Wilson
25/11/06 O INALCANÇÁVEL
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O inalcançável!
É o que desejo. É da minha natureza, afinal, sou um homem.
Quando digo “sou um homem”, na verdade quero dizer “sou um Homem”. Um ser humano. Homo sapiens sapiens. Por isso sou assim. Quero apenas o que não tenho. O que tenho eu já conquistei, e adorei cada segundo da conquista. Quero mesmo o difícil.
O inalcançável.
Apenas ele me interessa. É a raça, a espécie falando mais alto. Se tenho orgulho em ser Homem? Claro que sim! Afinal, você já ouviu a história da minha raça? Não? Ah!, ela é gloriosa!
Primeiro, dominamos o fogo. Que sensação de poder deve ter invadido o coração de meu antepassado quando tomou em sua mão peluda um pedaço do sol. E o usou para espantar os inferiores. Isso mesmo, nós podemos dizer: inferiores. Ninguém nem nada é maior que o grande Homem. Por isso somos assim. Queremos o incomum.
O inalcançável.
Ah! Eu ia me esquecendo. Antes do fogo, nós dominamos a Criação! Sim, claro! Afinal, surgimos sobre quatro patas, como os inferiores – como é bom chamá-los assim – e logo estávamos em pé, desafiando a Lei da Gravidade, que nem sequer sabíamos que existia. Desafiando e vencendo.
Ah! O inédito. A sensação de poder!
O inalcançável.
Logo após o fogo, foi a vez de exercer nossa evidente superioridade derrotando as intempéries da Natureza. Não foi tão difícil. Contra o frio já tínhamos o fogo, além da pele dos inferiores para cobrir nossos corpos. Dávamos preferência à dos filhotes, pois eram mais bonitas e macias, além de serem mais fáceis de caçar.
Já contra a chuva, as cavernas bastariam para qualquer animal. Para nós, não. Claro que não. Construímos estruturas as mais diversas para nos abrigarmos. E gostamos delas. Gostamos tanto que hoje todos nós – exceto os que já as tem, é claro – fazemos da posse dessas estruturas o objetivo primeiro de nossas vidas.
  É. Dominamos as intempéries. Mesmo o calor excessivo nós aprendemos a apaziguar, banhando-nos nas diversas fontes d’água. Também aí desafiamos o destino, que pretendia nos afogar nessas mesmas águas.
Ah! A glória da conquista!
O inalcançável!
Não demorou muito para conquistarmos todo o planeta. Todos os animais passaram a existir apenas porque nós permitíamos. Como não encontrávamos adversários a nossa altura, começamos a testar nosso poder contra nós mesmos. Lutamos, nos depredamos, nos estupramos e nos matamos por milhares de anos, até que permanecessem vivos apenas os mais fortes.
Se isso era necessário? Claro que era! Aliás, nem foi tão difícil eliminar os fracos. Apenas apressamos algo que aconteceria de qualquer maneira. Um processo natural.
Sabe, pensando bem, acho de devíamos ter feito outra coisa. Não gostamos muito disso. Temos profunda aversão pelo que é natural. Gostamos mesmo é de modificar e dominar as coisas naturais. Gostamos do que é difícil.
Do inalcançável!
É... Mas de tudo o que conquistamos, teve ainda a nossa façanha mais brilhante. Nós criamos Deus! É... e ele era igual a nós. Nossa imagem e semelhança, como gostávamos de dizer. Fizemos dele um criador mesquinho e egoísta, ávido por batalhas e sedento de vingança. Conferimos-lhe o título de Senhor dos Exércitos e Rei do nosso – apenas do nosso – país. Não dos vizinhos, fossemos quem fossemos, fossem eles quem fossem. Então, quando Deus estava gostando de sua existência, nós o fizemos arrepender-se de seus pecados, descer dos céus e andar entre nós. Aí...
Aí nós o matamos.
Eh, eh!
  É, nós queremos o inalcançável.
Não contentes, criamos algo ainda maior! Algo maior que Deus! Algo que de fato pudesse nos escravizar, nos humilhar e nos destruir. O dinheiro. Essa sim, foi uma criação brilhante. Nada é maior do que ele. Mas aprendemos a domá-lo, pelo menos. E nem isso foi muito difícil. Bastou não dá-lo igualmente para todos e pronto. Estava tudo no lugar de novo. Uns poucos dominando muitos. Como sempre foi. Como deve ser.
Ah! Nós conquistamos. Nos dominamos. Nós desejamos o poder.
O inalcançável.
Agora estamos inquietos. Já fomos ao espaço, ganhamos os mares, olhamos as longínquas estrelas e construímos poderosas armas. Sabe, nós adoramos armas. Somos capazes de destruir todo o planeta no momento que quisermos. E você não faz idéia de como queremos fazer isso. Se não aparecer um passatempo novo, logo o faremos. Vai ser interessante.
Ah! Como é bom querer sempre mais e mais. É o nosso destino. Queremos apenas o que não temos. O imponderável! A conquista! O difícil!

– Vô, quer que eu pegue para você?
Pedrinho pega o copo d’água no criado-mudo e o entrega à mão trêmula e esticada do avô. O velho leva o copo até os lábios ressequidos e bebe vagarosamente.


Eh, eh! O inalcançável!

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André
25/11/06 Muito bom! O final é meio inesperado, mas encaixou muito bem... A parte de Deus ficou perfeita!
Mais uma vez, parabéns Wilson
eauieiuaehae

flew!

Giovani
25/11/06 Que viagem, Wilson, perfeito!
Lírico, telúrico, crônico, amplo, uma histôria grandiosa e engraçada, poderosa e satírica, encerrada num final surpreendente.
Fera.

Tá na revista, pode ser?

Wilson
25/11/06 .

Claro, Giovani. Sabe que é uma honra.
Valeu, André.

Esse texto transformou-se em um monólogo, magistralmente interpretado por meu amigo Bonny. E, acreditem, monólogos são foda de representar. Só pra feras, mesmo.

Abraços.

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†††Me
25/11/06 Espetacular!A visão daquele velho que já viveu tudo, ali, sem poder alcançar um copo d'água, ficou muito emocionante.Wilson, parabéns amigo.Vc consegue surpreender no final o que já era surpreendente antes.Beijos

Wilson
26/11/06 .

O espírito é esse.
Além do cara conservar, como bom ser humano, sua arrogância e prepotência, mesmo no fim da vida.

Abraços, MEu anjo.

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Barbara
26/11/06 Um bom texto para ser colocado num livro de portugues, daqueles que a gente lê na escola.Mas eu canso com leitura séria.Beijos poeta totoso.

Cristiano
26/11/06 Ótimo... COm um final poético e filosófico.

Wilson, você é inalcancável!