As Histórias do Bar

   
       

Outras histórias do BDE: Crônica do Bde, Sos, 5a no bar, Sem par nem bar, Revolta no bar, O bar, Poema a 8 mãos, De bar em bar,

 

     

 

       
 

Um bar de fachada

 

O bar do escritor

 
 

Véio China

 

Por O número 9

 
 

Com todos os efeitos:
É um Bar de fachada.
E cada qual
do seu texto faz
A tão sonhada taça
E assim desfilam
putas, bêbados, literalistas
pornografia, alcool, idolatria
putaria, embriagues, egolatria
Afinal, isso é um bar e
todos o sabem
um Bar de fachada
E ele,
não pode fechar

As opiniões no bar


 

O bar é cult!
Tem índio e sacerdote
De beatles à Me morte
Suicidas, encrenqueiros
Meretrizes e maconheiros
Tem garotas que só falam
De pássaros e poesias
E blogueiros que sobre merda
Soneteiam noite e dia
Tem aqueles que esbravejam
Se do texto não gostarem
E alguns, por causa disso
Temem seus textos postarem
Tem aqueles que inventam novas letras todo dia
E esperam que o Kaspa seus poemas elogie
Flávia vê Godard e escreve sobre Oxúm e Oxalá
Carlos na via crucis vai tecendo sua cria
Postando seus nanocontos que Ossip elogia
Enquanto Paul Ada, vulgo Paulo Paulada
Sonha um dia ter uma poesia comentada
Giovani, qual carrasco, bêbado e drogado
Vai criticando os rabiscos que Roberto escreveu
Eu aqui me identifico com as letras de Gonzalez
Sou Tereza, sou Tobias, sou judeu e fariseu
E assim vão passando os dias com enredos e personagens
Que não cabem em sonetos nem numa só postagem
De tantos Spokes e Parrinis, tantos Fernandos neste bar
Todos postam com coragem
Aqui encontram seu lugar
A Thaís, tão bela cria, com seus cabelos de índia
Ao deixar suas poesias, belas metáforas da vida
Deixa os cuecas em torpor
Aqui no Bar do Escritor

As opiniões no bar


 
         
 

Poção Gammy

  167 membros  
 

  Por Gustavo Harry

 

  Por Kiki

 
 

se nem mesmo embriagado
sou capaz de lhes criar
algo pra ser bajulado
por vocês aqui do bar

(então corro e me desvio
desta sede de sucesso)

mas se mesmo a humildade
for difícil de alcançar
eu prefiro na saudade
suas críticas deixar

reconhecimento?

As opiniões no bar


 

Cento e sessenta e sete membros
Trezentos e trinta e quatro pernas
Apesar de imaginarmos
Ver gente em quatro patas
Porém as cabeças estão no topo
Algumas abaixo do umbigo.
Seios pros gostos não faltam
Protuberantes e rijos
Ou perdidos em cabelos de mata
Cento e sessenta e sete pretensos
Alguns em tudo
Outros com nada
Em simples resumo
Onde se enquadra?

As opiniões no bar


 
         
  O Bar do Escritor   Mote  
 

Por Renato

 

Por Délcio

 
  Somos poetas
Numa mesa de bar.

Bar sem geladas,
Sem petiscos,
Sem bar.

Somos poetas
Numa mesa de bar.

Bar com amigos,
Com bom papo,
Com alma de bar.

Só mesmo poetas
Para se encontrar neste bar.

Bar de bits,
Bar de bytes,
Metafórico bar.

As opiniões no bar


  Este mote é arretado,
Foi escrito com “sabença”,
Num pensei fazer ofensa,
Pra não sair destratado,
Pois eu fiz do meu agrado,
Bonito do início ao meio,
Então o fim não vai ser feio,
Nem a estrofe atropelada,
Pois trago a rima atravessada,
Como uma viga no esteio.

Quero falar pro leitor,
Que quando escrevo poema,
Se não agrada sinto pena,
De ter nascido cantador,
Mas aqui no “Bar do Escritor”
Vou enriquecer meu “pruseio”,
Não copio o verso alheio,
Nem tenho obra plagiada,
Pois trago a rima atravessada,
Como uma viga no esteio.

Eu nunca tive professor,
A minha escola foi o mundo,
Só não virei vagabundo,
Pois Deus do céu ajudou,
Um dia sonhei ser doutor,
Mas tive grande receio,
Pois cantador num cabe no meio,
De gente muito elitizada,
Pois trago a rima atravessada,
Como uma viga no esteio.

Eu versejo pra mostrar,
A quem quiser aprender,
Que não precisa saber ler,
Pra entrar num mote e rimar,
A gente tem é que gostar,
Não ter vergonha ou receio,
Pois o coração sabe o ponteio,
Quando a alma é afinada,
Pois trago a rima atravessada,
Como uma viga no esteio.

As opiniões no bar


 
         
 

Acróstico

 

No bar sozinho escrevendo

 
 

por José

 

Por Kelson Moreno

 
  Boêmios se reúnem em mesas ornamentais
A bebericar marcas de vinhos diversos...
Reavivam discussões de poemas e versos
Dispostos em seus balcões virtuais.
Os odores que rimam com o paladar
Elogiados são em esmeradas prosas;
Se a bebida não é saborosa
Comentam, criticam... (assim não dá).
Rodas vivas de girassóis e cravos
Interagem como críticos da poesia.
Tangem dedilhando refinadas melodias,
Opõem-se a todo e qualquer desagrado.
Repelem ou aprovam,e repetem o drink do dia.

As opiniões no bar

  eu vi o giovani
no bar do escritor
ele me bediu uma breja
e eu disse que nao tinha dinheiro
pra isso
nem eu ia beber
fiquei sentado no bar sozinho
e comecei a escrever
vi uma morena, uma loira, uma india
nem quis saber
elas me paqueraram, me iludiram
queria desviar a minha atenção
mas eu estava entretido com a minha poesia
o mundo gira e ninguem percebe
niguem fica tonto
a cerveja nao gira
mas o bebado fica tonto
e eu que sou poeta
fico bebado só de olhar
pro mundo que nao gira
 
 
  As opiniões no bar  
     
 
         
 

Bar do Escritor

 

Bar que se assume paradoxo

 
 

por Giba Ribeiro

 

por Efe Celeti

 
  Espaço dos desvalidos
Lugar de uns iletrados
Sítio dos que anseiam luz
Balcão de sentimentos
Oráculo dos literatos
Limite de inflados egos

Soberba de sumos mestres
Âmbito dos imortais
Jazigo dos natimortos
Morgue de mil aléxicos
Ode aos impropérios
Voz dos desambientados

Loca de anônimas vozes
Versos de peito aberto
Palco dos marginais
Vaga dos que têm sede
Copos de muitos ais.
Seita dos amorais
  Não há criticismo que derrube
Amizade virtualmente criada
Entre aqueles que assumem
Uma vida mesmo que (pseudo)literária

Se deliciando com poemas de amor
Ao gozo das sacanagens masoquistas
Perdidos no subjetivismo incolor
Fugindo dos protestos esquerdistas

Paradoxo presente, todo instante,
Com gente miúda e gente grande
Assentadas na mesa cessa o muro,
Acende os desejos mais impuros

As opiniões no bar

 
  As opiniões no bar  
 
 
     
         
 

Topicomaníaco

 

BDE in Rio

 
 

por Edson Feuser

 

por Eduardo Perrone

 
  Fico desesperado,
Desanimado.
Meu tópico descendo...
Descendo...
Entro na minha página do orkut,
Dou uma disfarçada.
Passo pelo youtube,
Ouço Pink Floyd.
Cinco minutos, uma eternidade.
Mais uma espiada – nenhum comentário.
Posto: Alguém?
Mais cinco minutos... nada.
Agora vou tomar um café,
Revirar a geladeira.
Na volta, depois de dez minutos... 3 post.
Um positivo, dois negativos.
Ta, na boa, afinal: tudo é construtivo.
Agradeço, sobe.
Saio pro trabalho.
Volto, ligo o PC, vou pro banheiro.
Orkut, comunidades, bar do escritor...
Dez post - Meio a meio.
Sossego. Deu.
Novo poema – novo desassossego.
Porra!!! Comento um monte, ninguém comenta o meu?
Difudê viu!!! (jargão made in veio)
Aliás... sobe?
  Alguns passos
Pela rua movimentada.
O cheiro de bebida
Já apontava
Que, alí, havia um bar.
Na verdade eram muitos,
Mesas e cadeiras,
E uma resistência derradeira,
Tentando esclarecer
Do que beber.
Chega o menu,
Antes mesmo de conseguir me sentar,
Afinal... Aquele era um bar!
E o garçon, atencioso,
Me diz que seria gostoso
Experimentar um drink novo,
Feito de pinga, Pequí e um toque de aniz...
Perguntei qual era o nome,
Disse-me, apenas : CRIS.
E, numa golada, engoli a tal beberagem.
Um gole inspirado na coragem,
De cruzar um pais inteiro
Tendo um livro como companheiro.
Companheiro, mano velho...
E bebí, também, do mano MARCELO.
Ainda sedento,
Peço algo, cuja alquimia eu participe...
Vem numa taça de cristal,
Álcool honesto, legal...
Diz-me que chama-se OSSIP.
Mas... A sede me torturava.
O garçon traz-me FLAVIA.
Dessa vez, bebida suave,
Como a voz que propicía
Uma talagada macia
Feita, tão somente,
De água de rosas.
E fecho a bebedeira,
Pedindo, exatamente a saideira,
Que imagineí ,sem ao menos pedir.
Aparece, então, numa bandeja,
E pergunto, o porque,
Dessa cachaça chamar-se VIVÍ.
Acreditem...
Bebí, bebí...
E nem sentí a noite chegar
Tampouco
A vida fluir.
Foi bom, muito bom,
Ver o BDE aquí.
 
  As opiniões no bar   As opiniões no bar  
 
 
 
         
 

Bebuns iguais

     
 

por Marcio Leite

     
  Fakes, reais, humanos normais,
letrados, leigos e bebuns são todos iguais

Na luta.
Resolvi sair da toca,
Mesmo com poucos companheiros de labuta.
Quem é que vai passar a bola?
De saco cheio da chafurda...
E daí se meu celular não é motorola?
Cansado de gente surda:
Ah... se toca!
Está em branco, vou preencher a lacuna.
Sabem que não bebo álcool, ainda bebem minha coca!
Falando com loucos, gente boa e uma mulher de burca...
Ponho minha música na vitrola!
Sou tão humano quanto qualquer filho da p...

Fakes, reais, humanos normais,
letrados, leigos, bebuns são todos iguais

Vim prá lascar...
Êta panela que não quer ceder!
De lá e prá cá, dura de rachar!
Tem que furar e destampar, para outro aparecer...
Num dá prá parar?
Poeta e poetiza tem que merecer?
Vou quebrar:
Não! Tem apenas que ser!
Ao menos tentar...
Mas o que precisa ter?
Suas letras não bastam, para pertencer?

Fakes, reais, humanos normais,
letrados, leigos, bebuns são todos iguais

Não há diferença. Pois quem não gosta de falar?
Por isso chego assim: original,
Sem medo de me soltar,
Saio do molde natural.
Mesmo que tentem desprezar,
Em tom forte ou gutural.
Tentem matar, enterrar...
Ainda serei real!
Tenho munição pra trocar...
Fatal?
Não! Apenas gosto de versar!
Do meu jeito, assim... qual o mal?

Fakes, reais, humanos normais,
letrados, leigos, bebuns são todos iguais
     
  As opiniões no bar      
 
     

 

 

 
     
 

Os bares da vida

 
 

  Por Cristiano Deveras

 
  Outra vez crise. Pode até parecer que não é, mas sou macaco velho, sei quando rola uma crise. Ela sentada na cama, me olhando de soslaio de quando em vez, palavras cruzadas nas mãos, os óculos de aros um tanto quanto grossos (que sempre dão um ar intelectual, embora ela rejeite), o interessado ar desinteressado que ela tenta me passar, fingindo não continuar brava, mesmo depois da gritaria que aprontou ontem, por eu haver ficado até as três no bar. Novamente.
A claridade da tela me incomoda um pouco, mas mantenho a atenção nas linhas que brotam ou desaparecem sob as teclas, muito embora de quando em vez eu retorne ao bar para ver como as coisas andam. Talvez ela queira mesmo se reconciliar, no fundo tenho um pressentimento que também quero, mas poucas vezes dou ouvidos aos meus pressentimentos. Isso já me salvou a vida algumas vezes. Ou será o contrário?
Tento coordenar idéias enquanto continuo avaliando poemas góticos à espera que alguns comprimidos façam efeito e possa voltar a exercitar os músculos da face. Nunca é fácil, mas com o tempo a gente desenvolve certos aspectos teatrais na vida. Ela sabe disso. E sabe que sei também.
- Ainda não terminou? – uma pergunta básica sempre quebra o clima.
- Quase.
- Parecem bons...
- Você viu?
- Ainda não. Mas você parece mais atento. Quando lê atento assim, sempre
parece bom.
- Até bula de remédio vencida leio com atenção. Mas realmente têm.
- Qual era o nome da bola do Tom Hanks?
- Como é que é?
- Ta aqui. “nome da marca da bola no filme Náufrago”
- Bico.
- Hã?
- Não, quis dizer que é fácil. É Wilson...
- É mesmo!
- E meu prêmio?
- Que prêmio?
- Por ter acertado a perguinta. Quem acerta sempre ganha um prêmio, ué...
- Vou pensar no seu caso (Revirou-se na cama. Pela gola da longa camisola
pude vislumbrar um dos “prêmios”... Comecei a gostar do jogo)...Qual o nome
do filho mais velho do “Poderoso Chefão”?
- É uma temática?
- Mais ou menos...
Pose de Marlon Brando, faço voz rouca, passando a mão na garganta:
- Giovani, manda aquele maledeto pro fundo do rio... – Ela ri gostoso. O
primeiro botão já era. É uma questão de tempo.
- Ta, essa é mais difícil. Qual a pizza favorita do Super Mário?
- Ih... Pe, peraí... Eu sei. Pe, pe.. – odeio não lembrar algo que sei.
- Peperroni, tava me lembrando! Mas ta sobrando uma letra... Olha aqui.
- Não, é que você ta colocando um erre a mais. Aí fica Perrone.
- Ah... É mesmo. ( a mão vai abrindo o restante das casas)
- Próxima – deixo a tela de lado um pouco. Não possuo tanta atenção assim.
- Qual religioso Sean Connery fez em “O Nome da Rosa”
- Sacerdote.
- Não. Mas ajudou: Padre... (sem prêmio, putz!)
- Padre, sacerdote, monge, tanto faz...
- Qual era o nome do pai de Noé?
- Não era temática?
- Mudou um pouco, diz aí.
- Lameque, eu acho... (Ela sorri ainda mais maliciosa. Também sabe que é uma
questão de tempo)
- O prenome de Kant?
- Emmanuel.
- Não é Immanuel?
- Bom, depende da página que você acessar...
- É mesmo. (Faz biquinho. Nunca resisto a biquinhos...).
Sento-me ao lado dela, começo a beijar devagar aquele pescocinho alvo e bem delineado, começo a sussurrar no ouvido dela, é uma questão de tempo. Se aproveitando disso, ela ainda faz outra pergunta, também sussurada:
- E quem tava com você lá no bar?
- Ah, o André... – Levo um safanão que me joga no tapete, batendo com a nuca nas costas da cadeira. Estava tão próximo do paraíso que nem me dei conta ainda do que acontece:
- Sabia que você tava em má companhia, seu cachorro! Quem é o dono daquele bordel?
- Emerson, Ricardo, sei lá! – Ainda estava tão hipnotizado pelo prêmio que respondi na lata...
Levantou-se furiosa, pegando roupas aqui e ali.
- Vai dormir na sala!!!
- Pô, mas o computador ta aqui... (Sei, desculpinha esfarrapada, mas foi a única que veio a minha dolorida cabeça)
O sonoro Blam da porta demonstrou que não havia surtido efeito algum... Sentado na sala, me sirvo de um bom e velho Jack Daniel´s e chego a triste conclusão:
- Me... me deixou na mão.
 
     
 

As opiniões no fórum do Bar

 
 
 
     
 

O bar do escritor

 
 

Por Giovani Iemini

 
  Eu passeava pelo iorGut numa comunidade de poetas. Num tópico o autor pedia comentários. Atendi:
"Não gostei do seu poema, cara, tá confuso e sem sentido."
O sujeito se encrespou:
"Idiota, o poema é ótimo e diz muita coisa!" Foi a resposta.
Comentei, então, sobre um conto numa sala de literatura.
"Tá jóia, mas há erros de português".
"Dane-se" - Retrucou o outro. - "Eu escrevo do geito que quiser."
- Jeito não se escreve do jeito que a gente quer. - Pensei em voz alta, relembrando a frase de meu pai para aprender a escrever a palavra. - Se fosse, seria com o G da gente!
Oras, será que esses escrevinhadores interNérdicos já são ególatras o suficiente para não aceitar opiniões alheias? Estúpidos. Não sabem que é na adversidade que se cresce.
Decidi, então, criar a minha própria comunidade. Um lugar onde os textos pudessem ser criticados sem nenhuma censura nem apreensão em ofender o autor. Onde?
- Só num bar se fala verdades na cara sem receber impropérios.
Criei o Bar do Escritor. Fiz uma pequena propaganda e logo algumas pessoas entraram.
"Como você tem coragem de escrever algo assim?" - Foi minha doce crítica a uma das primeiras crônicas.
"É verdade"- Respondeu - "preciso melhorar."
Fiquei surpreso. E adorei. Existem outros que, como eu, não se consideram a última cerveja do freezer.
Quase dois anos se passaram. As discussões no bar pelavam os desavisados, assustando os excessivamente sensíveis e atraindo todos aqueles que gostavam de falar a verdade. Escritores, leitores, fakes*, críticos, pensadores, chatos, ateus, neuróticos, até pessoas normais tornaram a comunidade um ambiente agradável porém jamais impassível.
Meio viciado no prazer de conversar sobre literatura, resolvi difundir o que fazíamos, afinal, a mim era tão interessante opinar sobre os textos dos colegas e ter minhas próprias coisas sinceramente analisadas por eles que, num arroubo, programei um ezine dos debates e um blog diário para resenhas dos membros. Tudo gratuito, utilizando recursos da rede.
- Agora escrevo do jeito que quiser! - Exclamei, em voz alta, ao finalizar a organização. - Afinal, não quero que comadres literárias elogiem minhas coisas sem verdade e me deixem na pose ridícula de satisfeito com minhas letras se, ao contrário, eu houver cometido besteira. Bons amigos criticam os erros!
Alcançaremos algum resultado neste meio tão hermético?
Já alcançamos! Caminhamos sobre nossos próprios passos. Concordamos e discordamos percebendo que, independente do gosto pessoal de cada um - que, na verdade, é como bunda, cada qual com a sua - somos mais fortes quando unidos, mais interessantes em grupo e muito mais divertidos quando criticamos algum cretino do que quando elogiamos um bom texto.
Este é o Bar do Escritor. Um lugar sem censura, sem dinheiro, sem puxa-sacos, sem editores absolutos e, principalmente, sem inverdades.
 
  As opiniões no fórum do Bar  
 
 
     
 

O Botequim

 
 

Por Carlos Cruz

 
  Getúlio estava atrasado para a reunião. Achava essas reuniões noturnas uma tremenda perda de tempo, uma vez que nada era resolvido e a palavra final era sempre do dono da empresa. Procurou seu maço de cigarros no bolso do terno. "Merda, acabou." Suportava tudo, menos ficar sem cigarro. "Compro no próximo bar" - pensou.
Andou alguns metros, avistou a pequena porta, sem letreiro. Parou à entrada, olhou para o interior: balcão, mesas, cadeiras, garrafas, pessoas, vozerio, gargalhadas - é um bar. Entrou. O lugar estava cheio, o alarido produzido pelos clientes, audível à porta, subitamente cessou por completo. Todos, sem exceção, viraram as cabeças em sua direção, olhares sérios, perscrutadores, examinando-o de cima a baixo. Sem olhar para os lados, foi direto ao balcão. "Um maço de Carlton, por favor." - pediu ao sujeito barbudo, carrancudo e sem camisa que secava alguns copos com um pano sujo. O vozerio e as gargalhadas recomeçaram, aparentemente mais intenso. Enquanto pagava ao barbudo o maço de cigarros, ouviu alguém dizer em voz alta: "A merda, ode à coprofagia". Virou-se e deparou-se com uma mulher trajando uma burka preta, que deixava à mostra apenas seus olhos, com uma folha de papel às mãos, lendo um texto para os demais ocupantes da mesa, que ouviam atentos. O tal texto, pelo que pôde entender, tratava-se de um poema que mesclava elementos de coprofagia, coprofilia, escatologia e existencialismo. Foi quando deu-se conta do lugar insólito no qual se encontrava: o bar, a começar pela decoração, era um misto de psicodelismo, arte barroca, pop art, surrealismo, expressionismo e art nouveau. Quadros, desenhos, grafitagem, grafismos dispostos aleatoriamente ao longo das paredes, pintadas em alguns trechos com cores vibrantes, em outros com cores frias e mais adiante somente de preto. As mesas e cadeiras seguiam o mesmo padrão amalgamado tanto nas cores quanto na ornamentação: viam-se pequenas esculturas representando órgãos sexuais em algumas mesas; noutras, havia chifres; mais adiante, havia fotografias de pessoas. No centro da mesa onde estava a mulher de burka, Getúlio viu a fotografia de uma mulher idosa, abaixo da qual leu: “Mamãe, eu te amo”. Ao lado do balcão, uma jukebox passeava por vários estilos musicais: tocava Chico Buarque, John Lee Hooker, Frank Sinatra, Gangrena Gasosa, dentre outros.
Agora, indubitavelmente, o mais surpreendente no bar eram os clientes, pessoas estranhas, trajando roupas mais estranhas ainda conversavam animadamente ao redor das mesas, sobre as quais havia uma infinidade de bebidas, dos mais variados tipos e marcas. Além da mulher de burka, tinha um gordo cabeludo e de cavanhaque, parecido com o árabe da garrafa de vinho Balardin, ostentando um colar em cujo pingente havia as iniciais JC; um homem que ficava o tempo inteiro com um livro de física quântica em frente a seu rosto; um senhor, de maneiras um tanto afetadas, envergando uma espécie de túnica multicolorida, parecendo um clérigo ou algo assim; um rapaz, com cabelos encaracolados, andando de mesa em mesa com uma garrafa contendo um líquido verde, no rótulo da qual lia-se “Fada Verde”. Em um canto mais afastado, Getúlio divisou um homem, aparentemente normal (a julgar pelos trajes e feições), o qual, após ingerir uma bebida de cor roxa, fumegante, que estava em um recipiente semelhante a um tubo de ensaio, transmutava-se em uma criatura pavorosa, um quasímodo medonho com olhos esbugalhados e injetados. Getúlio pensou em sair correndo dali, mas como ninguém se mexeu, decidiu ficar. A criatura era inofensiva, ao que parece, e, após ler um texto que trazia consigo, voltou a seu estado primordial.
Getúlio resolveu ficar. “Foda-se a reunião.” - pensou. Pediu um uísque com gelo ao barman e proprietário do estabelecimento (a julgar pelo modo altivo com que fitava os clientes). Sempre sério e mal-encarado, serviu a bebida a Getúlio.
O bar continuava fervilhando. Ninguém permanecia muito tempo no lugar em que estava sentado, pulavam de mesa em mesa, onde sempre havia alguém de pé ou sentado, lendo um texto escrito em folhas de caderno ou em papel de embrulho, que o barbudo do balcão distribuia a quem precisasse. Os ouvintes, após a leitura dos textos, faziam comentários, alguns aplaudiam, outros lançavam ovos, tomates, cuspiam ou simplesmente transmitiam suas opiniões. O rapaz de cabelos encaracolados, invariavelmente, fazia o mesmo comentário ao textos que ouvia: “lixo!” - gritava a plenos pulmões, excetuando-se apenas o velho de túnica, que afagava os cabelos do jovem, sempre que ele se aproximava.
De repente, Getúlio, que havia tomado outras doses de uísque, visualizou à porta, um cachorro com um estetoscópio pendurado ao pescoço, espumando e rosnando ameaçador. Pensou novamente em fugir mas, mais uma vez, seguiu o exemplo dos demais, que não se mexeram. O cachorro seguiu até a mesa onde estava a mulher de burka, olhou para ela, sorriu e disse: “Gostosa!”. Getúlio, estupefacto, esfregou os olhos e os ouvidos. “Isso é impossível! Um cachorro que fala!” - pensou. Pediu outro uísque, dessa vez um duplo. O cachorro lambia a mão da mulher que o afagava com a outra.
Getúlio, já sob o efeito desinibidor do álcool, decidiu tentar interagir. Olhou para o barbudo carrancudo, e disse: “Agitado isso aqui, não?”. Foi solenemente ignorado. Resolveu mudar de estratégia. Lançou mão de um pedaço do papel de embrulho e começou a escrever. Estava com raiva por ter sido ignorado, lembrou-se de um texto de um escritor conhecido, lido recentemente, sobre o poder libertário do “foda-se”. Olhou para os fregueses e soltou seu grito: “FODA-SE!”. Um novo silêncio abateu-se no bar. Getúlio passou a ler seu pequeno poema, uma espécie de trocadilho com a expressão “foda-se”. Após a leitura, sentindo um certo alívio por ter conseguido ir até o fim, passou a ouvir alguns comentários, proferidos entredentes: “Outro maluco?”, “Que merda!”, “Eu gostei.”. O jovem dos cabelos cacheados se levantou, gritando seu inexorável: “lixo!”. O ancião de vestes sacerdotais convidou Getúlio para se sentar à sua mesa. Aceitou.
Mal havia se sentado, aconteceu o episódio mais insólito da noite: um rapaz, que deveria ter uns vinte e poucos anos, cuja indumentária destoava dos demais fregueses – trajava roupas de grife, levantou-se e, exibindo uma fotografia de um homem cagando em um penico, passou a gritar: “Isso é censura! Limaram minha foto! Isso não se faz! Abaixo a ditadura!”. Instaurou-se um verdadeiro caos no bar: alguns clientes sairam, retornando logo após com penicos as mãos, os quais depositaram no chão, abaixaram as calças e se agacharam sobre os penicos, reproduzindo a tal fotografia. Dois deles, que minutos antes tinham degustado uma porção de torresmos com pés de galinha, acabaram evacuando nos penicos. Depois, estes e dezenas de outros, viraram as nádegas na direção do dono do bar, separando-as com as mãos, exibindo seus ânus. Segundo informou-se Getúlio, o barbudo sem camisa seria o responsável por haver retirado a tal foto de um mural que havia no bar, onde os freqüentadores mais assíduos colavam seus textos. O proprietário apenas meneava a cabeça, em sinal de desaprovação. Os protestos se tornaram mais veementes, passaram a arremessar ovos, tomates e cusparadas contra o barbudo, que lançava garrafas e copos contra os insurgentes. Uma dessas garrafas atingiu em cheio a cabeça de Getúlio, que desmaiou.
Acordou às 13:00 h do dia seguinte, em sua cama, ressaqueado e com uma tremenda enxaqueca. Teria sonhado? Levantou-se, trôpego, dirigiu-se até banheiro, olhou-se no espelho. Não havia ferimento algum em sua cabeça. Encontrou no bolso da calça um cartão, no qual leu: “BAR DO ESCRITOR. Volte, se quiser. Se não quiser, FODA-SE!”. “Voltarei” - pensou - “Certamente voltarei.”
 
  As opiniões no fórum do Bar  
 
 
     
 

Operação coordenada

 
 

Por Cristiano Deveras

 
  - “Se todos entenderam, este é o plano de ação”- Foi o que capitão falou, pausadamente. Lembro-me bem disso. Gostaria de não ter participado, mas tudo levava a crer que seria mais fácil, ou pelo menos, que estaríamos mais certos.
- OK. E você nunca questionou nada?
- Questionar o quê? Todos os informes, as escutas, os relatos... Tudo demonstrava que ali era um recanto de seres da pior espécie. Eles haviam matado pessoas, torturado, houveram seqüestros, roubos, mentiras sem medidas, uma adoração pérfida pelo mórbido e o insano que beirava a loucura!
- Mesmo assim, nunca lhe ocorreu de averiguar mais a fundo?
- Particularmente já havia visto coisas que me convenciam da veracidade das informações. Canibalismo eu vi, assim como cenas explícitas de sexo e violências gratuitas. Houve inclusive uma dessas pessoas que carregava a própria morte como pseudônimo! Quer mais garantia do que esta?
- Houveram erros. Isto você não pode negar...
- Coronel, as ordens eram explícitas: eliminar todos os integrantes desta corja assassina. Não haveria julgamento, nem prisão que os reprimisse. Pode-se prender o indivíduo, mas seres como aqueles, que criam idéias, são perigosíssimos!
- Entretanto a realidade se mostrou diferente...
- Não sei onde nos enganamos. Estava tudo lá. Há quase dois anos que monitoramos o ambiente, que víamos as depravações diárias a que eles se entregavam. Coisas que vi, que nunca irei esquecer. Nunca serei o mesmo depois disto.
- Disto você pode ter certeza. O erro de vocês repercutirá pelo mundo inteiro.
- O real ou o virtual?
- Os dois...
- Havíamos planejado para ser uma operação coordenada.
- Bom pelo resultado, foi realmente muito coordenada. Nenhum dos membros conseguiu escapar.
- Não sei... Alguns deles eram bem escorregadios. Principalmente o cara que era verde e depois mudou para várias coisas; era um dos mais perigosos, dizia ser mais de uma pessoa, algo escondido, mais ou menos isso. O ébrio com nome ao contrário, a mulher de máscara, o barbudo do planalto central, ouvi dizer que um deles era doutor em alguma coisa...
- Parece que era física, ou química, sei lá...
- Pois então: havia uma alemão, ou descendente, Von não sei o quê, aquele velho depravado, que tinha um cachorro com um nome esquisito e que se parecia com outro cara com um nome mais esquisito ainda... É o que nos disseram: são todos de alta periculosidade. Eram ordens, tínhamos que cumpri-las! Você não entende?
- Entendo sobre ordens, soldado. Mas o que não consigo entender é por que vocês armaram toda esta operação para invadir um bar de esquina e matar um monte de escritores... Ou aspirantes a isso.
- Eles pareciam perigosos... Tínhamos medo do que diziam, achávamos que era real, tantas mortes anunciadas, tanto sofrimento distribuído, sonhos pisados... Depois daquilo, nunca mais sonhei.
- Remorso por haver matado inocentes?
- Não havia inocentes lá. O que não me deixa dormir é um maldito uivo na madrugada... Ah, se eu ainda tivesse minha Glock!
 
  As opiniões no fórum do Bar  
 
 
     
 

O Bar. 2o o Evangelho do Véio China

 
 

Por Véio China

 
  Naquele dia, nada mais poderia ser feito e, sob os escombros jaziam mesas, cadeiras, garrafas estilhaçadas e alguns sentimentos mutilados. E foi triste ver gente dizimada pela própria intolerância. Lembro que antes da explosão e invasão do homem-bomba eu me encontrava sozinho nesta mesma mesa e acariciava a cabeça do Hank enquanto as bebidas me eram servidas. Lembro-me ainda que havia a voz de uma mulher...............
-Chefinho! Chefinho! o e-zine desse mês vai ser do caralho! Dizia ela para o Barman .
E o rosto daquela criatura libidinosa era impossível de se ver e só sobressaiam dois olhos negros sob o manto daquela burka. E ela se chegava tão próximo que provavelmente ele sentia o hálito de sexo lhe penetrar as narinas. Sexo tem hálito? haverão de me perguntar. Acho que não, mas nela tudo é possível e então não me surpreenderia que houvesse odor de sexo e que ele desaguasse naqueles lábios vermelhos de batom..

O Barman, um cara matreiro, nunca vivera uma situação daquela e mesmo que prestasse atenção na garota da burka, havia ainda a vigorosa pressão por parte da ala dos escritores descontes com algum tipo de censura no Bar. E como seria de se esperar, ele, um sujeito metido a durão, vivia o desafio shaksperiano de “ser ou não ser” . De saco cheio com todos e ainda mais com o desafio, encheu os pulmões e bradou:
-Quem manda nessa porra sou eu! Isso pode ser uma zona, mas... é a minha Zona. Estão me entendendo?
Claro que todos entenderam! Afinal, era uma corja de malandros que se faziam de gostosos mas não detinham o poder do chefe e muito menos um botão de excluir. Evidente, aceitar todas as decisões vindas da diretoria não é bem a praia dos garotos por aqui, mas justiça se faça e esse Barman é um cara de opinião e, ele quando cisma com algo, topa qualquer parada! Ele pode até sofrer mas não volta atrás e nem da mão à palmatória. E, mesmo que não concordemos com ele, sabemos que somos que nem milho de pipoca; não vinga uma aqui, outra ali mas no fim prevalece a maioria e a pipocada se torna coesa. Se existem tendências nesse Bar? Ah sim, muitas!. Há os de direita, de esquerda, de centro. Há anarquistas, jogadores de xadrez e até um pequeno neoliberal que encasquetou de postar uma foto de um cara cagando. Coisas de gênio sem genialidade, evidente , e que eu, particularmente não vi problema algum na sua publicação mas que se fez do motivo e o estopim para a explosão havida naquele dia. E então era esse o ambiente e a tal moça, que também é a garçonete , servia as mesas, e esfregava-se nos clientes, desdenhando da moralidade e deixando de pau duro toda a confraria.. E ela, como se reencarnada numa voraz Messalina, vocifera pra todos ouvirem;:
-Eu sou a puta do Bar!
E esse é o sinal que todos esses garotos sedentos de sexo, rock e literatura aguardavam e então isso virou um frenesi. E eles a incitam mais e mais. E ela, possuída por todos sentimentos incastos que se possa imaginar, partiu pra cima da clientela e não permitia passar uma única comanda sem que grafasse seus versos eróticos no verso das notas..
E a clientela , extasiada, auferindo a si o premio de consolação tentava lhe passar a mão (de leve) no rabo mas ela, escolada no ramo, se desfazia rapidinhos das mãos sacanas e saltitante rumava para outras mesas, junto com os sussurros que não a largavam “Eu sou a puta do Bar!” “Eu sou a puta do Bar!”
E também não esqueço as gargalhadas provindas das outras mesas.. E nelas, a confraria se dividia. Lá estavam o Lameleque, Cris, Doctor, Perrone, Klotz, Sacerdote, Muriel, Lena, Alessandra, Thais, os Fernandos, os Wilsons, Barba, André, Cruz ,os Robertos , Felipinho e muitos dos outros que agora não me lembro, e eles, como era de se esperar, blasfemavam, gargalhavam, urravam , insultavam, misturavam literatura à bebida e trocavam experiências entre si. O alarido era tanto que o meu pobre cão ficou assustado e pouco se interessou pelas salsichas que lhe tocavam o focinho e que foram presenteadas pelo dono do Bar. Já passava das 2 da manhã quando eu e o Hank, de comum acordo resolvemos nos mandar. Levantei e acenei para os garotos. Claro, apesar de estar meio tocado sou um sujeito educado e então agradeci as bebidas, dei uma boa noite e mandei todo mundo se foder.
Estávamos a uns 20 metros do estabelecimento quando ouvimos a terrível explosão vinda do Bar. Retornamos correndo e vimos o Monstro ou o que sobrou dele, atado por bombas que acabavam de ser detonadas.
Provavelmente algo tenha saído errado,. Provavelmente algum erro de cálculo ou sei lá o que, mas as bombas explodiram antes mesmo que ele alcançasse a maior concentração de pessoal. Eu pude perceber o ar atônito de cada um aqui. Pude perceber a tristeza por perder um bom companheiro, ainda mais daquele jeito, mutilado e com o cartaz que trouxera (“ABAIXO A CENSURA”) jogado, ensangüentado num dos cantos do Bar. Pude perceber o ar de desolação das pessoas e imagino que talvez, como eu, todos achassem que não seria necessário ser o kamikaze de si próprio. E então ele se foi e eu sinto saudades dele como também sinto falta do Emanuel, o pequeno neoliberal . E ele, certamente mais do que eu, deve estar sentindo falta do amigo que se foi e, talvez, esse lugar lhe traga algumas tristes recordações e isso, provavelmente o fez se afastar de nós mas, logo estará de volta e eu torço muito para que isso ocorra rapidamente.
E a lição que fica é a de que de toda a desgraça tira-se uma lição e aqui não foi diferente. E o ensinamento que nos sobrou foi a fato que num Bar se vão os bebuns mas ficam as suas estruturas, ficam as suas instalações. Eu mesmo conheci alguns bebuns que se foram mas que deixaram o bar para os seus amigos mais próximos, como se fosse aquilo a parte que lhes coubesse em testamento. Portanto............
Táquepariu! Já falei demais.
-Barman, dá uma porra duma Sputinik por conta da garotada!!!
 
  As opiniões no fórum do Bar  
 
 
     
 

Ïndio não quer cachimbo, quer fumaça

 
 

Por Me Morte

 
  No Bar a fumaça atrapalha a visão dos que entram, os que lá estão nem se importam, encharcados pelo álcool, não distinguem fumaça de luz néon. A rotina era essa, corpos alcoolizados, música ambiente, cigarros, risos,...A garçonete olhava tudo com olhos diferentes, especialmente nessa noite estava diferente, como se repensasse toda sua vida.
-Hei Me, traz meu conhaque. Ta de moleza mulher? Era Véio China, sempre mal acostumado, achava que ela tinha que esperá-lo com o copo à mesa.
-Olha o jeito caboclo. Eu não bato em véio e nem bebum, mas mais respeito com minha nega. Disse Doctor, sempre tomando as dores da moça, como se fosse seu dono, ela tinha grande carinho pelo moço, o chamava de Guapeca, cão vira lata no dialeto gauchêz.
-Ao trabalho. Sirva a mesa do fundo, eu cuido desses bebuns. Querem tratamento de primeira? Eu dou. O Barman depositou com força o copo de conhaque à mesa do velho. Ele percebera o olhar perdido da moça e sabia que não estava bem.Se o Bar não tivesse tão cheio até a dispensaria, ele era um bom patrão.
Eis que começou uma briga. Ossip, assíduo freqüentador, vendo o Fernando, maloqueiro conhecido, se insinuar para uma freguesa, interveio. Cadeiras voaram, copos foram arremessados, gritos histéricos das moças do reservado, Thaís, Alessandra, Larissa, Jimenna, Flávia e Rosália, e o Barman sem saber onde acudir primeiro. Eis que um grito de mulher entoa e todos fazem silêncio: Era Me, a garçonete, atingida por uma garrafa de cerveja na cabeça. A cena parecia congelada.
Todos emudeceram.
-Acertaram a Me. Foi o único som que se ouviu no Bar.
Correram acudir a moça. O sangue jorrava. Seria seu fim? Morrer de uma garrafada num Bar de quinta categoria? O Barman ficou histérico:
-Quem foi o filha da puta que fez isso?
-Esquece disso e estanca o sangue. Disse Leonardo, o segurança que entrara com a gritaria. Pegaram uma toalha e amarraram na cabeça da moça.
-Tem algum médico aqui? Paulão Fardadão, policial assíduo do boteco perguntava aos curiosos.
- Eu ser. Um cara minguado, cor de burro quando foge, cabelos escorridos, parecia descendente de índio brasileiro, todo feinho de dar dó.
-É médico, fera?
-Sou sim, lá na tribo dos Tupiniquins da Amazônia.
-Faz alguma coisa então seu índio de uma figa. O Barman estava descontrolado, sempre presenciava brigas no seu Bar, mas nunca o prejuízo ultrapassava o lucro. Dessa vez sabia, era peça primordial essa garçonete, ia ser a falência se a moça morresse, além de que, seu orgulho de macho estava atacado, afinal todos pensavam que ele a comia depois do expediente e para criar respeito, não desmentia o fato.
-Índio precisa de privacidade, levem moça pro reservado. Vou atendê-la lá.
Levaram a moça e índio se trancou no quarto.
Depois de duas horas saiu com cara de felicidade e disse:
-Moça bem, vai viver.
A garçonete veio logo atrás, toda desalinhada e com um sorriso sem vergonha na cara.Todos se aproximaram para vê-la.
-Deixem moça em paz. Ela precisa de sossego. Agora ser “Lua Morena”, noiva de índio Cavalo Malhado.
-O que?
-Isso mesmo. Moça branca vai pra tribo casar com índio. Tudo muito rápido, igual nuvem de fumaça.
-Que tribo caralho?....
-Desculpa chefinho, eu vou sim, encontrei o amor da minha vida...
Saíram em disparada sob os olhares atônitos de todos.
O faxineiro Kaspa varria os cacos quando reparou na garrafa que tinha acertado a garçonete.
-Que estranho chefe. Essa marca de bebida eu nunca vi por aqui. Cachaça Amazonas.
-Deixa ver. O barman leu no rótulo: Fabricação artesanal da Tribo dos Tupinanquins da Amazônia.
 
  As opiniões no fórum do Bar  
 
 
     
     
 

Difudê

 
 

Por Me Morte

 
  -Paulinho! Desliga essa merda de computador e vai estudar menino!
-Mas mãe, eu estou estudando. Esqueceu? Mundo moderno, informática, globalização, etc.
-Não me disse que o trabalho era sobre sinônimos?
-Vocabulário mamãe. Temos que fazer um vocabulário, ou seja, montar um “Aurélio” pesquisando novas palavras e seus siginificados.
-E você encontrou isso na internet?
-Sim. Com certeza. Encontrei um lugar recheado de palavras novas.
-Não esqueça os créditos de autoria, isso é lei.
-Pode deixar mamãe.
A mãe saiu do quarto aliviada e duas horas depois veio ver o andamento do trabalho.
-Terminou filho?
-Sim mamãe, faz tempo. Respondeu Paulinho deitado na cama assistindo o Chaves na TV.
A mãe pegou o trabalho da mesa e leu:
Enciclopédia e Dicionário BARESCRITURÉLIO

Expressão – (créditos) – significado

Mas Q. Merda! - (Véio) - levanta CARALHO!
Sifudê! - (Véio) - levanta CARALHO!
Difudê - (Véio) - levanta CARALHO

Hum - (Giovani)- essa cachaça tá boa!
Igual músculo de minhoca, hehehe - (Giovani) - igual minha pica, hehehe
Eu sou democrático – (Giovani) – Calem a boca!

Olá - (Alex Plunk) - Olá
Miojo - (Alex Plunk) - miojo
Uca, uca, e, e, - (Alex Plunk) - Uca, uca, e, e,

Gostei bastante, um dos melhores q já li - (Eliane) - nossa, não entendi nada
Esse não gostei - (Eliane) - melhor variar um pouco os comentários, mas continuo sem entender nada.

eaiuaehiuehae - (André) - eia eiu e aí? Beleza?
Gostei, sobretudo do final - (André) – só consegui ler o final.
valeu, :D flew! – (André) – Obrigada, foi demais, falou!

sobe - (Muryel)- comenta pô.
Up _ (Muryel) – comenta vai.
Respondendo o tópico (Muryel) – subindo para comentários.

Sou fã dela - (Anderson) - o poema tá uma merda, melhor xavecar.
Quer casar comigo? (Anderson p/ Me) – quer dar para mim?
Seu poema é lindo (Anderson e Cia) – acordo feito com machos qdo o poema é de mulher gostosa.

ficanapaz – (Cris)- vá à merda pô
Hoje to cansado, amanhã leio – (Cris) – hoje to na manguaça, amanhã leio.

Toma no cu! – (Emanuel) - que chazinho bom!
Rapa... - (Emanuel) - que chazinho bom!
DIDÁTICA
ca
ce
ci
co
ânus – (Emanuel)- que chazinho bom!

Beijo grande (p/ mulher) – (Perrone) - quero comer vc
Beijo Grande (p/ homem) – (Perrone) - meu lado feminino quer dar pra vc

Bom texto:
PUTAQUEROPARIUUUUUUUUUUU!!!!!!! Ô - (Zé)
KARAKOLES!!! KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK - (Elizabeth)
DUKARALEO!!! (Cris)
Podem elogiar:
Podem apedrejar (Ossip, Muryel...)
Alguém mais? (André, Anderson,...)

Quero te comer:
Teu texto é perfeito, Ninguém faz poemas como vc, Nesse estilo vc é imbatível, Vc é perfeita, adorei, etc... (todos os machos qdo comentam poemas de mulheres gostosas.

Mulher perfeita: Pernas – Thaís/Peitos – Elaine/Calcinha – Flávia/OOlhos - Me

Fonte: Bar do Escritor no Orkut
Aluno: Paulo Eduardo de Freitas Maciel
4ª série do ensino fundamental.


FIM
 
  As opiniões no fórum do Bar
 
     
 

Tributo ao Bar do Escritor

 
 

por Mago Eremita

 
  Era uma espelunca.

Bêbados, balcões imundos, mecenas a fazer glosas, vinho, risadas ruidosas e mulheres: o mundo reproduzia ali, num microcosmo, a ontogênese da arte literária, na sua forma mais fidedigna.

O Bar exalava o espírito ébrio, mas não perdia em nada aos grandes e silenciosos templos do saber. Porque seus circunstantes, assíduos, viviam também sua experiência mística, o cérebro entorpecido, a voz pastosa e a filosofia solta dos mais intrépidos literatos na nova era das letras.

As composições mais admiráveis partiram daquelas paredes limosas. Poetas, escritores, amantes da trova e do alaúde, todo o espírito humano foi esquadrinhado e transposto de forma admirável nos lenços respingados de suor e vômito, nos guardanapos presos aos copos de cana e cevada, nos cantos das mesas carcomidos pelas pontas de punhais e lápis.

A ABL tornara-se um celeiro fisiológico de causar convulsões póstumas em Machado. As Bienais, uma decepção, em conluio com as Editoras tendendo ao mercenarismo literário propício ao enriquecimento financeiro e à bancarrota literária do país. E toda a classe culta - salvo editores independentes, empreendedores de sebos, pequenos tipógrafos, escritores de cordel - desconhecia que dos porões do Bar saía o autêntico biscoito fino, digno de antologias, coletâneas, frontispícios, em fornadas revolucionárias, sob as alvíssaras do álcool, do cânhamo, da papoula, ou dos fluidos mediúnicos das musas, produzindo obras-primas à posteridade.

Mais uma vez a arte clandestina suplantava a oficial, livre dos vícios da sociedade engessada pelas amarras das convenções, em um movimento literário digno de enquadrar-se numa nova fase literária, sem precedentes.
 
  As opiniões no fórum  
 
 
     
 

Capítulo I - O Contexto Histórico

 
 

por Leonardo Spoke

 
  O confronto poético-fisiológico(sic) ocorrido em meados do ano de 2007 na então República Federativa do Brasil e que culminou na ascenção do atual estilo literário, o merdianismo, teve início com a publicação de obras de dois "pequenos primatas" numa comunidade virtual orkutiana entitulada "Bar do Escritor".
Este movimento sócio-intelecto-lítero-sexo-religioso-ideológico criou diversas vertentes filosóficas nos campos da arte e da política e entre elas se destacaram por sua capacidade de persuação e intrangigência a frente Neoliberal comandada por seu fundador, "semi-deus" Ema, pelo qual não existe arte ruim, o que existe é um contrato entre artista e o consumidor, e a frente Enxadrista encabeçada pelo Conde Kasp, que segundo ele, tudo aquilo que advém de outras massas cinzentas que não a dele e salvo pouquíssimas exceções, eram medíocres.
Esse inglorioso embate entitulado "Guerra Morna" que se estendeu por quase todo o século XXI, trouxe sérias consequências para a cultura brasileira que perdia cada vez mais escritores e poetas de reconhecida sapiência que deixavam sua pátria amada para buscar o reconhecimento em países vizinhos.
E essa crise se estendeu também para a economia do país que produzia cada vez mais lixo.
No ano de 2050, o Estado Brasileiro foi definitivamente isolado do resto do mundo. Nada entrava ou saía do país. A internet ficou restrita ao território nacional. Mergulhava então, na maior crise cultural jamais vivida por um país em toda a história da humanidade.
Nos redutos intelectuais discutiam-se a necessidade de reciclar toda aquela merda literária. Nas escolas, professores analfabetos tentavam ensinar o idioma predomidante, o internetês. O poeta merdiano cultuava seu egocentrismo de maneira patética.
--
Fim.
 
  As opiniões no fórum  
 
 
     
     
 

Na curva do caminho

 
 

por Afonso de Lizarra

 
  Era uma taverna dessas à beira da estrada, numa curva do caminho. A tabuleta dizia “Bar do Escritor”. Por fora era bem cuidada, caiada, e de portas envernizadas. Logo à porta lia-se “Bar Familiar”, abaixo ainda fora escrito, “excessos verbais serão punidos com a expulsão”. Estava cansado, e ali deveria haver mulheres e vinho, não me importaria de ficar calado. Antes de entrar vi um jovem sujo de lama se esgueirando envergonhado. Fitou-me, antes que eu perguntasse, disse que tinha sido expulso. Caiu no choro. Eu estava realmente precisando de descanso. Entrei.
O lugar estava cheio, quase todos de cara contrariada. Normas de higiene flexíveis, ou porque tudo fosse mesmo um delírio medieval, havia um ratinho em cima da mesa fazendo piruetas e bravateando. Não satisfeito com bravatear, o roedor esperneava e, de vez em quando, ria como um doido, nem por isso lhe prestavam mais atenção. Tive impulso de esmagá-lo, afinal era um rato, mas deixei passar distraído que fui por uma moça que era evidentemente puta, mas que estava com um véu no rosto. Ela passava pelas mesas mexendo com os homens. Dava-lhes beliscadelas, cheguei a ver que ela lambia as orelhas de uns, mesmo abraçava outros que estavam em pé. Nenhum a puxava para o colo, e mesmo aqueles em quem ela esfregava os peitos não faziam nada além de um meio sorriso concupiscente.

Fui procurar onde me sentar, tudo cheio. Não vi muitos olhares amistosos. Numa mesa lá nos fundos havia um sujeito agarrado com uma lata de cachaça, dessas cachaças fuleiras, e ele, num lamentável sotaque pernambucano, declamava versos de um caderninho que tinha entre as mãos, e ria, desajeitada e freqüentemente, às brincadeiras que diziam seus interlocutores e companheiros de mesa. Estava na mesa um sujeito grande e forte, que apesar da robustez da aparência exibia os dentes em expressão de alegria infantil ouvindo os versos do outro, estava também um velhinho de barba branca e olhos brilhantes que fazia brincadeiras cheias de trocadilhos, ainda estava um soturno lobo cinzento, que calado, fazia lentas aprovações com a cabeça e ajeitava a pele de carneiro que trazia às costas como se trajada a tão longo tempo que já fizesse parte dele, talvez temesse que na ausência da pele falsa o frio do mundo o consumisse.
Cheguei e fiquei parado. Como à minha chegada não fosse interrompida a declamação, peguei a cadeira, não me fizeram sinal para sentar. Sentei ruidosamente, para ser notado. O grandalhão fez cara de enfado, logo em seguida soltou um “psiu” entre lábios cruzados com o indicador. Toca o pernambucano a desembuchar versos e nada de atendente de bar. De repente surge uma figura obesa, palitando os dentes, abotoando a calça, talvez saísse do quartinho das quengas! Parou interessado, escutou por uns cinco minutos, e, repentinamente, deu um peido ruidoso, desabou na gargalhada e foi embora. Até aí, nem garçom, nem garçonete.

Lá vinha uma moça dos cabelos vermelhos e ela mesma meio de uma cor estranha, e como eu visse um rapaz sem camisa dos cabelos conflagrados em miríades de caracóis passar-lhe a mão na bunda, ao que ela lhe sorriu, deduzi que fosse a garçonete. Moça, chamei. Resposta ela não me deu. Levantei e peguei no braço dela, ela me olhou e disse: Selene. Eu, pensando que era costume local, virei-a e dei-lhe um tapinha na bunda, trouxesse por favor, pisquei, uma caneca de vinho. Ela fez uma cara irada, e gritou: Selene. Eu lhe dei o meu melhor sorriso e disse que fosse, na volta poderiamos conversar. Ela saiu pisando duro.
Olhos postos no risonho pernambucano, esperava meu vinho ouvindo a declamação. Surge um grande sujeito peludo e barbado, nu da cintura para cima, e para diante de mim. O ambiente virou só silêncio, cortado pelos passos de um calado ratinho branco que correu para assistir. O simiesco taverneiro, depois eu soube, não admitia excessos verbais no seu bar. Eu estava sendo convidado a me retirar, mostrou-me um grande porrete. O que é que eu dissera? Tivera má postura com Selene, que, aliás, não era garçonete. Passar a mão na bunda de alguém não era exatamente um excesso verbal. Ele levantou o porrete, eu seria desancado, quando surgiu um sujeito vestido à grega, com toga e circunstância.

O togado disse várias coisas ao gorila alourado que me queria espancar. Meu defensor discursou longamente em termos estranhos de palavras tão difíceis que não sabia mais se ele me defendia ou acusava, e mesmo temi que fosse ajudar no meu espancamento. Foi quando chegou um duende verde de bicicleta.
O estranho advogado, só de o ver, disse tantos e tamanhos nomes feios, que todos entendemos. Não foi expulso. O gorila continuava querendo me por para fora.
Porque não nos expulsava a mim e a Sócrates, ou Platão, ou Leônidas, ou Plutarco ou sei lá quem, mas me expulsava a mim? O cabeludo taverneiro desferiu a primeira bordoada, e como tivesse feito com raiva errou. Seguiu tentando me acertar e eu fui afastando, cheguei perto da porta e um cachorro sorridente atravancou meu caminho me fazendo cair. Foram tantas pauladas e sons de risos e estranhos regozijos que quando acordei e eu estava amarrado do lado de fora do estabelecimento, todo sujo e ensangüentado com uma placa no peito, onde se liam os dizeres: bar familiar, excessos verbais não serão tolerados.

 
  As opiniões no fórum  
 
 
     
 

O Glutão

 
 

por Renato Lima

 
  Adorava uma sopa. Para satisfazer seus instintos, roubou letras do Bar. Se "fudeu": grandes letras não entram em cabaça pequena.  
  As opiniões no fórum  
 
 
     
 

O amante

 
 

Por Maria Júlia

 
  Luzia levantava-se muito cedo.Na roça é assim , as pessoas madrugam, corria pra servir o marido que já lhe chamava aos berros, (homem arrogante, perturbado,grosseiro e burro). Ninguém nunca entendeu porque Luzia, menina faceira que gostava de poesias, casara-se com um destrambelhado, asqueroso e pinguço como ele. Pra não ouvir os xingamentos que começavam ao nascer do dia, Luzia repetia baixinho , "vou me embora pra Pasárgada, vou-me......". Numa noite o marido chega mais bêbado que o normal, Luzia sorri meio cismada, receosa do que aconteceria, acertou, mais uma vez foi surrada até desfalecer no chão de terra batida do quarto do casal.Na manhã seguinte o marido acorda com a cabeça aos frangalhos, procura Luzia, gritando: Luzia fia d'ua égua!!..e nada. Em cima da mesa de angico na sala, uma caixa de madeira velha, com um livro de capa dura e um bilhete dentro: "Fui-me embora pra Pasárgada". Dois anos depois, num boteco de esquina na vila do interior de São Paulo onde moravam, um parceiro de bebedeira chega e lhe dá um jornal, a manchete dizia: "Luzia Bandeira, a mais nova revelação da poesia brasileira descoberta na internet pelo site Bar do Escritor" Uma foto de Luzia e seu meio sorriso. O marido ensandecido grita:VACA, VADIA!!! então foi por Ele que me deixaste?eu te mato sua cadela!! , morde com ferocidadea boca da garrafa de 51, engolindo os cacos.  
  As opiniões no fórum  
 
 
     
 

As aventuras de Ossípedes, o ébrio

 
 

por Carlos Cruz

 
  Ossípedes era um "bon vivant". Apreciador das boas beberagens, mulherengo irrecuperável, poeta de fino trato, devoto assumido de Noel Rosa, Ataulfo Alves, Lupiscínio Rodrigues, Pixinguinha, Cartola e Nelson Gonçalves, um boêmio, enfim, no sentido pleno da palavra. A alcunha "O Ébrio" não fora-lhe atribuída à toa: vivia de bar em bar, conhecia todos os recantos da boemia carioca. Saudosista, malandro da antiga, tinha uma verdadeira coleção de ternos, sapatos, calças, cintos e chapéus, todos brancos. Espirituoso, inteligente, bom de papo e principalmente bom de copo, Ossípedes era companhia disputada nos butecos por onde passava. Todavia, como todo boêmio que se preza, Ossípedes tinha seu botequim preferido, um tal de Bar do Escritor, onde se reunia com escritores dos mais variados tipos e estilos, também apreciadores das bem graduadas libações etílicas, poéticas e prosaicas, tanto ou mais que ele. Freqüentava bares diversos, mas, invariavelmente, terminava suas noitadas no Bar do Escritor, de onde era visto, de quando em quando, sair carregado pelos amigos.
          Ossípedes nunca havia trabalhado na vida. Não precisava. Seu pai, o finado Tenente-coronel Alcântara, deixara-lhe, após sua morte, uma generosa pensão do Governo, engordada por algumas gratificações advindas de sua participação na 2ª Guerra Mundial como operador de telégrafo no Rio de Janeiro. Isso mesmo: o genitor de Ossípedes fora um herói de guerra sem nunca ter pisado no "front", fato convenientemente omitido por Ossípedes que, entre um copo e outro, uma poesia e outra, narrava as proezas bélicas de seu genitor.
Certa noite, Wilson Ramsés I, um dos amigos mais chegados e parceiro de poesias de Ossípedes, resolveu pregar-lhe uma peça. Em conluio com Lameleque, Doctor Tripa, Osvaldino, Sapo Cururu, Robertón Rotundo, Sumo Sacerdote e o cozinheiro do bar, um chinês idoso, em avançado estado de decrepitude e senilidade, que sempre aplicava beliscões na bunda de suas ajudantes, a quem chamavam de Véio China Chow Chow, aproximaram-se da mesa de Ossípedes, sobre a qual havia uma garrafa de cachaça e outra de vermuth, ambas pela metade, e disseram, quase em uníssono, com ar de assombro:
- Ossípedes, soube da última? Os militares tomaram o poder novamente. Acabou a democracia. A partir de amanhã, vai rolar toque de recolher e o pior: lei seca.
- Ah, vão se foder! - retrucou, já bastante embriagado.
- É verdade... Estamos fodidos. Ditadura, em pleno século vinte e um. Puta que pariu.
Ossípedes, com cara de descrença, volveu os olhos para seus interlocutores. A visão daquelas expressões sérias o deixou em dúvida. "Estariam falando sério?" Levantou-se, foi até o balcão, pediu ao sisudo e descamisado proprietário, Dom Giovaneli, que ligasse a televisão. O dono do buteco, que de sisudo só tinha a cara - na verdade era um tremendo fanfarrão que, vez ou outra, travestia-se de um antigo personagem vampiresco de um programa televisivo de humor - atendeu ao pedido do cismado e pródigo cliente. Ligou a tevê e, sem Ossípedes perceber, também o vídeo-cassete. Gravara em vídeo a encenação de um telejornal, no qual Káspita, um outro freqüentador menos assíduo do bar, interpretava Bóris Casói e noticiava, em tom de velório, a forma como os militares, comandados pelo General Bragança, haviam deposto o Presidente e assumido o controle do país. Obtivera na Internet, em um site especializado em vídeos, imagens de tanques passeando na Esplanada dos Ministérios. À medida que o repórter falava e os tanques se multiplicavam, a boca de Ossípedes mais se abria. Voltou para sua mesa, cabisbaixo, tomou todas aquela noite. Seus amigos não revelaram a farsa, os sacanas.
Ossípedes, a despeito do porre, dormiu muito mal naquela noite, atormentado por terríveis pesadelos, nos quais os militares invadiam a cidade com seus tanques de guerra, expulsavam-no do bar e recolhiam todo o estoque de bebidas. Até seu copo era abruptamente retirado de suas mãos. Depois, ficava a perambular pelas ruas da cidade, de bar em bar, à procura de um trago, sem nada encontrar.
          Despertou com uma terrível enxaqueca. Foi abrindo lentamente os olhos, a luz do sol que vinha da janela que esquecera aberta fazia-os arder. Olhou o lustre, parecia maior, muito maior. "Caralho, que ressaca filha da puta. Estou até com problemas de visão" - pensou, esfregando os olhos. Tentou levantar-se, não conseguiu. Todo seu corpo doía. Fez mais um movimento e... não acreditou no que viu: a cama havia aumentado dez, talvez vinte vezes de tamanho! O guarda-roupas, a cômoda, o criado-mudo, o despertador, tudo no quarto tinha se tornado gigantesco. Sentiu uma comichão na cabeça, como se um inseto estivesse caminhando entre seus cabelos, levou a mão para coçar e tomou um novo susto: suas mãos estavam diferentes, tinha garras nos dedos, seus braços estavam mais curtos e cobertos por um espesso pêlo cinzento, assim como as demais partes de seu corpo.
- Puta que pariu! Bem que Doutor Sampaio me avisou. Tenho que parar de beber!
Caminhou até a borda da cama, saltou para o solo, dirigiu-se para o banheiro. Apesar da ressaca, tinha a sensação de estar mais ágil, como se seu corpo houvesse adquirido super poderes. Olhou para o lavatório. Era alto pacas! Mas algo lhe dizia que podia saltar até lá. Flexionou as pernas, respirou fundo e saltou. Foi um salto preciso, perfeito, direto na superfície côncava de mármore branco. Conseguira. Por segundos, esqueceu de sua atual situação, sendo invadido por uma sensação de bem-estar pela conquista do lavatório. Olhou para a frente, para o espelho apoiado sobre o mármore. Ficou atônito, aturdido, estupefacto, perplexo, estarrecido... Ao invés do velho Ossípedes, fitava, boquiaberto, a imagem refletida de um rato! Sim, um rato, ou pior: uma ratazana grande e gorda, coberta de pêlos cinzentos, com bigodes enormes, grandes e redondos olhos negros. Ficou ali, durante muito tempo, observando a imagem, sem nada entender. O que havia acontecido? Estaria sonhando? Não, estava acordado, tinha consciência disso. Teriam lhe ministrado, junto com a bebida, sem ele saber, alguma poção mágica? "Isso só pode ser coisa do Sumo Sacerdote... Aquele feiticeiro filho da puta!" E o engraçado é que, não sabia bem o porquê, gostava de ratos. Quando criança, tivera vários hamster e ratos brancos, aqueles de laboratório, os quais criava sem o conhecimento de sua mãe, uma vez que ela nutria verdadeiro pavor de ratos. "Porra, e agora?" - pensou. "Preciso fazer alguma coisa. Não posso ficar assim pra sempre. Ainda tenho muita coisa a fazer: publicar meu livro, conquistar a Flávia Felina, casar, ter filhos. Vou procurar o Sumo Sacerdote, lá no buteco, para que ele desfaça o encantamento."
Ossípedes, O Ébrio, agora Ossípedes, O Rato, de um salto, alcançou o chão. Por hábito, correu até a porta da sala, estava trancada, não dava para abrí-la. Lembrou-se que na cozinha, sob a pia, havia um buraco por onde passava um cano, ainda não tapado após a última reforma. Rumou para lá, atravessou o buraco, ganhando o quintal. Precisava chegar ao portão. Deu alguns passos, hesitantes, com todos os sentidos - os antigos e os novos - em alerta. A poucos metros do portão, ouviu um som pavoroso, que gelou sua espinha e fez todos os grossos pêlos de seu pequeno corpo eriçarem-se. Olhou para trás e lá estava ele: o gato da vizinha, aproximando-se, sorrateiramente. Identificou a origem dos miados: dois outros gatos, que engalfinhavam-se sobre o muro, ao avistarem Ossípedes, interromperam a contenda e partiram em sua direção. Empreendeu desabalada fuga, numa desesperada tentativa de escapar à fúria assassina de seus algozes, passando por baixo do portão, chegando à calçada. Correu como nunca correra em sua vida, os terríveis gatos em seu encalço. Aos poucos foi ficando sem fôlego. Seus pulmões sentiam o peso dos maços de cigarro, milhares, consumidos ao longo de trinta anos. Os felinos estavam cada vez mais próximos. Foi quando viu a luz no fim do túnel, ou melhor, o túnel no fim da rua: um bueiro sem tampa. Reuniu suas últimas forças, as derradeiras reservas de oxigênio e correu para lá. Sentindo o bafo de um dos gatos em seu dorso, alcançou o bueiro, dentro do qual precipitou-se. Caiu sobre outro rato, mergulhando ambos nas águas sujas e fedorentas do esgoto que corria no tubo subterrâneo. Nadaram até a margem, onde o outro rato esbravejou para o arfante Ossípedes:
- Porra, meu irmão! Tu tá maluco? Quer morrer, caralho, morre sozinho! Tem ratoeiras de sobra lá em cima!
- Desculpa, véi... uf, uf, uf... Tava fugindo... uf... de três gatos...
- Ah, tá... Esses gatos são uns tremendos filhos da puta. Uns paus mandados. E muito burros. É fácil enganá-los.
- Porra, amigão. Preciso chegar a um boteco chamado Bar do Escritor. Sabe onde fica?
- Claro, irmão. Vou sempre lá. Tem um velho que faz uns pastéis deliciosos. Te ajudarei a chegar lá.
- Por onde subimos?
- Puta que pariu, irmão. Por onde você andou nos últimos dois mil anos? Lá em cima, ninguém gosta da gente. Os gatos tentam nos devorar, os humanos tentam nos matar com venenos e ratoeiras. Vamos por baixo, pelos esgotos.
          Seguiram pelo emaranhado de tubos de esgoto. Ossípedes pensou que seria muito fácil se perder por ali. Achou estranho que o fedor emanado da produção urino-fecal de toda a cidade não incomodava nem um pouco seu olfato. Era um rato, porra! Esquecia, por vezes. Também, nunca havia sido rato antes.
Após muitos tubos e algumas horas, chegaram à saída de uma galeria transversal, de onde escorria uma água suja, gordurosa, com cheiro de fritura.
- É aqui. - disse o rato amigo.
- Putz! Nem sei como agradecer, ô... Qual o seu nome?
- Não tenho nome. A turma me chama de Maluf. Não faço a mínima de quem seja.
- Então, valeu, Maluf. Até a próxima.
          "Que rato legal" - pensou Ossípedes, já subindo a galeria. Acessou outra tubulação, por onde chegou à cozinha. Por sorte, o ralo estava sem tampa. Colocou a cabeça para fora, sentindo o forte cheiro de pastel frito. Lá estava Véio China Chow Chow, com uma espátula em uma das mãos, fritando seus pastéis, enquanto bolinava uma de suas ajudantes com a outra. "Então era por isso que sempre encontrava pentelhos em meio ao recheio dos pastéis. Ô velho safado! E porco!" - pensou Ossípedes, rindo. Saiu de seu esconderijo, aproveitando-se da distração do Véio e da ajudante, esgueirou-se pelos cantos, até a porta que dava para a parte principal do bar, onde ficavam as mesas. No caminho, deparou-se com um pastel de queijo que caíra durante a diversão laborativa de Chow Chow. Comeu um pedaço. "Puta que pariu! Mesmo com paladar de rato, o pastel do Véio continua ruim pra caralho!".
Finalmente, estava no salão do bar. Escondeu-se atrás de uma réplica em miniatura de um totem indígena - presenteado ao proprietário pelo Pajé Paicã, um índio que sempre vinha ao bar vestido à caráter, de tanga, penacho, cocar e cara pintada. Dali, correu os olhos pelo interior do estabelecimento à procura do Sumo Sacerdote - sendo ele o autor do sortilégio, reconheceria Ossípedes quando o visse e daria fim àquela desagradável brincadeira. O bar estava cheio aquela noite. Era a estréia da Banda de Barba Ruiva, com seu som misto de rock progressivo, psicodelia e power metal. Barba extraía belos acordes distorcidos de sua Fender Telecaster. Ossípedes viu, entre os velhos clientes, muita gente diferente. Continuou sua busca visual. "Achei! Lá está ele!". Sumo estava sentado à uma mesa localizada na outra extremidade, em redor da qual Ossípedes divisou também Lamaleque, PM Fardado, Thomas Alva Guevara, Me Mortícia Bin Laden e... Flávia Felina! Sua amada, adorada Flávia Felina. Lá estava ela, linda e radiante como nunca, com aquele vestido florido e com suas inseparáveis sapatilhas de bailarina. Ossípedes prosseguiu sua incursão pelos cantos, ocultando-se nas diversas esculturas estranhas - arte etílica nonsense, dizia Dom Giovaneli - e vasos de plantas carnívoras apostos ao longo das paredes. Apesar do grande número de clientes, ninguém o viu, entretidos que estavam com suas animadas conversas e suas beberagens. Uma última corridela, estava sob a mesa almejada. Então, olhou para cima e viu... O que viu o deixou pasmo: Me Mortícia e Flávia Felina não usavam calcinhas! Anos freqüentando o bar, sabedor das idéias pós-modernas, vanguardistas-sado-bizarras de ambas, mas nunca tinha imaginado que não usassem peças íntimas sob aqueles vestidos floridos e burkas negras.
Passou a apreciar a "paisagem": a boceta de Flávia Felina era completamente depilada e "testuda", "capô de fusca" - lembrou. Como estava de pernas abertas, Ossípedes pôde visualizar a tatuagem de um famoso cantor de blues, falecido em um acidente aéreo no início dos anos 90. "Que bucetaço!" - pensou. Já a de Me Mortícia parecia, literalmente, a "Floresta Amazônica", mal se podia vislumbrar o clitóris, por sinal bastante avantajado, em meio àquela profusão de pentelhos negros. Naquele momento, sentiu-se privilegiado por ser um rato. Quem mais teria acesso àquela magnífica visão de duas diferentes, mas não menos lindas bocetas, tão cobiçadas por outros freqüentadores, antigos e neófitos, do boteco?
O pequenino pênis de Ossípedes enrijeceu-se e junto com o pau hirto veio um incontrolável tesão. Precisava, urgentemente, aliviar-se. Tentou masturbar-se, mas seus braços curtos impossibilitavam tal ato. Olhou em torno, avistou o chaveiro em forma de gato, pertencente à Flávia Felina. Por sorte, a miniatura era provida de um orifício no exato local onde localizar-se-ia o ânus em um gato de verdade. Ossípedes meteu. Com força. Penetrou com fúria o ânus daquele minigato de pelúcia. Foi quando Flávia Felina abaixou-se para pegar seu chaveiro e, ao flagrar Ossípedes em pleno ato sexual com seu bichinho - réplica perfeita de um de seus muitos bichanos, deu um pulo da cadeira, e gritou, a plenos pulmões:
- Um rato!
          Foi aquele corre-corre. Especialmente de mulheres. Ossípedes, durante a confusão, preocupava-se apenas em não ser esmagado pelos pés das damas em polvorosa.
- Lá está ele! Sifudê! - gritou Véio China Chow Chow, que partiu em perseguição ao pequeno Ossípedes, de espátula em punho. "Não vou morrer nas mãos desse velho filho da puta!" - pensou Ossípedes e correu. Acabou encurralado em um dos cantos do bar. A tensão era insuportável. Ossípedes via seu fim se aproximando, e ele era velho, safado e boca-suja. Encolheu-se, trincou os dentes, fechou os olhos, aguardando a espatulada fatal. Nada aconteceu. Um silêncio sepulcral abateu-se sobre o bar. Abriu os olhos. Todos o olhavam com cara de espanto. Estavam menores. Olhou suas mãos, seu corpo. Voltara a ser homem. Estava nu. Sentiu uma alegria enorme. Olhou as faces espantadas e esbravejou:
- Seus filhos da puta do caralho! Vão todos tomar no cu!
          Alguns segundos de silêncio e todos caíram na gargalhada. Me Mortícia emprestou para Ossípedes uma de suas burkas, que guardava no estabelecimento. Sentou-se à mesa, pediu uma cerveja e uma folha de papel.
- Não vou mais misturar bebidas. Isso faz mal. - disse o aliviado ex-camundongo.
          Foi uma longa noite de narrativas, explicações, risadas, poesias, contos e beberagens. Apesar de Sumo Sacerdote haver jurado em nome do Mago Merlin, seu ilustre antepassado, que não fora ele o autor da mágica sacanagem, Ossípedes não acreditou. Sob pena de perder um de seus mais lucrativos clientes, Dom Giovaneli comprometeu-se a vender o aparelho de televisão. Ossípedes, mais uma vez, não conseguiu levar Flávia Felina para a cama.
          Anos depois, um grupo de pesquisadores de Zurique descobriu que a combinação de cachaça, vermuth, pé de galinha, torresmo e chouriço no organismo humano, somada a uma enzima produzida em condições de grande tensão, provoca, especialmente em artistas, uma reação estranha, rara e muito particular, que consiste em uma transmutação do indivíduo no animal que mais aprecia.
          Ossípedes, ainda hoje, é visto, todos os dias e todas as noites, no Bar do Escritor. Continua bebendo horrores e escrevendo suas poesias. Nunca mais virou rato. E, a despeito dos múltiplos, laboriosos, exaustivos e extenuantes esforços, ainda não conseguiu comer Flávia Felina.

 
  As opiniões no fórum  
 
 

 

 

 
     
 

Manifesto do Bar do Escritor

 
     
  Estamos no futuro! Talvez não percebamos, mas todas as ilusões da ficção científica estão ao nosso alcance: celular com gps, automação, engenharia genética, viagem estelar, física quântica. O homem domina os princípios das tecnologias que eram mera especulação de nossos ancestrais.

A inovação mais presente no cotidiano é a Internet. As barreiras da distância foram rompidas. Não há mais que se falar em partes do mundo, hoje a Terra é uma só.

A rede já anarquizou a poderosa indústria fonográfica. Cada ouvinte tornou-se DJ do próprio gosto, sem render-se mais à vontade das rádios ou dos selos distribuidores. Os artistas que puderam fugir da tirania das gravadoras.

A literatura, contudo, ainda está presa à vontade das editoras.

A pouca evolução das técnicas gráficas é, certamente, fator decisivo para o domínio da arte nas mãos de grupos restritos. Há, porém, solução. Ela está exatamente na livre produção internáutica.

Os escritores iniciantes e principalmente os alternativos notaram que podiam encontrar leitores e admiradores fora do eixo impressão/distribuição. O avivamento da poesia nos blogs é prova desta vertente. A solução para o desapreço de editores mercenários e limitados.

O interesse econômico sempre será parâmetro para a escolha dos textos. Entretanto, esta decisão jamais abrangerá todas as possibilidades. O filtro dos editores é parcial, mas o da internet não, até por que na rede a leitura é gratuita. Não é preciso valorizar aquilo que se adquiriu. A qualidade dos textos também faz parte da decisão, sendo feita por teóricos mestres em literatura. Ora, estes são exatamente os que desprestigiam a produção descompromissada e diferenciada, renegando-a ao anonimato.

Neste ínterim surgiu o Bar do Escritor.

O BDE começou como uma comunidade do Orkut (o sítio de relacionamento) em que os membros criticavam os próprios textos objetivando melhorar a escrita. Logo se mostrou apaixonante àqueles capazes de aprender com as opiniões alheias. Implementamos um blog comunitário e um zine eletrônico. Fazemos as coisas segundo a nossa vontade, pensando no que gostaríamos de ler e lutando para não cair nas mesmas armadilhas dos grupos literários tradicionais que costumam elogiar seus pares para não serem criticados.

No bar somos livres para opinar. Não nos importamos com teóricos de Letras que classificam os escritores de acordo com seus critérios desinteressantes. Gostamos dos textos porque gostamos, simplesmente, não porque são best-sellers ou foram escolhidos para a prova do vestibular de alguma faculdade. Somos barnasianos e não acadêmicos. Não somos autores para senhoras religiosas, nem para adolescentes imberbes que apreciam magia, nem para doutores de teses confusas e impenetráveis. Somos contemporâneos, apreciamos os escritores de outras gerações, mas acreditamos também que fazemos coisas atemporais. Não nos prendemos ao culto do passado. Escrevemos aquilo que é contraproducente e impublicável nos impressos vendidos em livrarias de shoppings de dondocas.

Porém (sempre há um porém) queremos invadir sua praia! Não nos encolheremos atrás de decisões negativas das empresas do livro. Lutamos para sermos reconhecidos como escritores, poetas, ensaístas e cronistas. Queremos, até, ganhar o pão do dia-a-dia com nossas linhas tortas mas sinceras. Em lugar de um escritor que vende milhares de livros agora é o momento de aparecer dezenas de escrevinhadores que vendem centenas. A possibilidade de encontrá-los é maior, da mesma forma que o lucro será o mesmo. Qual a dificuldade em mudar o paradigma?

Sim, estamos no futuro. Acreditamos na literatura como argamassa na construção de uma sociedade plural e livre. Queremos escrever, ler e divulgar nossos pensamentos sem censuras ou mutilações mercadológicas. Queremos livros baratos e não produções gráficas maravilhosas com conteúdo chato. Sabemos que um palavrão bem colocado vale mais quem um parágrafo de palavras inteligentes. Sonhamos com a profusão de textos em palmtops enquanto esperamos o ônibus. Queremos o que é interessante para todos e não apenas para quem é capaz de pagar caro.

Somos um bando de sonhadores que tripudiam as normas preconceituosas estabelecidas. Sabemos, contudo, que as coisas mudam. Estamos no olho do furacão de uma revolução cultural prontos para dar as caras. E logo.

Somos o Bar do Escritor.

 
     
 

As opiniões no fórum do Bar

 
 
 
     
 

Entre fakes e perfis

 
 

por Márcio Leite

 
  Mais um início de madrugada. O Bar está como sempre esteve. Garçons indo e vindo, muitos postando suas novidades, outros lendo e opinando, alguns jogando conversa fora e a maioria “enchendo o pote” com os amigos. Está meio agitado, mesmo que seja o início da semana. As críticas estão mais afiadas do que nunca. A música ambiente é abafada pela algazarra do bar. Ouve-se até bebuns quebrando copos e taças. Alguns que passaram da conta estão presentes também, naquela viagem de “você é meu amigo prá cacete! Sério mesmo, cara! Não é porque eu to bêbado não...”. Alterados, “xaropes” e “cabiçudos” pacas. Tipo aqueles que dão uma jogadinha com a cabeça prá frente e o corpo para trás, e vice-versa, resultando num desequilíbrio pros lados, onde são forçados a “segurar a parede” ou se apoiar no balcão. Mas o carinha loro cai mesmo, porque não tem nem parede nem balcão perto dele. Seu braço cai em cima de um estranho papel, amassado. Chama a atenção de um dos freqüentadores do bar, que se aproxima. Ele empurra o apagado bebum para o lado e pega o tal papel. Desamassa e o lê. Acabando a leitura, exclama, estupefato:
_ Carácoles! Num sei se é pruque já tumei algumas, mas achei ... interessante!... Vou inté tumá mais uma... GARÇÃO!

******
No papel está escrito:

ENTRE FAKES E PERFIS

Não sei se posso considerar traição. Tenho aprendido tanto. Que coisa fantástica! Um mesmo que ataca, é um mesmo que elogia. Um mesmo que faz comentários fúteis é um mesmo de uma crítica complexa. Não só nas opiniões, também nas criações. Várias facetas de uma mesma personalidade. Minha visão a respeito disto é diferente hoje. Eles cantam suas verdades, ditam suas regras e parecem que jamais se revelam. Mas o fazem para quem querem: ou abertamente, ou se deixando perceber. Só um observador atento consegue perceber entre as suas nuanças e seus pasmos criativos. É realmente muito sutil. Conheci uma pessoa aqui, com várias dessas facetas. A maioria delas correspondeu positivamente comigo. Conheci outra, que uma me enalteceu, e outra me “matou”! Se eu tivesse também com tais variações, uma teria sofrido o choque e outra teria sobrevivido ilesa. Talvez até tivesse me defendido... hehe Na verdade aconteceu isto, mas como estava totalmente exposto, várias facetas foram atingidas num mesmo momento... hehe ... com certeza muitas dessas facetas continuam obscuras, já que até as conhecidas, também não são tão claras (dá pra ser mais vago?... falou, falou e não disse nada... hehe; embora uma frase não pareça dizer coisa alguma, esta revela a certeza que eu tenho: quase nenhuma!rsrs)
Entendi como funciona (“achismo mesmo” como diz certo poeta chamado Muryel). Ás vezes uma faceta posta algo, e outra faceta da mesma pessoa elogia. Pelo menos em muitas das vezes em que observei, era assim. Fazendo uma espécie de indução de raciocínio. Depois interage com outras facetas e perfis normais. Mas que fidelidade aos personagens! Como um pode ser tão complexo e outro tão rude e simplório? Um é meio azedo, outro extremamente simpático. Na verdade como seres humanos, somos um misto de tudo isto mesmo. Gosto de conviver com pessoas complexas, sou atraído por pessoas inteligentes... Adoro genialidade!
Outra personalidade marcante foi uma pessoa que já admirava seus escritos e ela me mostra uma faceta bem criativa. Um personagem bem diferente e original, cheio de marra, e que mora bem longe... hehe Outros dão a cara a bater, com o que são. Com a mesma cara o tempo inteiro. Ás vezes tidos por chatos. Sou um deles. Mas na verdade, embora digam, não é o que os de várias facetas acham. Mas com a liberdade que eles têm, com suas múltiplas facetas, são bem desprendidos! Até pensei que não era lido por certa pessoa, mas na verdade era lido por uma de suas faceta. Preservam as características do personagem muito bem: mesmo que “gostem”, pelo personagem “não gostam”! Mesmo que “não gostem”, pelo personagem “gostam”! São livres e se conhecem entre si. Várias pessoas e diversas facetas. Com uma olhada cuidadosa em blogs, onde se confraternizam e divulgam suas letras, se decifra o mistério das várias faces. Às vezes também, simplesmente se “apanha” ou “morre” por não pertencer ao grupo...rsrs
Pensei até em entrar no Bar com uma faceta totalmente filosófica... mudei de idéia! Não gosto que minhas facetas fiquem ocultas, nunca quis. Quanto aos que assim o fazem, parabéns, pela criatividade. Tanto eu como vocês, continuaremos sendo figuras complexas, e nada mudará isto... nada! A não ser que deixemos de ser humanos. Entre fakes e reais perfis, há várias facetas, dias bons e maus... bons e maus poemas, bons e maus contos, atritos e encantos, desencantos e afeiçoes... isso se dá não só na vida em si como em toda a construção das letras! Mesmo que eu não seja um poeta, como gostaria. Ou um contista, aclamado e respeitado por todos, ou mesmo um grande e memorável escritor (apesar disto, não me colocando inferior a ninguém da comunidade - orgulho não, auto-estima mesmo! Também não me sentindo superior), também faço parte da construção aqui, com minhas letras! Meu perfil é tão real quanto muitos dos maravilhosos fakes e perfis reais que conheci no Bar! Claro que tem fakes e perfis reais pobres também.
Como em todo o lugar, existem “bons profissionais” e “maus profissionais”, “bons escritores” e “maus escritores”... mas nem um pode existir sem o outro. E o Bar do Escritor não é diferente! Pois para existir o bom, tem que existir o ruim, e vice-versa. Assim sendo, ou bons ou maus escritores, aqui vivemos... entre fakes e perfis!
As opiniões no fórum do Bar
 
 
 
     
 

Mais de 500

 
 

Por Roberto Klotz

 
  Parece que foi ontem. Entrei pela porta do boteco e todas as mesas estavam ocupadas. Eram umas duzentas pessoas. O Bar do Escritor bombou.
Discretamente o Giovani construiu outro andar, ampliou para os lados e colocou mesas na calçada. Não descuidou. Os garçons foram multiplicados. O chope sempre está gelado, o uísque, apesar de falso, é dos bons. Há tira-gostos para todos os paladares e bolsos. Ovo cozido, caldo de feijão, moela de frango, empadinha com e sem mosca. Tem cardápio para vegetarianos, diabéticos e analfabetos.
Apesar de algumas garrafas voarem de vez em quando o bar continua crescendo.
Parabéns Giovani. O Bar do Escritor atingiu e já passou dos quinhentos freqüentadores.
 
  As opiniões no fórum do Bar  
 
 
     
 

Ficha técnica

 
 

por Leonardo Spoke

 
  Em ordem alfabética.

Alex - Não! Não posta nada hoje não! Por favor, eu imploro!
Amadeus - Conheço pouco, mas escreve coisas boas também.
Anaconda - Muitos dizem ser apenas minhoca, será que é isso mesmo? Sei lá, fake é fake.
Anderson - Poeta-mor, joga no time da primeira divisão. Costuma tomar "coisas" antes de escrever, mas não revela o quê pois teme ser perseguido pela PF.
André - Costumava ter medo de seus post, mas foi melhorando sim. É, melhorou. Acho que está aprendendo a beber. Aeiueahiuaehiuaehea
Barba - Bebum tocador, tem banda e faz canja vez ou outra.
Carla - Já veio detonando tudo e todos antes mesmo da primeira dose, e quase mata um véio de enfarte.
Carlos Cruz - Vulgo CC, implica com o Spoke porque ele não comenta muito seus textos. É virgem ainda, coitado!
Carlos Parrini - Ele é o Senhor. Aleluia! "Irmões e Irmães, o dízimo, dí zi mo!"
Cristiano - Ovelha? Que nada, é um lobo em pele de cordeiro. Escreve profissionalmente para amadores. Ficanapaz.
Diego - "Inventador" de histórias trágicas que quase sempre termina em sangue. Hum, será inventador mesmo?
Doctor - O cão vira lata que vive urinando nas pernas da mulherada do bar.
Eduardo - Conheço pouco.
Eduardo Perrone - Cuidado, esse descendente de italiano costuma beijar todo mundo. Costume da Máfia. Tem bons textos tb.
Elaine - Aquela que é musa do China, detentora de um belo par de seios.
Emanuel - Esse é o cara. Já deu o que falar. Hoje volta de banho tomado, talvez tenha sofrido lavagem cerebral...vai saber...mas no fundo, mas lá no fundo mesmo é gente boa.
Fernando A. -
Filipe - Vai pra Flip de qualquer jeito. Tudo que escreve é longo.
Flávia - Você sabe que é boa, não sabe? Mas fotografia não é seu ramo...costuma escrever bobagens também. Candidata a musa.
Giovani - O Dono do buteco, geralmente anda mal humorado. Aproveita-se da bebedeira dos clientes aumenta várias doses na conta, se é que alguém paga a conta.
Gustavo - Conheço pouco tb.
Jimenna - Candidata a Musa, tem bons textos. Não tive muita oportunidade de convivência no Bar.
Jôn Lenu - Começou mal como todo mundo e revoltado melhorou um pouco, ainda acho que seja o Pou Marcártnei.
Kaspa - O detonador. Velho ranzinza. Postou duas vezes no Bar. Criticou mil vezes. Hoje começa a fraquejar perante as curvas da Fravinha e do seu ídolo Anderson.
Lameque - O Lama, o impagável, o mestre, se acha careta perto dos colegas de bebedeira. Outro da primeira divisão.
Larissa - Cuidado, seus escritos estão protegidos por direitos autorais!!!
Leonardo Spoke - Eu!
Marcos - Tenho convivido pouco, mas parece ter boas idéias.
Max Magnífico - Deve ser fake de algum desses bebuns. Conheço de vista.
Me Morte - Poetisa pornô-erótica-dark, o ícone do Bar, não há Bar sem Me. Adora usar os dedinhos. Inspira muitos. É obsecada por certos frequentadores e tem um ciúme quase mortal por eles. Hehehe.
Meu Nome É... - Até hoje não pagou uma rodada de cerva no bar, não se
Muryel - Outro gigante na arte. Fala outra língua, ou está pretendendo criar uma. Conterrâneo do Leonardo.
Ossip - O ébrio, não tem cura! Vive jogado pelas calçadas,
O Sacerdote - Safado, gay, o sacerdote é uma figura dotada de excelente material erótico.
Osvaldo - É. Costuma dizer que é amigo de Muryel, mas já se provou que um plagia o outro.
Pajé - Índio, veio do mato e sua convivência com o homem branco as vezes o coloca em apuros. Gosta de Índia Me, com quem mantém um relacionamento secreto dentro do caldeirão.
Paulo - Diz escrever pra esse, pro outro e pr'aquele e por isso seus textos variam de qualidade.
Quimas - Embora pouco que conhecí, escreve pra cacete gostei de um conto que até indiquei ao e-zine.
Roberto Denser - Cara afobado, procura parceiro pra projetos profissionais, mas só tem conseguido bêbados inverterados. Acaba pagando as contas no bar.
Roberto Klotz - O Mestre, escritor de primeira linha. Vez ou outra entra no bar e dá palpites certeiros acerca dos escritos de outrem.
Roberto Menezes - Aderiu a moda dos Nanocontos e hoje preside uma comuna especialmente pra esse fim. Mostrou ser melhor na arte do conto. Ótima pessoa.
Spoke - Eu, porra!
Sapo - Eu de novo!
Sirlei - Saiu magoada com Kaspa, mas voltou! Não sei se fizeram as pazes!
Thaís - Dona de longas pernas, de humor inteligente e quando junta com a Frávia, começam as bobeiras. Gosta do Spoke, mas não admite!
Thomás - Conheci no ônibus, eu era o cobrador! Usa vale transporte pra pagar as contas no bar.
Véio China - Esse é difudê! Velho safado, fritador de pastéis e contador de histórias, tentou nanocontar mas não gostou muito. Taquipariu, viu!! Ei, o meu é de queijo.
Wilson - Sóbrio, entende até o que eu escrevo, mas raramente é visto nessas condições, costuma tropeçar nas mesas do lado.

 
  As opiniões no fórum do Bar  
 
 
     
     
     
     
     

InterNerd, 03 de agosto de 2007
Editado por Giovani Iemini