Véîo Chína‡ O dia que o trapezista caiu.
-Por favor, uma cerveja e uma vodka- Pedi ao rapaz do balcão.
-Ah sim, e algumas dessas salsichas – finalizei, apontando pra um desses pequenos balcões que tentam manter aquecidas as coxinhas, kibes, esfihas e essas porcariadas todas. Joguei as salsichas pro Hank, e ele, sempre esperto, as cheirou e começou a engoli-las. Era um boteco simples e de esquina,e no estreito vão entre o balcão e a porta do bar não haviam mesas e nem cadeiras, somente aquelas banquetas desconfortáveis concretadas no chão e suspensas por tubos de aço. O garoto trouxe as bebida e colocou no balcão. Como de hábito, me servi da vodka e ela desceu queimando por dentro. Olhei pro Hank e ele parecia se diliciar com as suas salsichas e foi engraçado vê-lo rosnar prum cão que entrara no boteco com inquestionável finalidade de abocanhar os seus petiscos. Sempre houve esse tipo de questionamento com realação ao Hank e geralmente quem o olha, pensa tratar-se de um cão bunda-mole, coisa que ele, definitivamente não o é. O cão invasor, percebendo que lá estava um valente e que não ia entregar fácil a rapadura achou por bem bater em retirada. E assim tudo voltou à plena paz, os dois, Hank e eu nos tranquilizamos. Iniciada a minha cerveja, relembrei algumas coisas do passado. Relembrei que houvera uma família com esposa e filhos. Relembrei dos bons tempos em que a grana não era farta e nunca me possibilitaria um cruzeiro em alto-mar mas que era o suficiente pra se levar uma razoável vida, de não faltar cervejas e nem contra-filé na geladeira e nem os iogurtes dos meninos. Mas, a vida cheia de imprevistos, levara-nos cada qual prum canto diferente e a separação, após 9 anos de casamento, nos deixou filhos (hoje, beirando aos 26) que estão por aí perdidos em países europeus, ganhando a vida de alguma forma e o quanto jamais ganhariam em nosso país onde os ricos não são poucos e a miséria é imensa.E revivendo essa amarga nostalgia eu relembrei nas crianças e nos parques públicos que os levava aos domingos e, do último e engraçado circo que fomos.

Véîo Chína‡
11/12/06 E era como eu pudesse vê-lo em minha frente, tão real, fazendo o seu número numa corda, estirada,com uma ligeira curvatura entre duas plataformas. Estávamos atentos enquanto o trapezista se equilibarava sobre as cordas mas seus pés estavam demasiadamente trêmulos e notávamos perfeitamente que as cordas balançavam mais que seria o ideal e foi quando o meu filho maiorzinho exclamou apreensivo.
- Ih! Ele vai cair paeee!!- E o rapaz, desiquilibrado, despencou e se amparou naquela rede que colocam embaixo pra eventuais acidentes,pois ninguém seria tão imbecil.
Lembrei que eles sempre me pediam hot-dog, suco de laranja e algodão doce, e comiam enquanto seus olhos curiosos brilharam a cada atração apresentada naquela tarde de domingo.E por fim, lembrei que, após saírmos, caminhamos por um bom tempo até chegar no parque da Aclimação e lá, andando pelas alamedas, sentimos o cheiro das flores e do mato.Onde estarão agora? Fazendo o que? Estarão realmente bem? Ela, eu soubera que se casara novamente com um sujeito que lhe podia dar bem mais que filés, cervejas e iogurtes gelados. Bom,tanto melhor pra ela.
E nesse momento, sem que houvesse qualquer esforço e nenhuma comiseração de mim , a lágrima me desceu, quente e suave.
O rapaz do balcão parecia ter notado e de maneira desajeitada me perguntou.
-O senhor vai querer mais uma cerveja?
-Sim ! E mais uma vodka e 4 salsichas, por favor.
Novamente lá estavam elas no balcão e então sorvi a dose numa única virada e enchi de cerveja o copo recém trocado. Olhei pro Hank e ele parecia feliz ao se deliciar com aquelas porras de salsichas ressecadas . Sem concorrência dessa vez ele não rosnou. E então a sua cabeça subiu e olhou pra mim e eu senti o sorriso naqueles olhos meigos de quando se quer ser. Ele estava radiante. Eu, nem tanto. Como não está escrito na constituição que alguém tem por obrigação ser feliz, resignei-me.
Terminado, paguei a conta sem não antes olhar pro sacana do Hank e constatar que o rabo ainda balançava. Sorri. Era o mínimo que podia fazer

Wilson


Melancólico e sutil. Sem exageros, coisa verossímel. Gostei bastante.

Parabéns.

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Giovani
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Totalmente beat, ótimo. Um texto digno do Velho!
O Véio China é um personagem bacana. Criou um estilo, sempre fala do cão Hank (numa referência óbvia ao Bukowski), de bebidas e mulheres, mostrando a comiseração de sua vida entrecortada com a sutileza de imagens belas e muito bem construídas que demonstram, na verdade, a desgraça da vida nas pequenas e felizes relações.
Fiz-me entender?
Repito: ele mostra a desgraça de maneira bela.

Jóia! Fera. Por mim, iria para a revista.

Anderson
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Beat mesmo. De vera. rsrsrs

Eduardo
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História interessante mas o estilo não me agrada.