Crucificado no carnaval Li no jornal que um jovem foi encontrado morto preso numa cerca de arame farpado na mesma posição que Cristo na cruz. A polícia não demorou para achar o corpo. Decidi escapulir da cidade durante o carnaval. Detesto samba. Mesmo adorando as bundas desnudas e oferecidas dessa época, escolhi recolher-me junto à natureza. Quando saia pela estrada sul, notei uma briga no meio do mato, ao lado de um carro parado. Não queria me meter, mas sei do que sou capaz e decidi salvar o alguém que estivesse em perigo. - Fique aqui no carro, mulher. - Disse à minha companhia. Peguei a pistola debaixo do meu banco e sai cortando o mato. Ouvi gritos. Um homem mandava outro entrar no porta-malas. Gritava também a um terceiro para que retirasse gasolina do tanque. Eles iriam queimar o prisioneiro. - Por favor, moço, pode levar o carro. Pode levar minha carteira. Eu não conto nada para ninguém. - Implorava o prisioneiro, um jovem de uns 21 anos. Cabelo bem aparado, roupas sóbrias, na camisa a inscrição "exército de Jesus". - Calaboca. Você vai morrer! - Virou-se ao comparsa. - Cadê a merda da gasolina? - Tô puxando, porra! - Ele sugava uma mangueira enfiada no tanque. Engoliu um grande gole e engasgou. - Entra logo nesse porta-mala. Anda! - O seqüestrador tinha um revólver 32 na mão. Empurrava sua ponta na barriga do prisioneiro. - Por favor, moço, eu sou crente. Não faço mal a ninguém. Não vou contar nada. - Claro que vai, filho da puta. Vocês, crentes, são mais safados que qualquer bandido. - Não, moço, não faça isso. - Se eu te deixar vivo, você vai me dedar. - Não, moço, não vou. - Calaboca! - O seqüestrador deu uma coronhada no crente. Ele se calou mas ainda não queria entrar no porta-malas. O outro bandido apareceu com um saco plástico cheio de gasolina. - Por favor, eu faço o que você quiser. Eu chupo seu pau! - Sai fora, viado. Vai morrer mesmo, ainda mais porque é viado. Crente e viado. - Deu uns tapas no crente. Não interrompi a luta pois esperava o melhor momento para meu ataque. - Se não entrar no porta-malas vai levar bala aqui mesmo. - Apontou a arma para o crente. Eu não conseguia ver se o outro bandido também estava armado. Tive que agir senão o crente morreria. Atirei em cheio no peito do bandido. Ele desmontou feito marionete sem os arames. O crente gritou de medo. O outro bandido me viu saindo do mato. - Se quer viver, fique parado. - Eu disse ao bandido. O crente pegou a arma do morto e a apontou para o outro bandido. - Larga essa merda. - Falei. - Você não sabe mexer com isso. - Eles iam me matar. - Larga logo isso. - Gritei. - Não. Eu vou matar esse cara! Se o crente atirasse seria assassinato pois o bandido já estava dominado. Matei o outro para salvar a vida do crente, num momento decisivo. - Solta essa arma! Você não pode fazer isso! - Gritei. O crente, com olhos alucinados, apontou a arma para mim. Empurrei o revólver e levantei a ponta. O tiro foi para cima. O cano queimou minha mão. - Seu merda idiota... - O outro bandido puxou um revólver de baixo da camisa e me apontou. Fuzilei-o com um tiro na testa. O 32 soltou-se da minha mão e o crente olhou o novo morto. - Você matou os dois. - Disse-me. - Larga essa arma, cara. Você não tá bem. - Você matou os dois. - Repetiu. - Você cometeu um pecado. - Foi para te salvar. Larga a arma! - Você cometeu um pecado. Você vai pro inferno! Nem argumentei mais ao ver a loucura em seus olhos. O crente apontou novamente a arma para mim. Eu podia desarmá-lo num instante, mas resolvi dar a ele a mesma chance que ele próprio deu ao segundo bandido. Acertei o tiro em seu coração. Busquei meu carro na estrada. Recolhi as armas e os corpos dos bandidos. Eu os desovaria em algum lugar distante dali. Peguei o corpo do crente e conferi meu disparo. A bala o havia atravessado. Sem preocupações com balística. Arrumei tudo ao redor e fui embora. - Por que você colocou o crente de braços abertos e pernas juntas na cerca de arame farpado? - Quis saber minha companhia. - Para ficar igual a Cristo na cruz. - Ela me olhou inquisitiva. - Ele era crente, não era? Deve ter gostado. Quem sabe assim não tem alguma redenção lá onde estiver. |
fin |
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