechada. No meio da tarde a chamei para conversar.

- algum problema? – Eu estava solícito.

- você é muito autoritário! – Ela cuspiu em brasa.

- eu?

- você me mandou fazer um monte de serviços! – Argumentou,.

- e...?

- você é um ignorante! – Sentenciou.

Meditei alguns segundos antes de responder. A moça havia caído de pára-quedas na seção, era novinha e quase bonita, não fossem as espinhas carnudas, vermelhas e inflamadas de pus em seu rosto. Ou o cabelo loiro platinado, as unhas carmim, o jeito de puta. Ela abriu as asas assim que me viu, bem galinha, certa de contabilizar mais uma vítima para sua boceta devoradora de chefes, mas preferi não usar meu pau como pilão de socar porra alheia. Sabia que ali só teria dor de cabeça.

- Ane, não aja como uma lady.

- o que? – Ela bufou.

- seu nome é uma conjectura da sua personalidade, certo? Leidiane ou lady Ane. – Fiz aspas com os dedos. – entenda: você não é uma lady, é só a presunçosa Ane. – Voltei-me ao computador. – Pode ir.

Ela saiu batendo os pés, emburrada como uma carranca. No outro dia pediria transferência e eu teria que explicar a meio-mundo de autoridades o motivo de expulsar a mais fácil refeição executiva da repartição.

Antes de sair, fechei as janelas e soltei uma tremenda bazuca.

- Leidiane, deixei uma coisa na minha sala para você.

Do corredor escutei o grito de nojo da moça quando descobriu o meu presente. Ri-me da esdrúxula vingança.

 - querida, cheguei. – Falei ao entrar em casa. Minha mulher sempre chegava mais tarde, mas eu adorava a entrada no estilo Dino da Silva Sauro.

- cheguei, querido. – Ela disse assim que abriu a porta.

- você só querendo inverter as coisas...! – Fingi reclamar e ela sorriu, embora não tivesse entendido a piada.

Jantamos, relaxamos, amamos e fomos dormir. Antes de me perder no sono soltei a última bazuca do dia, confiando que a colcha funcionasse como um filtro no gás e eliminasse o cheiro. Entretanto, talvez pela minha posição na cama, o treco saiu como uma espetacular metralhadora de incontáveis tiros e rajadas: ratatá pum pum. Minha mulher deu um pulo e eu também, espantado com seu susto.

- qual dos Irmãos Metralha é você? – Ela ironizou, a voz sonolenta e sorridente.

“Até minha bunda constantemente toma decisões”, pensei.

fin

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