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Criança imprestável
O tapa ressoou de longe. O moleque encolheu a cabeça enquanto o pai preparava a segunda porrada. - criança imprestável. – E pá, outro bofete. – tá sentindo isso? Nesses dias em que a violência contra a criança atingiu a classe média e, finalmente, acordou a imprensa, os pais agressivos escondiam suas maldades em público. Aquele, contudo, esbravejava e espancava o filho às vistas sem preocupação. - calma ai, amigo. - Pedi. – o que aconteceu? - não te interessa! – Berrou o pai. – O filho é meu, quem cuida dele sou eu! Ele apertou o punho contra o braço do moleque enquanto me respondia. O guri fez uma careta de dor, mas não soltou um pio. Sabia que o pai descontaria nele, mais tarde, a raiva contra o intruso. - desculpa. – Virei-me e sai andando. Só que segui os dois. E os investiguei. Nunca gostei de me intrometer, mas me decepcionei sempre que deixei tais atrocidades sob responsabilidade da “ordem e progresso” do país. Na verdade, já cheguei a contestar a validade da nossa espécie no ciclo da vida. Somos nós, humanos, os imprestáveis. Nós, que agredimos o próximo por conta das próprias ansiedades egoístas. O pai, que era um bosta, descontava no filho. Eu também seria um bosta se não interviesse para equilibrar a balança da vida. Não gostava, mas se eu não fizesse minha parte para melhorar a vida das pessoas, o mal venceria. O problema dessa época não é a quantidade de filho-da-puta que anda por ai, mas a pouca atitude das boas pessoas. Estes, coniventes, acabam participando do lado negro. Eu, não. Preferia questionar as fúteis leis do Estado que permitir a violação da estrutura natural. Jalles, o pai, era um ignorante. Pior: considerava-se um importante profissional, um homem de Deus. Nem ao menos compreendia os preconceitos que fomentava com seus discursos racistas e suas ações medievais. Era casado com uma mosca-morta que cagava de medo de ser abandonada, uma burra dona-de-casa. O filho, coitado, tinha olhos de um rato covarde, estava latente seu pavor das pessoas, dos adultos. Tudo o que conhecia do mundo eram as intempéries do pai e a inação da mãe. Um órfão com pais vivos. Armei o plano e preparei o bote. Peguei uma apólice de seguro de vida com um amigo corretor, vesti terno e gravata e fui ao trabalho de Jalles numa repartição pública. - boa tarde. – Sorri com todos os dentes. – por favor, o senhor Jalles? - aquilo ali. – A secretária o apontou com o nariz, mostrando seu desprezo pelo colega. - quié? – bufou o homem. Vi que não me reconheceu, era a fantasia de homem sério que eu usava. Me apresentei com o nome do corretor. Expliquei que a nossa empresa havia feito um sorteio e ele havia sido contemplado com o melhor seguro. - como conseguiram meu nome? – O sujeito era desconfiado, mas eu estava preparado. Estava sempre preparado, era esse o motivo do meu sucesso como matador de canalhas. - no BRB. – Os servidores públicos recebiam os salários pelo Banco de Brasília, que era conhecido por sua desorganização. - não vou pagar nada! – Anunciou. - e nem precisa. Nossa empresa arcará com todas as despesas. – Expliquei, então, como ele deveria preencher os formulários da proposta, que documentos apresentar e como proceder durante os exames de saúde obrigatórios. Tudo sem erros técnicos que impossibilitassem a contratação do seguro. - mas não vou pagar nada mesmo? - nada! Levei os papéis ao corretor, juntamente com o primeiro pagamento, em dinheiro, que saiu do meu bolso. - fiz uma venda para você. – Ele ficou tão satisfeito em cumprir a meta do mês que me passaria a comissão, correspondente ao pagamento das três primeiras parcelas. Eu já esperava. Jalles fez os exames e foi considerado apto para se assegurado. Claro, vaso ruim é duro de quebrar. Nos dois meses seguintes, paguei as faturas retirando os boletos de pagamento na Internet. Ao mesmo tempo, rondei a casa da vítima anotando horários e rotinas. De tanto perambular pela região, acabei por travar contatos com sua mulher. Uns leves cumprimentos de início, quando ela saia para o mercado ou cabeleireiro, depois uns flertes no boteco em que ela comprava cigarros. Em poucas semanas já conversávamos amistosamente. Meu plano original era seduzi-la e incitá-la na busca de outro relacionamento mais saudável, era uma morena magra e alta, quase bonita, daquelas que só perdem o encanto quando a maquiagem escorre pelo ralo durante o banho e o cabelo retorna às origens africanas. Era tão simplória, contudo, que nem vislumbrava qualquer possibilidade para si longe do marido. Resolvi agir apenas como amigo. - e se você ganhasse um bom dinheiro? – Inquiri. - eu o entregaria para o Jalles tomar conta. - mas, e se ele não estivesse mais por perto? Ela me olhou com ignorância no semblante. O que eu queria com aquele papo? Claro que eu pretendia fazê-la pensar, simplesmente isso. Plantava a semente da dúvida, instigando-a a questionar seu status quo, mostrando opções que jamais atentou. Era essa minha principal vontade quando cumpria aquilo que me propunha, afinal, de nada adiantaria me livrar dos canalhas se as pessoas não vissem alternativas depois de cumprido o feito. Era a paródia sobre dar o peixe ou ensinar a pescar. Eu preferia matar o peixe e ajudar no fogo. Tomara que tenha alcançado a mesma finalidade. Durante os meses em que executei a tocaia, vi outras agressões ao filho. A mãe até se intrometia, mas sempre sofria um chega-prá-la. O garoto apanhava até por conta do mau humor do pai, que atribuía a ele o estado de espírito. Tudo era motivo para cascudos, uma tara repulsiva e doente. Pouco importava a Jalles os sentimentos do menino, se saciava da vingança contra aquilo que imaginava tornar sua vida mais infeliz arrebentando-lhe as fuças. Via-se que o garoto já havia perdido a inocência, era acabrunhado e sofrido. Eu me questionava sobre a validade do que eu iria fazer: será mesmo que expurgar o canalha traria uma vida melhor ao garoto? E, pior, será que eu tinha o direito de me meter? Eu poderia estar fazendo um julgamento parcial, talvez eu não conhecesse todos os fatos. Talvez, até, eu estivesse agindo como os xerifes norte-americanos, impondo a outros países meus próprios conceitos. Não queria que fosse assim. Resolvi não sujar as mãos. O sangue daquele canalha não seria meu, porém, ajudaria a equilibrar os lados. Não agiria como a população brasileira em relação aos corruptos. Marquei na folhinha o sábado de aleluia. O folclore dos católicos teria sua serventia. No dia 22 de março, Jalles implicou com o filho pela última vez e foi para o culto. No caminho do templo evangélico havia um boteco onde ele virava umas vodcas, para não ficar com bafo de álcool, antes de encarar as orações. Eu o interceptei logo ao entrar no bar, sabia que ficaria sem jeito, quase descoberto em pecado. - quer uma carona? – perguntei, sorrindo. Eu estava num Gol branco alugado. - é.... tá bom. – Ele relutou por instantes. Deveria ter lembrado do conselho paterno: não aceite presentes de estranhos. - vamos para o templo? Ele assentiu. Estava amuado. Nem questionou minha fortuita presença, afinal, de nada desconfiava. - que tal lubrificar a garganta? – Estiquei uma garrafinha. – para orar melhor. Seus olhos brilharam. Era bom ver que ficava feliz, eu acertara a isca. Ele bebericou, notou que era vodca e sorveu um farto gole. - bom. – Resmungou. Ele estava calmo, confiava em mim. Corretores de Seguro têm este efeito sobre as pessoas, assim como médicos e advogados. Curiosamente, todos lucram com a infelicidade do cliente, a velha falsidade humana. - acha mesmo? – Sorri. – não percebeu o sabor do anestésico? Você já deve estar meio tonto. Talvez nem escute o final desta ....
Levei o desmaiado para um motel de Taguatinga. Enrolei todo seu corpo em serragem e jornais e amarrei com sacos plásticos e fita crepe. O vesti com uma roupa espalhafatosa de brechó. Nas mãos, luvas de estopa. Na cabeça, um saco de pano com uma peruca costurada sobre o rosto pintado com batom. Jalles estava indumentado como um perfeito boneco da malhação ao Judas. Averigüei as humildes ruas da Ceilândia. Pessoas brincavam de surrar os bonecos do traidor de Cristo por todos os cantos. Minha preocupação estava em atrair uma pequena multidão para detonar o meu boneco. Tudo deveria ser rápido para que não descobrissem o recheio. Eu iria desovar os restos do corpo em algum cemitério informal, para os meganhas o descobrirem e concluírem que foi latrocínio. Prendi uma corda na cintura de Jalles e no pára-choque, depois o coloquei sobre o teto do carro e dei voltas lentamente pelas ruas. Logo era seguido pela multidão que necessitava. As pessoas estavam armadas de pedras e paus. Diminui a velocidade para ser alcançado pelos sedentos foliões. - arrebenta este Judas! – Gritou o sujeito que o puxou do teto. O espancamento ficou animado pois não parei o carro, continuei andando em baixa velocidade, o boneco sendo arrastado pelo asfalto enquanto sofria pauladas, pedradas, chutes, socos e muitos xingamentos. A consistência firme do boneco os incentivou, aquele não arrebentava como os outros. As pancadas tornaram-se mais violentas. Até mesmo um vaso ruim teria se quebrado. - tá sentindo isso, Jalles? – Resmunguei. O canalha deveria estar morto àquela altura. Buzinei, pedindo espaço aos pedestres, e parti. Pelo retrovisor, acompanhei a corda retesando e puxando o boneco num salto. Rodei por quilômetros, atravessei quebras-molas e atalhos de cascalho, sempre atento ao cadáver disfarçado preso no pára-choque. Quando me distanciei da multidão, puxei o boneco para o porta-malas. Dispensei-o sem roupa num capão à margem da BR 070, depois de Águas Lindas de Goiás. Li no Correio Braziliense a descoberta do corpo. A polícia concluiu exatamente o que eu esperava, o plano foi um sucesso. Liguei para a viúva e expliquei como ela deveria requerer o seguro de vida. - o melhor é que o prêmio será pago em dobro, pois seu marido foi assassinado! - que bom! – Ela chegou a dizer. – quero dizer...ah... bem... - entendi. – Tranqüilizei-a. – Como está seu filho? - ele ainda não sabe. – Ela demorou a retomar a frase, provavelmente buscava o garoto com os olhos pela janela de casa. – está brincando lá fora, aproveitando que o pai ainda não chegou e o obrigou a buscar cerveja no bar. – Sua voz estava firme, a surpresa pela morte do marido não foi tão traumática, o dinheiro do seguro parecia tranqüilizá-la. – o moleque só servia para isso. - como? - o Jalles bem que tentava corrigir essa criança imprestável, mas nunca bateu o suficiente. Engoli seco. Eu havia tirado o garoto da frigideira e jogado ao fogo. - calma ai, amiga. – Organizei os pensamentos o mais rápido que pude. A mãe esclareceu a suspeita de que se quisesse, se realmente tentasse, conseguiria impedir os espancamentos. Agira minimamente para se eximir de culpa. Aceitara as agressões pois as corroborava. Era como a mãe que faz vista grossa aos estupros à filha, uma inação monstruosa, principalmente pela parentesco entre os entes. - Agora que está rica, cuide bem do menino! - Proferi a sentença com a voz grave, quase uma ordem.- Aliás, você também precisa se cuidar. Já tem Seguro de Vida? |
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fin |
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