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Crise de Vireida II O encontro do BDE em São Paulo
Consegui desconto na passagem aérea e desembarquei em São Paulo com dois objetivos: conhecer os membros do Bar do Escritor, uma comunidade da interNerd, e participar da platéia de um programa na TV Cultura sobre literatura. Eu tinha cento e cinqüenta pilas no bolso, dois baseados na cueca e a nenhuma idéia do que aconteceria nos dias seguintes. Achei um orelhão funcionando nesses dias de celulares e disquei para o poeta Henriqueson A. Era minha única referência. - a Minie já está te procurando. – Ele falava da Mad, uma verborrágica construtora de loucuras. A reconheci imediatamente entre dezenas de humanos normais no desembarque do aeroporto.. - vamos para um bar. – Ela anunciou assim que entramos no carro de A. Cumprimentamo-nos sem timidez, afinal, fazia quase três anos que conversávamos na rede. Eu criara o BDE no Orkut e um monte de malucos gostou do lugar. Agora os conhecia em cores e cheiros. O boteco era bem paulista, todo decorado. Logo apareceu a Mary Jane, iluminando o lugar com seus olhos claros. Bebemos menos que desejava. - vambora. – Decidiu A, num instante de silêncio da tagarelice de Minie. Ela conversava assuntos desconectados, sem chance para resposta do interlocutor. Era divertido ouvi-la falar, embora não entendesse quase nada. - vou dormir para estar bem no programa. – A voz sensual de MJ era um convite à imaginação. Pensei nos conceitos de “dormir” e “programa”. Decidimos abrilhantar a noite. - dá dois papelotes. – Pediu A pela janela do carro ao soldado da boca de tráfico. Partiu quase cantando os pneus. - é que ele ta sendo perseguido pelos gambés. – Explicou Minie Mad. – é nóia demais, até apareceu numa investigação da Rede Globo comprando pó. Entrávamos e saíamos de ruas e avenidas. Fiquei bem perdido. Resolvi potencializar minha perturbação. - que tal um bagulhinho? - opa! – Sorriu A e me passou o isqueiro. A maconha era da minha produção particular. Eu plantava em latas de tinta à margem do lago Paranoá, para pegar bastante sol, além de utilizar a água do próprio lago. Em poucos meses as flores estavam maduras. Bastava, então, mandar para o cérebro para confundir todas as certezas dos dogmas preconceituosos que absorvíamos. Minha única preocupação era com as formigas, seres malévolos viciados em devorar ervas medicinais. A polícia nunca desconfiou. - cuidado. – Alertou A. – se vir alguma viatura, esconda a parada. - calma. – falei. - o carro dele apareceu na Globo. – Repetiu Minie, após uma longa tragada. – dão baculejo toda hora. Olhei para A. - tá sendo perseguido, hein? - isso me nóia. – E caiu na gargalhada. Minie o acompanhou. Ambos desataram a rir como se a referência à cocaína em comparação a preocupação com a polícia fosse a coisa mais engraçada. - o que houve? - sei lá. – E riu. Minie concordou com ele. – eu também não. – E debulhou-se em risadas descontroladas. Recebi de volta o baseado. Sim, era boa a erva. As risadas tinham origem. - e o pó? – Conseguiu perguntar A. - vamos lá em casa. – Falou Minie. - mas, sua mãe? - não, minha mãe não vai cheirar conosco! – Afirmou, séria, para logo perceber que o amigo preocupava-se com a mãe, não a convidaria. – ah, entendi. – Mais gargalhadas. A janela do apertado quarto de Minie tinha como paisagem um cemitério. Percebi quais eram as vozes que ela dizia escutar para escrever os loucos poemas que gostava. Abrimos o papelote e esticamos o pó sobre uma capa de CD. Minie se virou e derrubou tudo. Os olhos avermelhados de maconha de A injetaram-se de raiva. Ele parecia desejar enterrar uma nova inquilina no terreno vizinho. Cheiramos o que resgatamos do pó. A leseira foi gradativamente substituída pela excitação. Minie falava alguma coisa quando trombou em alguns móveis e abriu a porta para se despedir. - mas, querida, sua mãe está lá na sala. – A senhora não criaria objeções sobre nossa saída, pois nem se incomodou pela filha levar dois marmanjos fedendo a marijuana para o quarto às duas da matina, mas eu preferia evitar qualquer constrangimento. - não, minha mãe não cheira. – Fechou a porta e sentou-se na cama. – vamos cheirar? - de novo? – Perguntei. - é muita nóia... – Resmungou A. – Minie, presta atenção: a gente já cheirou. Agora nos leve até a porta da casa. - tá. – Ela se levantou e fez como ordenada. - doidinha, né? – Brincou A no percurso para sua casa. Eu já bocejava. Estava acostumado a beber até dormir e quando encostava o copo ficava com sono. Pensava no descanso para o longo dia seguinte. Henriqueson abriu a porta da sua casa e vi dezenas de brinquedos infantis dominando a sala. - cuidado com o gato. Segui cuidadosamente pé-ante-pé buscando o chão entre as tralhas. Um miado desesperado me alertou: eu havia pisado no gato. - tudo bem, ainda tá vivo. – Falou A após levá-lo embora. Fiquei pesaroso pelo bichano, mas, oras, por que ele não saiu de baixo do meu pé? Vesti um short pronto para encarar o sofá. - sabe o que tenho aqui? – Henriqueson olhava apreensivo para a escada, temendo que a esposa aparecesse de sopetão. – o outro papelote. Meu descanso foi para o beleléu. Gastamos o resto da noite tagarelando discussões filosóficas regadas a doses de referências culturais. Acordei antes das sete da matina com os miados do gato. Eu devia ter pisado com mais força. A meia-hora que dormi foi suficiente para clarear a cabeça. Imediatamente senti vontade de estourar uma latinha de cerveja. - sempre que viajo tenho vontade de beber durante todo o tempo. – Comentei com A enquanto descíamos as ruas para pegar o ônibus. – mesmo quando estou em serviço. – Eram apenas nove e meia da manhã. - tô bem vestido para o programa? – Ele perguntou no ponto de ônibus. Duvidei que voltasse para casa para trocar a bermuda com chinelo nordestino que usou durante todo o tempo - sei lá. Tem boteco aberto de manhã? - - claro. Que horas vamos detonar o outro baseado? – Lembrou A, entre uma baldeação e uma caminhada pelas opressivas ruas da maior cidade do país. Eu observava a cidade como um explorador num safári, enquanto A entediava-se ao esperar os ônibus. Gostei principalmente das praças tomadas por moradores de rua em suas organizações anárquicas. - quando quiser. Encontramos o teatro Franco Zampari na Avenida Tiradentes. A entrada ficava em frente a uma bela praça, vizinha a um batalhão da polícia militar. Tive arrepios involuntários, soldados e policiais me assustam, ambos seguem ordens e leis à risca, mesmo que sejam incorretas ou estúpidas. Não são livres para pensar. Policiais militares, então, são ainda mais terríveis, assumem a personalidade dos donos da verdade parcial que acreditam. Vi um judeu ortodoxo, de terno preto com camisa social branca, igual um humilde coveiro, o tal chapéu ridículo cobrindo as trancinhas que desciam no lugar das costeletas. Ri interiormente, mostravam-se caricaturas da religião preconceituosa que professavam, afinal, queriam distinguir-se das pessoas que consideram fariseus até na forma de vestir. Encontramos outros membros do BDE num boteco logo na esquina. Washington G, Taiti, Pedrinho, Tom, a própria Mad. Bebemos, finalmente, umas cervejas. O papo rolou solto, já nos conhecíamos embora nunca tivéssemos nos visto. - a Mad quer ir agora. – Cochichou A. - agora? Antes do programa? – Deveríamos entrar em 30 minutos no teatro. - sim. - onde? – O único problema da maconha são os resquícios muito perceptíveis, capazes de denunciar o usuário. - não sei. - que tal dando uma volta no quarteirão? – Perguntei. – em Brasília a gente fuma andando para todo lado. - tenho medo. – Falou Mad. – posso ser mandada novamente para o hospício. - hospício? – perguntei. - sim, já fui internada nove vezes. - nove? - pois é. Por isso não posso beber nem usar drogas. - mas você tava biritando uma cervejinha e agora vai fumar unzinho!– inquiri, divertido. - e ontem? - ah, mas não faz mal. - o que faz mal – Poetou A. – é a ansiedade insatisfeita. Risquei o fósforo e incendiei a ponta do baseado, a poucos passos do bar, andando para o lado oposto ao do batalhão. – poisé, então vou satisfazer minha ansiedade. – E rimos. Andamos umas esquinas, trocando de mãos o beck, ao mesmo tempo em que travávamos a fumaça no pulmão para potencializar a doideira na cabeça. Um judeuzinho loiro viu a movimentação e quase tropeçou no vazio de tão assustado. Logo parou em um ponto de ônibus e nos observou de longe. - esse merda vai nos delatar. – Falou A. - quê isso? – Traguei a fumaça azul que lambeu meu rosto. O sol de meio dia ardeu em meus olhos avermelhados. – que paranóia é essa? - aqui tem muito filho da puta. – Falou Mad. – principalmente esses imbecis radicais. – apontou outro grupo de ortodoxos que descia a rua. O bairro estava repleto deles e de suas lojas de bugigangas. Era uma espécie de colônia judia. - vambora, então. – Aprisionei a última tragada e a soltei na fuça do loirinho quando passamos pelo ponto. No bar, dei uma mijada, sorri com todos os dentes, enchi meu copo e suspirei aliviado por conseguir voltar ao estado dormente que tanto gostava. A realidade vista através de olhos vermelhos é mais calma e objetiva. Tudo que importa é a satisfação das necessidades momentâneas que, normalmente, resumem-se a algo para beber, uma boa refeição de petisco como larica e algumas risadas proporcionadas por boas companhias. Eu tinha tudo ali naquele momento. Olhei em volta e vi o Bar do Escritor materializado fora do mundo virtual. Estávamos bebendo em uma grande mesa, conversando despretensiosamente sobre literatura, poesias, contos, livros e todas as outras bobagens que atraem pessoas como nós, escritores amalucados que acreditam ter algo importante para registrar. - é hora do show. – Alguém avisou. Pagamos a conta e saímos em revoada para o teatro. Detive-me para conferir se A e Mad estavam conosco ou se teriam despencado em risadas em algum lugar. Uma sirene surgiu do nada, logo dois camburões da PM bloquearam as pistas que chegavam ao bar. Os soldados saíram dos carros apontando as armas para os clientes, perguntando-os sobre os maconheiros safados que foram visto por ali. Nem detive o passo para me afastar. Atrás de mim vinha A com o semblante mais inocente. - falei que o judeuzinho era um filho da puta. Reunimo-nos no teatro para a foto oficial do nosso encontro. 22 membros. Eu estava louco de vontade de continuar a bebedeira, as conversas, a noitada. Paulicéia, a produtora, nos acomodou e deu as instruções. O apresentador falou sobre as regras. Fizeram uns closes, pediram para rirmos e ficarmos sérios. Disseram claramente como devíamos nos comportar. Quando começou o programa, meu tédio que já era grande ficou insuportável. Gastei o tempo conversando com Francisco. Seu bigode parecia uma lagarta pendurada pelos buracos do nariz, isso me divertia. - que programa chato! – Proclamou Washington G, um professor de letras que já era avó embora tivesse a minha idade, 36 anos apenas. Estava acompanhado da quinta esposa, uma moreninha toda gabriela. - shhh. – Fez Ema Tevez. – a produtora ta aqui perto. - foi chato mesmo. – Repetiu Washington. – é por coisas assim que a literatura é desprezada. Se deixassem-nos quebrar o pau nas discussões como fazemos no Orkut, teria sido um sucesso. Embora ele estivesse coberto de razão, minha única preocupação era molhar a garganta. Saímos em passeata para o Bar Bhrama, que ficava na “esquina que cruza a Ipiranga e a Avenida São João”. Disseram que era bem caro, mas valeria pela contextualização. Descemos a Tiradentes e passamos pelo Parque da Luz, limpo e arrumado, com alguns mendigos camuflados em tocas nas árvores, bem escondidos da prefeitura. Atravessamos a histórica Estação da Luz. Nosso grupo era composto por vários tipos, desde uma poetisa-agitadora de 17 anos até um homem sexagenário eternamente rebelde, todos com vestimentas e comportamentos próprios. Embora andássemos juntos, éramos claramente diferentes. Essa variedade, afinal, estimulava nossa união pela literatura. Assim como os peladeiros se tornam amigos, pois nem todos os homens gostam de futebol, os escritores acabam unindo-se em grupos pois nem todas as pessoas gostam das letras. Andamos até a Ipiranga. As carroças de Churrasco Grego aromatizavam o ar. Pensei em almoçar um sanduíche com lascas de carne. Caminhava ao lado das garotas Ema Tevez, com suas roupas esvoaçantes de bailarina dos versos; Rivanda, sempre com o doce sorriso juvenil nos lábios e Mary Jane, que estava sensualmente rouca depois de um dia de tagarelice. Elas discordavam sobre quase tudo que conversavam, mas quando olhei faminto para as barracas, quase instintivamente aquiesceram com a mesma coisa: asco à comida de rua. Era como se a teoria que as mulheres são amigas apenas para tornar infelizes os homens se materializasse ao meu lado. Resignei-me da larica e continuamos andando até o bar. Era realmente bacana o lugar, amplo e bem decorado. O chope custava 6 pratas e o rango mais barato era um sanduíche por 18. Um ou dois copos não acabariam com minha grana. Sentamos e conversamos e bebemos. Apareceram novos membros. O DJ Bambam, um fotógrafo-produtor-escritor e o Barbosa, um simpático jovem senhor de 72 anos. Enquanto eu o cumprimentava, senti uma presença nervosa ao meu lado. Era Kuka, uma simpática loira que despencou do sul para o programa, assim como eu fiz do centro-oeste. - tá tudo bem? – Ela parecia chorar. - eu tô esperando para falar com o Barbosa. – Soluçou. - vá lá.- Como um cão que tem a coleira aberta, ela disparou no pescoço do velho homem, o beijou no rosto e despencou em lágrimas. Barbosa a abraçou com carinho e dúvida no rosto. Ficaram assim uns dez minutos, enquanto chopes eram abastecidos na mesa. Peguei o meu terceiro. - agora eu vou embora. – Disse Kuka, ao afastar-se. - espera, o que houve? - nada. Apenas já fiz o que me propus. - o que? Conhecer o Barbosa? Ela não respondeu, contudo assentiu ao abaixar os olhos. Em poucos minutos se despediu e sumiu no entardecer. Nos dias seguintes, vendo as fotos, me surpreendi com a semelhança entre a Kuka e o Barbosa. Pelo que eu soube, eles se conheceram naquele momento no bar e não eram parentes. A reação da Kuka, contudo, me fez pensar se ela não sentiu alguma coisa “além da imaginação”. Ou pode ter agido apenas como uma tiete dos poemas amorosos do Barbosa. Puxei meu quarto chope da bandeja do garçon. Era divertido chamá-los apertando o sinalizador na mesa. Eu siriricava o botão todo o tempo só por diversão. Sentei-me ao lado do Nicholsón e do New Japan e quando percebi já estava no sexto copo. Eram umas seis da tarde. - a gente não vai prum boteco mais barato para beber até cair? - viemos para cá a pedido da Lizbeti. – Explicou Nicholsón, com sua cara de ator de holiúde. – mas ela não vai mais poder vir. - então vamos nessa? - perai. – pediu New Japan. – garçom, traga mais um blood mary. - eu quero um fresh prince of bell air. – Pediu Esse, um sensível poeta que mais parecia um lutador de judô com barbicha de bode. – adoro esses drinques diferentes. Vi, então, que as pessoas estavam confortáveis e provavelmente não iriam partir para uma aventura etílica nas regiões mais pé-sujo da cidade. - então me dá um desses sanduíches ai, meu chapa. – Finalmente resolvi gastar meu pobre dinheiro naquele bar elitizado. Sempre tive para mim que um bom bar é aquele com cerveja barata e petiscos gostosos, nunca achei que a decoração das paredes pudesse melhorar o ambiente. Enquanto esperava a primeira alimentação do dia, reparei nos olhares que me alcançavam. Alguns eram bastante desejosos. Deixei que imaginassem possibilidades, não evitei os flertes. Me sentia satisfeito por ser cobiçado. Henriqueson havia me contado que os membros do bar estavam relacionando-se amorosamente. Eu não queria entrar nesse bolo, pois nunca soube manter segredos. Logo cometeria algum erro que iria me valer o casamento. O sanduíche chegou e era grande, excessivamente temperado e gorduroso. Ou foi isso que senti na primeira mordida. Ele bateu no estômago avisando que seu lugar não era ali. Tentei empurrar mais uns nacos, porém estava enjoado com a falta de comida e, também, pela pouca bebida. Estávamos no bar desde o fim da tarde e eu havia virado poucos copos. A abstinência me deixava fraco. - Vou ligar para o Henriqueson! – Levantei-me, abandonando a refeição, em busca de um orelhão. Liguei e avisei que tão logo o pessoal debandasse, eu daria um jeito de chegar ao Taboão da Serra, o bairro onde ele morava. Meu desconforto aumentou com o tempo. Eu estava faminto, mas o cardápio do bar me embrulhava o estômago. Queria beber, mas o preço do chope me enojava a carteira. Tentei conversar, mas o cansaço me entediava. Recolhi-me na mesa esperando algo acontecer. - vamos embora? – Sugeriu alguém. Eu quase soltei uma bufada de alívio. Os intermináveis minutos de espera pelo pagamento das contas, somados à mixórdia sobre rotas e caronas entre tantas pessoas que voltavam aos seus lares, mostrou que São Paulo não é um confortável para seu moradores. Embora existam dezenas de meios de transporte, é preciso conhecê-las intimamente para gastar o menor tempo no trajeto. Despedimo-nos das pessoas e seguimos para o metrô. Mad continuava falando com a mesma empolgação daquela manhã. Bambam mostrava-se bem atraído por Rivanda, que parecia meio deslocada. Não me surpreendi quando não quis bater o rangão de fim-de-noite numa padaria-lanchonete no percurso entre o metrô e o carro de Bambam. Eu até tentei empurrar uma pizza, mas o brilho da gordura da mussarela travou de vez meu apetite. Bambam pilotava com destreza, a centímetros dos outros carros. Mais uma vez fiquei perdido. Estava incomodado, não via o céu, os prédios pareciam unir-se no alto, perto do infinito, impedindo minha visão do sol, da lua e das estrelas. As contruções aprisionavam as pessoas como grades gigantescas. Sem poder me localizar através dos pontos cardeais, me sentia amedrontado. Não sabia onde estava nem de onde viera. Podia andar em círculos ou indefinidamente para algum ponto obscuro da cidade que não faria diferença. Estava desnorteado como um tatu bola num shoping center. Queria voltar para um buraco e descansar calmamente. Sempre fui uma pessoa do mato, especialmente do cerrado, com longas planícies de baixas árvores retorcidas, entrecortadas por vales pedregosos de cachoeiras suaves. A natureza me acalma, a civilização me atordoa. - acho que vou botar dez pilas de gás no seu carro. - Estávamos abastecendo depois de rodar um bom tempo. Havíamos despachado a Rivanda, com juras românticas do motorista, e a Mad, que falou que iria escrever um poema. Só então notei a distância que havíamos percorrido de manhã, mas como era tudo novidade para mim - não, precisa, mas já que você insite... Eu não insistia, mesmo assim estiquei uma nota de vinte. Ele a botou no bolso e pagou o frentista com cartão. Acho que nem viu o valor, ou se viu, fingiu-se de cego. No ponto de encontro, fui arrastado para o carro do Henriqueson. Nem lembro direito o que aconteceu, as pálpebras se fechavam. Eram umas duas da madrugada. Entramos em casa: os mesmos brinquedos no chão, o mesmo sofá. Ele me pareceu muito mais aconchegante do que na noite anterior. - como foi no bar? – Henriqueson ajeitou-se na rede que cortava a sala, tirou o chinelo, coçou o dedão e aguardou pacientemente minha resposta. Percebi que ele podia estar simplesmente sem sono ou possivelmente pilhado. - foi legal... - qual das garotas estava lá? – A rapidez do questionamento me esclareceu, ele estava animado. Iríamos novamente conversar a noite toda. Preparei-me para a empreitada, mas logo o mirava hora com o olho esquerdo, hora com o direito, para não fechar os dois juntamente e dormir. Alternando, tinha ao menos a impressão que mantinha uma parte do cérebro em funcionamento. Lembro que várias vezes quis comentar alguma coisa na conversa, mas a informação estava perdida em alguma parte da memória. Agi com um zumbi que mantém um resquício de pensamento coerente, queria apenas não dormir e participar ao máximo do diálogo, para isso até segurei as pálpebras. No momento achei normal, me lembrei que a última vez que conversei até confundir a pessoa com quem papeava foi com o Juliano Querias, também do Bar do Escritor. Naquela ocasião eu havia bebido uma piscina e fumado um sítio. Desta vez iria dormir faminto e com a garganta seca. - miau. – Fez o gato. Lembrei que deveria tê-lo pisado com mais força na noite anterior. Ou foi ante-ontem? As lembranças vieram lentamente. Reconheci onde estava pelos brinquedos no chão. - vá se banhar. – Disse meu hospedeiro. A expressão nortista combinava com os chinelos que já usava. As poucas horas que havíamos dormido foram compensadas quando tomei o delicioso pão com manteiga e café de desjejum. A simplicidade sempre me foi mais atraente que qualquer refinamento. Deixava-me à vontade. Ademais, estava com o estômago deserto. No aeroporto, despedi-me de Henriqueson afetivamente. Ele havia sido muito simpático, além de ser um cara do meu estilo de amigos. Não tinha frescuras nem preconceitos, gostava de se divertir e topava todas. O embarque, o vôo e o desembarque em Brasília foram automáticos. Minha mulher me esperava. - como foi? – Perguntou, no carro, assim que me passou o baseado que levara como boas-vindas. - crise de vireida. – Respondi. - vireida? – Ela riu, imaginava que eu cairia na esbórnia e voltaria um trapo. - Bebeu todas e agora “vireidavesso”, né? - pelo contrário. – Risquei o fósforo e o acendi. – quase não bebi nada e por isso voltei ao avesso do avesso. – Prendi a fumaça. – essa vireida é pior ainda, pois to acabado por não feito nada.
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fin |
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