A ira de Davi

Olho para o Eric. Vejo que vamos encarar. Viro para o primeiro da minha frente e abraço seu pescoço. Com a mão direito dou dois socos na fuça do cara. Largo o corpo desmaiado. Bato em jab na fuça de um magrelo na minha frente, ele levanta a guarda e eu bato na barriga. Ele abaixa a guarda e acerto-lhe um cruzado no queixo. Capota. O terceiro me olha e sai correndo. Viro pro Eric. Ele derrubou dois e tá montado no segundo esbofeteando o mané.

- Pára com isso, o cara já tá desmaiado! – Peço.

Ele ainda bate mais umas cinco vezes.

- Eu tô batendo só pra deixar marca. Nem machuca muito.

- Tecnologia aplicada. Gostei de ver. – Admito.

Eric deixa o cara desmaiado no chão. Procuro ao redor as pessoas que estavam conosco. Alguns começam a aparecer por trás de carros e árvores. Todos fugiram. Éramos mais de vinte locais para lutar contra cinco babacas da quadra doze, porém todos fugiram. Ficamos apenas eu e Eric, até porque sabíamos que poderíamos contra os adversários. Éramos atletas, fazíamos lutas e outros esportes. Todos faziam, mas nossos outros amigos não eram muito confiáveis. Assim, mantínhamo-nos incólumes protegidos por nossa parceria. Sabíamos lutar em dupla.

- Um cara fugiu. – Anunciou o Moacyr, saindo detrás dum poste.

- Deixa. – Eu disse. – Os outros também tão levantando. Cai fora. – Gritei para o magrelo, que acordava.

- Cadê o Davi? – Perguntou o magrelo, confuso, não encontrando o amigo entre os desmaiados ao redor.

- Davi? Deve ser o que fugiu. Ele fugiu, xará. Agora cai fora. – Gritei mais enfaticamente.

O magrelo pôs-se a levantar os amigos e logo se foram. Um dos que o Eric derrubou fez ameaças, jurando vingança. Levou uma pedrada na cabeça. Bom atirador era o Eric. Sempre competíamos em latas e postes para saber quem era o melhor. Acertei outra pedrada nas costas do cara.

- Nas costas? Tu é muito ruim! – Troçou de mim o Eric. – Acertasse na bunda, ao menos.

- Pô, o cara já tava correndo depois da sua pedrada. Na cabeça! Hahaha. Tentei acertar a bunda, mas o cara tava longe. Qual foi o tamanho da pedra?

- Não muito grande, senão não dá mira. Do tamanho de uma siriguela.

- Ainda bem, senão machuca muito. Do tamanho da minha.

- Tu sempre protegendo os adversários. Tá virando viado, é?

Nem respondi. Ele já sabia o que eu achava. Não precisava machucar muito. Apenas mostrar a superioridade na luta. Pronto! Quantas vezes já não corri de briga pois sabia que ia apanhar? Alguma vergonha? Nenhuma. Vergonha tem o cara que apanha por não medir o adversário ou por não saber do que é capaz. Eu só entrava numa luta sabendo que teria chances de vencer. Ali não era um jogo de futebol, onde o prazer de jogar já bastava, não importando a derrota. Eu não gostava de apanhar. Não gostava nem um pouco, mesmo que isso ocorresse com alguma freqüência. Mas também nada muito sério. Sempre consegui proteger o nariz que sangrava com facilidade.

- Não precisa machucar... - Digo e volto-me atrás duma menina que conheci na festa, reticente em explicar novamente meu ponto de vista.

Duas horas depois ainda tentava passar a lábia na menina. Ela tava com quinze anos mas nunca tinha namorado. Já tinha ficado com uns garotos mas sempre na escola ou parentes das amigas. Nunca tinha ficado com um cara que ela conheceu numa festa.

- Boa oportunidade para descobrir como é.

- Boa? - Fez beicinho, Marina, mostrando-se desconsolada pela pouca importância do momento.

- Ótima, na verdade. Esplendorosa, majestosa, maravi... - A boquinha cheirosa e doce de Marina tocou meus lábios, sentindo minha boca. Eu beijo muito bem. Estudei a fundo o assunto. Deixo-a investir inicialmente, para sacar como ela gosta. Vejo que ela é suave. Hora da ação. Encosto meus lábios parados nos dela. Respiro em sua boca. Beijo seu lábio inferior deixando sua boca úmida. Encosto meu rosto em frente ao dela e deixo nossas línguas se tocarem levemente durante o tempo que quiserem. Não sei quanto tempo leva. O mundo gira. Não há som. Só o cheiro de Marina e sua boca suave.

Paro de sopetão e puxo o rosto. Olho para Marina e a vejo linda, de olhos fechados, respirando suavemente, ainda beijando minha boca ausente. Ela nota minha falta e abre os olhos assustada. Adoro isso, quando a menina perde totalmente a noção das coisas num beijo e acorda sendo espionada. Sente-se violada pelo próprio cara que beijava, mas gosta da sensação. Logo, penso, trataremos de novas violações.

Moacyr veio avisar-me que ele e a turma iriam embora. Vi que Eric estava enroscado com outra menina. Era sempre assim. Sempre éramos os últimos.

- Pode ir, cara. A gente vai mais tarde.

Botaram o pé no mundo. Caminhada de uns sete quilômetros até em casa. Vida de subúrbio.

Logo o pai da minha menina aparece em seu carro. Despedimo-nos discretamente após toda aquela pegação. A menina do Eric foi embora com a minha. Elas eram amigas. Cumprimentamo-nos, pois namorar duplas de amigas sempre era bom. Normalmente um ficava com a namorada do outro após a separação dos casais originais, daqui a umas quatro semanas, pois os namoros duravam no máximo três semanas.

Despeço-me dos últimos conhecidos e vou embora. Meia noite e quinze. Meus pais só se preocupam se eu chegar depois das duas da manhã, afinal já tenho dezessete anos. O mais velho da turma e conseqüentemente o que pode chegar mais tarde. Vem a calhar pois sou o que mora mais distante e como somos muito novos ainda, ninguém tem carro. Andamos horas pelas ruas do bairro atrás das festas que encontramos de ouvido. Basta uma vitrola mais alta para penetrarmos nas casas em busca de bebidas e meninas. Vida de subúrbio.

Voltamos naquela pasmaceira. Caminhando, com as mãos nos bolsos, comentando sobre as namoradas. Eu sempre literário e Eric sempre bruto.

- Rubem, tu sempre nessa lengalenga. Conversa com a menina, compreende a menina, depois larga a menina. Daí a menina fica semanas te ligando, enviando cartas, enchendo o saco. Pára com isso. - Ele não entendia o relacionamento.

- Cara, entre de cabeça. Ame a menina. Faça-a amá-lo. Mas deixe claro que não será eterno esse amor. Depois saia fora. Diga que é um amor impossível. Eu sempre digo que amar é subir numa árvore. Quanto mais se sobe, maior o amor, contudo, é maior a queda quando o relacionamento acaba, pois todo relacionamento acaba. - Sentencio, indubitável.

- Tu é um otário de bico, rabo e pena. Pra quê tanta enrolação se você quer só se dar bem?

- Pra que ela sempre se lembre de mim. - Sonho alto.

- Pra quê? Pra quê? - Grita, divertido. Pula, até, Eric, para sacanear minhas manias.

Ouço gente correndo e procuro ao redor. A três ruas de distância vêm o cara que jurou vingança, o Davi e outro cara. Correm ao nosso encontro. Notei que o outro cara era maior que eu, coisa difícil pois eu já tenho um metro e oitenta. Olho para o Eric. Ele não se move. Também fico parado.

- Vai lá, Davi. - Gritou o Davi. Ou melhor, o cara que achei que fosse o Davi. O fujão não era o Davi. Davi era o grandão. Não sei o nome do fujão.

Davi veio correndo para cima do Eric, que fez a guarda. O tal Davi deu um murro no rosto e Eric. O murro foi estranho, começou como um cruzado mas terminou como um direto, mas com o pulso reto. Um soco reto. Eric desabou. Nunca o vi cair. O monstro virou-se para mim. Também fui cercado pelos outros. Armei a guarda e quando o Davi aproximou-se, acertei-lhe um jab. Ele não levantou a guarda. Tentou me acertar um cruzado mas consegui sair. Solto um jab. Entra. Faço a combinação: jab e direto. Acerto, mas ele também acerta minha mandíbula com um cruzado. Troco as pernas quase caindo. Ele me segura em pé e acerta umas três vezes no meu nariz. Tento levantar os braços mas levo um cruzado no ouvido. Outro soco na cara e caio.

Acordo tomando uns tapas. O Davi me levanta e o Fujão me acerta na barriga. Automaticamente chuto-lhe a canela. Quando ele vira pra baixo, acerto em seu olho. Davi vem novamente para cima de mim. Levanto os braços apenas para tomar muitas porradas em cada lateral do corpo. Depois um chute na barriga e outro soco forte.

Acordo, agora, com o Eric me sacudindo. Ele tem um profundo corte entre as sobrancelhas.

- Levanta, levanta, cara. Tu não tá morto, né? Tu é muito fraco! - Ainda desdenhava.-Umas porradinhas à toa e tu logo desmaia.

- Pô, o cara me cobriu de pancadas. - Eu limpava o rosto enquanto falava. Tudo estava doendo, principalmente as laterais do corpo e o nariz. Os olhos estavam se fechando. - Acho que vou embora pra casa. Logo não vou conseguir enxergar.

- Fica lá em casa senão tua mãe te prende por um ano.

- Velho, quando você viu os caras vindo pra cima da gente, o que pensou? Que dava pra encarar? - Pergunto, ainda espantado pelo rolo compressor que me atropelou.

- Não. Eu vi que você ficou parado então achei que você quisesse encarar os caras. O tal Davi é maior que você.

Fui para a casa de Eric. Estava com raiva. O tal Davi era de outro nível. Nos espancou sem esforço. Limpamos os ferimentos. Liguei para minha casa e avisei que dormiria na casa do Eric por uns dias, pois estávamos treinando para alguma coisa. Estávamos sempre em alguma competição, portanto não foi difícil ludibriar minha mãe.

Três dias depois da surra, ainda muito machucado, volto do colégio de ônibus e desço quatro pontos adiantado, para passar em frente à escola do bairro. Várias gatinhas de 14 a 16 anos. Conheço algumas. Converso um pouco. Resolvo ir embora. Pego um atalho entre duas ruas e saio em disparada. Prendo a mochila nas costas e corro até os pulmões explodirem. Vi que alguns caras da quadra doze estavam perambulando em volta da escola. Notei também que eles me reconheceram. Seria uma questão de tempo até o confronto. Como estava sozinho, sai voando em direção à casa do Eric, para enfrentarmos os adversários juntos. Não dá tempo. Eles estavam de bicicleta. Logo sou cercado.

Vejo o Fujão, o Magrelo, dois dos caras que derrubamos uns dias antes e o tal Davi. Ele parece estar mais forte ainda sem camisa. Busco fugir do cerco mas a briga começa. Acerto o olho do Fujão. Mas bato fraco, pois sei que vou apanhar e tenho esperança que não me trucidem. Nessa hora, resolvo dar uma de macho.

- Bando de filho da puta. Vem um de cada vez pra ver se não arrebento o cu de vocês. - Grito, cercado, tentando salvar a pele. - Vem você primeiro, Davi, seu viado fresco.

Os outros olham para ele em silêncio. Sinto que cometi um erro. Davi vem pro centro da roda e me derruba com o ombro. Ajoelha no meu peito e acerta meu olho. Finge que vai acertar novamente e pára no meio do murro. Olha-me nos olhos. Sorri. Bate. Brinca de me bater umas dez vezes. Já não enxergo bem por causa do sangue. Meus braços estão presos em seus joelhos. Se tento me soltar, ele bate com mais força. Fico parado. Ele me dá uns tapas. Diz que sou maricas. Cospe na minha cara. Levanta. Pisa no meu pescoço. Grita e ri, dizendo que sou um fraquela. Chuta mais algumas vezes minha barriga e minhas nádegas. Vai embora. Os outros ainda falam algumas coisas. Alguns me chutam, mas logo estou só. Em silêncio. Calmo.

Consigo me levantar. Pego o que sobrou da minha mochila, pois foi usada como bola pelos outros durante meu espancamento. Arrasto-me até a casa do Eric. A empregada da casa, Neide, o ajuda a limpar meus machucados. Não vai dar pra disfarçar dessa vez. Ligo para meus pais e peço para eles me levarem a um hospital.

Saio do hospital três dias depois. Dois dentes rachados, hematomas por todo o corpo e uma costela trincada. O mais ferido é o orgulho. Nunca conseguirei encarar o tal Davi. Ele é muito forte. Fico em casa por dias, até me recuperar perfeitamente. Em três semanas volto a malhar. Nesse tempo a fama do Davi começa a crescer. Ele espanca outros dois caras do meu bairro e mais uns três de outros lugares. Começa a ser respeitado.

Certo dia volto à escola do bairro para tentar encontrar uma menina. Surpreendentemente vejo meu irmão de papo com algumas garotas. Essa juventude cresce rápido.

- Você não tinha que estar em casa? - Pergunto.

- Você também. - Responde, zombeteiro, meu irmão. Detesto quando alguém faz pirraça de graça. Mas não falo nada. Digo para ele ter cuidado pois vi um dos caras que me espancaram andando pelas redondezas. Ele diz que sou muito preocupado.

Vou embora. Chego em casa no momento que minha mãe atende o telefone. Aos gritos, diz que está indo para a delegacia.

- O que aconteceu? - Pergunto, assustado.

- Bateram no seu irmão. Ele tá todo machucado. Os policiais o levaram pra delegacia. Vou lá para levá-lo ao hospital. Tudo culpa sua! Você e suas brigas.

Ela estava certa. Era culpa minha. Meu irmão foi espancado simplesmente porque era meu irmão. Como eu não conseguia enfrentar o tal Davi, ele e sua turma começaram a bater em todos os garotos da área que eram meus amigos. Ninguém conseguiria escapar.

Alguns dias depois foi a vez de Moacyr. Contou-me que estava na rua de uma menina quando os caras chegaram sem dizer nada e o espancaram. Disse que lhe bateram tanto que ele até peidou. Haviam lhe quebrado a perna e alguns dedos e ele estava preocupado por ter peidado na frente da menina. Tive medo. Na verdade, foi mais raiva do que medo.

Armei um plano na cabeça. Pensei em contar pro Eric para usar a sua ajuda, mas decidi não fazê-lo. O problema era meu e eu queria resolver da minha forma, afinal fui eu que iniciei toda aquela confusão, quando derrubei aqueles amigos do Fujão. Além do mais, eu sabia que o Eric ostentava um ar de poderoso mas que no fundo era um bom rapaz. Não teria coragem de fazer o que eu planejava.

Passei alguns dias me preparando. Segui, secretamente, a turma do Davi, e descobri suas casas e seus horários. Tracei a meta. Esperei a noite cair e iniciei a ação. Eu estava muito nervoso. Tomei uma dose de cachaça para relaxar e dar coragem.

Segui Davi e sua galera ao longe. Eles ficaram conversando numa rua por algum tempo. Depois foram até uma lanchonete. Lá arranjaram confusão com dois clientes. Na verdade quem arrumou a briga foi o Magrelo, porém foi o Davi quem a encerrou. Era assim que eles agiam: algum fracote da turma provocava um combate e passava a bola pro Davi. Esse, um monstro, destruía a tudo e todos. Prazer imbecil praticado por idiotas.

Depois da briga, metade da turma foi embora e uns poucos ficaram conversando até mais tarde. Já meio bêbado por causas das doses de coragem, ainda os espiono escondido num terreno baldio. Outro pula fora. Ficam apenas Davi e o Fujão. Ajeito na cabeça a toca, tipo motociclista e de lã, só deixando os olhos pra fora. Empunho uma arma, um revólver trinta e oito de cano curto. Saio do matagal. Os dois me avistam. O Fujão ainda comenta qualquer coisa. Logo percebe que a parada é séria.

-Se você quiser viver, vá embora! - Ordeno ao Fujão. Ele corre, coisa que sabe fazer bem.

Olho pro Davi. Sem dizer palavra bato com a ponta da arma em sua têmpora. O sangue jorra.

- Ajoelha, filho da puta. - Digo, calmamente.

Acerto um bico em sua coluna. Sei o quanto dói. Ele não solta um pio. Chuto novamente. Vejo-o suar. Chuto nas costelas. Sinto que quebrou. Ele bufa. O cara é realmente forte. Mesmo com uma arma na mão ainda estou com medo. Na verdade, estou apavorado, pois a arma é uma réplica. Muito bem feita, é verdade, de aço escovado, mas só atira umas bolinhas de plástico que nem conseguem furar um olho. Eu a peguei escondido de outro irmão.

- Prepara pra morrer. - Mantenho-me às costas de Davi. Ele não me vê. Nem se mexe. Não diz nada. Cada vez mais fico impressionado. O cara é macho. Encosto o cano da arma na ponta da cabeça de Davi. - Isso é por causa do cara que você pancou lá na península.

Uso a arma como um porrete na nuca do rapaz. Ele apaga em câmera lenta. Penso em mijar em cima, mas desisto pois minhas virtudes na luta ainda são mais fortes que o ódio. Vou embora, conferindo se ninguém me vê. Ando disfarçadamente pelas ruas durante duas quadras antes de tirar definitivamente a máscara. A arma já está no bolso.

Quando ele acordar deverá achar que alguém lá da península onde moro mandou matá-lo por causa de alguma surra que tomou. Ele vai ficar com medo e nunca mais irá encher nosso saco. Ponto final, pensei.

No outro dia, na entrada do colégio, uma instituição pública, vejo, ainda com sono, alguns caras correndo. Presto atenção para ver se reconheço alguém e encontro um dos caras da turma do Davi. Fico apreensivo. Eles começam a cobrir um garoto de pancadas. Ele cai. Corro para tentar ajudá-lo, mas poucos me seguem. Não conseguirei livrá-lo de tantos adversários e acabarei apanhando também. Paro. Nem grito mais, pois todos estão calados. Falo com alguns conhecidos: - Vamos lá! - Só ouço nãos como resposta. Ou viram-me as costas. Assisto os caras acabarem de trucidar o garoto. Quando eles vão embora, ajudo-o a se levantar. Ele está bem machucado.

O Magrelo me vê. Percebo-o, ao longe, chamando os amigos de volta para me pegar.

- É melhor você sair da reta, velho, pois eles tão voltando. Mas tão atrás de mim. - Falo rápido, solto a cabeça do garoto e saio na corrida. Corro até a esquina do colégio e olho para trás. Todos eles vão me seguir até me pegar. Vejo que têm fôlego. Prefiro guardar o meu pra luta. Cruzo a esquina e deito-me dentro da cerca de ciprestes, rente à calçada. Estou bem à vista, mas não para quem passa correndo pela esquina. Vejo cinco deles passarem correndo no máximo para me alcançar. Devem imaginar que voltei para dentro do colégio. Não enxergo o Magrelo entre eles. Deve ter ficado. Cruzo de volta a esquina. O Magrelo está tentando dar mais uns chutes no garoto ao chão. Esse se defende como consegue, ainda acertando uns bons contra-golpes. Aproximo-me por trás e esqueço qualquer regra sobre lutas. Dou uma voadora nas costas do Magrelo. Ele sai tropeçando e quando desaba, já estou em cima. Acerto quatro ou cinco cruzados consecutivos. Ele nem teve tempo de respirar. Melhor assim.

Volto para casa de ônibus. No caminho converso com alguns caras que me contam que suas escolas foram invadidas por maníacos da quadra doze. Pegavam alguém que estavam procurando, espancavam-no e depois iam embora. De tarde, na casa do Eric, fico sabendo das brigas que aconteceram em sua escola. Na entrada teve dois combates, no recreio mais três, que inclusive atrasou a quarta aula, e no final foi briga pra todo lado. Eric nem se meteu, segundo ele próprio. Apenas para ajudar um amigo e outra hora para impedir uma covardia. Ah, e na hora que mexeram com ele, é claro. Eu sabia que ele iria brigar sempre que não tivesse ninguém para impedi-lo. Esse era meu papel.

Avisei todos que conhecia para tomarem cuidado, pois havia um maluco solto no pedaço. Pensei no que podia ter acontecido de errado. Porque o Davi não ficou amedrontado?

Os dias vão passando e ando apreensivo. Escuto as histórias das constantes brigas promovidas pela galera da quadra doze. Sempre atrás de alguém. Cada combate assustador. Ossos quebrados, olhos furados, derrames cerebrais. As lutas saíram do controle. Não há mais a honra em mostrar a superioridade. Fico com medo. Olho sempre para os lados. Não uso caminhos que possam me emboscar. Estou sempre acompanhado. Contudo, ninguém vêm atrás de mim. Imaginei que o Davi estivesse perseguindo seus adversários da península, depois de todas aquelas investidas nas escolas e atrás dos caras.

Penso novamente em contar para o Eric o que fiz, mas tenho medo de colocá-lo numa fria. Se ele souber, tentará me ajudar e poderá se dar mal. É melhor ficar calado.

Encontro a galera do Davi em diversos lugares e ninguém tenta puxar briga comigo. Sinto-me até desprestigiado. Fui um adversário menos importante que supus. Porém, logo me acostumo com a paz e volto a ter minha vida tranqüila, sempre em busca de novos amores.

Duas semanas depois da minha ação, descubro estarrecido que a turma do Davi matou um cara aqui perto da minha casa. O nome dele era Marquinhos. Era um idiota, mas morreu. Eu até já tinha brigado contra ele. Era muito bom lutador. Derrubou-me umas três vezes e acertou minha cara umas cinco. Eu só tentei um cruzado em que ele abaixou e voltou com um direto. Vi a escuridão. Da outra vez que brigamos, ele estava com uma turma de uns quinze caras contra mim, o Eric e o Moacyr, que morre de medo de brigar. Apanhamos novamente. Covardes.

Contam-me que o Davi pegou uma pedra da calçada, que estava em reforma, e afundou na cabeça do Marquinhos. Descrevem o local exato da morte. Vou até lá de bicicleta. Vejo a grande poça de sangue. As coisas estão complicadas. Explicaram-me que depois do assassinato, Davi ainda mandou seus capachos atrás dos amigos do morto, que fugiram. Não os matou, mas bateu num por um. Dizem que ele está atrás de um cara que conhece pela voz.

Apavorado, tento levar a vida, imaginando o dia que serei o alvo da ira do Davi. Parece que ele ainda não se lembrou de mim. Não contei nada pros outros. Vou tentar resolver esse problema do jeito que puder, sem envolver ninguém. Torço para que minha voz mude logo. Ainda sofro do desafino da adolescência.

Leio no jornal a manchete: gangues de rua na cidade. A reportagem mostra, estarrecida, que existem grupos de jovens que se juntam apenas para bater em grupos adversários. Novidade! Explica, também, que um dos líderes foi assassinado com quatro tiros horas após sair da delegacia, onde esteve para se apresentar. O tal líder contou ao delegado que tinha uma rixa com o Marquinhos. Muitas brigas depois, Marquinhos contratou alguém para matá-lo. Só não morreu pois o assassino foi "gente fina" e o deixou viver. Como resultado ele caçou e bateu em todos os amigos do Marquinhos e terminou sua vingança por assassiná-lo. Saiu da delegacia pois não foi preso em flagrante e tem moradia fixa. Iria responder ao inquérito em liberdade, escreveu o jornal. Morreu horas depois. Era o Davi. Parece que foram os amigos do Marquinhos que o mataram.

Estou livre da ira do Davi. Quem é o próximo?

fin

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