| Cabeção
Nunca tinha fumado maconha até os vinte e seis anos. Um dia provou e ficou doidão! Adorou a experiência. Começou a fumar em todas as festas, passou a fumar todo final de semana. Queimava um na segunda para curar a ressaca e na sexta pois era prévia de sábado. Logo detonava todos os dias. O dia inteiro. Um dia esbravejou: essa merda não faz mais minha cabeça! O rapaz estava puto! "Eu nem fumo tanto assim" pensava. Seu organismo estava absorvendo muito rápido o THC da marijuana e agora nem conseguia mais ficar alucinado, apenas lerdo. Um dia resolveu tirar a prova; será que não consigo mesmo ficar doidão? Chamou dois amigos maconheiros e subiram no mirante de uma chapada perto de suas cidades. "Veremos quem é o maior cabeção!". Começaram a fumar no pôr-do-sol. O rapaz dichavou sua parada, derramou sobre um Smoking - um papel de fumar - e enrolou. Lambeu para fechar, comeu o resto do papel na ponta e acendeu o isqueiro. Incendiou a ponta do beck, tragou, puxou. O amigo do lado também apertava um baseado. O terceiro ainda estava dichavando a maconha. Foi assim durante boa parte da noite. Quando perceberam, a lua estava alta. Era cheia e iluminava o céu com um branco claro. A luz acalmava a escuridão. Os amigos conversavam enquanto apertavam e fumavam. O rapaz levantou-se e falou: "Não dá! Não consigo mais ficar doidão." Os outros disseram que estavam sim, doidões. "Muito doidões, yeah". O rapaz disse que os outros eram "muito cabecinhas". "O que é cabecinha?" perguntou um dos amigos emaconhados. "É quem não agüenta fumar muita mariajoana" respondeu o outro, que estava mais normal. O amigo emaconhado perguntou: "Mas a gente fumou mais de trinta baseados" , juntou um dedo de cada mão no peito. "Do tamanho de um cubano!" "Esse cara é que é um cabeção" encerrou o mais normal. O rapaz resolveu voltar para o povoado na chapada para encher a cara. Tentou entrar no carro mas sentiu dor de cabeça ao se abaixar para sentar no banco. Resolveu beber algumas num bar ao pé do mirante. Desceu a encosta íngreme perdendo o equilíbrio. Achou que era por causa da difícil estrada. Avistou o bar. Sorriu de felicidade. Parou ao pé do portal e olhou o interior. Típico bar de beira de estrada. Gritou, da porta, pedindo uma cerveja. A mulher do balcão gritou! Todos olharam para ela e seguiram seus olhos até o rapaz na porta. Alguns também gritaram, todos se levantaram. "O que é isso" gritou um. "Socorro" disse outro. Várias pessoas saíram correndo do bar. Um homem correu para o caixa e pegou uma garrucha carregada. Apontou para o rapaz e cuspiu fogo. Voou chumbo, prego, porca, arruela e até umas pedrinhas de vidro. O rapaz tentou correr para dentro do bar mas seu cabeção gigantesco bateu no umbral. Olhou-se pelo espelho do balcão de bebidas e viu seu pequeno corpo - porém com o tamanho normal - embaixo de uma cabeça gigantesca, do tamanho de um sofá de um lugar. Seu rosto porém continuava do tamanho original. Assustado, tentou gritar. O chumbo acertou bem no meio do seu cabeção, acima da orelha. O rapaz trombou na porta e caiu dentro do bar. Do buraco do tamanho de uma laranja em sua cabeçorra saia fumaça. Com cheiro de maconha. Os homens no bar, assustados com o ocorrido, resolveram, em rápida conferência, levá-lo para o meio do mato e largá-lo por lá, para que os abutres fiquem doidos comendo aquela carne infectada. Botaram o cabeção numa caminhonete. Andaram alguns minutos e largaram o corpo. No outro dia, quando toda a fumaça já havia saído pelo buraco em sua cabeça, o rapaz acordou. Apalpou a cabeça e viu que estava do tamanho normal. Incomodou-se apenas com um pequeno machucado sobre a orelha. Quando voltou para casa, contou aos amigos que iria realmente parar de fumar maconha. Disse que depois do dia no mirante anda escutando um leve tilintar de metal dentro de sua cabeça.
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fin |
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