A CORDINHA

 

I

João era um universitário. Em uma das milhares de aulas assistidas o calor era intenso. Ele pensa que uma aula vespertina com calor em sala pequena, cheia e abafada não combinam. Com a cabeça apoiada no punho, olha para os lados. Muita gente. Quase sessenta alunos em uma sala para quarenta. O motivo da lotação é a matéria ser uma das mais concorridas e o professor um dos mais respeitados. Ainda com a cabeça apoiada olha o aclamado mestre. Alto, magro, óculos, olhar prepotentemente intelectual e voz modulada em uma aparência distinta. Um grande babaca, isso sim. Não que João desgoste do tutor ou da disciplina, muito pelo contrário, mas o problema é que o professor é intelectual demais para uma tarde de calor como aquela. Deveria se preocupar mais em tomar uma cerva gelada, fumar um cigarinho e pensar naquela aluninha apetitosa que estava na sua frente. João transparece o susto ao perceber aquela beldade ali, quase ao alcance do seu joelho. Pô, uma deusa destas e eu nem thuns. Ele tira a cabeça do punho, se mexe um pouco na carteira, balança o rosto com os olhos desgovernados afastando de vez a sonolência e fica em posição de alerta.

O mais interessado dos alunos universitários agora é só atenção. Na colega. Ela esta sentada empinadinha, tem o cabelo castanho com mechas aloiradas pelo sol. Uma camiseta de seda bege deixa saber que ela não está usando sutiã, a pele bronzeada e a marca do biquini misteriosamente aparecendo. João sente que vai ter febre e assopra a própria testa, enquanto continua a análise. Sapatilha hippie combinando, pernas malhadas por aeróbica ou vôlei, perfeitas, roliças, bem lisinhas e apoiadas na pontinha do pezinho para deixar a batata saliente. Suor, a cântaros. João novamente se acomoda na carteira, agora por motivos físicos. Continua a exploração. Um shortinho bem fino e estampado, destes de usar na praia no final da tarde para enlouquecer os velhinhos sentados nos bancos. Peça que revela a criatividade da mente masculina. Ai, estou passando mal, quero ela na cabeça do meu...quê isso, quê isso! Ele fecha os olhos mas a imagem fica cravada na sua mente. Espera, tem uma incongruência na foto memorial. João abre os olhos e vai direto ao meio das ancas da musa. Uma linha. Ele olha direito e percebe que é um barbantinho. Não pode ser. Força os olhos e nota ser um cordão. Não acredito mas é, é sim! Esticado displicentemente por baixo das coxas e pendurado para fora da carteira, fruto do relaxamento causado pelo calor ou pela pressa em chegar no horário estudantil marcado, encontra-se saído presumivelmente da lateral da calcinha oculta um cordão, sabido ser o resgate de modess modelo intra-uterino, o contumaz O.B..

Tristeza, que desperdício. João fica totalmente desestimulado. Imagina até escutar o fiúúúú decorrente do esvaziamento sangüíneo. Como é que pode uma ninfa destas cometer tal gafe, imperdoável deslize? Claro, pois macho que é macho perdoa tudo, menos modess fora da cesta de papel. O que dirá cordinha se exibindo entre as pernas. João estica um sorriso de soslaio ao perceber seu lado maduro se esvair e tomar posse o lado moleque. Contêm uma gargalhada ao pensar no que vai aprontar.

Ele se remexe na carteira para averiguar o barulho que ela faz. Nada, ótimo. Toma posição, inclinando-se para frente, quase apoiando os joelhos no chão e deixando o corpo um pouco para a direita, para ficar completamente nas costas da desleixada. Estica os braços com os dedos convergidos, fantasiando ser este uma serpente pronta para o bote. Pronto, pegou o barbante sem ser notado. Com a ajuda do mindinho e o know-how de cinco anos de escotismo, ata um pequeno nó em torno de uma das barras de ferro da carteira. Tudo pronto.

Impacientemente espera pelo término da explanação disciplinar e a liberação discente. Sente-se como uma doninha que almoçou os ovos da pomba e espera seu retorno ao ninho somente pelo prazer de vê-la chorar a prole devorada. Porém, ele alucina ouvir uma sussurrante voz - Irmão, não faça isso, seja um bom filho de Jesus Cristo Nosso Senhor que só Ele tem o poder e é o filho unigênito do Senhor que se sacrificou pela redenção dos seus pecados. Os seus pecados,viu! - A chata da consciência. João que não é Paulo nem Segundo começa a sentir pena da garota, sabendo que ela irá passar maus bocados ao se levantar e ficar presa pelo cordão do O.B.. Não, isso não é justo. A pobrezinha nada fez para ser maltratada. Então, João em sua infinita sabedoria, resolve salvá-la do escárnio popular.

Ele se inclina de novo e tenta desfazer o nó. Está bem apertado. Ele não consegue e sabe que se puxar a linha ela pode sentir. Isso não seria nada bom. João volta a sua posição inicial e põe-se a pensar: O que fazer? Avisar? - Ó, eu amarrei o teu O.B. na carteira mas não fica puta não que foi brincadeirinha,Tá! - Nem pensar. Bilhete? - O teu Modess está na carteira. - Ela vai pensar que tem um adivinho na sala e ele está se referindo ao reserva que ela guardou na carteira dentro da bolsa. Não. Cortar? Hum, é isso! João, como todo bom machão, tem um chaveiro de cortador de unha. Ele tira o instrumento salvador do bolso e o engatilha. Click. Arrasta a carteira para frente e, como quem não quer nada, vai empurrando a mão armada em direção ao nó. Para dar um ar despretencioso à operação, ele calcula a distância e posição do nó, vira o rosto para o outro lado e completa a missão. Teck.

João estudou mal a altura e, ao invês de tosar o cordão, acabou por dar um violento beliscão de alicate nas nádegas da vítima que, prontamente, emitiu um dolorido e estridente Ai ao mesmo instante que tentou se levantar num pulo.

II

O resto? Bem, João continua a ser um aluno universitário. Agora cursa Biologia Pingüiniana Ártica. No Acre!

 

fin

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